Kutiá
Kutiá em uma tigela tradicional ucraniana | |
| Categoria | sobremesa |
|---|---|
| Ingrediente(s) principal(is) | Grãos de trigo, sementes de papoula, mel ou açúcar, diversas nozes e, às vezes, uva passa |
| Outra informação | Associado às culinárias bielorrussa, lituana, polonesa, russa, ucraniana, armênia e paranaense |
O kutiá (em ucraniano: кутя, em polonês/polaco: kutia) é um tipo de doce cerimonial de trigo e sementes de papoula, tradicional das culinárias eslavas, como a russa, ucraniana, polonesa, lituana e bielorrussa.[1] É consumido tanto por cristãos ortodoxos orientais quanto por católicos, embora a ocasião em que é servido possa variar entre países e regiões, seja durante o período festivo do Natal até a Epifania do Senhor ou como parte de um banquete fúnebre. A palavra, acompanhada de um qualificativo, também é usada para designar as vésperas do Natal, do Ano Novo e da Epifania do Senhor.[2][3][4][5]
No Brasil, o prato é comum no Paraná devido a grande presença de descendentes de imigrantes eslavos.[6][7]
Etimologia
A palavra "kutia" é um empréstimo da língua grega κουκκί (feijão) ou κόκκος (grão).[8] O prato tem um nome semelhante nos países onde é tradicionalmente consumido, como em bielorrusso куцця [kuˈt͡sʲːa], em polonês kutia ⓘ, em russo кутья [kʊˈtʲja] e em ucraniano кутя ⓘ, exceto na Armênia, onde é chamado de anoushabour (անուշապուր), que significa "trigo doce".[9]
Por país
Ucrânia
Na Ucrânia, o kutiá é um dos dois pratos cerimoniais essenciais da ceia de Natal ucraniana (também conhecida como Svyata vecherya).[10] O significado cerimonial do kutiá, assim como do uzvar, é muito antigo e, segundo o etnógrafo ucraniano Fedir Vovk, a origem desses pratos remonta ao período Neolítico. Antes do jantar, o kutiá é colocado no canto dos ícones ("kut"), o lugar de maior honra na casa, onde são dispostos ícones ou imagens religiosas. O pote com o kutiá deveria permanecer ali desde o Rizdvo (Natal, em 25 de dezembro) até 1.º de janeiro, Dia de Ano Novo (antigamente, de 6 de janeiro até o Ano Novo Antigo, em 14 de janeiro).[11] Há ainda a tradição de enviar crianças com kutiá a parentes, geralmente avós e padrinhos. Após o jantar, o kutiá é deixado sobre a mesa durante toda a noite com colheres para os antepassados falecidos, "para que nossos parentes possam jantar e não fiquem zangados conosco". O caráter religioso do prato é enfatizado por uma tradição antiga em que o chefe da família se aproximava da janela ou saía ao quintal com uma colher de kutiá e, dirigindo-se à geada, convidava-a três vezes a participar do jantar com a família. Quando a geada não aparece, é aconselhada a não aparecer, a não prejudicar as colheitas etc.: "Geada, geada, vem comer kutiá conosco, e se não vieres, não venhas para o centeio, o trigo e outras colheitas".[12][13][14]
O kutiá é o primeiro dos doze pratos servidos na Svyata vecherya (Ceia de Natal ucraniana) a ser provado.[15] O chefe da família toma a primeira colher de kutiá, ergue-a e chama as almas dos familiares falecidos para se juntarem a eles naquela noite. Em seguida, prova o kutiá e joga o restante da colherada no teto. Em zonas rurais, acredita-se que a quantidade de grãos que ficarem presos ao teto corresponderá ao número de enxames de abelhas e de crias de gado no ano seguinte. Da mesma forma, se muitas sementes de papoula permanecerem no teto, haverá chances de as galinhas botarem mais ovos do que o normal no ano seguinte. Nas cidades, o mesmo gesto simboliza prosperidade para a família no novo ano e também é uma forma de homenagear suas raízes rurais.[16] Todos os presentes comem uma colher de kutiá e, então, os demais pratos são servidos e consumidos.[17]
Os principais ingredientes utilizados para preparar o kutiá tradicional são grãos de trigo [en], sementes de papoula e mel.[18] Às vezes, também são acrescentados nozes, frutas secas e uva passa. O kutiá é um prato da Quaresma e não podem ser utilizados produtos lácteos ou ovos, uma vez que 24 de dezembro é um dia de jejum rigoroso na Igreja Ortodoxa Oriental e entre os católicos de rito bizantino. Existem receitas de kutiá que levam cevada perolizada ou milhete em substituição aos grãos de trigo.[19]
O kolyvo é um prato cerimonial ucraniano semelhante ao kutiá, mas sem sementes de papoula e servido em celebrações fúnebres.[20]
Polônia

O kutiá é conhecido na Polônia como kutia ou kucja[21] e pode ser servido como parte da Ceia de Natal,[22] embora suas origens sejam anteriores ao cristianismo na Polônia e possam remontar até os costumes da fé nativa eslava.[23] Contudo, é consumido, principalmente, nas regiões orientais de Podláquia, região de Lublin e Subcarpácia, próximas às fronteiras com a Bielorrússia e a Ucrânia.[24] Também é encontrado entre os descendentes de povos das Regiões Fronteiriças Orientais espalhados por toda a Polônia.[25] Além da Wigilia [en], o kutiá também é servido na Véspera de Ano Novo e em outras ocasiões especiais, como velórios.[23]
O kutiá polonês tradicional é preparado com trigo, sementes de papoula (moídas em um pote especial chamado makutra), mel, uva passa, nozes ou avelãs, amêndoas e baunilha. Algumas receitas também incluem leite ou śmietana [en].[22] O kutiá também pode ser preparado com arroz ou kasha, em substituição ao trigo.[25][21]
Diversos costumes e rituais da tradição polonesa, como adivinhações, estão associados ao kutiá, principalmente para as gerações mais velhas e as zonas rurais do leste da Polônia, bem como para seus descendentes espalhados por todo o país.[25][24] O kutiá também é consumido pelas minorias ucraniana e bielorrussa que vivem na Polônia.[26]
Armênia

Na Armênia, o kutiá é chamado de "anoushabour" (անուշапур) e a principal diferença no preparo é que as sementes de papoula costumam não ser utilizadas e o prato pode é decorado com sementes de romã. Segundo uma tradição, afirma-se que quando a arca pousou no Monte Ararate, a família de Noé celebrou com um prato especial. Como seus mantimentos estavam quase esgotados, o que restava (principalmente grãos, frutas secas e similares) foi cozido junto para formar um pudim, e esse "pudim" é hoje chamado de anoushabour.[27]
Os armênios preparam o anoushabur para comemorar esse evento, mas também outros acontecimentos. Após o nascimento de um bebê, as famílias armênias observam um período de reclusão de até 40 dias, culminando em uma cerimônia de batismo (knunk).[28] Em geral, os armênios apreciam o anoushabur como parte de refeições festivas,[9] utilizado para manter o jejum, mas ao mesmo tempo celebrar a véspera de Natal com uma sobremesa doce. É também utilizado em ofertas de agradecimento, durante casamentos ou bênçãos para o lar. Compartilhar o anoushabur é considerado um gesto de solidariedade comunitária, unindo família, fé e gratidão. O anoushabur é distribuído aos pobres, bem como a vizinhos, amigos e familiares. Como os armênios servem o prato durante o Natal (6 de janeiro, no país) e na Véspera de Ano Novo (os armênios de Jerusalém o celebram em 13 de janeiro), ele pode ser chamado de "Pudim de Natal Armênio".[29]
O doce armênio tradicional é feito com trigo ou cevada, frutas secas (como damascos, passas e ameixas secas), açúcar, especiarias (como baunilha e canela) e nozes (amêndoas e pistache são os mais comuns). Os grãos são cozidos em fogo brando até ficarem macios, depois misturados com as frutas e as nozes, adoçados e aromatizados com água de rosas e as especiarias. O anoushabur pode ser decorado com sementes de romã, frutas secas e canela.[30][31] O pudim pode ser acompanhado de diversas sobremesas armênias e nozes, como amêndoas ou pistache.[32]
"Anoushabur" (անուշапур) é uma palavra composta da língua armênia. "Anoush" (անուշ) significa doce e "abur" (ապուր) significa sopa ou mingau, portanto a palavra anoushabur significa literalmente "sopa doce" ou "mingau doce".[33]
Outros países
Um prato de grãos cozidos (geralmente grãos de trigo) misturado com mel, nozes, especiarias e alguns outros ingredientes é tradicional também em outros países:[34]:784
- Brasil - comum no estado do Paraná, devido a grande presença de descendentes de imigrantes eslavos.[6][7]
- Bulgária - kolivo (коливо)[35]
- Grécia - koliva (κόλλυβα)[34]:349
- Líbano, Palestina e Jordânia - ameh masslouk ou snuniye[36]
- Romênia - colivă[34]:160
- Rússia - também conhecido como sochivo[37]
- Sérvia - koljivo (sacrifício) ou žito (i trigo)[34]:160
- Sicília - cuccìa [en][38]
- Síria - sliha ou burbara (para Eid il-Bur-bara, a Festa de Santa Bárbara em todo o Oriente Médio)[34]:160
De forma semelhante, mas com origem diferente e ingredientes distintos, é o prato doce islâmico e turco, aşure [en].[39]
Ver também
Referências
- ↑ Sfetcu, Nicolae (2014). About Christmas. [S.l.: s.n.] p. 217
- ↑ «Aprenda receitas ucranianas para ceias de fim de ano mais criativas». G1 Paraná. 21 de dezembro de 2012. Consultado em 15 de março de 2016
- ↑ Білодід, Іван (ed.). «Кутя». Словник української мови в 11 томах (em ucraniano). Київ: Наукова думка
- ↑ Даль, Владимир (1905). Кутия. Толковый словарь живаго великорускаго языка (em russo). Санкт-Петербург-Москва: Товарищества М.О. Вольф
- ↑ Крапіва, K, ed. (1977–1984). Куцця. Тлумачальны слоўнік беларускай мовы (em bielorrusso). Менск: Беларуская Савецкая Энцыклапедыя
- ↑ a b «Kutiá: segredo compartilhado entre amigos». Gazeta do Povo. 23 de dezembro de 2008. Consultado em 15 de março de 2016
- ↑ a b «Gastronomia Ucraniana: Receita de Kutiá». Portal Ucraniano. Consultado em 15 de março de 2016. Arquivado do original em 15 de março de 2016
- ↑ Melnychuk, O., ed. (1989). «Кутя». Етимологічний словник української мови (PDF) (em ucraniano). 3. Kyiv: Naukova Dumka. p. 163. Cópia arquivada (PDF) em 11 de janeiro de 2019
- ↑ a b «Իսկական Անուշ ապուր». Western Armenia TV (em arménio). 28 de dezembro de 2017. Consultado em 14 de abril de 2026
- ↑ «Recipe: Kutia, Star of the Ukrainian Christmas Eve Supper» (em inglês). Consultado em 16 de dezembro de 2016. Arquivado do original em 25 de março de 2015
- ↑ Skurativsʹkyĭ, Vasylʹ (1996). Русалії (em ucraniano). [S.l.]: Вид-во "Довіра". p. 532-533. ISBN 978-966-507-028-3. Consultado em 15 de abril de 2026
- ↑ Чубинский П. П. Календарь народных обычаев и обрядов. — Київ: Музична Україна, 1993.
- ↑ Registrado na aldeia de Dviryts, no distrito de Zaslav, Oblast de Volínia.
Arquivo: Contos da província de Volínia/1795 no Wikisource em ucraniano.
- ↑ Вовк, Хведір (1995). Студії з української етнографії та антропології (em ucraniano). [S.l.]: Мистецтво. p. 183. ISBN 978-5-7715-0729-3. Consultado em 15 de abril de 2026
- ↑ Stechishin, Savella (1957). Traditional Ukrainian Cookery (em inglês). [S.l.]: Trident Press. p. 18-19. Consultado em 15 de abril de 2026
- ↑ Килимник Степан Іванович (1889—1963) (1964). Український рік у народніх звичаях в історичному освітленні. Том 1: Зимовий цикль (em ucraniano). [S.l.: s.n.] p. 19-20. Consultado em 15 de abril de 2026
- ↑ Yakovenko, Svitlana (2013). Taste of Ukraine: Rustic Cuisine from the Heart of Ukraine (em inglês). [S.l.]: Sova Books. ISBN 978-0-9875943-1-0. Consultado em 15 de abril de 2026
- ↑ Artûh, Lidiâ Fedorovna (2008). Ukrainian cuisine and folk traditions (em inglês). [S.l.]: Baltija-Druk. ISBN 978-966-8137-42-6. Consultado em 15 de abril de 2026
- ↑ Yakovenko, Svitlana 2016, Ukrainian Christmas Eve Supper: Traditional village recipes for Sviata Vecheria, Sova Books, Sydney p. 93, 133
- ↑ Кононенко, Олексій (2 de julho de 2018). Українська міфологія. Символіка (em ucraniano). [S.l.]: Litres. 178 páginas. ISBN 978-5-04-120866-0. Consultado em 15 de abril de 2026
- ↑ a b «Kutia». Słownik PWN (em polaco). Wydawnictwo naukowe PWN. 2013. Consultado em 7 de fevereiro de 2024. Arquivado do original em 18 de dezembro de 2013
- ↑ a b «Kutia II». kuchnia-polska.net (em polaco). Kuchnia polska. 2002. Consultado em 7 de fevereiro de 2024
- ↑ a b «Kolędnicy, dodatkowy talerz na stole i kutia, czyli pogańskie korzenie chrześcijańskiej Wigilii». rmf24.pl (em polaco). RMF 24. 22 de dezembro de 2012. Consultado em 7 de fevereiro de 2024. Arquivado do original em 28 de novembro de 2013
- ↑ a b Lasota, Piotr. «Etnografia Lubelszczyzny – cykl roczny w życiu wsi – grudzień». teatrnn.pl (em polaco). Ośrodek „Brama Grodzka - Teatr NN". Consultado em 7 de fevereiro de 2024
- ↑ a b c Fabryka, Studio (27 de dezembro de 2012). «Na mojej Wigilii zawsze była kutia». swiecie24.pl (em polaco). Świecie24. Consultado em 7 de fevereiro de 2024. Arquivado do original em 19 de dezembro de 2013
- ↑ Bociąga, Przemysław (11 de julho de 2023). «Polish Streets Are Teeming With Ukrainian Chefs». 3 Seas Europe (em inglês). Consultado em 15 de abril de 2026
- ↑ Hayden, Georgina (2022). Nistisima: The secret to delicious vegan cooking from the Mediterranean and beyond. London, England: Bloomsbury Publishing. p. 254. ISBN 978-1-5266-3068-1
- ↑ «Childbirth Traditions in Armenia». Advantour (em inglês)
- ↑ Harry Kezelian (7 de janeiro de 2021). «Armenian Holiday Traditions». HyeTert (em inglês)
- ↑ McWilliams, Mark (1 de julho de 2012). «Be Merry, Around a Wheat Berry!». Celebration: Proceedings of the Oxford Symposium on Food and Cookery 2011. [S.l.]: Oxford Symposium. p. 351. ISBN 978-1-903018-89-7
- ↑ «Anoushabour (Armenian New Year Pudding)». Armenian Institute (em inglês)
- ↑ Roufs, Timothy G.; Roufs, Kathleen Smyth (29 de julho de 2014). Sweet Treats around the World: An Encyclopedia of Food and Culture: An Encyclopedia of Food and Culture. [S.l.]: ABC-CLIO. p. 12. ISBN 978-1-61069-221-2. Consultado em 18 de julho de 2018. Cópia arquivada em 18 de julho de 2018
- ↑ «Anoushabour -The Official Armenian Christmas Pudding!». The Armenian Kitchen (em inglês)
- ↑ a b c d e Goldstein, Darra (2015). The Oxford Companion to Sugar and Sweets (em inglês). [S.l.]: Oxford University Press. ISBN 978-0-19-931339-6. Consultado em 15 de abril de 2026
- ↑ Rowsell, Susan (27 de outubro de 2020). Christmas Around the World: An Advent Book (em inglês). [S.l.]: FriesenPress. p. 153. ISBN 978-1-5255-8195-3. Consultado em 15 de abril de 2026
- ↑ «Ameh Masslou' (Boiled Wheat) - Lebanese Garlic Sauce» (em inglês). Consultado em 15 de abril de 2026
- ↑ «Sochivo, or Kutya». russkoerozhdestvo.ru (em inglês). Consultado em 15 de abril de 2026
- ↑ Rizza, Sebastiano. «Cuccìa, cibo di poveri e penitenti» (PDF) (em italiano)
- ↑ Fieldhouse, Paul (17 de abril de 2017). Food, Feasts, and Faith: An Encyclopedia of Food Culture in World Religions [2 volumes] (em inglês). [S.l.]: ABC-CLIO. p. 42. ISBN 978-1-61069-412-4. Consultado em 15 de abril de 2026
Ligações externas
Content Disclaimer
Informasi ini disarikan dari Wikipedia dan disajikan kembali untuk tujuan edukasi. Konten tersedia di bawah lisensi CC BY-SA 3.0. Kami tidak bertanggung jawab atas ketidakakuratan data yang bersumber dari kontribusi publik tersebut.
- The information displayed on this website is sourced in part or in whole from Wikipedia and has been adapted for the purpose of restating it. We strive to provide accurate and relevant information, however:
- There is no guarantee of absolute accuracy. Wikipedia is an open, collaborative project that can be edited by anyone, so information is subject to change.
- It is not intended to constitute professional advice. The content displayed is for informational and educational purposes only. For important decisions (e.g., medical, legal, or financial), please consult a professional.
- Content copyright. Wikipedia is licensed under the Creative Commons Attribution-ShareAlike License (CC BY-SA). This means that content may be reused with appropriate attribution and shared under a similar license.
- Responsible use. Any risk arising from the use of information from this website is entirely the responsibility of the user.
