Guerra de Canudos
| Guerra de Canudos | |||
|---|---|---|---|
Sertanejos de Canudos rendidos pela cavalaria do Exército durante a última expedição ao arraial, em outubro de 1897. | |||
| Data | 7 de novembro de 1896 – 5 de outubro de 1897 | ||
| Local | Bahia, Brasil | ||
| Desfecho | Vitória das tropas federais e destruição total da cidade de Canudos | ||
| Beligerantes | |||
| |||
| Comandantes | |||
| Forças | |||
| |||
| Baixas | |||
| |||
Guerra de Canudos ou Campanha de Canudos foi um conflito armado ocorrido no final do século XIX entre, por um lado, as tropas regulares do estado da Bahia primeiro, e da república do Brasil depois, e por outro lado, um grupo de cerca de 30 000 colonos estabelecidos em comunidade autônoma num povoado fundado por eles no nordeste da Bahia, perto da antiga fazenda de Canudos, e rebatizado de Belo Monte.
O fundador da referida comunidade, Antônio Conselheiro, profeta milénarista ambulante, pregava uma moral de abstinência e considerava a recém-proclamada república como criação do Diabo. Após um quarto de século de errância e pregação nos sertões do Nordeste brasileiro, durante os quais adquiriu grande prestígio e fez muitos adeptos, entrou em rebelião aberta e violenta contra as autoridades republicanas, sendo então obrigado a sedentarizar-se num lugar dos mais remotos, arrastando consigo seus discípulos. A nova colônia, composta de habitações de fortuna, conheceu uma rápida expansão e logo contou com várias dezenas de milhares de habitantes. Espécie de teocracia, organizada em torno de ritos singulares e, em certa medida, segundo o princípio coletivista, a comunidade vivia do seu próprio trabalho — cultivando a fértil planície circundante, vendendo peles de cabra, ou cedendo sua força de trabalho às fazendas vizinhas —, mas também de donativos oferecidos pela população sertaneja, admiradora do profeta. Longe de funcionar numa redoma, a colônia permitia as idas e vindas e não se furtava a manter relações comerciais e outras com os povoados e vilarejos circunvizinhos. Ali se encontravam todas as componentes sociais e antropológicas da população do sertão (com certa sobrerrepresentação de negros, incluindo muitos escravos libertos e antigos negros marons) e todas as classes etárias, incluindo jovens brancos oriundos de famílias respeitadas do litoral.
As suspeitas de conspiração monarquista que recaíam sobre Canudos, e a ameaça que a comunidade fazia pairar sobre a perenidade do sistema sociopolítico-econômico local devido, em particular, ao êxodo massivo de mão de obra para fora das grandes propriedades agrícolas da região (muito mais do que a suposta nuisance que representavam os jagunços, elementos armados da comunidade, acusados injustamente de roubo de gado e depredações), levaram o poder político a intervir militarmente. O fato de não terem bastado menos de quatro expedições para aniquilar os Canudenses explica-se por um conjunto de erros táticos e estratégicos cometidos repetidamente pelas forças regulares: desconhecimento do terreno, subestimação do adversário, estrutura de comando rígida, organização militar e material bélico concebidos para uma batalha campal clássica e, portanto, totalmente inadaptados, e sobretudo logística de abastecimento falha senão inexistente. Do lado oposto, os ágeis jagunços, perfeitamente aclimatados à caatinga — vegetação arbustiva árida, de condições climáticas extremas —, praticavam uma desgastante guerra de assédio, feita de emboscadas e ataques-surpresa, furtando-se sem cessar, e sabendo tirar proveito com flexibilidade de sua vasta rede de trincheiras-abrigos. Em particular, a 3ª expedição, lançada em fevereiro de 1897, foi catastrófica: se os dois corpos expedicionários anteriores tiveram de recuar antes de alcançar Canudos, esta 3ª expedição arriscou uma ofensiva contra o povoado, durante a qual as formações de combate, diluídas e desorganizadas no dédalo das vielas, tiveram de enfrentar uma áspera guerrilha urbana e foram massacradas. Na debandada que se seguiu, o exército abandonou aos jagunços um rico butim de armas automáticas modernas e munição em abundância. A 4ª expedição, por fim, que mobilizou perto de 10 000 homens, acabou, após um penoso cerco de vários meses e depois de bombardear o povoado com artilharia pesada, por se apoderar do povoado, a despeito de uma resistência feroz que ocasionou grandes perdas do lado governamental. Os Canudenses, dos quais praticamente nenhum consentiu em se render, foram quase todos mortos, seja em combate, seja por execuções sumárias, e seu povoado totalmente aniquilado.
Se Canudos, sobretudo após o fracasso da segunda expedição, foi abusivamente interpretado como pilar de uma ampla conspiração monarquista beneficiando de apoios no estrangeiro, foi subsequentemente uma outra versão, defendida pelas elites brasileiras eurotropas e positivistas do litoral, e pouco mais exata que a anterior, que prevaleceu: a de um grupo de camponeses atrasados e supersticiosos, acabrunhados por um pesado atavismo racial e cultural, que um iluminado desviante, fanático e intratável conseguiu enganar e arrastar consigo para uma experiência irracional e extrema. Pesquisas históricas ulteriores, no entanto, puseram em causa essa visão tendenciosa e demonstraram que, mesmo que as motivações religiosas tenham sido importantes, a partida para Canudos pode ter representado para pessoas traumatizadas pelas privações, pelos transtornos políticos recentes, e pelas vicissitudes da seca, das rixas de clã e da precariedade económica, uma decisão racional e pragmática, da qual esperavam que lhes trouxesse segurança e estabilidade num perímetro seguro e regulado, mediante a observância de preceitos religiosos e morais estritos; aliás, Conselheiro não se afastou da ortodoxia católica e manteve em geral boas relações com o clero local.
Esse violento episódio da história brasileira, que vitimou entre 15 000 e 30 000 pessoas, e foi subsequentemente diversamente interpretado, seria a matéria de várias criações literárias, das quais se destacam Os Sertões, um dos livros fundamentais da literatura brasileira, de Euclides da Cunha, e A Guerra do Fim do Mundo, romance de sucesso de Mario Vargas Llosa.
Contextualização
Antecedentes históricos
Entre 1888 e 1889, o Brasil atravessou um período de transformação revolucionária e de comoções sociais, econômicas e políticas as mais profundas de sua história desde o descobrimento pelos portugueses no ano de 1500. Em 13 de maio de 1888, a escravidão foi abolida pelo imperador reinante Dom Pedro II, por meio de uma lei assinada por sua filha, a princesa Isabel. Mais de cinco milhões de negros, que de um dia para o outro se viram sem trabalho, abandonaram as propriedades agrícolas para engrossar as fileiras dos extremamente pobres nas cidades e no campo. Dezenas de milhares de fazendeiros foram arruinados e, por um tempo, a atividade agrícola quase parou, especialmente nas culturas de mão de obra intensiva, como café, algodão, tabaco e cana-de-açúcar, que constituíam os pilares da economia brasileira naquela época.
Por outro lado, em 15 de novembro de 1889, o imperador foi deposto por um golpe de Estado militar e a república foi proclamada, adicionando um excesso de instabilidade e dissensão em um país já em ebulição política e social. O papel do imperador como árbitro entre as elites dirigentes, as quais tinham grosso modo a mesma visão da vida econômica e social e só se opunham em alguns assuntos específicos, satisfazia a maioria dos membros das classes superiores. O advento da república não modificou essa atitude e, como as querelas entre as diferentes facções e entre militares e civis não diminuíam de intensidade, alguns chegaram a pensar audaciosamente que o Brasil deveria restaurar a casa de Bragança. Logo, a jovem república teve que enfrentar uma série de rebeliões: a chamada Revolta da Armada, envolvendo algumas unidades da marinha (1893–1894); depois, quase simultaneamente, no Rio Grande do Sul, a denominada Revolução Federalista (1893–1895), que desembocou em uma sangrenta guerra civil; finalmente, alguns anos mais tarde, a sedição de Canudos. (É interessante notar que o coronel Antônio Moreira César, a quem seria confiado o comando da — desastrosa — terceira expedição a Canudos, já havia participado, com sucesso, da repressão das duas primeiras insurreições.) Visto que o novo regime republicano tinha dificuldade para se consolidar, e visto o temor de que a agitação monarquista pudesse ser prejudicial aos esforços de São Paulo para obter empréstimos do exterior, o exército decidiu assumir o papel de defensor da unidade nacional e dirigiu o país de forma ditatorial de 1889 a 1894. Assim, o governador de São Paulo, Manuel Campos Sales, resolveu em outubro de 1896 esmagar o partido monarquista do Estado de São Paulo; a polícia invadiu domicílios particulares para interromper reuniões monarquistas pacíficas e recebeu ordem de impedir ajuntamentos públicos. Eduardo Prado, líder do partido monarquista em São Paulo, era o principal alvo.[1]
A transição da monarquia para a república trouxe uma série de mudanças sociais e políticas que, juntamente com o marasmo econômico, somaram-se ao desalento psicológico da população dos sertões e podem assim ajudar a entender por que tantos camponeses tiveram o desejo racional de se colocar sob a proteção de um chefe religioso carismático no ambiente seguro e regulado da fazenda de Canudos. Além da separação da igreja e do Estado, que transtornou uma situação e hábitos seculares, a queda da monarquia desembocou em uma federalização muito acentuada do Estado brasileiro. Cada uma das antigas províncias podia agora taxar suas exportações, levantar suas próprias forças armadas e, dentro do limite de seus recursos fiscais, organizar suas próprias infraestruturas. Em consequência, as entidades federadas mais dinâmicas da federação (Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo) deram um salto adiante tanto em termos de prosperidade material quanto de ascendência política dentro do novo Estado, enquanto o resto do país, não mais beneficiando da redistribuição automática de recursos outrora garantida por um Estado centralizador, tendia a definhar. O estado federado que, nesse contexto, perdeu mais em influência nacional foi a Bahia,[2] mas, de forma geral, a maior parte do país continuou a se enredar na estagnação econômica e conheceu um longo período de empobrecimento. Fluxos de migrantes puseram-se em movimento em busca de emprego e meios de subsistência, mas poucos encontraram uns ou outros. Os proprietários de terras, considerando os camponeses de raça mista como pouco aptos a trabalhar duro por salário, tentaram, por uma política de colonização subsidiada, recrutar trabalhadores agrícolas do norte da Europa[3]. A receita que se empregou para impor o progresso nacional foi combinar o liberalismo econômico com medidas tendentes a sufocar a expressão popular e a bloquear qualquer mobilização social. As elites políticas do litoral e do sul, desdenhando as dificuldades dos campos do interior, concordaram em deixar o poder nas mãos da oligarquia fundiária local tradicional e em se apoiar no sistema dos coronéis (cf. abaixo).[4]
O nordeste do Brasil conheceu em 1877 uma das secas periódicas mais calamitosas de sua história. Essa seca, que durou dois anos, teve um efeito devastador sobre a economia principalmente agrária dessa região semiárida e provocou a morte por desidratação e inanição de mais de 300 000 camponeses. Muitas aldeias foram completamente abandonadas e houve até casos de canibalismo. Grupos de flagelados famintos percorriam as estradas em busca de socorro do Estado ou de ajuda divina; bandos armados quiseram instaurar a justiça social "pelas próprias mãos" atacando fazendas e pequenas localidades, pois na ética dos desesperados "roubar para matar a fome não é crime". No sertão bahiano mais especificamente, a seca mais cruel ocorreu entre 1888 e 1892, ou seja, em pleno período de transição da monarquia para a república, portanto numa época em que ninguém sabia em que medida os Estados autônomos recém-criados, frustrados agora da solidariedade federal automática, seriam capazes de socorrer financeiramente as regiões afligidas.[5]
Meio natural
Por pelo menos dois motivos, o ambiente natural de Canudos merece que nos detenhamos nele: primeiro, o meio natural pôde, direta ou indiretamente, contribuir para modular a estrutura mental da população local; e, segundo, as características físicas da região (e sobretudo o desconhecimento delas por parte das tropas republicanas) puderam ter consequências militares por vezes determinantes. Da Cunha dá uma descrição impressionante e espetacular, mas geralmente adequada, embora certa tendência ao inchaço gongórico o leve a ver em tudo o desmedido e o extremo: as montanhas não são tão altas na realidade, e os barrancos não tão encaixados.[6]

Canudos situa-se no sertão do norte do Estado da Bahia, numa zona compreendida entre o rio Itapicuru ao sul e o baixo curso do Rio São Francisco ao norte, ou, mais precisamente, numa extensão particularmente árida situada ao norte da pequena cidade de Monte Santo, cidade a partir da qual, de fato, se se vai do sul para o norte, sucede-se ao sertão habitual uma zona de montículos nus, de encostas escorregadias, de terra parcimoniosa, cuja cobertura vegetal é característica da caatinga, isto é, uma zona onde a maioria das plantas perde as folhas e seus caules branquejam e se retorcem durante o período seco. A vegetação é assim composta de arbustos quase sem pegamento no solo, de ramos entrelaçados, no meio dos quais surgem, solitários, alguns cactos rígidos. Embora a caatinga não possua as espécies raquíticas dos desertos e seja rica em vegetais diversos, suas árvores, vistas em conjunto, parecem formar apenas uma única família, quase reduzida a uma espécie invariável, e só diferem pelo tamanho, tendo todas a mesma conformação, a mesma aparência de vegetais moribundos, quase sem troncos, com ramos que brotam da própria terra, dando ao conjunto a aparência de uma zona de transição para o deserto[7]. Nos períodos de seca, essa vegetação, no entanto, oferece os últimos recursos a quem conhece suas secretas possibilidades; assim os guardadores de gado do sertão (os vaqueiros) sabem que cortar em pedaços o mandacaru permite hidratar-se mesmo em período de extrema seca, e conhecem a quixabeira, cujas folhas podem servir de forragem ao gado[8]. Se a palavra sertão vem de desertão, 'grande deserto', vê-se no entanto que não se trata de modo algum de um deserto de areia, e Canudos mais particularmente, assim como a zona circundante, era na verdade bem regada de cursos d'água sazonais e, por conseguinte, era na maioria dos anos nitidamente mais habitável do que as extensões do sertão situadas mais ao norte e mais a oeste nos Estados do Ceará, do Rio Grande do Norte e de Pernambuco.[9]
Euclides da Cunha observa:
Se o viajante vai para o norte (além de Monte Santo), fortes transições o surpreendem: a temperatura aumenta; o azul dos céus escurece; os ares se turvam; e as rajadas sopram, desorientadas, em todos os quadrantes, face à tiragem intensa dos terrenos desabrigados que se estendem a partir dali. Ao mesmo tempo se manifesta o regime excessivo: o termômetro oscila entre graus díspares, passando, já no mês de outubro, de um calor diurno de 35° à sombra para as frialdades das madrugadas. Quando o verão avança, o desequilíbrio se acentua. Os máximos e os mínimos crescem ao mesmo tempo, até que uma intermitência insuportável de dias ardentes e noites geladas viceje no auge das secas[10].
Mas o contraste mais impressionante ainda se se parte da costa e se desloca para o ocidente: a natureza logo se empobrece e, além das montanhas costeiras, despe-se de suas florestas e se transforma em sertões[11] áridos onde só correm efêmeros rios.[12] Esses contrastes de meio físico determinam condições de vida totalmente opostas.
À extrema secura dos ares no verão, soma-se um forte desvio entre as temperaturas diurnas e noturnas, devido à perda instantânea, à noite, do calor absorvido de dia pelas rochas expostas aos sóis ardentes. O jogo das dilatações e contrações que induz a alternância das subidas e quedas termométricas bruscas (a noite vindo de fato de repente, sem crepúsculo, permitindo que todo esse calor se dissipe intensamente através do espaço) pode explicar o estado de fragmentação do solo e o aspecto fraturado das montanhas quase nuas, solo e rochas se desunindo segundo os planos de menor resistência. A reverberação sobre as parcelas de sílica fraturada que cobrem essas montanhas e as encostas dos outeiros é, à luz crua dos dias, ofuscante e psicologicamente penosa.[13]
O solo árido, em cuja composição a terra fofa intervém pouco, é juncado de estilhaços de rocha. As formações rochosas, mesmo em suas partes planas, são impraticáveis para o caminhante. Euclides da Cunha assinala:
Nas partes onde essas formações (de aspecto arruinado) se estendem, planas, sobre o solo, (…) elas se crivam e se escarificam de cavidades circulares e de caneluras profundas, pequenas mas inumeráveis (…) ângulos de bordas cortantes, pontas e arestas muito duras, que tornam a marcha impossível[14].
As encostas das montanhas são bordejadas de alinhamentos de materiais fraturados e podem terminar por espécies de planaltos delimitados por taludes íngremes, reminiscentes de falésias, e sobre os quais se verão jagunços (rebeldes armados[nota 1]) emboscados.
A paisagem é talhada por profundos vales encaixados, onde se estendem os leitos de riachos na maioria das vezes secos, que só se enchem transitoriamente durante as curtas estações de chuvas e têm principalmente uma função de canais de escoamento que escavam ao sabor do acaso as chuvas torrenciais sazonais. Os leves filetes de água que serpenteiam entre grossos blocos de pedra, a que esses riachos se reduzem na maioria do tempo, não deixam de lembrar os uádis que margeiam o Saara. Esses vales são, por outro lado, o assento de antigos lagos transformados desde então em extensões pantanosas, chamadas ipueiras, que servem de paradas obrigatórias aos vaqueiros. Não obstante seu aspecto lúgubre, essas ipueiras constituem, com os poços e os caldeirões (poços naturais na rocha onde se acumula a água da chuva), os únicos recursos d'água para o viajante[15].
O rio Vaza-Barris, que sem fonte propriamente dita, desprovido de verdadeiros afluentes exceto alguns pequenos tributários de águas passageiras, atravessa a região de parte a parte e se apresenta na maioria das vezes sob o aspecto de um rosário de poças estagnadas, ou se encontra totalmente seco evocando então uma larga estrada poeirenta e tortuosa. Até a cidade de Jeremoabo, a leste, ele se torce em numerosos meandros e apresenta um curso encaixado intermitentemente. Nas suas cheias, recolhendo as águas selvagens que escorrem das encostas que o margeiam, ele rola durante algumas semanas águas turbulentas e barrentas, mas não tarda a se esgotar completamente ao se esvair — fenômeno que valeu ao rio seu nome atual (esvair-se se diz vazar em português).[16] Essa configuração foi em parte transtornada pela construção de uma barragem nos anos 1960.
O clima do sertão de Canudos é moldado em primeiro lugar pela monção do nordeste, que nasce da forte aspiração dos planaltos interiores até o Mato Grosso. As primeiras chuvas que se vertem das alturas não atingem primeiramente a terra, mas tendem a se evaporar a meio caminho entre as camadas de ar ardentes que se elevam. Se, no entanto, chuvas regulares vêm sucedê-las, os sertões revivem e se transfiguram em um vale fértil. Por outro lado, essas chuvas assumindo na maioria das vezes o aspecto de um ciclone tropical, a região recupera pouco tempo depois, pela rápida drenagem do terreno e pelo efeito da evaporação que se segue imediatamente, sua habitual aridez e desolação[17].
A cada dez anos aproximadamente, em intervalos bastante regulares, a região é atingida por secas, das quais a de 1877 foi particularmente calamitosa. O fato de que esses episódios de seca apresentam uma cadência da qual, tal uma lei natural, raramente se desviam, e de que ocorrem sempre entre duas datas reconhecidas e notadas há muito pelos sertanejos, a saber, de 12 de dezembro a 19 de março, permite prever seu aparecimento de forma confiável e precisa. Se um período seco se prolonga além dessas datas, ele se estenderá fatalmente por todo o ano, até que se abra um novo ciclo.[18]
Segundo Da Cunha, a configuração da rede viária, que não comportava quase nenhuma ramificação atravessando essa região sinistra e desolada, parece indicar que os viajantes (exploradores ou comerciantes, organizando-se sob a forma de entradas, expedições partindo da costa) se esforçavam por contornar essa região, receando uma travessia cansativa. Por conseguinte, as duas linhas de penetração clássicas a partir do litoral, que atingiam o rio São Francisco em dois pontos afastados um do outro – Juazeiro e Santo Antônio da Glória – formavam de fato (sempre segundo Da Cunha), desde tempos remotos, as fronteiras de um deserto.[19] Na realidade, a zona de Canudos não era, e nunca tinha sido totalmente isolada; fora povoada por europeus desde o início do século XVI.[20] A cidade de Juazeiro, de onde partirá a primeira expedição contra Canudos em novembro de 1896, situa-se a cerca de 160 km (em linha reta) a oeste-noroeste de Canudos e se encontra no meio de uma zona verdejante nas margens do rio São Francisco.
A antiga fazenda de Canudos, abandonada por seus proprietários (e não desertada,[21] como afirma Da Cunha) com a chegada dos rebeldes conselheiristas, composta por um corpo de habitação e algumas palhoças, ocupava a vertente norte da colina da Favela, a qual margeava uma curva do Vaza-Barris, em sua margem direita. Vista do cume dessa colina, a extensão abaixo, de solo não menos perturbado que o resto da caatinga, onde viria a se construir a cidade de Canudos, podia dar a ilusão de uma vasta planície ondulante, a perspectiva apagando por um instante os inúmeros montículos rochosos de que era salpicada. « Ali se encontrava o Céu », dirão os recém-chegados quando, desde a Favela, avistarem Canudos pela primeira vez.[22]
Finalmente, cabe assinalar esta característica da caatinga, que a distingue da estepe ou da pampa do sul brasileiro e da Argentina, e que não é sem alcance militar: o viajante, e o soldado, não desfruta de um largo horizonte e da perspectiva das francas planícies; a caatinga, ao contrário, restringe o olhar e dificulta sua marcha por sua trama vegetal, eriçada de espinhos e folhas urticantes, e o tortura psicologicamente ao desenrolar diante dele, por infinitas distâncias, como nota Da Cunha, « um aspecto invariavelmente desolado de árvores sem folhas, de ramos tortos e secos, recurvados e entrelaçados, erguendo-se com rigidez para o espaço ou se estirando flexivelmente sobre o solo (…) ».
Aspectos antropológicos
A porção de território circunvizinha à fazenda de Canudos aparece, mesmo segundo as normas do sertão, como muito fracamente povoada, com uma densidade populacional de apenas 0,6 habitante por km 2 (segundo o recenseamento de 1890), e confinava para o noroeste com o Raso da Catarina, extensão muito árida e quase inabitável. A parte do sertão e do agreste que Antônio Maciel percorreu durante seus vinte anos de peregrinações, chamada por essa razão sertão do Conselheiro, e na qual se situa também Canudos, estendia-se nos Estados contíguos da Bahia e do Sergipe, abrangia uma dezena de municípios (os municípios de Pombal, Soure, Conde, Inhambupe, Entre Rios, Alagoinhas, Itapicuru, Tucano, Monte Santo e Jeremoabo), e contava com perto de 220 000 habitantes (para 1,9 milhão de habitantes em todo o Estado da Bahia). Em 1872, ou seja, 16 anos antes da abolição da escravatura, a porcentagem de escravos nessa mesma região se estabelecia em 10,75% em média; em Jeremoabo, esse número era baixo (menos de 4%), mas muito elevado em Monte Santo (12,7%) e em Entre Rios (23,7%).[23]
Que a pregação de Conselheiro tenha tido tamanha repercussão nos sertões da Bahia pode sem dúvida se explicar em parte por certas particularidades históricas, culturais e psicológicas da população local. Esta, isolada, vivendo em um círculo estreito até o final do século XIX, havia evoluído e se multiplicado largamente ao abrigo de qualquer elemento estranho durante três séculos; mergulhada em um abandono quase completo, a população permaneceu totalmente estranha aos destinos do Brasil central e conservou intactas as tradições do passado. Segundo Da Cunha (ao qual não se pode deixar de fazer referência nessas matérias, visto que sua visão das coisas, expressa em sua célebre obra, condicionará durante décadas a versão dominante dessa guerra) ter-se-ia estabelecido desde o alvorecer da história do Brasil, no século XVI, um rico povoamento misto, onde no entanto o índio predominava, amalgamando-se certamente ao branco (encarnado por indivíduos fugidos da justiça ou por aventureiros empreendedores) e ao negro (representado por alguns negros fugidos), mas sem que estes últimos fizessem número a ponto de anular a indubitável influência indígena; com efeito, à semelhança das populações sertanejas que se haviam constituído antes mais a sudoeste, no curso médio do rio São Francisco, uma população se teria formado também, sempre segundo Da Cunha, no sertão de Canudos com uma dose preponderante de sangue tapuia. O isolamento, e um longo período de vida em ambiente fechado na sequência da mistura original, teriam, ainda segundo Da Cunha, produzido uma notável uniformidade nesses habitantes, os quais oferecem rostos e estaturas que variam ligeiramente em torno de um modelo único, a ponto de dar a impressão de um tipo antropológico invariável, portanto inconfundível à primeira vista com o mestiço do litoral atlântico, que apresentava um aspecto muito mais variado; em toda parte, afirma Da Cunha, os mesmos caracteres físicos — mesmo tom bronzeado, cabelos lisos e duros, ou suavemente ondulados, compleição atlética — se aliavam aos mesmos caracteres morais, traduzindo-se pelas mesmas superstições, os mesmos vícios e as mesmas virtudes[24]. Na realidade, parece que a população do sertão tenha sido muito variada racial e etnicamente, e não homogênea como fazia supor Da Cunha e, com ele, outros autores. Os caboclos (mestiços de branco e índio) compunham certamente a maioria da população, mas não eram seguramente os únicos habitantes da região[25]. Os autores que escreviam sobre Canudos notaram não apenas a pigmentação escura da maioria dos adeptos de Conselheiro, mas salientaram também que muitos sertanejos das classes superiores eram de tez olivácea ou escura[26]. Em Jeremoabo p. ex., os registros paroquiais dão conta em 1754 de que apenas um quinto dos residentes permanentes da paróquia eram brancos, sendo o resto catalogado como pardos (mulatos escuros), mestiços, índios e negros[27]. A presença destes últimos era mais importante que a suposta inicialmente, especialmente nos lugares isolados, outrora procurados por negros fugitivos, e pequenos estabelecimentos de antigos escravos, incluindo negros fugidos, ainda salpicavam a paisagem[28]. As elites do litoral, de cuja visão Da Cunha estava imbuído, tendiam a depreciar a vida campesina como rústica e primitiva, atitude que não deixava de refletir um certo embaraço diante do fato de que o Brasil era então povoado em esmagadora maioria por gente de cor[29].
No plano cultural e psicológico, encontrava-se então na sociedade rústica dos sertões, por um notável caso de atavismo, nos assegura Da Cunha, uma rica herança constituída por uma mistura de antropomorfismo indígena, de animismo africano, mas também de certas crenças e superstições portuguesas que haviam guardado (o tempo se tendo aqui de certo modo imobilizado) a forma que tinham na época do descobrimento e da colonização. Portugal na época da Inquisição conheceu de fato várias superstições extravagantes, tinha a obsessão dos milagres, buscava, no pressentimento de uma ruína próxima, sua salvação nas esperanças messiânicas, e de fato viu entrarem em cena vários profetas e iluminados. Ademais, o misticismo político do sebastianismo, desaparecido em Portugal, sobrevivia então ainda integralmente, de forma particularmente impressionante, nos sertões do norte brasileiro[30] · [31]. Quanto ao espiritismo africano, florescia sobretudo na costa e só penetrara o interior fracamente, em bolsões habitados por antigos escravos e seus descendentes. Em contrapartida, as práticas religiosas populares tomavam largamente emprestado às crenças indígenas antropomórficas e animistas, notadamente sob a forma de personagens sobrenaturais ambulantes etc[32].
Superpunha-se a esses atavismos uma psicologia particular induzida pelo meio natural: o sertanejo com efeito vive em função direta da terra, cuja produtividade depende do só capricho dos elementos, sobre os quais o sertanejo tem consciência de não ter nenhum controle. Ele estava portanto tanto mais inclinado a apelar ao maravilhoso, a sentir a necessidade de uma tutela sobrenatural e a se querer um súdito dócil da divindade[33]. Os camponeses acreditavam que o infortúnio resultava da não aceitação pelos indivíduos de seu destino predeterminado, e que as más sortes, a doença, as intempéries devastadoras eram uma retorsão divina consequente a más ações individuais; isso no entanto não os impedia de lutar com afinco para superar os obstáculos[34]. Viam os santos particulares como protetores ou como patronos e afirmavam a natureza paternal de Deus, que sabia dispensar proteção e benevolência, mas também infligir um severo e justo castigo, à semelhança do proprietário-patrão em seu papel tradicional. Da mesma maneira, portanto, a sujeição política e social era em geral aceita sem protesto; a crença popular na intervenção sobrenatural diminuía assim a necessidade de implementação de meios políticos e legais de controle social[32]. Os visitantes descreviam a população local como dócil e sedenta de preceitos religiosos (evangélicos) para guiar sua vida. Além disso, 80 a 90 por cento dos habitantes não sabiam ler nem escrever, pois quase nenhum fundo era destinado à instrução pública. Esse estado de espírito, ao qual se associa uma indiferença fatalista em relação ao futuro e uma propensão à exaltação religiosa, pôde tornar o sertanejo receptivo às pregações de toda sorte de heregearcas e profetas ambulantes. A assinalar também um impressionante culto dos mortos que incitava o sertanejo a enterrar os mortos longe dos lugarejos, à beira das estradas, de modo a fazê-los beneficiar ao menos da companhia episódica dos viajantes.
A economia desses sertões apoiava-se principalmente na pecuária de bovinos. Era esta com efeito que constituía outrora nessas regiões o trabalho mais proveitoso para o homem e para a terra. Excetuando-se algumas culturas de subsistência de vazante nas margens dos rios, a atividade do sertanejo se limitava a cumprir o ofício de vaqueiro, literalmente 'vaqueiro', o guardião das regiões setentrionais do Brasil, e o equivalente do gaúcho dos Estados do sul e da pampa argentina. O vaqueiro, de quem Da Cunha tende a fazer uma figura central e emblemática dessa parte do sertão, mas de quem ele traça um retrato bastante fiel[35], constituía de certo modo a elite das classes inferiores e estava longe de ser majoritário. Ao contrário dos estancieiros do sul, os fazendeiros dos sertões, cujos títulos de propriedade eram uma herança do sistema de doação colonial, viviam no litoral, longe de seus vastos domínios e, para alguns deles, nunca iam até lá, contentando-se em colher parasiticamente o usufruto das rendas de suas terras. Os vaqueiros, de infalível fidelidade, de status semelhante ao dos servos, estavam ligados a eles por um contrato que lhes assegurava uma certa porcentagem da produção e permaneciam toda a sua existência no mesmo pedaço de terra, obrigados a cuidar toda a vida, com abnegação, de rebanhos que não lhes pertenciam, sem que os proprietários nunca cogitassem controlá-los. Revestidos de sua característica indumentária de couro, os sertanejos possuíam a arte de erguer rapidamente sua cabana de taipa à beira de uma lagoa e de tirar o máximo partido possível dos parcos recursos da caatinga. Um dos momentos fortes de sua atividade é a vaquejada, conjunto de manobras visando a agrupar o rebanho, e onde ele fazia mostra de todo seu saber-fazer de condutor de gado e de cavaleiro[36].
Quando, mesmo na plenitude das secas, os sertões já não se distinguiam muito do deserto, o vaqueiro não se resignava ao êxodo, e ainda assim apenas de forma temporária, senão em última extremidade; até lá, ele terá resistido com as reservas armazenadas durante os dias de prosperidade[37].
Organização socioeconômica do sertão
Se Da Cunha dá uma descrição bastante fiel da vida cotidiana no sertão[38], é notável que ele não se demore muito nas estruturas sociais e nas relações econômicas. Contudo, esses aspectos são sem dúvida os mais capazes de explicar o êxodo de parte da população para Canudos. Além disso, Da Cunha tende a caracterizar como pastoril a população sertaneja toda inteira, quando a maioria da população vivia na realidade de agricultura sedentária e de pequeno comércio.
O elemento central da organização social do sertão era a grande propriedade fundiária. Nos séculos anteriores, a coroa portuguesa havia outorgado sesmarias, vastas extensões de terra (até seis léguas, ou seja, mais de trinta quilômetros de profundidade) a um certo número de indivíduos. Algumas famílias, notadamente o clã Garcia d'Ávila, adquiriram assim domínios atingindo por vezes mais de 200 léguas na Bahia[39]. Em meados do século XIX, menos de 5 por cento com certeza, e provavelmente menos de um por cento da população rural era proprietária de terras[40]. Uma categoria à parte são os proprietários absentistas, contentes em deixar suas propriedades nas mãos de feitores, a fim de levar de preferência uma vida citadina na costa[41]. Os proprietários fundiários, e também as elites políticas, eram os mais ferrenhos a combater a menor ameaça ao status quo, e desse ponto de vista, o fenômeno Canudos, que abalava a relação tradicional trabalho-terra (só pelo fato de que tinha por efeito desfalcar o pessoal das grandes explorações agrícolas), inevitavelmente haveria de suscitar uma reação hostil da parte da grande propriedade fundiária[39].
Os proprietários fundiários ocupam o topo da pirâmide social, na companhia dos grandes negociantes, dos eclesiásticos e dos funcionários (representando juntos cerca de 3% da população). O 2º nível dessa pirâmide era composto pelos mercadores e homens de negócios de menor importância e pelos pequenos funcionários. Vem em seguida o 3º nível, correspondente aos escalões superiores do povo dos campos: pequenos proprietários, muleiros, artesãos, autônomos, vaqueiros. Havia no sertão baiano uma espécie de classe média campesina, composta de meeiros, dos quais alguns possuíam alguns escravos, e de um punhado de artesãos e comerciantes vivendo nos burgos do campo[42]. O vaqueiro gozava sem dúvida do mais elevado status entre as classes inferiores; trabalhava sob condições contratuais que lhe concediam o uso de uma extensão de pastagem, a liberdade total na gestão do rebanho confiado aos seus cuidados (geralmente por um período de até um ano, antes da vinda de um agente incumbido pelo proprietário de contar as cabeças de gado), e por vezes a propriedade de cada quarto bezerro nascido[43]; os vaqueiros viviam toda a vida na mesma porção de terra e podiam em alguns casos tornar-se eles próprios fazendeiros. Na base da escala social encontravam-se: os meeiros menos afortunados, ditos moradores, pagando uma renda tanto em espécie quanto sob forma de trabalho, e podendo ser expulsos a qualquer momento, grupo cada vez mais numeroso que vinham engrossar os pequenos proprietários que haviam perdido sua terra devido às secas e na sequência da federalização do país e dos novos impostos sobre a terra cobrados pelos Estados federados[44]; os jornaleiros, em particular aqueles autorizados a cultivar um lote em troca de trabalhos de desmatamento, o que dispensava os proprietários de pagar salários[45]; os trabalhadores agrícolas; os ocupantes ilegais de terras; os sem-terra etc. — ou seja, cerca de 70% da população.
De forma geral, as diferenças entre ricos e pobres eram bem menores no sertão do que nas cidades costeiras, onde miseráveis conviviam com uma aristocracia orgulhosa[46]. A maioria dos sertanejos vivia como meeiro em condições certamente miseráveis, mas mantinha uma liberdade de movimento limitada e um feroz espírito de autonomia. Nos lugares nas mãos de proprietários ausentes, onde todos os residentes compartilhavam uma espécie de pobreza generalizada, a sociedade era rudimentarmente estruturada de forma vagamente igualitária, efeito que o isolamento geográfico reforçava[20]. O sistema exigia a docilidade e ameaçava constantemente de violência os habitantes. Os jovens — em particular os escravos alforriados — eram regularmente alistados à força no exército, tanto nas tropas do Estado federado quanto nas federais[47]. Se, no tabuleiro (planalto costeiro) e no sertão, mesmo os cidadãos mais pobres gozavam de certas formas de independência — liberdade de movimento, disponibilidade de terras para arrendamento, relações contratuais entre meeiro e proprietário — pouco propícias ao comportamento dócil[46], os sertanejos no entanto se viam reduzidos, na ausência de estruturas horizontais para federá-los, a uma relação vertical cliente/patrão, mais coercitiva à medida que o desenvolvimento econômico, com sua necessidade de maior especialização, aumentava[48]. Cultivar fora de parceria e sem pagar um arrendamento ao proprietário era difícil, em particular devido ao acesso limitado à água potável. Os cultivadores ilegais eram geralmente expulsos após algumas safras. A maioria dos rurais permanecia em seu solo natal toda a vida, fossem quais fossem as condições que lhes impusessem, e sob esse aspecto o êxodo de milhares de sertanejos para Canudos constitui portanto um evento notável. Em geral, a população permanecia estável, graças a uma alta taxa de natalidade[49].
Nos municípios rurais, que constituíam a subdivisão administrativa mais pequena e eram virtualmente autônomos, as oposições políticas não refletiam desacordos propriamente ideológicos, mas sim rivalidades entre facções da elite lutando pela hegemonia, certamente sobre fundo de consenso segundo o qual importava manter as rédeas do povo miúdo para seu próprio bem. As instituições estavam estreitamente ligadas a estruturas informais, porém incontornáveis, baseadas nos laços familiares, nas amizades políticas, nas relações pessoais, no trânsito social[50]. A vida política sendo dominada pelas lutas de clã, uma lealdade a toda prova era exigida dos subordinados. A figura dominante do município era o coronel[51], em regra geral o principal proprietário fundiário ou seu cliente. No sistema do coronelismo, o poder privado se exercia por meio de um leque graduado de coerções, que iam do patronato ao assassinato. Os coronéis garantiam a impunidade através da escolha, decidida por seus cuidados, dos juízes locais e do chefe da polícia local. Nesse sistema, a honra pessoal desempenhava um papel central, dando lugar frequentemente a eclosões de violência e a vendetas[52]. Uma liberdade de ação quase ilimitada lhes era concedida pelos funcionários do Estado federado mediante a garantia de que assegurassem durante as eleições o aliciamento de votos (por intimidação e manipulação) em favor de políticos. Essas elites locais mantinham um controle quase absoluto sobre sua zona de influência; em troca desse papel, obtinham o apoio do Estado sob a forma da alocação de recursos orçamentários e de tomadas de decisão favoráveis em matérias tais como investimentos públicos, traçado de vias férreas, envio de tropas se necessário[53]. Certos coronéis exerciam seu poder por procuração, outros adotavam posturas mais flamboyantes, ocupando por vezes postos mais elevados (de deputado etc.) enquanto mantinham seu município como feudo; é assim que coronéis proprietários de Jeremoabo, começando a sentir, através do desfalque de seu pessoal, os efeitos do êxodo para Canudos, puderam jogar de sua influência na assembleia do Estado da Bahia para fazer decidir a primeira expedição contra os conselheiristas.
A mão de obra agrícola era mantida barata primeiro pelo emprego de escravos (até a abolição), depois por jornaleiros sem vínculos e pela alta mobilidade dos sem-terra. Os jornaleiros não tinham nenhum meio de adquirir terra, abstração feita de alguns pequenos meeiros que conseguiam comprar terreno, indo assim constituir o germe de uma classe de pequenos proprietários. Mas a grande maioria passava a vida como meeiro ou como agregado (cultivador ilegal), sem jamais poder entrar na posse de terra, por mais barata que fosse[54], ou ainda como trabalhador ambulante, constantemente em busca de trabalho[55]. Os empregadores tinham toda a licença de contratar e demitir, de definir os salários, e de reprimir os descontentamentos[50]. A abolição modificou pouco a situação regional: a emancipação dos escravos só fez com que os fazendeiros passassem a reclamar novas leis sobre a vadiagem e uma extensão dos poderes de polícia, sem que houvesse contudo aumento das taxas de delinquência. O sistema portanto se mantinha intacto; uma razão para isso pode ter sido o mal-estar geral em que viviam os sertanejos, que sofriam aos milhões de doenças infecciosas e de desnutrição crônica. A taxa de mortalidade infantil do Brasil estava entre as mais altas do mundo. Na ausência de médicos formados, toda sorte de charlatães percorria o sertão[56]. Em caso de calamidade natural, pouco havia a esperar das autoridades: estas internavam então os migrantes, alistavam à força no serviço militar, e impediam as famílias camponesas em dificuldade de penetrar no perímetro das cidades. A vida era estressante e incerta para quase todos os sertanejos[57].
As forças policiais, pobremente equipadas, mal dirigidas, eram pouco numerosas: em 1870, apenas 283 guardas campestres patrulhavam todo o sertão baiano. Para renovar os efetivos, recorria-se frequentemente ao alistamento forçado de jagunços, até sua deserção[58].
O sistema judiciário funcionava como um instrumento de dominação social, não de justiça social. O Brasil não possuindo, até o final do século XIX, códigos civil e penal, a aplicação da justiça deixava a via aberta a um arbítrio dos mais extremos no tratamento do acusado. Os juízes, mesmo formados em prestigiosas escolas de direito, operavam nos estritos limites do sistema patriarcal de clã[59]. As pessoas do povo tinham poucos direitos, quando já os tinham. As leis provinciais permitiam deter alguém na ausência de acusação formal, com base apenas numa suspeita, ou por vadiagem (cuja definição se ampliava extralegalmente até incluir todos aqueles que, embora julgados aptos ao trabalho, não trabalhavam[60]), mendicância, prostituição, embriaguez, ou atentado à ordem pública[38].
No Brasil, no final do século XIX, a principal fonte de receitas fiscais era a venda de selos fiscais, seguida pelos direitos sobre transferências de propriedade, pelas patentes profissionais e comerciais, e pelos impostos de exportação. O imposto territorial era inexistente, assim como o imposto de renda e os direitos sucessórios. Qualquer projeto público devia ser financiado por títulos do tesouro ou por empréstimos no exterior renováveis anualmente[61]. Com o advento da república e da federalização do país, e a subsequente autonomia fiscal, acarretando a necessidade de novas receitas próprias, empreendeu-se combater a evasão fiscal e taxar as transações comerciais nas feiras rurais e instituir direitos de lugar — um dia, Antônio Conselheiro defendeu com veemência contra as autoridades uma feirante incapaz de pagar sua patente. A desconfiança da população dos campos em relação à nova legislação federal de pesos e medidas (com calibragem obrigatória), desconfiança que chegou a se expressar por vezes com violência, notadamente através da revolta dita Quebra-Quilos, explica-se pelo temor, aliás justificado, de ver instituídos ainda novos impostos[62].
Em meados do século XVIII, a paróquia sertaneja de Jeremoabo contava apenas 252 habitantes e não abrigava em seu vasto território senão 152 fazendas e sítios, a maioria com dois ou três escravos; era raro que uma fazenda abrigasse mais de 20 pessoas. A grande maioria dos domínios agrícolas conhecia uma seca sazonal, carecia de poços, ou mesmo de bebedouros para o gado, e a água da chuva era simplesmente recolhida em lagoas. Algumas grandes fazendas em contrapartida, em número de uma dúzia, margeavam um ou outro dos pequenos rios locais, e eram portanto privilegiadas[27]. A independência não mudou muito essa situação, a maioria das terras permanecendo de fato nas mãos dos herdeiros do clã Garcia d'Ávila. Ao longo do século XIX, a política imperial tendeu a tornar mais terras disponíveis para compra, mas os direitos sobre a água eram ciosamente guardados pelos proprietários fundiários tradicionais. Em todo caso, as terras raramente eram inventariadas. A fim de preservar seus direitos legais sobre a terra e para prevenir ocupações indesejadas, os proprietários arrendavam parcelas a membros de sua família ou a clientes, ou lhes permitiam o uso a longo prazo. Cada vez mais terras públicas passavam às mãos dos grandes proprietários, enquanto os pequenos fazendeiros não prosperavam, visto que toda extensão de terra com acesso à água era sempre detida por grandes proprietários, aliás frequentemente ausentes pois preferiam residir nas cidades costeiras[63]. As pequenas fazendas independentes estavam situadas em oásis (brejos) com precipitações suficientes, ou no sertão, ao longo dos cursos d'água sazonais[57]. No século XIX, até 80% das terras aráveis detidas por fazendeiros eram inutilizadas exceto para aí fazer pastar o gado. Devido à aridez, 10 ha no mínimo eram necessários para sustentar uma única cabeça de gado[64].
A economia agrícola consistia em uma monocultura de plantação, que dominava todo o Brasil do norte ao sul e escoava seus produtos nos mercados de exportação do século XIX. A parte ocidental do sertão baiano era a região de pecuária do Brasil; é o reino dos vaqueiros, que a cada ano reuniam seus rebanhos e os levavam para os matadouros situados perto dos centros de mercado[65]. Em larga medida, o sertão baiano permanecera de caráter estritamente rural: não havia indústria, em particular nenhuma indústria agroalimentar, nenhum setor de transporte, nenhuma atividade profissional da construção. A maioria das famílias construía sua própria casa, assim como as mulheres confeccionavam em domicílio e à mão todas as suas roupas. A vila de Monte Santo, dotada de um solo rochoso e menos fértil, possuía um artesanato (fabrico de redes) e alguns curtumes. Abrigava também uma prisão cujos guardas, não podendo pagar alojamento, viviam com os presos[66]. As feiras (feira) representavam um verdadeiro sistema econômico e eram uma instituição vital para a economia local: eram abertas a todos, deslocavam-se de cidade em cidade, segundo um rodízio semanal fixo (as grandes vilas reivindicando os sábados), funcionavam como locais de troca, exposição, regateio, socialização e divertimento para toda a região[46]. Se a sobrevivência no sertão necessitava de um alto grau de autossuficiência, mesmo a zona mais afastada não permanecia contudo inteiramente cortada de todo contato com o sistema de mercado[39]. No entanto, na quase ausência de estrada de ferro, uma plataforma giratória comercial moderna era ainda inexistente[65]. Aliás, as estradas de ferro eram frequentemente percebidas como uma manifestação do mal, ou mesmo como a prova de que o fim do mundo era iminente, e pouco fizeram para reduzir o isolamento psicológico dos sertões[62]. A modernização, onde ocorreu, acarretou uma mobilidade social para baixo ao dividir por dois a quantidade de mão de obra necessária, o que a chegada de novas atividades econômicas não logrou compensar[67].
A estagnação econômica geral e um nível de vida invariavelmente baixo no sertão faziam com que poucas famílias levassem uma vida desafogada[63]. A alimentação, que consistia sobretudo em féculentos e incluía muito pouca carne, não permitia em média garantir um aporte calórico suficiente (ficando aquém das 3 000 calorias necessárias), e menos ainda em caso de seca (o aporte caindo então para menos de 1 000 calorias). Os observadores davam conta de efeitos muito deletérios sobre as crianças e as mulheres grávidas.
Tal qual, a economia do sertão na época de Canudos era, pois, essencialmente uma de subsistência, cujos magros excedentes — sobretudo feijão e milho, assim como os produtos da pecuária intensiva de bovinos, de caprinos e de ovinos, em menor medida de suínos e equídeos — se escoavam em um circuito comercial regional. As exportações permaneciam muito modestas e diziam respeito sobretudo ao gado em pé, ao couro, ao tabaco, e por vezes também ao açúcar de cana e à aguardente de cana. Todos os produtos acabados — ferramentas, objetos domésticos e supérfluos — deviam ser importados, com exceção das roupas de textura grossa tecidas no lugar e dos artigos de cerâmica[68]. É notável contudo que, não obstante a suposta infertilidade da zona, os canudenses conseguiram cultivar nas margens do Vaza-Barris cítricos, melões, cana-de-açúcar e vários tipos de legumes; a condição prévia para a existência de tais culturas era, no entanto, uma pluviosidade satisfatória e suficientemente bem distribuída; a não realização frequente dessa condição agravava-se da ausência ou insuficiência de infraestruturas hidrológicas próprias a reduzir essa dependência do clima. Um relatório da municipalidade de Bom Conselho sublinhava que
os açudes existentes se encontravam em posse de particulares, enquanto os públicos estavam totalmente degradados
, juntando-se a parcimônia da natureza assim à incuria política para tornar impossível uma agricultura de exportação. Significativamente, no discurso que será construído a respeito do sertão pelas elites do centro, as dramáticas secas prolongadas aparecerão não como um fenômeno cíclico fora do normal, mas ao contrário como a normalidade do sertão[69]. O historiador Dawid Danilo Bartelt conclui que o sertão encerra um real potencial econômico, sendo o solo em muitos lugares incontestavelmente fértil e propício a uma cultura diversificada, contanto que seja suficientemente irrigado. A pluviosidade é o grande fator determinante da economia e decide da realização desse potencial, a menos que se tenha de outro modo provido uma irrigação suficiente. À agricultura de subsistência respondia um comércio que era apenas parcialmente monetarizado e não ultrapassava quase os limites regionais[68].
A prostituição era endêmica e concernia a uma proporção considerável da população feminina. Com efeito, nenhum outro meio de subsistência se oferecia às mulheres das classes inferiores analfabetas quando tinham sido abandonadas ou se tornavam viúvas[70].
A comunidade de Canudos
A figura de Antônio Conselheiro

Antônio Conselheiro, fundador e líder espiritual até a sua morte da comunidade de Belo Monte, nasceu em 1830, sob o nome de Antônio Maciel, numa vila da caatinga do Estado do Ceará, no norte do Brasil. Tinha a tez olivácea, atribuída mais tarde a uma ascendência em parte indígena[71]. Seus pais, criadores de gado e comerciantes, pertencentes à classe conservadora, submetiam seus filhos a uma estrita disciplina religiosa e destinavam Antônio ao estado de padre. A morte prematura de sua mãe decidiu de outra forma, mas Antônio Conselheiro recebeu, no entanto, alguma instrução de seu avô, que era professor. Depois de ter abandonado, por insucesso, o comércio que herdara de seus pais, ganhou a vida como professor, depois como advogado sem título, a serviço dos desvalidos. Contraiu um casamento infeliz com uma prima sua, de 15 anos; na sequência do adultério desta com um miliciano, e colocado, segundo o código de honra sertanejo, diante da escolha ou de se vingar (isto é, assassinar mulher e amante), ou de uma humilhação interminável, escolheu a terceira opção, a fuga[72]. Deixou portanto a terra natal e foi residir nos sertões do Cariri para aí trabalhar como professor rural, mas logo manifestou uma inclinação para o misticismo cristão.
Iniciou em meados da década de 1860 um período de peregrinações pelos sertões do nordeste brasileiro, exercendo vários ofícios e acompanhando os missionários itinerantes que pregavam nas feiras semanais. Avesso de palavras, infligindo-se penitências e mortificações, de grande magreza e estranho trajar, com sua invariável túnica azul, causava forte impressão nos sertanejos, e fiéis começaram a segui-lo, sem que ele os tivesse incitado a isso. Pouco a pouco, ele se transformou em eremita ambulante e pregador, pregando o que podia parecer uma obscura mistura de moral cristã e visões apocalípticas, cantando ladainhas e rezando terços e, ao final de suas homilias, ordenava penitências. Sua passagem beneficiava muitas vezes as vilas visitadas, cuidando Antônio Conselheiro de deixar uma marca palpável de cada uma de suas passagens: cemitérios abandonados eram reparados — o enterro era um rito extremamente importante na sociedade do sertão[73] —, cisternas d'água construídas, igrejas restauradas, templos arruinados reparados, ou novas igrejas e capelas erguidas; enquanto os abastados forneciam sem compensação os materiais necessários, os pedreiros e carpinteiros forneciam voluntariamente sua força de trabalho e seu saber-fazer, e o povo se encarregava de transportar as pedras. Lendas se teciam em torno de sua pessoa e lhe atribuíam milagres, que ele mesmo se guardava de reivindicar, tendo por divisa que só Deus é grande (só Deus é grande) e não assinando seus escritos senão por Antônio Vicente Mendes Maciel, nunca por Santo ou Bom Jesus, ou mesmo por Conselheiro. São poucas as localidades, em toda a região de Curaçá, onde não o tenham avistado, acompanhado de seu séquito de adeptos, fazendo sua entrada solene na vila à frente de uma multidão recolhida e silenciosa, ostentando imagens, cruzes e bandeiras religiosas; as atividades normais se interrompiam, e a população convergia para a vila, onde Antônio Conselheiro ofuscava então as autoridades locais durante alguns dias. Uma tenda de folhagem era erguida na praça para dar lugar aos devotos que vinham aí fazer suas preces, assim como se montava uma tribuna para permitir a Conselheiro proferir seus sermões, cuja assistência às vezes chegava a três mil pessoas[74]. Antes de falar, mantinha o olhar fixo durante alguns minutos, como em transe, com o propósito sem dúvida de prender o público e reforçar o impacto de seus sermões — comportamento que será amiúde exagerado pelos cronistas contemporâneos, e também por Da Cunha, para corroborar a ideia de demência. Entre as testemunhas oculares a quem foi dado ouvir Conselheiro falar, apenas algumas descreveram suas reações; a maioria, no entanto, estava predisposta a ver nele apenas o que queriam ver: sinais de desequilíbrio mental e de fanatismo[75]. Na realidade, não há nada em seus escritos que indique qualquer tipo de mania ou comportamento desequilibrado que seja. Testemunhas mais objetivas maravilhavam-se ao contrário de sua afabilidade e de sua solicitude para com as vítimas das vexações políticas e do arbítrio policial[74].
Se seus sermões desenvolviam amiúde temas apocalípticos, ele os tomava de fontes litúrgicas reconhecidas, em particular de Missão Abreviada do padre e pregador itinerante português Manoel Couto; o texto de suas homilias e de seus sermões, não obstante sua insistência no pecado individual, na penitência e na iminência do juízo final, refletiam uma visão teológica de acordo com os ensinamentos da igreja no século XIX, ainda quando fossem suscetíveis de chocar aqueles que estavam acostumados a tomar menos literalmente as advertências apocalípticas da bíblia. A base de sua pregação eram homilias familiares, insistindo na ética, na moralidade, nas virtudes do duro trabalho e na piedade[76], censurando tanto os empregadores que enganavam seu pessoal quanto os empregados que cometiam furtos[74]. Fulminava contra o protestantismo, a maçonaria, a laicidade, os judeus etc., mas na maioria das vezes pregava a penitência, a moralidade, a retidão e a devoção, sem deixar de dar conteúdos práticos à sua pregação.
Milenarista, temendo e pressentindo o advento do Anticristo, e convencido de que o fim do mundo estava próximo, o qual seria precedido por uma série de anos de infortúnios, Antônio Conselheiro esboçava uma moral de acordo com a iminência da catástrofe final e do juízo final subsequente: era vão, em particular, nessa perspectiva, querer conservar fortunas e posses, e o pregador exortava portanto seus fiéis a renunciar a seus bens terrenos, votados de qualquer maneira a sucumbir num apocalipse próximo. Do mesmo modo, era preciso abjurar as alegrias fugazes, repelir o mais leve toque de vaidade, e transformar sua vida na terra em um rigoroso purgatório. A beleza, rosto tentador de Satanás, era de se proibir, especialmente a coqueteria feminina. Preconizava a castidade e acabou por ter uma aversão absoluta pela mulher, sobre as quais se recusava mesmo a lançar o olhar. Paradoxalmente, a virtude era como uma forma superior de vaidade, uma manifestação de orgulho, e aliás, pouco importava que os homens cometessem os piores excessos ou que agissem virtuosamente[77]. Se se acredita em Da Cunha, essas concepções deveriam acabar por quase abolir o casamento e fazer com que uma promiscuidade e uma devassidão desenfreadas reinassem imediatamente em Canudos, fazendo proliferar os filhos ilegítimos. Nessa mesma lógica, o Conselheiro negligenciava, nos conselhos diários, abordar os aspectos da vida conjugal e fixar normas para os casais recém-formados: sendo os últimos dias do mundo contados, era supérfluo, de fato, estragá-los com vãos preceitos, quando o cataclismo iminente logo dissolveria para sempre as uniões íntimas, dispersaria os lares e levaria num mesmo turbilhão virtudes e infâmias. Para Antônio Conselheiro, era mais expedito preparar-se para isso pelas provações e pelo martírio, nomeadamente por longos jejuns[78]. Entretanto, seus adeptos se esforçavam por aliviar, na medida de seus meios, o extremo sofrimento dos pobres, assegurando assim um número sempre crescente de admiradores e de filiados ao seu grupo.
Foi por volta de meados da década de 1870 que ele foi nomeado Conselheiro (lit. conselheiro), título mais elevado do que beato[nota 2] — o beato, formalmente consagrado como tal por um padre, mendigava em favor dos pobres, ao passo que um conselheiro era julgado apto a pregar e a dispensar conselhos em matéria tanto espiritual quanto profana, p. ex., a respeito de casamentos difíceis ou de crianças desobedientes. Soube também granjear muitos adeptos entre os restos da população indígena[79].
Sua presença nas vilas acabou sendo fonte de tensão e irritação entre os proprietários de terras e as autoridades, embora seus ajuntamentos nunca fossem — pelo menos até o incidente de Bom Conselho (atual Cícero Dantas) — maculados por qualquer excesso; ele prevenia, ao contrário, contra a desobediência cívica e religiosa[74]. Tinha ideias muito firmes sobre a justiça social e opôs-se pessoal e vigorosamente à escravidão, tanto em seus sermões quanto em seus escritos, atraindo a ira dos grandes fazendeiros e das autoridades. Na sequência da abolição, o número de seus seguidores cresceu consideravelmente, e estima-se que mais de 80% deles eram antigos escravos.
Embora de doutrina ortodoxa, marcou sua oposição à hierarquia da Igreja Católica Romana, que segundo ele havia manchado a glória da Igreja e prestava lealdade ao demônio, e veio, por suas predicações, a fazer sombra aos capuchinhos ambulantes das missões católicas. Mais precisamente, Conselheiro, como aliás a maioria do clero camponês local, se rebelava contra as tentativas empreendidas pela Igreja de restaurar a autoridade do Vaticano, temendo que as campanhas que visavam a introduzir a neo-ortodoxia no sertão fossem danosas à tradição local e à autonomia das paróquias rurais[80]. Pensava que a monarquia era uma emanação de Deus e que a república recém-proclamada, instituindo a separação da Igreja e do Estado e o casamento civil, era moralmente repreensível e chamada a arruinar o país e a família, representando portanto uma espécie de novo Anticristo. Intensificou sua crítica política e soube assim, em torno dessas posições, angariar para si todo o movimento social, exacerbando até o terror histérico a nervosidade geral que reinava entre os grandes proprietários de terras, os eclesiásticos e as autoridades governamentais.
Antônio Conselheiro acabou portanto por atrair sobre si a atenção das autoridades, tanto eclesiásticas quanto políticas. Constatando com despeito que ele havia passado a ser tido por um homem santo e por um messias, e acabando por se irritar com suas pregações nas pequenas igrejas do sertão e com suas críticas cada vez mais acerbas à igreja oficial, o arcebispo de Bahia decidiu pôr termo à benevolência da igreja rural para com "o herege" e enviou em 1882 a todos os párocos uma nota circular apontando as doutrinas supersticiosas e a moral "excessivamente rígida" pelas quais Conselheiro "perturba as consciências e enfraquece em consequência a autoridade dos Padres das paróquias destes lugares", proibindo aos padres que deixassem Antônio Conselheiro aproximar-se de seus fiéis e qualificando Antônio Conselheiro de apóstata e de demente.
Sua oposição política ganhou força em 1893, quando, a pretexto da autonomia municipal outorgada pela nova autoridade central, e achando-se então em Bom Conselho, apareceram, nos painéis de avisos municipais, editos anunciando a cobrança de impostos; segundo a versão de Da Cunha, Conselheiro, irritado, reuniu os habitantes num dia de feira e ordenou que se fizesse uma fogueira desses painéis, pregando abertamente, em meio a gritos sediciosos, a desobediência às leis[81]. Mas talvez ele tenha sido apenas testemunha (sem ser o instigador) da destruição pelo fogo desses cartazes fiscais republicanos, ato de desafio que, aliás, era apenas um entre outros e fazia parte então de uma campanha de oposição política em todo o Estado da Bahia; com efeito, incidentes semelhantes tinham ocorrido em muitas outras cidades e vilas, algumas das quais foram mesmo totalmente saqueadas por bandos de amotinados, depredações às quais jamais se entregaram os adeptos de Antônio Conselheiro[82]. Em todo caso, esse incidente o colocou diretamente na mira das forças de repressão do novo regime[nota 3].
Em Canudos, exerceu uma influência apaziguadora sobre seus adeptos. Em 1893, uma vez terminados os trabalhos de reparação que havia empreendido na igreja antiga, esta foi reconsagrada pelo pároco de Cumbe, o padre Sabino, com acompanhamento musical e fogos de artifício: parece portanto que ele tenha, uma vez instalado em Belo Monte, relaxado um pouco seu austero rigorismo moral[83].
Belo Monte: gênese e expansão
A violência eclodiu finalmente em 1893, quando os conselheiristas, depois que se rebelaram abertamente em Bom Conselho e protestaram contra as imposições decididas pelo novo governo republicano, e, em seguida, medindo a gravidade de seu feito, tomaram o partido de deixar a localidade tomando a estrada do norte em direção a Monte Santo, foram perseguidos por uma importante força policial, partida da capital do Estado, onde se havia tomado conhecimento dos eventos de Bom Conselho. Maciel/Conselheiro e seus sectários, cujo número não excedia então a duzentos homens e mulheres[83], foram alcançados pelo dito destacamento policial em Maceté, entre Tucano e Vila do Cumbe (na atual municipalidade de Quijingue). Os trinta policiais bem armados e seguros de si mesmos esbarraram, no entanto, em valorosos jagunços, pelos quais foram postos em debandada e compelidos a fugir. Antônio Conselheiro e seus adeptos, receando perseguições mais enérgicas, preferiam agora evitar os lugares povoados e se dirigiram para o "deserto", para a caatinga, certos de aí encontrar um abrigo seguro na natureza selvagem e de difícil acesso. Esse raciocínio se confirmou, pois os 80 soldados de infantaria enviados de Salvador não ultrapassaram Serrinha, onde voltaram atrás sem ter ousado se aventurar mais adentro no sertão.
Em 1893, cansado talvez de tantas peregrinações pelas terras altas do interior, e achando-se então fora da lei, Conselheiro resolveu estabelecer, na margem norte do rio Vaza-Barris, um foco de povoamento permanente para sua tropa sempre crescente de quase insurgentes. A razão pela qual decidiu se fixar permanece pouco clara; é comumente aceito que ele procurava se subtrair às perseguições entrincheirando-se num lugar situado muito afastado; no entanto, o lugar escolhido, Canudos, não preenchia essa condição, como veremos, senão parcialmente; não obstante, a tese da busca de um esconderijo parece plausível, pois se tivesse prosseguido sua vida errante, teria sido arrastado na pendente de conflitos cada vez mais numerosos e mais virulentos, devido ao seu ascendente sempre crescente sobre a população e à consequente irritabilidade cada vez maior que teria suscitado nas autoridades tanto eclesiásticas quanto civis. Acresceu a isso que ele tinha, com sua possível participação nas depredações de propriedades do Estado em Soure, fornecido motivo para prisão e corroborado a reputação de chefe de bando que lhe haviam colado; se tivesse continuado sua vida pública anterior, teria portanto ficado assegurado de sofrer perseguições policiais[84]. Cabe assinalar aqui que Maciel já havia fundado, sob a égide do pároco (e futuro deputado federal) Agripino Borges, por volta do final da década de 1880, a colônia-refúgio de Bom Jesus, no município de Itapicuru, o que é considerado sua primeira tentativa de criar uma comunidade sedentária; contudo, Maciel não se fixou aí mesmo e logo retomou seu cajado de peregrino[85]. A colônia de Bom Jesus tornou-se independente de Itapicuru em 1962 (após várias tentativas anteriores) sob o nome de Crisópolis. A igreja construída por Antônio Conselheiro ainda existe e estaria em bom estado[86].
O lugar que Maciel escolheu em 1893 para fundar um novo povoado situava-se a cerca de 70 km (em linha reta) ao norte da vila de Monte Santo, na extremidade nordeste do Estado da Bahia, em meio às montanhas, e se chamava Canudos, do nome de uma exploração agrícola (fazenda), abandonada por seus proprietários, à qual se adjungia um povoado de umas cinquenta palhoças de taipa esparsas, o qual povoado, quando Antônio Conselheiro aí chegou por volta de 1893, estava (segundo a visão tradicional) no último grau de degradação, com abrigos ao abandono, cabanas vazias; além de uma velha igreja, subsistia também, na encosta norte do monte da Favela, a meia encosta, a antiga morada do proprietário, em ruínas, sem telhado, reduzida aos muros externos[87]. O nome do lugar se explica pela presença de canudos-de-pito, solanáceas que proliferavam ao longo do rio e podiam fornecer cachimbos de até um metro de comprimento.
No entanto, essa visão tradicional deve ser matizada. Com efeito, ao contrário de uma lenda tenaz, Canudos não era de modo algum um domínio abandonado, à deriva, mas levava, antes da chegada de Antônio Maciel, uma existência como povoado, povoado por um certo número de habitantes e podendo contar com uma escola, fundada em 1881, e uma capela votiva a santo Antão. No que será mais tarde chamado a igreja velha (Igreja Velha), o padre Vicente Sabino, padre ligado à paróquia civil (freguesia) de Cumbe, situada a cerca de cem km ao sul, vinha ler de quando em quando uma missa e aí batizava as crianças nascidas no intervalo de suas visitas e, se fosse o caso, casava na mesma ocasião seus genitores[88].
A mesma lenda quer, por outro lado, conforme o topos de uma comunidade fanatizada, misteriosa e cortada do mundo exterior, que Canudos fosse geográfica e economicamente afastada e isolada. Contudo, não é nada disso: nesta pequena localidade confluíam várias rotas comerciais importantes, que ligavam a região às grandes vias de comunicação do rio São Francisco, bem como aos sertões do Pernambuco, do Piauí e do Ceará, e às zonas costeiras da Bahia e do Sergipe. Viajantes de comércio e tropeiros passavam a noite em Canudos, que podia alojar dois mercadores com sua carga[21].
Na época colonial, o domínio e as terras circundantes faziam provavelmente parte das imensas sesmarias devolvidas à família Casa da Torre no século XVI. Em meados do século XIX, segundo um documento eclesiástico, vários proprietários já partilhavam o território em torno de Canudos. Em 1890, a fazenda de Canudos estava nas mãos de um certo Fiel de Carvalho, proprietário de várias outras fazendas limítrofes, mas já havia cessado nessa altura de ser explorada como fazenda de criação. Quando Maciel fundou Belo Monte, o domínio se encontrava formalmente em posse de Mariana, filha de Fiel de Carvalho, e a fazenda de Canudos não estava portanto "abandonada" senão na medida em que se achava em pousio e que seu proprietário, que não residia ali, havia cessado de usá-la para fins de criação. A fundação de Belo Monte veio acompanhada certamente da ocupação de terras alheias, mas as terras em causa sendo então não produtivas, os proprietários legítimos não podiam portanto se considerar lesados. Aliás, no sertão do século XIX, tal prática era usual e considerada legítima, a tal ponto que esse procedimento de ocupação nunca será subsequentemente, na torrente de queixas que lhes serão dirigidas, imputado como crime aos canudenses[21].
A fazenda situava-se numa zona fortemente sujeita a secas, mas beneficiava de algumas condições relativamente favoráveis, entre as quais em particular o fato de que água se encontrava a todo momento à disposição em quantidades suficientes. Com efeito, se a pluviosidade, de 600 mm em média anual, classificava a zona na cauda do sertão, a fazenda ficava numa curva do Vaza-Barris, o qual, se não carreava águas durante todo o ano senão a partir da localidade de Jeremoabo, situada a mais de uma centena de km a jusante, em Canudos em contrapartida confluíam vários braços de seu curso superior, e uma bolsa d'água, que a rocha subterrânea abrigava, fazia com que água estivesse disponível ao longo de todo o ano. Cabe assinalar que os quatro anos de existência de Belo Monte se inscrevem numa janela de normalidade entre as secas de 1888/1889 e de 1898[89].
Quanto à arabilidade das terras em torno de Canudos, o historiador Pedro Jorge Ramos Vianna sustenta que estas, devido à sua composição feita de "sedimentos montanhosos, aluviões de rio e vestígios de um alto planalto", são de considerar como uma das zonas mais férteis do sertão nordestino e que, encerrando argila e se desdobrando numa paisagem levemente acidentada, se prestam particularmente bem ao aproveitamento agrícola. Esse ponto de vista é confirmado primeiro pelos testemunhos de canudenses sobreviventes, depois posteriormente por três estudos topográficos realizados entre 1955 e 1986, que deram conta nos arredores de Canudos de terras de fertilidade média a alta[90]. As principais culturas eram a mandioca, o feijão e o milho; mas nas margens do rio cresciam também batatas-doces, batatas, abóboras, melões e cana-de-açúcar. Testemunhos, tal como o de um participante da 3ª campanha, que declarou ter avistado nas palhoças amplas provisões de queijo, farinha de mandioca, café moído etc., parecem indicar que a população de Canudos não vivia na necessidade; o contra testemunho do capuchinho Marciano, enviado pela hierarquia católica, permanece sem dúvida sujeito a cautela. Permanece contudo que em Canudos, como na maioria dos lugares do sertão, as condições de vida eram rudes e das mais rudimentares, que a pobreza era a regra, e que uma alimentação rica e abundante permanecia a exceção[91].
Cabe aqui notar que a documentação convencional de arquivo referente à colônia de Canudos é pouco abundante e em alguns casos suspeita. Os documentos subsistentes compreendem os dois livros de orações do Conselheiro, redigidos numa escrita e num estilo fluentes e exercitados; cerca de nove décimos de seu texto são constituídos de interpolações de orações e homilias extraídas diretamente da bíblia ou de outras fontes litúrgicas. Algumas das crônicas escritas antes de Os Sertões sobre Antônio Conselheiro mencionam cartas enviadas por ele ou por outros habitantes de Canudos a pessoas externas, mas apenas uma fonte as reproduz todas[92]. Quanto aos relatórios militares (pelo comandante da 6ª região militar em Salvador), eles permanecem largamente limitados a especificações técnicas sobre o abastecimento. Os poucos testemunhos diretos de testemunhas oculares aparecem todos tendenciosos[75].
A reputação de Canudos, que Conselheiro imediatamente rebatizara de Belo Monte, e que os adeptos tinham por um "lugar santo", espalhou-se rapidamente por todo o nordeste do Brasil. O lugar logo passou por terra prometida e por país da Cocanha; essas singulares esperanças, partilhadas por muitos dos recém-chegados, explicam-se pelo trabalho de persuasão dos recrutadores de Canudos, com efeito:
os recrutadores da seita se esforçam por persuadir o povo de que todos os que querem a salvação de sua alma devem ir a Canudos, porque alhures tudo está contaminado e perdido pela República. Mas lá nem é preciso trabalhar, é a Terra Prometida onde corre um rio de leite, e suas margens são de bolo de milho[93].
De todas as partes chegavam caravanas de fiéis — indivíduos, famílias completas, por vezes porções inteiras de localidades vizinhas —, que todos tinham deixado seus lares, vendido às vezes sua propriedade, não importava o que essa venda houvesse rendido, e transportavam agora consigo seus pertences, mobiliário, altares portáteis, para a nova colônia[94]. Antigos escravos negros, índios desenraizados e mestiços empobrecidos e privados de terra afluíam em grande número. Duas igrejas e uma escola foram edificadas, e o comércio e a agricultura estavam cada vez melhor organizados[95]. Segundo estimativas que durante muito tempo prevaleceram, estabelecidas com base em números fornecidos pelo exército (e retomados sem outro exame pelo historiador Robert Levine), Canudos contava já, apenas um ano após sua fundação, 8 000 novos habitantes; em 1895, sua população teria aumentado para mais de 30 000 pessoas (número provavelmente mais próximo de 35 000 em seu apogeu em 1895, após dois anos de existência), que ocupavam 5 000 alojamentos, o que a teria tornado, depois de Salvador, a maior aglomeração urbana do Estado da Bahia, que no final do século XIX era o segundo Estado mais populoso do Brasil[nota 4]. Esses números são postos em dúvida por Bartelt; no entanto, como veremos, esses efetivos populacionais são provavelmente de revisar para baixo.

Segundo um testemunho[96],
algumas das localidades deste município e dos municípios vizinhos, e isso até o Estado de Sergipe, ficaram sem o mais leve habitante, tão poderosa foi essa aluvião de famílias que subiam para Canudos, lugar escolhido por Antônio Conselheiro como centro de suas operações. E sofria-se de ver posta à venda nos mercados uma quantidade tão extraordinária de gado, cavalos, bois, cabras, etc., sem falar de outros bens, oferecidos por ninharia, como terrenos, casas, etc. O maior desejo era vender, obter dinheiro e ir reparti-lo com o santo Conselheiro.
Conseguia-se, pondo em prática meios rudimentares de construção, a construir até doze casinhas por dia. A aglomeração, mistura caótica de palhoças de fortuna construídas ao acaso com fachadas voltadas para todos os lados, desprovida de qualquer ordenamento, apresentava-se como um dédalo inextricável de vielas estreitíssimas e tortuosas que iam dar a toda a parte e serviam de rede de ruas. Só havia uma rua, no sentido convencional do termo, no noroeste da aglomeração. As casas, feitas de taipa e compostas de três cômodos minúsculos, e na maioria das vezes também de uma cave, eram cada uma cercadas de cercas de bromeliáceas e de um fosso, e podiam portanto, em caso de necessidade, funcionar como reduito de defesa. Além disso, muitas casas eram ligadas entre si por túneis subterrâneos, que puderam servir de casamatas durante o conflito[97]. Essas construções, cujas paredes eram caiadas e os telhados cobertos de gesso, escalonavam-se ao longo dos caminhos, e depois se esparramavam sobre os montes circundantes. O local mais baixo da cidade era a praça da igreja, que margeava o rio. Daí, a cidade se estendia subindo, para o norte e o leste. Finalmente, a cidade era cercada, em todas as direções, de uma coroa de trincheiras cavadas no próprio solo, dissimuladas pela vegetação; essas trincheiras estavam chamadas a desempenhar um papel importante nos sucessivos assaltos do exército republicano.
O rio, de leito cavado e profundo como um fosso, cinturava o povoado. Vinham aí convergir aqueles barrancos de encostas escarpadas, já evocados acima, que criara um vivo processo de erosão, e onde corriam em cascata, durante a estação das chuvas, efêmeros afluentes. Nas alturas circundantes abriam-se gargantas estreitas por onde passavam os caminhos: o de Uauá, para oeste; de Jeremoabo, para leste; das montanhas do Cambaio, para sudoeste; e de Rosário, para sul.
O mobiliário das habitações se limitava a um banco rudimentar, dois ou três tamboretes, algumas caixas de cedro e cestos, e redes. A casa não tinha à sua disposição senão alguns utensílios raros e grosseiros. Uma panóplia de armas completava o equipamento: o jacaré (grande faca de lâmina larga), a parnaíba (cutilada comprida como uma espada), o aguilhão (três metros de comprimento e ponta de ferro), porretes (ocos, cheios até metade de chumbo), bestas e espingardas. Entre estas últimas, nota-se a espingarda de granalha, o trombeta (lançando pedras e chifres), a carabina, e a espingarda (de cano largo)[98].
Roupas encardidas e esfarrapadas compunham todo o vestuário dos habitantes. Os peitos se guarneciam de terços, escapulários, cruzes, amuletos, dentes de animais, relíquias e filactérios[99].
Composição e origem social da população canudense
A maioria dos migrantes, que não foram senão algumas centenas no início, tinham pouco a perder; mas mesmo para esses, juntar-se a Canudos requeria ousadia, pois poucos sertanejos deixavam jamais sua terra de forma permanente salvo em caso de dura necessidade. De forma geral, os habitantes de Canudos apresentavam um espectro socioétnico muito mais amplo do que é admitido tradicionalmente[100]. Os adeptos de Conselheiro estavam longe de ser todos pobres e de tez escura, como afirma Da Cunha. Alguns habitantes tinham sido mesmo ricos em sua vida anterior: um homem vendera três casas antes de se juntar à colônia com sua família, e conhece-se também o caso de dois proprietários de fazenda em casa de quem Antônio Conselheiro se havia alojado alguns anos antes e que venderam seu bem para se juntar à comunidade[101].
Para recorde, a população do sertão nordestino é fruto da mestiçagem brutal das etnias indígenas com o invasor português (e seus descendentes) e, em menor medida, com os escravos de origem africana. Segundo o censo de 1890, essa população se compunha de 23,9% de brancos, 17,5% de negros, 6% de mamelucos ou caboclos (mestiços de branco e índio) e 52,6% de mulatos (mestiços). A composição étnica de Canudos concordava largamente com essa repartição, sem dúvida melhor do que estavam dispostos a admitir a imprensa e as elites do litoral. Eram aí majoritários com efeito as pessoas de cor, de pele acobreada[102]. Canudos contava muitos mamelucos, vindos de aldeias vizinhas de predominância aborígene, criadas pelas missões católicas na época colonial[103]. Ocasionalmente, índios Kiriri, Kaimbe e Tuxá instalavam-se nas zonas periféricas da aglomeração, e mais tarde viriam a se bater "ao arco e à flecha" ao lado dos canudenses[104]. Aí se encontravam também pessoas oriundas das aldeias de negros fugidos implantadas nas margens do rio Itapicuru[nota 5] ; recorde-se a esse propósito a oposição de Antônio Conselheiro à escravidão, e o fato de ele ter sugerido em seus escritos que a república fora infligida à monarquia como um castigo por ter demorado tanto a alforriar os escravos. Visto que muitos residentes de Canudos eram de pele muito escura, é altamente provável que entre aqueles que se juntaram ao santuário de Antônio Conselheiro figurassem muitos escravos alforriados na sequência da abolição de 1888, mas que tinham optado por Canudos como solução alternativa à vida miserável geralmente destinada aos antigos escravos[104] · [105]. A colônia não compreendia pois apenas caboclos, mas uma ampla amostragem de grupos étnicos, raciais e sociais[104]. Um observador assinalou uma diferença entre as habitações construídas pelos caboclos e aquelas construídas por antigos escravos. As mulheres negras se teriam vestido segundo o costume africano[106].
A população de Canudos, longe portanto de ser étnica e socialmente homogênea, refletia bastante fielmente, à exceção sem dúvida de uma camada superior branca, a realidade do sertão no final do século XIX, ou seja, um território caracterizado por um crescimento demográfico acima da média, que povoavam alguns vestígios das antigas populações indígenas, uma forte maioria de trabalhadores agrícolas pouco ou não formados, uma fina camada média de negociantes e comerciantes bem como de vaqueiros, e algumas boas famílias abastadas, além de servir de terra de apego para antigos escravos. Alguns dos mercadores de Belo Monte possuíam quantidades notáveis de dinheiro e terras. Os jovens não estavam sós a migrar para Canudos; famílias na sua totalidade, sem excluir os idosos, a isso se resolviam. Naqueles que faziam cortejo a Maciel pouco antes da fundação de Belo Monte, o elemento feminino estava em nítida maioria, mesmo que vários homens sós, tais como Pajeú ou João Abade, também tivessem se juntado à tropa[107].
Ao longo de toda a existência normal de Canudos, os habitantes apareciam em suma pouco diferentes dos outros habitantes do sertão. Se as mulheres podiam parecer decrépitas aos visitantes já aos vinte anos, isso não é imputável a algum fanatismo; a expectativa de vida nos campos do Nordeste não ultrapassava 27 anos na década de 1890, tanto para mulheres quanto para homens[108]. Globalmente, o número de mulheres era superior ao de homens na proporção de 1 para 2. Que as mulheres viúvas ou abandonadas pelo marido, que em regra geral conheciam uma vida muito difícil, a menos que tivessem fortes laços familiares, tenham procurado maciçamente refúgio em Canudos fornece uma explicação possível desse fenômeno[108]. Para o fim, as mulheres se viram mais nitidamente ainda em excesso, em consequência da deserção de muitos homens nos últimos meses, abandonando amiúde mulher e filhos, e pelo fato de que as mulheres eram mais fiéis (paradoxalmente, tendo em conta a misoginia do chefe) a Antônio Conselheiro[108]. Uma foto dos sobreviventes do cerco, tirada pelo fotógrafo profissional Flávio de Barros, mostra que a maioria das mulheres era jovem, não umas velhas megeras, como insinua Da Cunha. Certamente, a maioria das pessoas nessa mesma foto são negros ou caboclos, mas várias são brancas, tanto quanto o era o próprio Da Cunha[109]. Algumas mulheres eram mulheres brancas de boa família, e algumas poucas até trouxeram consigo dinheiro, joias, e outros objetos de valor; a piedade, mais do que qualquer outro motivo, as ligava à cidade santa[110]. Nas fichas do Comitê Patriótico, organização de caridade fundada durante a última fase da guerra, 41 das 146 mulheres e crianças que puderam ser salvas são descritos como sendo brancos, amiúde com a menção "branco, loiro e de boa família". Esses constatados bastam para invalidar a visão que prevalecia então e segundo a qual os adeptos de Antônio Conselheiro eram todos camponeses caboclo.
Havia entre os canudenses cerca de mil sertanejos que tinham sido vaqueiro; alguns podem ter sido desertores do exército ou da polícia, outros tinham sido, antes da abolição, escravos fugitivos ou servos. Da Cunha, e com ele outros autores, os designou coletivamente pelo termo pejorativo de jagunços, o qual significa membro de uma milícia privada de grande proprietário, ou mais vagamente indivíduo mestiço, viril, aventureiro, imprevisível, brigão e turbulento de caráter, quando mesmo em Canudos, apenas um pequeno número (os guarda-costas de Antônio Conselheiro e alguns de seus combatentes) mereceriam esse qualificativo. É em suas fileiras que Antônio Conselheiro recrutava seus combatentes; estes eram invariavelmente munidos de facas e carabinas e possuíam um conhecimento íntimo da topografia. Os vaqueiros, tendo que fazer pastar seu gado, percorriam espaços largos e abertos, onde deviam enfrentar um terreno rochoso recozido pelo sol, as doenças epizoóticas do gado, a alternância de chuvas torrenciais e secas, e, se necessário, defender-se contra os ladrões de gado e os saqueadores. Esses guardioes vestidos de couro tinham uma feroz resiliência ao combate, davam pouco valor à sua vida, e, quando alistados nas forças armadas, não tinham seu igual como cavaleiros e como infantes[100].
Uma menção particular deve ser feita a um certo número de comerciantes que, desde a época da pregação itinerante de Antônio Conselheiro, haviam percebido o potencial econômico de seu movimento. Assim, os dois mercadores que residiam em Canudos em 1893 não tinham nenhuma razão para escolher o largo quando Antônio Conselheiro veio aí se instalar com seu séquito. Com efeito, ele trazia consigo centenas de pessoas que, por pobres que fossem a maioria delas, tinham apesar de tudo necessidade de produtos de consumo de base, e eram aptos a fabricar produtos suscetíveis de serem vendidos depois. Os mercadores ambulantes logo fizeram figurar Belo Monte em seu itinerário habitual. Visto que nenhum imposto era cobrado em Canudos, os comerciantes canudenses beneficiavam de uma vantagem competitiva em relação a seus colegas[111].
Geograficamente, os canudenses eram igualmente de origem muito diversa, vindo numa mesma medida de zonas rurais e urbanas, e de todas as partes do Nordeste, e não apenas das aldeias e povoados do alto sertão; chegavam também do Recôncavo, das localidades do tabuleiro costeiro, de Alagoinhas, e de povoados situados a várias centenas de km de distância no Pernambuco e na Paraíba, e por vezes de lugares tão longínquos quanto Fortaleza, no Ceará, e Itabaianinha, no Sergipe[112]. Manadas de gado afluíam da região de Jeremoabo, de Bom Conselho e de Simão Dias. Contudo, a maioria dos canudenses era formada de camponeses vindos das localidades circunvizinhas. A área de recrutamento dos imigrantes canudenses pode, esquematicamente, ser subdividida em três zonas:
- uma primeira, constituída de uma próxima coroa de 20 km de diâmetro, a partir da qual simpatizantes de Canudos podiam fazer a naveta para a colônia sem necessariamente aí se fixar a título permanente ou definitivo;
- uma segunda, que corresponde ao território onde Maciel havia outrora cumprido suas missões de pregação e onde era pessoalmente conhecido dos habitantes. Essa zona se estende desde a franja litorânea no norte da Bahia e no sul do Sergipe, até a vila de Jeremoabo, e compreende uma dezena de municípios. Após a fundação de Canudos, essa zona tendeu a se ampliar para o norte e para o oeste, à medida que os canudenses, e o próprio Maciel, aí travavam contatos;
- uma terceira zona de recrutamento, enfim, estendendo-se ao sul até a Chapada Diamantina, ao oeste até o rio São Francisco, e ao norte e nordeste até Pernambuco e o Ceará[113].
Cerca de mil pessoas aproximadamente (800 "compadres resolutos" e 200 "mulheres e crianças", de que falou o capuchinho Marciano em seu relatório) formavam o núcleo duro, e provavelmente a maioria da população fixa de Canudos: são aqueles que observavam as regras da comunidade, o que implicava, entre outras, que cedessem grande parte de suas posses. Por outro lado, uma população flutuante tomava parte na vida religiosa da comunidade, sem contudo residir a título permanente em Canudos; ao contrário, guardavam suas choças (mesmo que se possa supor que uma parte deles dispusesse de alojamentos temporários na colônia) e seu lote de terra arrendado nos arredores imediatos e continuavam a se inserir como antes na estrutura socioeconômica tradicional em torno do coronel. Eles podem ter sido atraídos a Canudos pelas práticas religiosas, pela figura do Conselheiro, ou porque aí viam a perspectiva de algum pequeno negócio[114]. Se o núcleo central e uma parte da população partilhavam, a despeito de motivos divergentes, o mesmo engajamento para o projeto Belo Monte, com o mesmo ardor e o mesmo espírito de sacrifício, a massa dos canudenses em contrapartida não se engajava de outro modo senão em palavras, amiúde se serviam disso como álibi de uma atitude interesseira, e não estavam dispostos a correr qualquer risco. Aliás, essa heterogeneidade das atitudes não podia surpreender senão aqueles que queriam crer numa seita monolítica e fanática. Na verdade, Belo Monte era uma estrutura social aberta, e bastava, para aí ser admitido livremente, manifestar um antirrepublicanismo suficientemente crível[115].
Os fluxos de migrantes para Canudos acabaram por se repercutir nos números de população de algumas vilas vizinhas. Assim, Queimadas declinou de cerca de 4 500 habitantes em 1892, para apenas três casas habitadas em setembro de 1897. Até 5 000 adultos masculinos de Itapicuru teriam eleito domicílio em Canudos, assim como 400 de Capim Grosso, um grande número de Pombal, 300 de Itabaianinha no Sergipe, e um forte contingente de Itiúba na Bahia. Uma penúria de mão de obra começava a se fazer sentir com acuidade[95].
Muitos habitantes fugiram nos últimos meses da batalha, e bem no final, só restaram algumas centenas de mulheres e crianças[116].
Efetivos
Canudos não era, administrativamente falando, senão um arraial, um povoado no interior de um município, uma comuna, mas isso não obstante era uma das aglomerações mais povoadas da Bahia. O número de habitantes de Canudos foi e continua sendo objeto de controvérsias e as estimativas de seus efetivos populacionais oscilam entre 10 000 e 35 000 habitantes. Cabe notar primeiramente que o número de população de Canudos variou fortemente ao longo de seus quatro anos de existência[117].
Igualmente controverso é o número dos acompanhantes de Antônio Conselheiro antes da fundação de Belo Monte em 1893. Um correspondente do Jornal de Notícias de Salvador estimou esse número, pouco antes da fundação de Canudos, em 3 000 homens, mulheres e crianças; outro observador contou por volta da mesma época uma a duzentas centenas de combatentes, constatando que as mulheres representavam dois terços do grupo inteiro. Se se contabilizam as mulheres e os homens inaptos ao combate, são cerca de 800 pessoas que se fixaram na fazenda de Canudos, onde encontraram, supondo fidedignos os dados de Da Cunha sobre esse ponto, um grupo de 250 residentes já instalados[118].
A população da colônia, que nos anos seguintes conheceu um afluxo contínuo, foi cifrada pelo capuchinho Marciano, única testemunha a ter permanecido vários dias na comunidade, em "um milhar de compadres resolutos, entre os quais 800 homens sempre armados, e suas mulheres e crianças". Sobre essa base, a população de Canudos foi em seguida estimada, postulando para cada homem uma família de cinco membros, num efetivo total de 5 000[119].
As estimativas mais antigas da população de Canudos se alinhavam pelos números fornecidos pelo exército. O major Febrônio de Brito, comandante da segunda expedição, estimou o número de homens armados primeiro em 3 000, depois em 4 000, e o conjunto da população masculina adulta entre 5 000. Têm-se todas as razões para suspeitar que os números populacionais foram deliberadamente aumentados pelos sucessivos comandos militares a fim de incitar o público a procurar a explicação de seus deploráveis fracassos na potência do adversário em vez de em sua própria imperícia[119]. É verdade também que a tática de guerrilha, fazendo intervir pequenas unidades móveis "invisíveis", pode dar ao exército regular a impressão de ter a ver com um número mais importante de adversários e levá-lo a sobrestimar involuntariamente seu número[120].
No final das hostilidades no início de outubro de 1897, o general Arthur Oscar, comandante-chefe da última expedição, nomeou uma comissão encarregada de contar as casas de Canudos; essa comissão chegou ao número de 5 200 casas, com base no que a população total de Canudos foi estabelecida em 25 000 pessoas. Manoel Benício, repórter do Jornal do Commercio, que teve para com o exército uma atitude crítica e que foi aliás logo afastado sob pressão do Clube Militar, empreendeu por sua vez, com a ajuda de alguns outros, fazer a contagem das casas e teria chegado a um resultado não ultrapassando as 1 200, ao que era preciso certamente adicionar duas centenas situadas nos diferentes prolongamentos da aglomeração; precisando que
com certeza, não há mais de 2 000 casas
, chegou a um número populacional de 7 500, dos quais, talvez, 1 500 combatentes[121]. O coronel Carlos Telles, que combateu em Canudos, escreveu:
Canudos tem apenas um milhar de casas, ou um pouco mais, mas certamente não 4 000, como se afirma geralmente; estimo o número inicial de jagunços em 600 no máximo. Desses, não deve ter restado mais de 200 após a ofensiva de 18 de julho[122].
Além disso, pesquisas mais recentes levantaram dúvidas quanto à capacidade de Canudos de alimentar uma população de 25 000 pessoas[123].
A colônia de Canudos também abrigava todo um povoamento temporário. Se Canudos conhecia um afluxo contínuo, houve ao mesmo tempo um vaivém incessante, em particular de pessoas vindas de uma coroa próxima, duma vintena de quilômetros de diâmetro, que tinham portanto a possibilidade de manter laços com a comunidade e tomar parte na vida comunitária, mas sem necessariamente aí fixar domicílio de maneira duradoura[120].
Seja como for, mesmo admitindo apenas 10 000 habitantes, Canudos teve um impacto considerável sobre a estrutura social e econômica da região. Em pouco tempo surgiu aí com efeito um ator econômico importante, que não só fez nascer oportunidades de mercado, de intercâmbios e de escoamento, mas também agiu como uma bomba aspirante, extraindo potencial de outros lugares e aí criando penúrias, em particular de mão de obra, suscetíveis de acarretar por sua vez consequências econômicas e políticas[120].
Motivações

Para dar conta de um êxodo tão massivo para a colônia de Canudos, a só privação material, tão fortemente quanto os canudenses tivessem dela sofrido em sua vida anterior, não é um fator explicativo nem necessário nem suficiente. O fator determinante próprio a desencadear a mobilização milenarista e a empurrar ao êxodo foi sem dúvida o que Robert Levine chama a desrotinização geral da vida cotidiana, o fato de que, por uma mudança política profunda, as categorias normais através das quais a realidade social era até então apreendida não se aplicavam mais doravante[124]. Muitos rurais desconfiavam da nova ordem laica republicana, e alguns puderam mesmo interpretar as novas práticas de registro civil e certas questões do censo relativas à ascendência racial como uma ameaça de restauração da escravidão, abolida pela monarquia um ano antes da queda desta. Por seus esforços para estender seus poderes até as terras interiores mais afastadas, o novo Estado republicano representava uma reviravolta estrutural propriamente cataclísmica. Mesmo a eleição de um presidente em lugar da investidura vitalícia de um monarca paternal suscitou temores. A pregação de Conselheiro comportava uma crítica dessa ordem republicana existente e oferecia a alternativa de um universo simbólico (potencialmente explosivo) diferente[125]. Muitos sertanejos escolheram portanto procurar refúgio em Canudos, colônia coletivista dirigida por um patriarca protetor, e aí levar uma vida coletiva estruturada, como meio de alcançar a redenção individual. A maioria das pregações de Antônio Conselheiro exigia simplesmente uma moralidade pessoal e um trabalho assíduo, em troca de uma proteção espiritual contra o mundo temporal corrompido e em prostração econômica. Os crentes podiam aí levar uma vida disciplinada de acordo com os preceitos católicos, ao abrigo tanto das infâmias modernas quanto da fome e da necessidade. Canudos não atraiu os desviantes e os fanatizados, mas homens e mulheres racionais que, sentindo-se doravante alienados em sua sociedade, buscavam a redenção indo voluntariamente viver num ambiente penitencial regulado e seguro, aceitando voluntariamente um conjunto de preceitos aptos a dar à sua vida uma estrutura e uma direção tranquilizadoras. À sua chegada a Canudos, os residentes recebiam a designação de um trabalho e viviam segundo uma rotina que deve ter trazido um sentimento de segurança a pessoas traumatizadas pelas privações e pelas vicissitudes da seca, das querelas de clã e da precariedade econômica[126].
Os sucessos de Canudos contra os ataques militares agiram como um ímã sobre as populações do sertão. Um artigo do Diário da Bahia de 31 de janeiro de 1897 indicou: « Pessoas do sertão nos relatam que com a notícia da derrota da expedição, foram disparados fogos de artifício e tocados os sinos em numerosas localidades, e que famílias inteiras incondicionalmente tudo abandonaram atrás de si ou tudo venderam para se juntar ao santo homem ». O correspondente da Gazeta de Notícias (31 de janeiro de 1897) relatou que « a metade da população de Tucano e de Itapicuru havia transferido sua residência para Canudos »[119].
No entanto, a decisão de partir para Canudos com a família inteira não se tomava sempre após ruptura de todas as pontes, como queria o topos contemporâneo em vigor no litoral. Terminada a guerra, aparecerá que na realidade muitas prisioneiras canudenses « tinham guardado para consigo bens, dos quais se propunham viver após os combates; outras, tendo sempre o futuro em vista, tinham deixado seus bens sob a tutela de membros de sua família ou de amigos (…). Assim como nos foi confirmado por muitos oficiais, a maioria dos papéis descobertos em Canudos consistia em contratos de compra de casas e terras »[114].
Sem contesta, Antônio Conselheiro era abertamente monarquista e pregava contra a República. Seu pensamento político baseava-se no princípio de que todo poder legítimo é a emanação da toda-potência eterna de Deus e permanece submetido a uma regra divina, tanto na ordem temporal quanto espiritual, de sorte que, obedecendo ao pontífice, ao príncipe, ao pai, àquele que é realmente ministro de Deus com vista ao cumprimento do Bem, é a Deus só que obedecemos. Reconhecia a legitimidade da monarquia como mandatária do poder divino, ao contrário da ilegitimidade da República: o digno príncipe, dom Pedro III, afirmava, detém o poder legitimamente constituído por Deus para governar o Brasil; é o direito de seu digno avô, dom Pedro II, que deve prevalecer, não obstante tenha ele sido traído, e por conseguinte sua família real só está habilitada a governar o Brasil[127]. Ao frei capuchinho Marciano, que visitou Canudos em 1895, Antônio Conselheiro declarou: « no tempo da monarquia, deixei-me prender porque reconhecia o governo; hoje, não o farei, pois não reconheço a República. »[128] No entanto, como salienta Da Cunha, « não há aí a menor intenção política; o jagunço é também inapto para compreender a forma republicana quanto a da monarquia constitucional. Ambas são a seus olhos abstrações inacessíveis. Ele é espontaneamente o adversário de uma e de outra. Ele se encontra na fase da evolução em que só se pode conceber a dominação de um chefe sacerdotal ou guerreiro. » Antônio Conselheiro pregava a salvação para a alma tomada individualmente, não para a sociedade rural, ou a fortiori, brasileira toda inteira. Não procurava impor suas visões a outros e sua doutrina não representava portanto uma ameaça do ponto de vista do comportamento social geral. A violência foi trazida contra Canudos; ela não havia sido exportada desde Canudos para a região circunvizinha[129].
É portanto erroneamente que as autoridades do Rio de Janeiro quiseram fazer de Canudos um elemento de uma vasta conspiração monarquista contra o novo regime, beneficiando de cumplicidades na capital, até de apoios no estrangeiro, em particular da Inglaterra. O que com efeito ressalta das cartas, dos escritos de toda espécie, dos versos que foram descobertos em Canudos após sua liquidação pelo exército, é uma religiosidade difusa e incongruente, cujas tendências messianicas não tinham alcance político bem afirmado. Os canudenses não se opunham à ordem republicana recentemente estabelecida senão na medida em que, crendo na iminência do reino prometido de Deus, percebiam na República o triunfo temporário do Anticristo. Da Cunha, por um partido-próprio das elites republicanas do litoral, quis ver em Canudos, em substância, a revolta de uma sociedade anacrônica, permanecida, por seu isolamento geográfico e cultural secular, ao abrigo das evoluções e dos movimentos de civilização exteriores, e recusando violentamente a irrupção brutal da modernidade encarnada pela República. O que Da Cunha exprime nestes termos:
Recebemos de improviso a República, como uma herança inesperada. Subitamente, nos elevamos, arrastados pela torrente dos ideais modernos, e deixando, na penumbra secular onde jazem no centro do país, um terço de nossa gente. Logrados por uma civilização de empréstimo, colhendo, num trabalho cego de copistas, tudo o que existe de melhor nos códigos orgânicos das outras nações, conseguimos, por meio de revoluções e recusando transigir sequer um pouco com as exigências de nossa própria nacionalidade, a agravar o contraste entre nosso modo de viver e o desses rudes compatriotas, que são mais estranhos neste país do que os imigrantes da Europa. Pois não é o mar que os separa de nós, são três séculos (…)[130].
Estruturas de poder e centros de decisão
As pesquisas recentes trouxeram à luz a presença em Canudos de estratificações sociais e funcionais, e de um sistema hierárquico de repartição dos poderes, nomeadamente no seio do grupo dirigente, o qual não era isento de tendências divergentes e de fricções.
O movimento de Canudos era impulsionado por um núcleo funcionalmente diferenciado de indivíduos bem colocados. No domínio estritamente religioso, Maciel tinha sob suas ordens um grupo restrito de beatos e beatas (devotos), que formavam uma espécie de confraria leiga chamada Companhia do Bom Jesus, a qual estava encarregada de cuidar do santuário, onde vivia Maciel e onde eram conservadas as imagens de santos, de proteger Maciel contra o exterior, de assisti-lo na liturgia, de tocar os sinos e de organizar coletas de esmolas nos arredores. A mais considerada entre as beatas recebia a incumbência da alimentação do Conselheiro e, na qualidade de parteira diplomada, ajudava também a vir ao mundo as crianças de Canudos[131].
Religião e economia formavam em Canudos os dois pilares do poder, aos quais se juntava, sobretudo após o desencadeamento da guerra, o pilar militar. Os negociantes pertenciam, tanto na antiga quanto na nova Canudos, à camada dirigente. Isso valia em primeiro lugar para os dois velhos de guerra Antônio da Mota e Joaquim Macambira. Ambos podiam apoiar-se em relações de clientela e de parentela com os coronéis da região. O recém-chegado Antônio Vilanova, que fugira de sua província natal do Ceará para a Bahia na sequência da seca de 1877 e se fixara em Canudos não por motivos religiosos, mas por espírito de lucro, tendo com efeito percebido na nova colônia um potencial mercado em expansão, soube se alçar ao rango de figura econômica dominante de Canudos, nomeadamente eliminando, com o apoio da autoridade militar conselheirista, toda concorrência indesejável. Durante a guerra, conseguiu se tornar indispensável como fornecedor de munição e mesmo fazer parte do comando militar de Canudos[132].
Não é inútil deter-se nessas três grandes figuras da elite econômica de Canudos — Antônio da Mota, Joaquim Macambira e Antônio Vilanova —, tocando também numa palavra sobre o irmão deste último, Honório Vilanova. Antônio da Mota era o mais importante habitante do povoado de Canudos quando Antônio Conselheiro aí veio se instalar em junho de 1893. Comerciante de couros e esteiras, escoava sua mercadoria nos mercados de Cumbe e de Monte Santo. Explorava uma loja, que lhe servia também de alojamento, na praça das Igrejas, perto da Igreja Nova, e portanto perto do santuário, onde residia o Conselheiro, e detinha também um lote de terra na margem direita do Vaza-Barris. Tinha família no sertão baiano, nomeadamente o coronel Ângelo dos Reis, rico proprietário de fazenda, e o major Mota Coelho, oficial da polícia baiana, e contava entre seus ascendentes Joaquim da Mota Botelho, o descobridor do meteorito de Bendegó[133]. Tornara-se amigo e afiliado de Maciel na década de 1880, desde a primeira aparição deste no povoado; nessa ocasião, Da Mota pediu ao Conselheiro que erguesse uma nova capela em Canudos, para substituir a antiga, demasiado pequena e degradada; o Conselheiro prometeu honrar esse pedido, e, a promessa cumprida, a nova igreja Santo Antônio foi benzida pelo pároco de Cumbe, o que deu lugar a um dia festivo, com fogos de artifício[134]. Por ocasião da Predefinição:1ª expedição contra Canudos, correu o boato de que o velho Da Mota enviara alguém para prevenir a tropa de que um ataque conselheirista era iminente, o que, segundo os testemunhos que pôde recolher José Calasans, era uma calúnia. Da Mota e vários de seus próximos foram massacrados em pleno dia, sob os olhos do Conselheiro, e por ordem de João Abade; foi em vão que apelaram à proteção do Conselheiro, o qual, embora tivesse ordenado que cessasse a matança, não foi obedecido. Do clã Da Mota, só escaparam as mulheres e as crianças, que encontraram refúgio na casa de Joaquim Macambira, outro comerciante da localidade, que conseguiu em seguida exfiltrá-las para outros lugares, sob a hostilidade dos mais acirrados. A casa comercial de Da Mota foi saqueada[133].
Antônio Vilanova, originário do Ceará, desempenhou um papel preeminente tanto na economia quanto na política de Belo Monte. Suas notas promissórias tinham valor de moeda, e paralelamente ao seu negócio, encarregava-se também de resolver os litígios locais, fazendo assim as vezes de juiz de paz. Tivera-se ligado a João Abade, comandante da Guarda Católica e portanto encarregado da manutenção da ordem, conivência que lhe permitiu melhor assentar seu poder. Ambos aliás residiam na mesma praça das Igrejas, em casas de telhas, símbolo de poder. Vilanova era apenas um apelido — chamava-se de seu verdadeiro nome De Assunção —, de que fora alcunhado por ter permanecido algum tempo em Vilanova, hoje Senhor do Bonfim, para seus negócios[135]. Impelido pela seca que grassava em sua terra natal, chegou à Bahia em 1877, partilhando da sorte de um grande número de seus concidadãos. É o ganho, não a fé, que o incitou a se juntar a Belo Monte, onde concedia abatimentos ao Conselheiro. Aliás, os dois homens eram velhos conhecidos, pois por volta de 1873, o beato Antônio passara por Assaré, onde os De Assunção possuíam um pedaço de terreno. Vilanova transferiu portanto para Canudos seu estabelecimento comercial, levando também sua parentela. Não teve dificuldade em fazer prosperar seus negócios, sabendo com efeito, com a ajuda de João Abade e de sua tropa, manter à distância seus concorrentes[136]. Seu prestígio só fez crescer ao longo da guerra, e seu armazém serviu logo para armazenar armas e munições, que distribuía aos combatentes de acordo com os chefes de piquete. À medida que pereciam os chefes de guerra, e que ao mesmo tempo o Conselheiro permanecia enclausurado em seu santuário, Vilanova tenderá a concentrar em suas mãos cada vez mais poderes[137]. Na última fase da guerra, quando tudo estava perdido, preparou habilmente sua retirada, não sem ter solicitado autorização junto ao Conselheiro então moribundo. Este falecido, Vilanova conseguiu fazer sair do inferno de Canudos toda a sua parentela, precavidamente, em pequenos grupos, com a ajuda de alguns jagunços seus amigos. Segundo seu irmão Honório, foi-lhe preciso abandonar quatro tonéis de prata, que enterrou no local, mas levou consigo para o Ceará, onde foi viver algum tempo, três ou quatro quilos de ouro e joias. Morreu aos 50 anos de idade[138].
Joaquim Macambira, enfim, era oriundo de uma das duas grandes famílias que habitavam em Canudos antes da chegada do Conselheiro (a outra sendo os Da Mota; os Vilanova só vieram mais tarde). Essas duas famílias mantinham aliás boas relações, testemunha o fato de que após o massacre dos Da Mota, os Macambira acolheram em sua casa os menores de idade dessa família. Joaquim era agricultor e comerciante, não um homem de combate propriamente dito, ainda que durante a guerra gostasse de tramar emboscadas. Desempenhou um papel de primeiro plano na comunidade porque era um homem de confiança, um comerciante respeitado, de probidade reconhecida lá fora, que mantinha relações comerciais com seus confrades das localidades circunvizinhas, e que, ademais, era ligado por amizade ao coronel João Evangelista Pereira de Melo, proprietário abastado de Juazeiro, a quem encomendou madeiramento para a igreja nova de Canudos, transação abortada que se tornou a faísca que desencadeará a guerra[139]. Teve numerosa prole, e um de seus filhos resolveu, por ocasião de um dos episódios mais famosos da guerra de Canudos, apoderar-se dos canhões da Predefinição:4ª expedição, mas será sacrificado ao mesmo tempo que um punhado de seus camaradas (Francisco Mangabeira lhe dedicará um poema, inspirado de uma reportagem de Euclides da Cunha). Terminada a guerra, uma de suas filhas, Maria Francisca Macambira, de 10 anos de idade, caiu primeiro nas mãos de oficiais republicanos em Salvador, antes de ser recolhida pelo jornalista Lélis Piedade[140] (ver abaixo).
Assinalemos ainda Honório Vilanova, irmão de Antônio, vindo como ele do Ceará, onde aprendera o ofício de seleiro-correeiro, e de onde partiu para Canudos em companhia de seu irmão, após uma passagem por Bonfim. Se se sabe muito pouco sobre seus feitos e gestos durante a guerra, ele se fará mais tarde o memorialista de Canudos e do Conselheiro, recordando com efeito com precisão os fatos, os costumes, a vida cotidiana e os notáveis de Belo Monte, e traçando em particular a personalidade do Conselheiro, que conhecera primeiro em Assaré por volta de 1873 e ao lado do qual ficou quase até o fim da guerra; aliás, falará sempre bem do Conselheiro. Suas recordações foram reunidas por Predefinição:Lien numa obra publicada em 1964, Memorial de Vilanova. Em Canudos, ocupou-se sobretudo em ajudar o "compadre Antônio", seu irmão comerciante, na loja bem abastecida deste, e nunca exerceu seu estado de seleiro. Combateu na fase final do conflito, e foi ferido no pé. Morreu em seu Ceará natal aos 105 anos de idade[141].
O estado de guerra impregnou a vida em Canudos muito antes que a guerra aberta eclodisse três anos e meio após a fundação da comunidade. Belo Monte com efeito, aparecida na esteira de um entrevero sangrento entre os homens de Maciel e um destacamento da polícia baiana lançado em seu encalço pelas autoridades, era inicialmente concebida como um esconderijo, e os responsáveis, a quem nada permitia supor que permaneceriam ao abrigo de perseguições, deviam estar sempre prontos para o combate. Em consequência, a organização militar teve, tanto nos centros de decisão da comunidade quanto na vida cotidiana, uma importância considerável[142]. Exercícios militares eram diários, e as habitações eram em parte duplicadas de uma cave como abrigo contra a artilharia[143].
Belo Monte era governado em modo oligárquico; o grupo dirigente não tirava sua legitimidade de uma escolha popular, mas do prestígio individual de seus membros, prestígio derivado da realização de atos notáveis, da posse de bens, ou da proximidade com Antônio Conselheiro[144]. Este parece ter constituído, em torno de João Abade e de Antônio Vilanova, um círculo dirigente, que, segundo a imprensa contemporânea, aparecia em público sob a denominação de "Doze Apóstolos". Abade tinha a alta mão no domínio policial e militar, enquanto toda a administração civil estava a cargo de Vilanova. Desse mesmo núcleo central faziam parte também o grande proprietário de terras Norberto das Baixas e alguns chefes militares, entre os quais Pajeú, João Grande e José Venâncio[145]. Os cuidados de saúde foram confiados ao curandeiro Manuel Quadrado, versado em plantas medicinais[146]. Assim, os cuidados médicos, mas também o ensino escolar, eram assegurados por instituições quase estatais[147].
Que Maciel, em sua qualidade de Conselheiro,
nunca renunciou ao privilégio de ter a última palavra
, como afirma o historiador José Calasans[148], deve ser posto em dúvida, mais particularmente no que respeita à fase final da guerra. A imprensa da época o retratava como o chefe de guerra supremo, como um déspota dotado de um poder de comando ilimitado e global[144]. Certamente, nos primeiros tempos do movimento, Antônio Conselheiro era a figura determinante, e era ele que compunha o grupo dirigente; para isso, se autorizava nomeadamente de seus laços de parentela, laços que determinavam suas relações com uma larga parte da população de Canudos, sendo Maciel, como resulta do registro batismal, o padrinho de quase todas as crianças nascidas na colônia. Além disso, podia apoiar-se numa rede, tecida durante seus vinte anos de errância, de relações pessoais com fazendeiros, comerciantes e políticos da região. No entanto, como salienta D. D. Bartelt, o assassinato de que foram vítimas seu confidente Antônio da Mota e uma parte da família deste, sob suspeita de ter posto a polícia a par do ataque de Uauá durante a primeira expedição, parece indicar o contrário, visto que o assassinato teria sido perpetrado sob os olhos mesmos de Maciel, sem que ele estivesse em condições de impedi-lo. Certamente, a guerra tinha então começado, e a lei marcial era de rigor; contudo, que a suspeita fosse fundada ou não, ou que as provas tivessem sido ou não fabricadas por Vilanova para se livrar de um rival, o incidente tende a provar que Maciel não detinha mais então nos assuntos militares (estratégicos ou disciplinares) a autoridade suprema[149]. Segundo José Aras[150],
o Conselheiro temia João Abade… era ele o verdadeiro chefe
, e Sousa Dantas[151] dá conta de uma decadência moral, de uma prostituição e de uma violência interior crescentes, que Maciel não era mais capaz de estancar; a vontade do chefe espiritual era contrafeita pelo arbítrio de caciques arrogantes; Maciel teria mesmo ordenado a seus adeptos que voltassem para suas aldeias de origem[152].
A Guárdia Católica, a guarda pretoriana de Antônio Conselheiro e corpo de polícia de Canudos, usava um uniforme de algodão azul, com boina da mesma cor[142]. Os litígios de direito civil se resolviam na maioria das vezes internamente, enquanto as infrações penais graves eram submetidas à jurisdição municipal[147].
Meios de subsistência
Ao contrário do que transparece da descrição dramática dada por Da Cunha, a zona de Canudos não era tão árida que não tivesse oferecido muito poucos recursos à atividade agrícola e comercial; ao contrário, o sítio foi escolhido justamente em razão de sua capacidade de sustentar a agricultura. Belo Monte com efeito se situa no local onde o afluxo de água pela bacia hidrográfica superior do rio Vaza-Barris era no máximo. Água podia ser extraída não apenas do rio, mas também — raridade para a região — do subsolo, mediante escavação de poços na rocha porosa. Acessoriamente, pela configuração acidentada do terreno, as faculdades de defesa da cidade se viam multiplicadas, facilitando em particular as emboscadas e ataques surpresa por parte dos canudenses; os comandantes militares de Conselheiro deviam aliás mostrar-se hábeis em atrair e enredar as tropas regulares em labirintos naturais isentos de água[153].
As margens do rio eram plantadas de legumes, milho, feijão, melancias, cana-de-açúcar, batatas, abóboras, etc. Mandioca e outras plantas eram cultivadas nas extensões úmidas limítrofes da colônia. Canudos possuía um matadouro, e as reservas de comida eram armazenadas em armazéns. Em cada casa da cidade, guardava-se carne seca e frutas secas em jarros de argila. Na vizinhança da colônia praticava-se a horticultura, e havia criação de ovelhas, caprinos, e (em quantidade fraca) bovinos. Gêneros alimentícios eram objeto em Canudos de um comércio de varejo regular.
A colônia de Canudos dispunha de várias fontes de receitas. Os habitantes fabricavam couro, esteiras, cordas e artigos de vime, que eram em seguida escoados nos mercados da região[154]. A venda das peles de cabra em particular fornecia boa parte dos fundos necessários para adquirir bens no exterior. Os emissários de Antônio Conselheiro faziam negócios diretamente com o maior negociante de Juazeiro. Quando as finanças diminuíam, Antônio Conselheiro escrevia cartas a seus contatos lá fora ou enviava emissários, p. ex., Zê Venâncio e Joaquim Macambira, para solicitar doações de gado[155] · [156].
As vendas de peles não rendendo senão receitas pouco abundantes, e a comunidade não tendo outra fonte regular de receitas, Antônio Conselheiro era forçado a se mostrar flexível e a enviar sua gente trabalhar sob contrato em fazendas e fazendas próximas — em menor medida no entanto do que Padre Cícero p. ex., que queria com essa medida dar satisfação aos proprietários de terras vizinhos; Antônio Conselheiro, menos sabedor das combinações políticas, estava inclinado a manter sua cidade santa num maior isolamento e pagou finalmente os custos de sua relativa intolerância. Mas esse isolamento não foi certamente nunca absoluto, pois os intercâmbios nunca se interrompiam, a tal ponto que mesmo durante o conflito armado, simpatizantes ligados à facção Viana do partido republicano da Bahia continuavam a entregar material à colônia. O só fato de que a comunidade de Canudos pôde funcionar durante quatro anos atesta a aptidão organizacional de Conselheiro e de seus ajudantes. Canudos era longínquo, mas jamais isolado, o que lhe permitiu sobreviver economicamente; o milagre logístico que representa Canudos só pôde ocorrer porque Canudos estava bem ligado à economia da região[157].
Antônio Conselheiro não só exigia que os canudenses efetuassem um duro labor agrícola, mas também contratava jornaleiros das fazendas vizinhas. Também se apoiava em parte nos recursos oferecidos por seus admiradores e enviava seus sectários pedir-lhes contribuições em dinheiro e materiais, principalmente para as necessidades da nova igreja[158]. Algumas famílias cediam, sem que se lhes fizesse obrigação nesse sentido, tudo o que possuíam à comunidade, em guisa de ato voluntário de penitência[156].
Finalmente, os recém-chegados eram solicitados, mas não compelidos, a ceder à comunidade uma parte de seus bens — dinheiro ou objetos. A existência dessa regra levou alguns a qualificar a economia canudense de "comunista". No entanto, nunca se tratou de abolir a propriedade privada; é verdade que o terreno a construir era outorgado aos habitantes gratuitamente, mas eles deviam por outro lado financiar eles mesmos sua casa ou seu barracão. A casa, a mesma título que os objetos pessoais, permanecia livremente alienável, e havia em Canudos um comércio imobiliário muito animado. Fazer benefícios não era interdito, nem condenado moralmente. O comerciante Antônio Vilanova, um dos homens mais influentes de Belo Monte, era um homem afortunado quando desertou da localidade pouco antes do fim da guerra[159].
A economia de Canudos era por conseguinte organizada numa base mercantil e monetária. Canudos não vivia de modo algum em autarcia e segundo regras próprias, mas se encontrava a diversos títulos e intensamente integrada num sistema comercial regional interconectado. Foi afirmado que um mercado semanal se realizava em Belo Monte mesmo[160].
Vida social e práticas religiosas
Os jornalistas, os padres estrangeiros incumbidos pelo bispado de inspecionar os lugares, alguns membros da elite dirigente, alguns párocos e muitos cronistas e testemunhas contemporâneas chamaram os conselheiristas de loucos, criminosos, outrora escravos, e, mais que tudo, de fanáticos religiosos. Essa visão, veiculada e reforçada pela obra-prima de Da Cunha, deve seguramente ser matizada[161].
Belo Monte era uma espécie de teocracia, cujo regime político e social, de tipo clânico, era modelado pela visão religiosa particular do Conselheiro, e onde as leis procediam do arbítrio do chefe. Este, fazendo-se assistir por um comitê local de governo (já evocado acima) composto de 12 apóstolos ou anciãos, pôs em prática um sistema social de aparência comunista, baseado na divisão do trabalho e da produção, e na propriedade comum. Não era permitida com efeito senão a propriedade privada dos únicos objetos móveis e das casas, enquanto permanecia de rigor a comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos raros produtos das culturas, cujos proprietários recebiam uma quota ínfima, e revertiam o resto à Companhia do Bom Jesus. Todos obtinham acesso à terra e ao trabalho sem ter que sofrer as intimidações dos feitores das fazendas tradicionais. O casamento civil e a moeda oficial republicana foram abolidos, as tavernas, as bebidas alcoólicas e a prostituição proibidas; a criminalidade era aí rigorosamente refreada, e a prática religiosa era aí obrigatória. A propósito da moeda, cabe fazer algumas reservas à tese de um Canudos bastião monarquista, onde se queimavam as cédulas republicanas e onde só tinha curso a antiga moeda imperial. Certamente, fazer uso da moeda imperial internamente fazia parte sem dúvida das práticas simbólicas do núcleo central de Canudos, e talvez também Maciel repugnasse a tomar em mão a moeda republicana. No entanto, a moeda imperial tendo cessado de ter o menor valor de câmbio nos mercados da região, essa reticência não podia portanto ser partilhada pelos mercadores, camponeses e jornaleiros presentes em Belo Monte. Aliás, a prática do escambo (não monetário) ainda era corrente nos mercados do sertão, de sorte que se podia facilmente satisfazer com uma fraca quantidade de numerário[162].
Se portanto o comércio não era de modo algum de tipo socialista, a agricultura em contrapartida tinha traços incontestavelmente coletivistas. Os trabalhos do campo eram realizados em modo cooperativo, e a propriedade privada de campos e pastagens era, ao que parece, inexistente, embora Benício assinale que pequenos camponeses de Canudos detinham nos arredores pequenas hortas e pomares, ou mesmo designavam como suas tal ou qual pequena fazenda onde criavam cabras, mas talvez se tratasse aí dos camponeses que viviam nos lugares antes da chegada de Maciel e que não tinham portanto sido expropriados. Cabe assinalar que essa orientação coletivista não fincava raiz nem no cristianismo primitivo, nem na ideologia comunista, mas antes de certa velha tradição camponesa do sertão, denominada mutirão (palavra de origem tupi). Esse modo de trabalho comunalizado, herdado dos indígenas, mas praticado também noutras culturas rurais da Europa e da África, estava na base da ajuda mútua de proximidade nas economias em carência monetária, e aplicava-se quando p. ex. se propunha edificar uma casa ou quando era preciso entrar a colheita, ou, sobretudo, para manter e desenvolver os terrenos comuns, assim como para desmatar, preparar estradas e manter em bom estado os poços. A posse e a utilização em comum de pastagens (fundo de pasto) pertencia também às tradições aldeãs do sertão, e era indispensável aos pequenos detentores de gado. Finalmente, não se descuidará do valor simbólico do mutirão, que codeterminava a percepção exterior de Belo Monte, pondo o mutirão em prática com efeito relações de produção horizontais, por oposição à estrita verticalidade das relações de trabalho no sistema senhorial coronelista[163].
Os sem-abrigo do sertão e as vítimas da seca eram recebidos de braços abertos por Antônio Conselheiro. Vinham em número igualmente antigos criadores de gado, outrora ainda ricos, que não hesitaram em abandonar seus rebanhos. Ao contrário do que afirma Da Cunha, os recém-chegados não eram obrigados a entregar ao Conselheiro noventa e nove por cento do que traziam, incluindo os santos destinados ao santuário comum, ainda quando muitas famílias se prestaram de boa mente a esse sacrifício. Tendo-lhes o profeta ensinado a temer o pecado mortal do mais mínimo bem-estar, diziam-se felizes com o pouco que lhes restava e disso se satisfaziam[164]. Ao mesmo tempo, Antônio Conselheiro admitia a presença no povoado de indivíduos cujo temperamento e antecedentes apareciam pouco compatíveis com sua plácida personalidade; Canudos com efeito serviu também de refúgio a um certo número de malfeitores, dos quais alguns eram famosos, que pensavam se subtrair assim à justiça, e que paradoxalmente se tornaram logo os favoritos de Maciel, seus capangas preferidos, que garantiam sua autoridade inviolável, transformando-se mesmo em seus melhores discípulos[165].
A comunidade, uma vez estabelecida em seu novo meio e deixada a seus próprios meios, conseguiu se organizar e funcionava com um saber-fazer e uma energia espantosos. Assim p. ex., os criadores de Canudos souberam, em condições extremamente difíceis, explorar suas criações de bovinos e caprinos. Não apenas foram construídas mais de 2 000 casas em muito pouco tempo, como os conselheiristas construíram cisternas de água, uma escola, armazéns, oficinas de fabricação de armas, e a nova igreja. As palhoças de taipa de teto de colmo construídas em fileiras apertadas, retratadas como miseráveis e rudimentares por Da Cunha, não faziam na verdade senão reproduzir à idêntica, em tamanho e em concepção, um modelo de habitação camponesa difundido por todo o sertão. Canudos aparece como uma comunidade exercendo uma plena gama de funções, em condições de abrigar e gerir uma vasta população com um espectro de idades que ia do recém-nascido a homens e mulheres demasiado idosos para trabalhar, ou mesmo incapazes[166]. A realidade de Canudos era portanto diferente da visão expressa por Da Cunha, segundo quem a população do povoado, assim
constituída pelos elementos mais díspares, desde o adepto fervoroso, que já tinha, em sua vida anterior, renunciado por si mesmo a todos os confortos da vida, até ao fora-da-lei sem vínculos que chegava o fuzil ao ombro em busca de novos terrenos de feitos
, acabava no entanto ao fim de um tempo a formar uma
comunidade homogênea e uniforme, uma massa inconsciente e brutal, que crescia sem evoluir, sem órgãos e sem funções especializadas, pela só justaposição mecânica das bandas sucessivas, à maneira de um polipieiro humano
Embora a promiscuidade sexual fosse comum no sertão, Antônio Conselheiro impôs uma moral pública rigorosa, sem dúvida em relação com seu mal-estar para com as mulheres. As adolescentes surpreendidas a brincar eram punidas, e a prostituição, maciça alhures no sertão, era proscrita[168]. Mesmo os jornalistas mais cínicos notavam que, ao contrário de todas as outras localidades do sertão, a prostituição não existia em Belo Monte, nem a embriaguez constituía um problema público, nem a prisão da cidade estava cheia de vadios ou de marginais. Maciel dava o exemplo do ideal ascético, não trazendo sobre a pele senão uma túnica lacerada e só fazendo uma refeição por dia, composta de milho, mandioca e feijão, sem carne; de forma geral no entanto, a população de Canudos não o seguia nesse ponto, e limitava a privação de carne às sextas-feiras e às festas religiosas[169]. No que respeita mais particularmente ao álcool, a condenação moral por Antônio Conselheiro de seu consumo pode parecer contrária ao pragmatismo. O álcool com efeito desempenhava um papel importante, visto que as águas estagnadas do sertão eram amiúde contaminadas e que os sertanejos se esforçavam por beber o menos possível de água. O uso e a venda da cachaça (espécie de aguardente) permanecia proibida[1]. Levine nota[170] que, sob esse aspecto, Canudos se assemelhava mais à Genebra calvinista do que a uma Jerusalém ou a uma cidade brasileira tipo. Da Cunha em contrapartida afirma que uma devassidão desenfreada reinava em Canudos e que as ruas regurgitavam de crianças ilegítimas.
Se alguns dos papéis tradicionais da mulher na sociedade puderam ser substituídos por novos em Canudos, foi apenas em medida limitada. Não obstante que fossem separadas fisicamente dos homens em consequência da misoginia de Conselheiro, estavam ao mesmo tempo mais independentes do que teriam sido fora da colônia. Tarefas lhes foram atribuídas tão difíceis quanto as dos homens, e suas filhas eram admitidas a frequentar a escola primária no mesmo título que seus filhos. As mulheres, assim como as crianças e as pessoas idosas, realizavam trabalhos manuais penosos, aliás à imagem do que se passava em toda parte nos campos brasileiros[171].
A prática religiosa estruturava e pontuava a vida em Canudos mas não atingia todos os habitantes numa mesma medida. O lugar central era o santuário, onde Antônio Conselheiro passava horas cada dia à meditação e onde as beatas se exercitavam na oração e na ladainha. Cada dia começava ao alvorecer com o ofício e se terminava à noite com a terça, à imagem da ordem do dia monacal e seguindo a tradição missionária instaurada pelo padre Ibiapina. A intensidade da participação religiosa no entanto era desigual: os homens frequentavam menos o ofício que as mulheres, e mesmo alguns membros do grupo dirigente não tomavam todos forçosamente parte na vida religiosa. Ao contrário, a autoflagelação, velha tradição do sertão, era reservada ao gênero masculino[172].
Belo Monte celebrava as festas religiosas, que, como alhures no sertão, conheciam prolongamentos profanos, com música africana, fogos de artifício e álcool em quantidade moderada, costume que o Conselheiro teve de se resignar a tolerar[173]. A vida cerimonial era assegurada por uma elite religiosa, a Companhia do Bom Jesus. As principais estruturas da organização secular remetiam, por suas denominações mesmas, à superestrutura religiosa: os Doze Apóstolos (o comitê executivo) e a Guarda Católica (o alto comando militar)[174].
Maciel não só defendia a Igreja oficial, como se prendia também a fazer respeitar a autoridade desta. Considerando-se como um distinto pregador leigo, absteve-se absolutamente de administrar os sacramentos, tarefas reservadas aos padres consagrados. Os batismos, casamentos e enterros eram assumidos pelo padre Vicente Sabino, pároco de Cumbe, que dispunha em Canudos de seu próprio alojamento[175].
Segundo o que relata Da Cunha, a justiça em Canudos era, como todo o resto, paradoxal, traduzindo-se por uma inversão total do conceito de crime: se se exercia com grande rigor para as ninharias, se furtava para os maiores feitos. De fato, toda sorte de malversações era permitida, desde que aumentassem o patrimônio da comunidade. Em 1894, ataques lançados nas localidades circunvizinhas, que comandavam valentões conhecidos, acabaram por alarmar a região. Num vasto raio em torno de Canudos, sempre segundo Da Cunha, fazendas foram devastadas, povoados saqueados, vilas tomadas de assalto. Em Bom Conselho, uma horda temerária de canudenses conseguiu apoderar-se da cidade e dispersar suas autoridades, começando pelo juiz de paz Arlindo Baptista Leoni, que guardará rancor ao Conselheiro. Foi, nesse ano, tal recrudescência de depredações e rapinas que acabou por preocupar os poderes estabelecidos, dando mesmo lugar a uma interpelação e a uma discussão veemente na assembleia do Estado da Bahia. Por um tempo mesmo, Canudos tornou-se o quartel-general de grupos de combate políticos, que, seguindo direções fixadas de antemão, iam participar, a pauladas e tiros, nos tumultos eleitorais, em apoio a algum potentado dos arredores[176]. Contudo, até a primeira expedição, Antônio Conselheiro continuou a colaborar com a polícia local[177].
Graças nomeadamente à sua estatura vigorosa, Antônio Conselheiro dominava o acampamento, e se empregava em corrigir aqueles que se afastavam dos caminhos por ele traçados. Toda traição a seus princípios era passível de morte — como atesta (segundo Levine; esse incidente foi diversamente interpretado) a execução em pleno dia de Antônio da Motta e de seus filhos, que estavam entre os raros mercadores autorizados a fazer negócios em Canudos, sob a acusação de haverem comunicado informações à polícia baiana[178]. Uma pequena prisão foi preparada, na qual eram conduzidos todos os dias, pelos capangas do profeta, aqueles que haviam perpetrado alguma infração aos preceitos religiosos, p. ex., haviam faltado às orações. Entre essas obrigações religiosas figurava também o ritual fetichista do beijo das imagens, instituído por Antônio Conselheiro, onde o misticismo de cada um se dava livre curso. Aliás, por ocasião dos ajuntamentos religiosos na praça do povoado, a multidão dos fiéis se dividia segundo os sexos, em dois grupos distintos[179].
Todavia, a comunidade de Canudos estava longe de ser um mundo hermeticamente fechado. Visto que os senderos e caminhos que iam a, e partiam de, Canudos permaneciam abertos e que o lugar santo era de acesso livre, é possível, senão provável, que apenas uma parte da população se sujeitasse ao conjunto das obras e rituais de oração tais como prescritos por Antônio Conselheiro. No entanto, a ditadura utopista de Conselheiro atingia todos os habitantes de sua cidade santa pelo menos em certo grau.
Antônio Conselheiro fundou em Canudos uma escola, que ele próprio dirigia e para a qual contratava professores. Mediante pagamento de um direito de inscrição mensal, meninos e meninas eram admitidos a frequentá-la juntos, o que teria chocado os tradicionalistas fora de Canudos. Os canudenses eram encorajados a fazer dar instrução regular a seus filhos, privilégio de que nenhum teria beneficiado em suas aldeias de origem[180]. Havia aula todos os dias, e as crianças eram numerosas a assistir às lições. Parece que de forma geral Antônio Conselheiro fizesse grande caso do ensino das crianças. Na comunidade que fundou por volta de 1890 no povoado de Bom Jesus, atual Cristópolis, já havia aberto uma escola primária, que vinham frequentar as crianças do lugar e as dos arredores, mas que durou pouco tempo devido à incúria do mestre-escola. Em Canudos, o primeiro professor recrutado, originário de Soure, foi logo substituído por uma jovem de 23 anos, diplomada pela Escola Normal da Bahia, mulatinha um tanto arredia, que (segundo uma versão) sua família queria impedir de casar com um rapaz de modesta extração e que fugira com ele para Canudos. Ela morava na parte baixa do povoado, numa rua chamada por essa razão rua da Professora. Suceder-lhe-á em seguida outra professora, que conseguiu escapar ao massacre final e veio fixar-se em Salvador, onde morreu em 1944, aos 78 anos de idade[181].
Guarda pretoriana e chefes militares
Constituíra-se em torno de Antônio Conselheiro uma espécie de guarda pretoriana, chamada Guarda Católica (« Guarda católica »), ou Companhia do Bom Jesus, vigoroso grupo de sertanejos armados, em uniforme de combate, que era mantido de pé pelo próprio Conselheiro, por meio de contribuições financeiras que ia arrecadar junto aos fiéis. Alguns desses homens já eram famosos, aureolados do prestígio de suas aventuras antigas, embelezadas pela imaginação popular; alguns poucos logo teriam um papel de primeiro plano nas operações militares que se seguiriam, e alguns serão chamados nas últimas semanas da guerra a tomar a direção política da comunidade. Antônio Conselheiro, interrogado sobre sua escolta armada pelo relator capuchinho João Evangelista, lhe respondeu: « É para minha defesa que tenho comigo esses homens armados, pois Vossa Reverência deve saber que a polícia me atacou e quis me matar num lugar chamado Masseté, onde houve mortos dos dois lados »[182]. Se essa declaração de Maciel é verdadeira, a companhia do Bom Jesus teria sido criada na sequência do entrevero evocado, em maio de 1893. À chegada do Conselheiro a Belo Monte, a guarda já estava constituída, e os antigos habitantes da fazenda chamavam os membros dessa guarda de « os homens da companhia ». Incumbia a esses garantir a segurança pessoal do Conselheiro e também assegurar a defesa da cidadela de Canudos. Um grupo montava guarda noite e dia diante do santuário, residência do Conselheiro, e cada vez que este transpúnha o limiar de seu alojamento, era acolhido « por sonoras aclamações e vivas à Santíssima Trindade, ao Bom Jesus e ao Divino Espírito Santo »[134].
O comandante-chefe dessa guarda, João Abade, se era chamado « chefe do povo » (chefe do povo) e que em tempo de paz o comando desse grupo armado repousava sobre ele só, viu-se na necessidade, com o eclodir da guerra, de delegar uma parte de sua autoridade a chefes de piquetes, destacamentos encarregados de missões de vigilância e de vigia em diferentes pontos estratégicos dos arredores, nomeadamente em Uauá, nas alturas do Cambaio, no desfiladeiro de Cocorobó, em Umburanas etc. O comando desses piquetes era confiado a jagunços de comprovada valentia, dos quais alguns tinham experiência de luta armada e de guerrilha. Conhecem-se os nomes e antecedentes de vários desses chefes de piquete, entre outros por Euclides da Cunha, que consignou os nomes, e pelas deposições de Honório Vilanova, recolhidas por Nertan Macêdo e por José Calasans[183] · [184].
João Abade era um dos homens fortes de Belo Monte, conforme atestam os títulos de « chefe do povo » e de « comandante da rua » que lhe atribuíam (e que foram surpreendidos por João Evangelista durante sua visita). Como seu amigo e outro homem forte do povoado, o comerciante Antônio Vilanova, alojava-se numa casa de telhado de telhas, sinal exterior de um elevado status social. Segundo Honório Vilanova, Abade ia amiúde à casa do Conselheiro, mesmo em tempo de guerra. As teorias sobre o local de nascimento de senhor Abade (Seu Abade), como era chamado, variam: segundo uns, nasceu numa boa família de Tucano, na Bahia[135], segundo Honório Vilanova, nos arredores de Natuba (atual Nova Soure), no litoral; segundo José Aras, cresceu em Buracos, na comuna de Bom Conselho, e começou sua vida de cangaceiro sob a direção dos famosos bandidos João Geraldo e David, na região de Pombal. A notícia, segundo a qual João Abade nascera em Ilhéus, fizera estudos e assassinara sua noiva, correu durante a guerra, mas foi desmentida por outros. Tornara-se um personagem de primeiro plano no séquito do Conselheiro já antes da chegada a Canudos. Foi ele quem comandou, em maio de 1893 por ocasião do encontro de Masseté que colocou os jagunços às turras com os homens da polícia baiana. A criação da Guarda Católica, que interveio na sequência da ocupação da antiga fazenda no Vaza-Barris, permitiu ao cabeça Abade reforçar ainda sua posição, pois tinha em suas mãos doravante uma tropa aguerrida, paga e disciplinada. Respeitado e obedecido, soando a reunião de seus jagunços com um apito, dirigiu em Uauá o ataque contra o tenente Pires Ferreira durante a primeira expedição contra Canudos, em seguida, mantido no comando e não cessando de combater, verá seu nome citado em diversas ocasiões, incluindo no combate do Comboio. Segundo os escritos de José Aras, encontrou a morte quando foi atingido por um fragmento de pedra no adro de uma das duas igrejas, ao atravessar a praça em direção ao santuário, onde permanecia o Conselheiro[185].
O chefe de guerrilha Pajeú, Antônio de prenome, também contava entre os « homens fortes » de Canudos, sem dúvida o mais perspicaz, e teria supostamente sido um dos « apóstolos » de Belo Monte. Negro originário de um lugar chamado Pajeú (donde seu apelido), no rio Pernambuco Riacho do Navio[186], começou sua vida profissional como soldado de linha ou como policial[187]. Segundo Manoel Benício, desertou e foi envolvido, nos primórdios da república brasileira, na revolta de Antônio Diretor em Baixa Verde, sempre no Pernambuco, onde foi acusado de vários crimes e perseguido pela polícia[188]. Depois que se juntou à súcia de Antônio Conselheiro, e uma vez chegado a Canudos, soube pôr em proveito seus conhecimentos militares para se tornar um dos chefes mais astutos da guerra, assinalando-se em particular por sua habilidade em imaginar emboscadas, e dirigiu o combate contra a segunda expedição, nomeadamente organizando emboscadas nos arredores da Favela. De uma « bravura insuperável e de uma rara ferocidade », segundo as palavras de Da Cunha, Pajeú criava constantes dificuldades às tropas republicanas durante a quarta expedição[189]. Se se acredita em João Siqueira Santos, Pajeú teria ordenado a destruição de várias fazendas próximas de Canudos, entre as quais aquelas do coronel José Américo Camelo de Souza Velho, com o fundamento de que este tinha retido e matado sertanejos que se dirigiam a Canudos[190]. Após a morte dos principais chefes, perto do fim da guerra, Pajeú tomou sobre si o comando geral das operações, « o grosseiro Pajeú emergindo então », segundo o que escreveu Da Cunha, « com o fácies dominador de Cathelineau »[187], e teria sido morto em combate em julho de 1897, ainda que essa informação fosse contestada em setembro pelo jornalista Lélis Piedade, que considerava sem fundamento a notícia de sua morte[191].
José Venâncio, dito Zê Venâncio, jagunço conhecido e temido, que passava por ser autor de oito homicídios[192], era, com João Abade, um dos dois únicos chefes militares cujo nome foi citado por João Evangelista. Durante a guerra, alguns jornais de Salvador afirmaram que o jagunço fizera parte, na década de 1890, do grupo cangaceiro de Volta Grande, que operava nas Lavras Diamantinas. Desfrutando da confiança do Conselheiro, era um dos encarregados de coletar as doações para a construção da nova igreja. Viu-se também confiar, na esteira do combate de Uauá, a tarefa de destruir as pequenas fazendas e habitações a fim de que o inimigo não pudesse aí se abrigar durante sua marcha sobre Canudos, e destruiu assim uma quarentena de casas[193]. José Aras, confirmando que Venâncio era originário de Volta Grande, acrescentou aos seus serviços o fato de ter levado a Canudos, quando era anunciada a vinda da Predefinição:3ª expedição, alguns de seus antigos companheiros de banditismo, munidos de carabinas e fuzis Comblain tomados das forças policiais baianas[194]. Combateu até o fim, e só perecerá depois que caíram Pajeú, João Abade e Macambira[195].
Pedrão, apelido de Pedro Nolasco de Oliveira, chamado também Pedro José de Oliveira, era, segundo a convicção do historiador Calasans, que teve uma conversa com ele pouco antes de seus 70 anos, « a mais forte personalidade do efêmero império de Belo Monte ». Nascido em agosto de 1869 em Várzea da Ema, conheceu o Conselheiro em sua cidade de origem em 1885, e tornou-se logo seu adepto. No entanto, só se incorporou ao próximo séquito do Conselheiro após sua chegada a Canudos. De seu casamento, celebrado na igreja de Canudos, nasceram 17 filhos. O chefe político Honório Vilanova afirmou a Calasans que seu irmão Antônio entregou a Pedrão a autoridade sobre « trinta homens e trinta caixões de cartuchos », ou seja, um piquete nitidamente mais importante que os outros, habitualmente constituído de 20 combatentes[193]. Visto que era membro da Guarda Católica, coube-lhe muitas vezes montar guarda diante da porta do santuário, morada do Conselheiro; essa guarda era relevada de quatro em quatro horas. Viu-se confiar outras missões, nomeadamente a de arrecadar fundos para os trabalhos nas igrejas, missão para a qual Conselheiro o remunerava à razão de mil réis por viagem. Foi durante uma dessas missões que sobreveio o ataque de Uauá; de regresso ao povoado, queixou-se de que muitos dos jagunços mortos não tinham sido inumados, e disso culpou João Abade (os dois homens aliás não se amavam); o Conselheiro teve vento do caso e incumbiu Pedrão de remediá-lo; ajudado de 22 homens de confiança, empregou-se portanto em enterrar 74 pessoas, incluindo inimigos. Vários meses depois, será ele também que dará sepultura ao coronel Antônio Moreira César, desmentindo mais tarde, diante de Calasans, o fato então largamente admitido de que o cadáver do coronel fora queimado. « Mameluco frio e discreto », segundo a palavra de José Aras, Pedrão esteve segundo suas próprias declarações à frente de 40 homens no combate de Cocorobó, e não no de Canabrava, como está indicado no livro de Da Cunha. Sua mulher e uma de suas filhas foram feridas na última fase da guerra, mas sem gravidade; Pedrão aliás não perdeu nenhum de seus filhos. Conseguiu sair de Canudos com sua família quando já o Conselheiro se achava moribundo. Refugiou-se no Estado do Piauí, depois errou algum tempo no Nordeste antes de voltar a Várzea da Ema, e em seguida se fixar no acampamento de Cocorobó, onde um abrigo lhe foi construído e onde morreu, perto de 90 anos, em junho de 1958; segundo o que afirma José Aras, foi enterrado em grande pompa em Nova Canudos[196]. Antes disso, na década de 1930, deixou-se recrutar pelo capitão Juraci Magalhães para ir combater o salteador Lampião, mas sua brigada volante de quinze homens nunca teve ocasião de enfrentá-lo diretamente[193].
Bernabé José de Carvalho teve um papel dramático na fase final da guerra. Esse jagunço solteiro, acusado de ter cometido um homicídio em Salvador na sequência de algum incidente numa casa de jogo, tinha antecedentes místicos, tendo com efeito sido beato do padre José Vieira Sampaio de Riacho de Casa Nova[197]. Recusou assumir o comando de um piquete, assim como lhe rogaram alguns de seus camaradas de combate. Em 2 de outubro de 1897, apresentou-se diante do general Artur Oscar, oferecendo-se para ir, em companhia do tímido Antônio Beato (dito Beatinho), parlamentar com os jagunços que se obstinavam a prosseguir a luta e de convencê-los a se render[198]. Ambos voltaram ao acampamento militar arrastando atrás de si centenas de seus camaradas de combate, uma massa famélica, esfarrapada, ferida, morrendo de sede. As versões divergem quanto ao desfecho desse episódio; segundo o jornalista Fávila Nunes, Bernabé pôde voltar para sua região de origem[199], segundo Euclides da Cunha, não pôde[200]; Alvim Martins Horcades por sua parte, sem mencionar o nome de Bernabé, fala de Antônio Beatinho e de seus dois companheiros, encarregados da missão de levar a render-se os jagunços recalcitrantes, com base no que o general Artur Oscar garantia a vida salva a todos. Os três emissários contudo foram degolados às 8 horas da noite de 3 de outubro de 1897, e com eles quinze combatentes conselheiristas[201] · [202].
O jagunço Antônio Marciano dos Santos e Viera, homem abastado originário de Riachão do Dantas, no Sergipe, habitava a fazenda Samba, hoje na comuna de Bonfim. Casara com Maria Jesus dos Santos, que devia morrer de varíola em Alagoinhas, após a guerra, e de quem teve dois filhos, que seriam recolhidos pelo Comitê Patriótico de Lélis Piedade. Segundo este, Marciano dos Santos era parente do tenente-coronel José de Siqueira Menezes, um dos altos graduados da Predefinição:4ª expedição, e se aplicava a prover Canudos de quantidade de recursos. É o mesmo Lélis Piedade que relata em seu relatório do Comitê Patriótico o fim heroico e trágico de Marciano do Sergipe, morto por decapitação em Canudos. Perto do fim da guerra, Honório Vilanova, ferido e informado da morte do Conselheiro, desejou sair do povoado e convocou alguns chefes jagunços para avisar sobre a conduta a ter. Assim reunidos em conselho, esses combatentes aguerridos, quase todos de Natuba, fecharam-se em seu mutismo enquanto Honório Vilanova defendia a ideia de retirada, única opção após a morte de Antônio Conselheiro. Um dos presentes no entanto, Marciano do Sergipe, respondeu placidamente, os olhos dirigidos para o chão: « Se o Conselheiro morreu, quero morrer eu também ». Segundo Honório Vilanova, morreu atrozmente supliciado pelos soldados republicanos[203].
A mencionar ainda o negro Estevão, coberto de tatuagens, que eram outras tantas recordações de seus numerosos combates; Quinquim de Coiqui, que foi vencer a primeira vitória sobre a tropa regular; Antônio Beato, mulato alto e magro, já mencionado, muito próximo do Conselheiro e espionando por conta deste.
Reações hostis
Queixas das autoridades eclesiásticas
Antes que fundasse Belo Monte, Maciel/Conselheiro ocupou-se, além de sua atividade de pregação, de reparar as igrejas e cemitérios do sertão, e tentou assim remediar ao verdadeiro estado de degradação das infraestruturas da Igreja, à qual esta não estava materialmente em condições de fazer face. Conselheiro e os poucos homens de ofício que o acompanhavam eram portanto acolhidos favoravelmente nas paróquias rurais, e mesmo a arcebispo de Salvador não teve no começo nada a opor às atividades de Maciel. Contudo, já em 1875, o arcebispo proibiu estritamente a pregação do leigo Maciel; quando o pároco de Aporá lhe deu conta dessa interdição, Maciel deixou docilmente o povoado, mas nem por isso quis renunciar a pregar, nem no exterior nem no interior das igrejas. Quando em abril de 1876, três pessoas perderam a vida durante um de seus sermões, na localidade de Abrantes (hoje distrito de Camaçari), as autoridades, instadas nisso pelo arcebispo, decidiram intervir contra Maciel e o puseram em estado de prisão em Itapicuru, sob uma acusação que devia se revelar sem fundamento[204].
Na década de 1880, suas atividades continuarão a suscitar as mesmas reações: alguns padres favoreceram seu zelo de reparador e construtor, a despeito da interdição episcopal, mas certamente poucos foram tão longe quanto o pároco de Inhambupe que acolheu com repique de sinos e fogos de artifício a missão sob forma de novena que Maciel devia realizar na paróquia; alhures, na maioria das vezes, os padres se punham no caminho e se esforçavam por afastá-lo, com mais insistência ainda depois que o arcebispo de Salvador, Luís dos Santos, em fevereiro de 1882 proibira formalmente, por via de uma circular, aos padres deixar Antônio Conselheiro exercer suas atividades e reunir em torno de si os fiéis. Nada disso pôde impedir o auditório de Maciel de crescer ainda e àqueles que lhe faziam cortejo de continuar a crescer em número. Em 1886, foi expulso alternadamente, por uma ação concertada dos párocos das freguesias concernidas, de Patrocínio do Coité, de Simão Dias e de Lagarto. Os mesmos padres se mostraram intratáveis quando Maciel cogitou voltar dois anos depois, e souberam além disso assegurar o apoio da polícia. No entanto, visto que Maciel cada vez se inclinava pacificamente, nunca houve altercações violentas entre as forças da ordem e os companheiros de Maciel, que deviam ser então em número de 54[205]. Em 1888, o arcebispo da Bahia viu-se novamente forçado a expedir uma circular a todos os seus subordinados proibindo-lhes todo contato com o Conselheiro, pois lhe « viera ao conhecimento que alguns eminentes padres tinham incumbido Maciel de reparar igrejas e de construir cemitérios »[206].
No início, a teologia de Maciel concordava com a doutrina oficial do Vaticano do final do século XIX, e por conseguinte com a da Igreja Católica brasileira, mas não era mais o mesmo no momento da fundação de Belo Monte, ocorrida quatro anos após a proclamação da república. Já em 1890, Roma reconheceu a república do Brasil, e as autoridades eclesiásticas professavam doravante neutralidade em relação aos sistemas políticos, curvando-se assim diante do inexorável e tendo a tarefa agora de renegociar, numa posição de aceitação e conciliação, os direitos políticos e sociais da Igreja brasileira. Maciel estava a par dessa posição adotada pela hierarquia católica, nem que fosse porque o capuchinho Marciano o confrontou diretamente com o ponto de vista do papa. Maciel não aceitou esse compromisso e se situou desde então fora da linha oficial da Igreja, da qual no entanto nunca contestará a autoridade. Por efeito desse contexto político-religioso modificado, a prática religiosa conselheirista, que contudo se inscrevia numa longa tradição religiosa popular e que certamente esbarrava em certos pontos de doutrina com o ensino católico oficial, devia agora aparecer como um fundamentalismo religioso[207].
Queixas das autoridades civis
No capítulo da ordem pública, as autoridades municipais tinham poucas queixas a fazer valer contra os jagunços armados. Estes com efeito não amedrontavam em demasia os sertanejos, visto que existia na região uma tradição de serviços de proteção para os padres e outras personalidades religiosas. As queixas de fazendeiros se limitavam na maioria das vezes a acusações de que ladrões de gado usavam Canudos como santuário para se subtrair às perseguições. Segundo Levine, não havia na realidade criminosos procurados entre as ovelhas de Antônio Conselheiro, como dele se acusou ulteriormente[83]. No entanto, segundo esse mesmo autor, noutro lugar de sua obra (p. 165), havia sim em Canudos alguns indivíduos procurados pela justiça, em número limitado sem dúvida. Por sua parte, a historiadora Katia de Queirós Mattoso indica: Todos se instalam no lugar chamado Belo Monte, que se transforma muito rapidamente numa cidade de 30 000 habitantes, que vive dos recursos agrícolas do lugar, num sistema de produção semicomunitária, e do comércio do gado e do couro. Mas, amiúde, quando os víveres faltam, fazendas e pequenas vilas são invadidas pelos jagunços do Conselheiro que aí buscam víveres. O medo instala-se em toda a região (comunicação no seminário a Descoberta do Brasil pelos Brasileiros realizado em Paris por ocasião do centenário de Os Sertões em 22 de novembro de 2002, e reproduzida em le Brésil face à son passé, p. 68). Segundo o historiador Bartelt ao contrário, o estereótipo jornalístico segundo o qual Canudos fervilhava de bandidos não era totalmente desprovido de fundamento. A existência de um esconderijo no mais profundo do sertão, onde as autoridades não se aventuravam quase e cuja proximidade com o Raso da Catarina aumentava ainda o atrativo, teve o efeito de atrair para Canudos um certo número de verdadeiros jagunços e de delinquentes fichados. Os comandantes mais notáveis de Belo Monte, notadamente João Abade, Pajeú e José Venâncio eram procurados pela polícia, para alguns deles por homicídio[208]. A acusação de subtração de delinquentes à justiça, se tivesse sido feita contra Maciel, teria seguramente sido justificada[209].
Os relatos contemporâneos dando conta de razzias e saques sistemáticos, e de homicídios ocasionais, aparecem fortemente exagerados, e em regra geral obtidos de segunda ou de terceira mão, ou mesmo constituem falsificações. A documentação do pós-guerra corrobora a suspeita de que os crimes alegados se limitavam a fatos isolados ocorridos durante a fase quente do conflito e devendo ser compreendidos como reações de defesa no quadro de uma ameaça propriamente existencial. Não havia aí o que justificasse uma intervenção policial ou militar da parte das autoridades do Estado federado[147].
Por outro lado, o boicote fiscal instaurado por Antônio Conselheiro era incontestavelmente ilegal. A constituição brasileira sancionava explicitamente aquele que por motivos religiosos buscava se subtrair às obrigações civis decorrentes das leis da república. Da mesma forma, a decisão dos canudenses de não contrair matrimônio senão diante do padre, sem passar pelo registro civil, contrariava as novas disposições legislativas republicanas[147].
Em meados da década de 1890, os proprietários de terras começavam a se queixar em privado, amiúde com veemência, desse êxodo massivo com destino a Canudos[210]. Canudos com efeito ameaçava a ordem estabelecida, na medida em que fazia vacilar dois pilares maiores da estrutura de poder oligárquica rural: por um lado o sistema de mão de obra flexível, e por outro o voto arranjado, pelo qual os chefes locais captavam todos os sufrágios colocados sob sua tutela para os entregar em seguida aos políticos republicanos, em contrapartida do exercício do poder local[211]. A primeira queixa oficial contra o Conselheiro, emitida por atentado à ordem pública e emanando de um policial local, data de março de 1876, mas foi deixada sem seguimento[212].
Canudos, ao decidir soberanamente quais normas estatais deviam ter curso em Canudos, e quais não, violava o monopólio de poder do Estado. Bartelt fez questão de salientar que no sertão do final do século XIX, o Estado aparecia mais como uma coisa virtual do que como uma realidade institucional palpável. As instituições, na medida em que existiam, eram ocupadas e agiam em função dos critérios das elites tradicionais. O sistema coronelista e seus códigos próprios faziam as vezes de facto de instituições públicas e se apoiavam no exercício da força privada. Em consequência, segundo Bartelt, Belo Monte não deve ser considerado como um Estado no Estado, mas bem antes como uma tentativa de substituto de Estado social. O Estado de direito republicano, subentendido pela constituição, era uma casca vazia, e o discurso a ele aferente um vão exercício. Esse estado de fato tingiu a questão de saber se Antônio Conselheiro liderava uma oposição política deliberada. Na realidade, não se tratava tanto para ele da forma republicana em si mesma, do que de certos conteúdos particulares (catolicismo de Estado, casamento religioso, etc.) outrora garantidos pela monarquia mas que a república revogou. Belo Monte não era monolítica, nem em oposição radical e intransigente com sua vizinhança. A república não podia se sentir ameaçada por um movimento religioso geograficamente circunscrito, enquanto o território concernido não estivesse de facto sob a tutela republicana[213].
As principais queixas contra Maciel se situam sem dúvida alhures e têm pouca relação com seu antirrepublicanismo. Embora não colocasse a ordem estabelecida fundamentalmente em questão, e que fosse consciente de suas margens de manobra, irrompeu no sistema de poder coronelista regional, e esbarrou nos códigos de poder privados tradicionais do sertão. Tolerado por um tempo, Belo Monte será vítima de uma dupla dinâmica que porá fim a esse frágil equilíbrio: o afluxo massivo de gente, que será na origem de um problema de mão de obra, e o fato de que Canudos, por seu só tamanho, se tornara um fator de potência na região. Canudos ameaçava um sistema de poder regional, mas em nenhum momento a república enquanto tal[213].
Queixas da aristocracia fundiária do sertão
Antônio Conselheiro provocou uma reviravolta social importante nessa parte do sertão : desarticulou a organização econômica, perturbou profundamente a hierarquia católica, e esteve na origem de uma tormenta social. Em particular, os grandes fazendeiros locais e seus afiliados viam com abatimento produzir-se, num curto lapso de tempo, de meados de 1893 até 1895, um súbito êxodo de centenas, e depois de milhares de famílias, que Antônio Conselheiro subtraía assim a seus lares[214]. Cada povoado e cada municipalidade de uma vasta zona do sertão viu contingentes inteiros de peregrinos deixar sua antiga residência, numa região que já tinha uma densidade de povoamento muito fraca[110]. O sistema tradicional de agricultura e criação obrigava os proprietários de terras a explorar, como cultivadores irregulares ou jornaleiros deserdados, uma grande massa de manobreiros sedentários, enquanto o sistema político precisava de apoiar-se em classes inferiores dóceis. O súbito crescimento de Canudos veio de repente comprometer esses arranjos e acabou por abalar o frágil equilíbrio do sertão. É certamente exagerado dizer que Canudos ameaçava a república, mas, ao transtornar o status quo rural, a comunidade granjeou a animosidade dos interesses locais, os quais se sentiam justificados a empreender démarches contra ela[116].
Antônio Conselheiro no entanto não tinha a intenção de desafiar ou de derrubar a ordem social estabelecida na região. Antes, queria que Canudos pudesse servir de refúgio àqueles desejosos de viver numa comunidade de observância, ao largo das tentações temporais — daí sua ordem de deixar para trás suas posses e de se retirar pacificamente nessa "nova Jerusalém" que era Belo Monte[215]. Os canudenses levavam uma existência muito regulamentada e protegida, segundo regras estabelecidas por Conselheiro, mas de resto muito normal; mesmo, para uma localidade no meio do sertão, no século XIX, Canudos podia ser qualificada de próspera[116]. A vida aí era pastoral, centrada na criação, nas culturas sazonais e nas cerimônias religiosas diárias.
Até seu primeiro engajamento contra as forças governamentais, os canudenses eram de comportamento mais calmo e passivo e a colônia coexistia pacificamente com seus vizinhos. Excetuando alguns motins breves e anedóticos, desencadeados entre outros por modificações do regulamento dos mercados, seu comportamento no cotidiano não denotava nenhum ódio nem nenhum duradouro antagonismo de classe; ao contrário, uma espécie de fatalismo místico levava os pobres dos campos a aceitar sua condição sem resmungar. Os costumes locais profundamente enraizados, as representações tradicionais em torno da raça, e também a péssima imagem de si dos pobres, minavam sua capacidade de ação coletiva e impediam que suas queixas e suas desgraças desembocassem numa atitude reivindicativa ou numa luta ativa, e produziam antes um recuo psicológico ainda mais profundo. Sob a direção de um chefe carismático do tipo de Antônio Conselheiro, uma eventual tentação à revolta espiritual tomava então a forma de uma esperança messiânica, manifestando-se pela resolução de sair do mundo temporal e de buscar refúgio numa comunidade abrigada e disciplinada[216].
Ao contrário de Padre Cícero, que permitiu a seus tenentes concluir acordos políticos e fez por isso de sua comunidade teocrática uma força notável na política do Nordeste, Antônio Conselheiro era a esse respeito demasiado inflexível para fazer aliança com qualquer movimento político que fosse, mesmo que seu apoio inicial aos partidários de Luís Viana incite a pensar que, por um tempo ao menos, e provavelmente sob a influência de seus tenentes, pudesse ter sido tentado a se curvar aos usos políticos locais[215].
Instauração de um discurso denegridor
O primeiro texto sobre Maciel/Conselheiro jamais publicado na imprensa, o artigo do jornal satírico O Rabudo de novembro de 1874, será também o primeiro marco do processo de construção de um discurso estereotipado contra o pregador itinerante e seu movimento. Entre os qualificativos empregados em relação a Maciel nesse primeiro artigo, destacam-se os de « charlatão », « fanático », « delinquente » e « asceta »; a propósito de seus adeptos, oriundos do povo miúdo, os termos usados são: « sem instrução », « crédulo », « fanático ». O artigo se encerra com um apelo à prisão do pregador[217].
O discurso sobre Maciel e seus adeptos, e depois sobre Belo Monte, se edificará e se desdobrará subsequentemente segundo um conjunto de paradigmas portadores, de que o historiador Bartelt se atarefou a fazer o recenseamento[218]. São eles: em ligação com Antônio Conselheiro: piedade/ascese, charlatanice/hipocrisia, heresia, fanatismo, subversão/desrespeito à autoridade, criminalidade (bandido, ladrão, assassino), doença mental; em ligação com a multidão de seus seguidores: credulidade/facilidade de seduzir/superstição, ignorância (ausência de instrução), fanatismo, criminalidade. O povo figura assim como correlato funcional do Conselheiro. Os diferentes paradigmas, ligados entre si (heresia com doença mental, insubordinação com criminalidade etc.), compõem uma matriz discursiva, uma grade aplicada, toda ou parte, de forma recorrente, ao movimento conselheirista e a seu líder espiritual[219].
Uma das armas mais temíveis da Igreja era a estigmatização como herege. Embora os fatos e gestos de Maciel fossem insuficientes para lastrear tal acusação, e não obstante que nomeadamente o pároco de Inhambupe houvesse tentado convencer sua hierarquia de que as práticas de Maciel « nada mais eram do que a verdadeira lei de Deus, e sua vida nada mais do que uma verdadeira penitência », o discurso da Igreja e a semântica utilizada continuarão a se situar no campo da heresia[220]. Primeiro, denegriu-se a prática religiosa de Maciel como sendo excessivamente rigorosa[221], para em seguida lhe censurar « ensinar doutrinas supersticiosas e uma moral excessivamente severa, e fazer nascer a confusão nos espíritos e assim minar sensivelmente a autoridade dos padres destes lugares »[222].
A única guardiã da verdadeira doutrina é a Igreja oficial. Em 1886, isto é, ainda sob o Império, o teólogo Julio Fiorentini foi missionado pelo episcopado de Salvador para sustentar, instruir e, se fosse o caso, disciplinar os párocos locais. Suas cartas de relatório ao bispo contêm todos os principais elementos da sobredita matriz discursiva[220], estabelecendo em particular um vínculo entre o paradigma do desrespeito ao monopólio da Igreja (em matéria doutrinária e disciplinar) e aquele da infração às leis civis por uma conduta criminosa, e salientando igualmente várias vezes uma correlação entre fanatismo e criminalidade. A conclusão (
é da mais alta importância que esse homem e seus capangas sejam expulsos
) impunha-se então de si mesma[223]. Cabe recordar que sob o Império, o catolicismo era religião de Estado, e que por conseguinte Igreja e Estado são sempre lesados conjuntamente. O vínculo é tornado completamente explícito numa carta do arcebispo Dos Santos aos presidentes de província, onde Maciel é acusado de espalhar
doutrinas subversivas da ordem
, numa confusão entre hierarquia eclesiástica e ordem pública, confusão bem oportuna numa situação em que os meios dos padres locais não bastavam para estancar a influência crescente do Conselheiro[224]. São assim assimilados heresia/usurpação do status de padre por um lado e subversão/incitação a distúrbios/desorganização do sistema de trabalho/delinquência por outro[225].
O paradigma da patologização de Canudos, uma das valências do paradigma fanatismo, é um subproduto das teorias positivistas, evolucionistas e racialistas que tinham feito sua entrada no Brasil por volta de 1870 e tinham fornecido novos conceitos. Em testemunho, a carta enviada pelo presidente de província Bandeira de Mello ao arcebispo Dos Santos, onde ele propõe fazer admitir Antônio Conselheiro numa clínica de doentes mentais no Rio de Janeiro, catalogando assim Maciel como problema patológico, relevante da medicina moderna[226].
|
Canudos nada mais é do que um monstruoso acidente das aluviões morais do sertão: a ferocidade das lutas primitivas, a rudeza dos instintos agrestes, a credulidade da incultura analfabeta; Canudos, é o banditismo predador do crime, a pugnacidade implacável dos ódios locais, a escuma do campo e da cidade, o resíduo da ociosidade, da miséria, do quartel e da prisão; todos esses sedimentos orgânicos da anarquia, afluídos de todos os recantos do Brasil por um estuário comum até os golfos afastados do nosso sertão, puderam durante 20 anos, com toda a tranquilidade, fermentar e chocar pela fascinação de um iluminado, pelo delírio de uma alucinação supersticiosa. A indulgência tipicamente brasileira deixou esse estado de coisas seguir imperturbavelmente seu curso 20 anos seguidos e atravessar dois regimes políticos. O homem com efeito não parecia senão um monomaníaco religioso inofensivo. No entanto, isso devia acarretar essas consequências extraordinárias e fatais. |
| Rui Barbosa[227] |
Esse discurso hostil será apenas fracamente contrabalançado por algumas tomadas de posição mais complacentes com os canudenses. Por ocasião do debate no parlamento da Bahia em 1894, já evocado acima, a oposição tentou, por razões de pura tática politiqueira, retratar os adeptos de Maciel/Conselheiro como vítimas inocentes cativas de um alienado mental, salientando ao mesmo tempo que a vida desses infelizes poderia ser posta em perigo pela política repressiva levada a cabo pelo governador Viana. Assim a oposição bahiana apresentou durante algum tempo os canudenses como vítimas da repressão do Estado, no desejo de poder transferir para si mesmos esse status de vítima[228]. Rui Barbosa, desde a capital federal, fizera seus os usuais paradigmas do fanatismo, da credulidade e do primitivismo dos canudenses, mas recusou vigorosamente a ideia de que Canudos fizesse parte de uma ampla organização monarquista estruturada:
A essa imputação inepta, que faz de Antônio Maciel a encarnação das reivindicações do monarquismo, o libelo, cuja ferocidade se nutre de chamas e sangue, nunca toma a peia, para validá-la, de trazer sequer a sombra do início de uma prova. Ninguém até agora conseguiu assinalar o mais leve indício de uma intromissão dos restauradores [do Império] nos eventos de Canudos. Não há nesse sentido um só fato, um só testemunho, uma só aparência concludente, ou uma só suspeita.
— Rui Barbosa, 24 de maio de 1897[229].
Foi, ironicamente, a imprensa monarquista, em particular o diário paulista Gazeta da Tarde, que se deu ao trabalho de lembrar que os direitos fundamentais instituídos pela república deviam também se aplicar aos canudenses. A Gazeta da Tarde, que não se cansava de pôr em evidência a superioridade política, econômica e moral da monarquia (por oposição ao caos, à anarquia, à corrupção, à tirania, à inflação etc. do regime republicano), tomou a defesa de Antônio Conselheiro, descrevendo-o como
um homem de um espírito superior, que por sua palavra e pelo exemplo de sua vida ascética adquiriu uma influência poderosa e irresistível sobre as massas
. Se se viu também aqui surgir os mesmos clichês dominantes, foi para revertê-los em seus contrários, ou fazê-los mudar de recipiente: p. ex., os epítetos de « herói » e de « mártir », habitualmente atribuídos aos soldados do exército republicano, couberam aqui aos jagunços, e o rótulo de « monstro », reservado aos conselheiristas, passou aos militares do exército regular. No entanto, após os atentados antimonarquistas de março de 1897, a voz do monarquismo político se extinguiu abruptamente[230].
O escritor Joaquim Machado de Assis, que manteve entre 1892 e 1897 uma crônica regular no jornal Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, forneceu outra voz dissonante. Assis tratou os paradigmas e topos do discurso dominante no modo irônico, utilizando-os em sentido contrário, e se erigiu em feroz defensor do direito à liberdade de opinião, a qual incluía segundo ele a liberdade de ter visões religiosas e de as dar a conhecer a outrem. Mas também aqui, os canudenses permanecem em regra geral sem consistência e sem personalidade, e Assis faz intervir o Conselheiro como um signo funcional para as necessidades de uma demonstração fazendo opor romantismo e modernidade urbana. No entanto, Assis se empregou em desmontar o aparato discursivo dominante em quase todos os seus aspectos, e seus dois últimos bilhetes, embora redigidos em fevereiro de 1897, isto é, pouco antes da terceira expedição, advertiam contra a catástrofe humanitária vindoura. No entanto, a palavra literária permanecerá impotente face à opinião política, e os sarcasmos do escritor não serão de nenhum efeito[231].
Formação de um consenso favorável à destruição de Canudos
Em maio de 1894 um vivo debate teve lugar na câmara dos representantes do Estado da Bahia a respeito de Canudos e de Antônio Conselheiro. O ponto de vista das elites do litoral foi defendido por Antônio Bahia da Silva Araújo, deputado nativo de Salvador, que recorreu às estratégias de criminalização e de fanatização/patologização e lançou alegações não verificadas segundo as quais Maciel disporia de seus próprios efetivos de polícia, procederia a prisões nas aldeias vizinhas, editaria suas próprias leis, disporia de um importante poder político por meio dos 10 000 eleitores potenciais que tinha à sua disposição e dos quais era inconcebível que não fizesse uso e desfrutaria de um poder financeiro considerável. Canudos constituindo um « Estado no Estado », ameaçaria a ordem do sertão e a luta contra ele transcende o clivagem entre os partidos políticos pois os partidos rivais têm ambos fazendeiros em suas fileiras[232]. Em face, a posição sertaneja periférica era encarnada no debate pelo deputado José Justiniano Pereira, originário do sertão, ao mesmo título que as figuras dirigentes José Gonçalves e Luís Viana. Depois de deplorar a predominância da metrópole costeira, Justiniano fez os seguintes esclarecimentos: 1) Maciel beneficia do apoio dos padres locais; 2) realiza um trabalho que nem o governo nem a Igreja foram em condições de realizar; 3) a acusação de delinquência foi oficialmente refutada; 4) Maciel é um homem virtuoso, um verdadeiro asceta, não um hipócrita, ainda que seja sem contesta um fanático; 5) o povo, na sua credulidade e falta de instrução, crê que Maciel diz a verdade; 6) Canudos é certamente de catalogar como fator de desordem, mas não de sedição, e nenhuma ação penalmente repreensível pôde ser constatada; 7) a percepção de Canudos está alterada pelos combates mortíferos em curso no sul da Bahia (o Terror)[233]. Dado que no sertão, prosseguiu Justiniano, a religião desempenha um grande papel, convirá dissolver o movimento por meios religiosos, e só recorrer em último recurso aos meios militares, a fim de evitar o sacrifício inevitável de mulheres e crianças. Justiniano propôs portanto enviar ao local um missionário — proposta que não será aceita[234].
Em 1895, um ano antes do desencadeamento das operações militares, o frade capuchinho João Evangelista de Monte Marciano, um desses eclesiásticos europeus aos quais a Igreja brasileira julgou dever recorrer para seu projeto de recolocação no rumo doutrinal e disciplinar, foi enviado a Canudos pelo bispo da Bahia Jerônimo Tomé da Silva, a pedido e proposta do governador Joaquim Manoel Rodrigues Lima. A personalidade daquele que foi encarregado dessa « santa missão » não se prestava quase a uma empresa de persuasão e conciliação; Marciano com efeito se propunha a
proclamar a verdade evangélica
e a
lembrar aos sectários seus deveres de católicos e de cidadãos
[235]. Marciano teve uma conversa com Maciel, durante a qual lhe representou que
a Igreja condena toda revolta e aceita todas as formas de governo
; é assim mesmo na França, onde
o povo todo inteiro, incluindo os monarquistas locais, obedecem às autoridades e às leis
; quanto à Igreja brasileira,
nós reconhecemos, do bispo até o último dos católicos, o governo atual. Só você não quer se submeter
. O termo República é de tomar aqui como o signo da ordem e da autoridade estatais, das quais a Igreja oficial havia entretanto se conformado[236]. O relatório que redigiu Marciano conheceu grande fortuna e permanecerá até 1897 o texto sobre Canudos mais difundido[237]. Desde o início de sua exposição, Marciano se aplica a amalgamar os domínios Estado e Igreja associando os paradigmas da heresia e da criminalidade, e no final de seu relatório resume seu ponto de vista da seguinte maneira:
A seita político-religiosa que se instalou e se entrincheirou em Canudos não é apenas um foco de superstição e fanatismo, e um pequeno cisma no seio da Igreja baiana, mas também e sobretudo um germe, em aparência acessório, mas na realidade perigoso e funesto, de resistência temerária e de hostilidade contra o governo constitucional do país — poder-se-ia dizer um Estado no Estado —, onde as leis não são observadas, as autoridades não são reconhecidas, e a moeda republicana é proibida de circular. […] Neste triste lugar, a lei está sem poder, e as liberdades públicas são consideravelmente restringidas. Pela causa da religião, da paz social e da dignidade do governo, são necessárias medidas, próprias a restabelecer na localidade de Canudos a autoridade da lei e nossos direitos enquanto povo civilizado, e a permitir que a religião católica possa novamente se exercer sem restrição.
— João Evangelista de Monte Marciano
Notar-se-á que Marciano se expressa ao mesmo tempo em nome do Estado e da Igreja, que, embora constitucionalmente separados, devem aqui se unir contra uma ameaça comum[238]. Um enunciado central do texto é a afirmação de que Canudos abriga uma oposição militar organizada, dirigida contra a República e contra a Igreja; a imagem da população toda inteira constituída em exército, sua atitude agressiva, Canudos como campo militar entrincheirado, a supermilitarização (onde mesmo as mulheres e as crianças são chamadas sob as armas) são outros tantos elementos avançados em apoio a essa tese. Assim a heresia religiosa de Maciel se desmascara como biombo de uma subversão política. O movimento está agora caracterizado essencialmente como organização rebelde militar, como potência militar inimiga[236]. O relatório de Marciano permitiu fazer a junção entre o discurso religioso e o político-jurídico, e subsumir a religiosidade de Canudos sob o paradigma político, e prefigura, tendo em conta o fracasso dessa missão pacífica, o inevitável consenso a vir sobre a necessidade de destruição de Belo Monte. Marciano deixou Canudos enviando à comunidade as seguintes palavras:
Não quiseste reconhecer os emissários da verdade e da paz e não aceitaste a tua salvação. Mas dias virão sobre ti, em que forças invencíveis te assaltarão, vigorosos braços te dominarão e arrasarão teus muros, desarmarão teus sicários e espalharão a todos os ventos a má seita que te humilhou sob o seu jugo.
Esse texto é a última tomada de posição da Igreja sobre Canudos, a qual permanecerá na sequência largamente muda sobre esse assunto.
Num dos compartimentos do aparato discursivo anti-Canudos, Belo Monte era encarado como um adversário militar e (após 1896) apto à guerra. Esse paradigma (o de Canudos como instrumento manipulado ou como parte integrante e deliberadamente participante de uma conjuração monarquista visando a uma reversão do regime) começou a desempenhar um papel portador no discurso sobre Canudos a partir de março de 1897. Na realidade, o monarquismo como força política militante e intelectual era afinal de contas permanecido insignificante fora do Rio de Janeiro e de São Paulo, e na Bahia, a produção jornalística monarquista não merece quase menção. A novidade consistia em que uma relação estava agora estabelecida entre uma hipotética conjuração monarquista e o Nordeste[239].
Em 19 de março de 1897, estudantes de diferentes estabelecimentos de ensino superior da Bahia publicaram um manifesto conjunto à atenção dos
colegas e republicanos dos outros Estados federados
, que será publicado tal qual, amiúde sem comentário, em muitos jornais baianos e dos outros Estados, numa tiragem à parte de sete páginas[240]. Concebido como uma súplica em favor da Bahia, o manifesto se atém a explicar o aparecimento de Canudos e o fanatismo dos conselheiristas por considerações médico-psicológicas e antropológicas. A conclusão para a qual se encaminhavam os redatores do manifesto era a de que os canudenses não desejavam um outro Estado, mas queriam se libertar de toda influência estatal. Considerar que os sertanejos pudessem querer lutar contra tal sistema político e lhe desejar tal outro aparece absurdo, pela simples razão de que lhes falta toda noção e toda representação do Estado, da nação e da pátria. Contudo, ao revés do que se poderia esperar, a consequência final tirada pelos autores não será a de que o sertão
precisa de escolas antes que de canhões
, segundo a expressão de Da Cunha, mas que o
fanatismo sedicioso [devia] ser eliminado imediata e completamente
», juntando-se assim ao consenso geral de aniquilamento[241].
Após o fracasso da terceira expedição, poucos foram aqueles que não aderiram ao sobredito consenso de destruição. Significativamente, uma carta de Gonçalves a Prudente de Morais deixa entender que os conselheiristas se colocaram duplamente fora do Estado: primeiro como cidadãos, pelo que o dever dos cidadãos republicanos é trabalhar por sua destruição; depois como baianos, pois a Bahia deve ser salva deles. Esse texto toca indiretamente num dos pontos do discurso sobre Canudos mais carregado de consequências: a questão de saber se Maciel e seus partidários caem sob a proteção dos princípios da constituição e das diretivas do Estado, e se ainda são de considerar e tratar como cidadãos brasileiros[242].
|
Antônio Maciel, Antônio Conselheiro e Bom Jesus, eis três nomes diferentes, mas um só basta para designar concretamente o inimigo da ordem estabelecida, o pregador contra os princípios inalteráveis da lei, do trabalho e da moral. Não pretendo me demorar mais sobre esse criminoso, que na capital já se qualifica de perturbado, maníaco e demente, e que em breve se chamará sem dúvida um mártir. Há mais de 20 anos não é um desconhecido; esse lapso de tempo é suficientemente longo para demonstrar a negligência e a inação daqueles que contudo eram supostos regular o mercado de trabalho e espalhar a paz e a fidelidade às leis para o bem da sociedade brasileira. Mais uma vez, deixou cair seu cajado de monge-mendicante, apoderou-se do sabre do bandido e se entrincheirou no povoado de Canudos […]. Dispõe de fanáticos suficientes que creem na ressurreição e que estão armados de carabinas automáticas. Permanentemente, desafia as forças armadas e lhes trava combates, de sorte que valorosos soldados já caíram no campo do dever. |
| Capitão Salvador Pires de Carvalho (6 de dezembro de 1896)[243]. |
Entre março e outubro de 1897, a opinião pública brasileira, movida por todos os paradigmas evocados acima (heretização, fanatização, criminalização, patologização, militarização, politização), aos quais se tinham juntado os da naturalização e da bestialização (Canudos sendo alçado a rango de antítese da civilização), será finalmente unânime a reclamar a destruição de Canudos[244].
Decisão da intervenção militar
O que finalmente pôs em movimento a série de eventos que determinarão, dobrados cada um de sua ressonância discursiva, a cadeia de causalidade e a escalada de violência que haveria de resultar onze meses mais tarde na destruição completa de Canudos, foi a fabricação deliberada em outubro de 1896 de uma falsa ameaça. Antônio Conselheiro encomendara (e pagara adiantado) uma quantidade de madeira de armação a um coronel de Juazeiro, e, sua mercadoria tardando a vir, decidiu enviar alguns de seus homens para buscar a encomenda. Não está estabelecido que o boato de que os conselheiristas se preparavam para atacar Juazeiro tenha sido lançado pelo juiz Arlindo Baptista Leoni, o qual em 1895 tivera que fugir de Bom Conselho diante dos canudenses e se mantinha à espreita de uma ocasião de cortar as relações comerciais entre Canudos e Juazeiro; sempre é que solicitou imediatamente tropas junto ao governador Viana, com o fundamento de que os homens de Maciel marchavam armados sobre Juazeiro, embora esse boato fosse desmentido pelo supracitado coronel bem como por outros cidadãos. Viana, que não tinha então nenhum interesse num confronto com Canudos, mostrou-se a princípio reticente, mas por insistência reiterada de Leoni, que além disso mobilizara a imprensa regional, consentiu finalmente em enviar a Juazeiro, por via férrea, um destacamento de 113 soldados então estacionados em Salvador. Chegados ao local, os soldados, postos sob as ordens do tenente Manoel da Silva Pires Ferreira, esperaram em vão durante cinco dias a ordem de ataque vinda de Salvador, até que Pires Ferreira impaciente tomou ele mesmo a iniciativa de marchar sobre Canudos, em total desconhecimento das condições do terreno[245].
Desenrolar da guerra
Prelúdio e elemento desencadeador
As operações armadas contra Conselheiro e seus seguidores começaram logo nos primeiros anos da República, isto é, antes mesmo de sua instalação em Canudos. Quando correu o boato de que ele excitava a população contra o novo regime, uma força policial de uma trintena de homens bem armados partiu da Bahia para dispersar os cerca de duzentos insurgentes, mas foram postos em fuga pelos jagunços perto de Masseté. Uma segunda incursão ocorreu, mas fracassou nos arredores de Serrinha, pois os conselheiristas possuíam a arte de se tornar invisíveis na caatinga, onde ninguém se aventurava a segui-los. Essas descidas policiais foram uma das razões pelas quais Conselheiro resolveu se sedentarizar num local que conhecia há muito tempo, a fazenda abandonada de Canudos.
Além da suspeita (injustificada) de participação numa sedição monarquista de grande envergadura que pesava sobre os Conselheiristas, outro elemento tornava imperativo para as autoridades centrais pacificar o sertão de Canudos. O Estado da Bahia com efeito se encontrava então confrontado a uma série de outras insurreições: a pequena cidade de Lençóis, a cerca de 400 km a sudoeste de Canudos, fora atacada por uma tropa armada, cujas incursões, aliás, alcançavam até o Estado de Minas Gerais vizinho; outros bandos se haviam apoderado do povoado de Brito Mendes; mais ao sul ainda, em Jequié, grupos armados cometiam todo tipo de atentados. A ação desses bandos não deixava de ter relação com a presença de grandes riquezas minerais, que faziam desses sertões há dois séculos destinos privilegiados para muitos aventureiros[246]. A isso se somavam as desordens e depredações, de amplitude crescente, na origem das quais se encontravam pequenos tiranos e potentados locais, aos quais jagunços, incluindo os de Canudos, haviam tomado o hábito, como indicado acima, de vender seus serviços. Essa desordem do banditismo disciplinado, segundo a palavra de Euclides da Cunha, inserindo-se ou não no quadro de campanhas eleitorais, tomava a forma de combates aventureiros e pequenas batalhas campais, lideradas por jagunços orgulhosos de sua bravura e não isentos de certa nobreza de alma, e não deixava nunca de desembocar no incêndio e saque de cidades e vilas ao longo do curso médio do rio São Francisco[247]. Finalmente, a força numérica dos canudenses e o poderoso império moral de Conselheiro deviam acabar de inquietar as autoridades. A extraordinária peregrinação de um quarto de século que levara Antônio Conselheiro por todos os recantos do sertão e lhe fizera acumular benefícios lhe valia agora um grande ascendente sobre as populações sertanejas, e não havia uma única vila onde ele não tivesse fervorosos partidários. Em 1895, ele fez fracassar a missão apostólica enviada a Canudos pelo arcebispo da Bahia; no relatório redigido a esse respeito pelo Frei João Evangelista, o missionário afirmava que sem contar as mulheres, as crianças, os velhos e os doentes, a comunidade de Canudos compreendia um milhar de homens robustos e temerários, armados até os dentes[248]. Não apenas o acesso à cidadela onde se entrincheirara era dos mais árduos, nomeadamente devido à dedicação incondicional de seus sectários, mas ainda Antônio Conselheiro reinava sobre uma extensão muito vasta ao redor, onde podia contar em toda parte com a cumplicidade voluntária ou forçada daqueles que o veneravam ou temiam.
Em outubro de 1896 ocorre o incidente que deveria desencadear a guerra de Canudos propriamente dita. Antônio Conselheiro encomendara um lote de madeira de construção proveniente da cidade vizinha de Juazeiro, com vista à construção de uma nova igreja; a madeira no entanto não foi entregue, não obstante já estivesse paga. O boato então se espalhou de que os conselheiristas viriam buscar a madeira à força, o que levou as autoridades de Juazeiro a solicitar a assistência do governo do Estado da Bahia.
O destacamento que as autoridades enviaram então a Canudos será o primeiro de uma série de quatro expedições, as quais tiveram o seguinte de notável, que em cada nova expedição foram repetidos os erros da anterior. Esses erros eram essencialmente de três ordens: primeiro, a subestimação das dificuldades geográficas e climatológicas, os altos graduados do exército regular, formados nas grandes cidades nas teorias militares europeias, não tendo nenhuma ideia da configuração do terreno no sertão; segundo, o desconhecimento do adversário, os militares se obstinando a praticar uma tática apoiada em corpos de batalha fechados, à europeia, quando tinham que enfrentar uma guerra de escaramuças, liderada por guerrilhas inapreensíveis, familiarizados com o terreno, em condições de montar emboscada após emboscada, sem grande risco para eles; terceiro, a desconsideração de Conselheiro, que se havia, ao longo de um quarto de século de errância no sertão, granjeado junto às populações um ascendente e uma veneração consideráveis, inclusive aliás junto aos guias mobilizados pelo exército, o que permitiu aos conselheiristas estar a par do menor movimento das tropas governamentais. Mas de forma geral, as províncias do nordeste (Goiás, Bahia e Pernambuco), e menos ainda seus sertões, não figuravam no mapa mental das elites da jovem república brasileira. Essas elites, estabelecidas na capital Rio de Janeiro e em São Paulo, ávidas de positivismo, adquiridas à ideia de progresso, totalmente alinhadas com as concepções e usos ocidentais, ignoravam tudo do modo de vida das populações muito misturadas que habitavam o sertão ou, quando muito, as consideravam como atrasados atávicos, segundo a palavra de Euclides da Cunha. O poder central não podia portanto ver numa rebelião tal como a de Canudos senão uma sedição antirrepublicana que convinha reprimir.
Primeira expedição (novembro de 1896)
No início de novembro de 1896, pouco tempo após o incidente da madeira de construção, o magistrado da cidade de Juazeiro acabou por dar o alarme, afirmando num telegrama ao governador da Bahia que os sectários de Conselheiro se encontravam a duas jornadas de marcha da cidade. Um destacamento de tropa regular de uma centena de homens, que havia sido requisitado antes junto ao general comandante do distrito e estava pronto para partir para Juazeiro assim que chegasse a mensagem do juiz dessa comuna, foi colocado sob o comando do tenente Manuel da Silva Pires Ferreira e partiu de trem expresso para Juazeiro. Chegada ao destino na manhã de 7 de novembro, a pequena tropa não pôde contudo impedir o êxodo, já em curso, de grande parte da população, desejosa de esquivar-se de um assalto supostamente iminente[249]. O tenente Manuel da Silva Pires Ferreira, após vários dias passados à espera em Juazeiro, vendo que o boato de uma algazarra de Conselheiro era infundado, convenceu-se no entanto com o magistrado a ir ao encontro dos bandidos, a fim de evitar que invadissem a cidade.
Na noite de 12 de novembro de 1896, o destacamento policial, acompanhado de dois guias contratados em Juazeiro, pôs-se portanto a caminho de Canudos, situado a cerca de 200 km de distância, empreendendo assim atravessar a pé uma zona árida e despovoada, mas sem os recursos indispensáveis a tal travessia. Da Cunha salienta que no sertão, e isso antes mesmo dos meses mais quentes, homens portando equipamento militar, vergando sob o peso de suas mochilas e cantis, já não podem, sob uma temperatura das mais elevadas, avançar depois das dez da manhã sobre esses planaltos desprovidos da menor sombra, e começam então a sofrer súbitos acessos de fadiga[250]. Além disso, essa porção do Estado da Bahia, a mais devastada pelas secas, era naquela época uma das regiões entre as mais mal conhecidas do Brasil. Poucos viajantes a tinham enfrentado e apenas pequenas construções esparsas a salpicavam de longe em longe. No primeiro dia, a pequena expedição teve que percorrer, sem parar, uma quarentena de quilômetros de estrada no deserto, até alcançar uma lagoa minúscula, onde subsistia um pouco de água. Seguiram-se depois escalas solitárias ou fazendas, algumas das quais abandonadas, tendo os raros habitantes do lugar, visto que tudo pressagiava um período de seca, fugido para o norte levando seus rebanhos de cabras[251].
Em 19 de novembro, a tropa exausta finalmente chegou a Uauá, uma aldeia de aspecto tristonho situada aproximadamente a dois terços do trajeto e constituída então de apenas duas ruas que desembocavam numa praça irregular e que margeavam uma centena de casas mal construídas e pobres dependências. Nos dias de feira, repelia seu aspecto de aldeia abandonada e tornava-se o lugar mais animado dessa parte do sertão, com suas duas ou três lojas e sua barraca do mercado, onde eram vendidos os produtos de uma magra indústria local (peles de cabra, redes etc.). A tropa se propunha a servir-se da vila como paragem transitória e partiu à procura de informações, mas só conseguiu recolher informações contraditórias, impróprias para uma avaliação correta da situação[252]. Em todo caso, a decisão foi tomada de atacar o mais rápido possível.
Uauá, como as localidades circunvizinhas, encontrava-se sob o domínio de Canudos e abrigava vários adeptos de Antônio Conselheiro; estes, mal a tropa fizera alto na praça, tinham-se precipitado para Canudos e, chegados ao amanhecer de 20 de novembro, aí deram o alarme. Paralelamente, ao cair da noite, a população de Uauá fugiu sub-repticiamente quase na sua totalidade, em pequenos grupos furtivos, esgueirando-se entre os postos avançados da tropa[253].
No dia seguinte ao amanhecer, a tropa foi despertada por uma multidão de um milhar de jagunços de Antônio Conselheiro, os quais, dirigidos por Pajeú e João Abade, portando cruzes e bandeiras e não parecendo ter intenções guerreiras, anunciaram sua chegada com Kyrie Eleison e louvores em honra de seu chefe, à maneira de uma procissão de penitentes. Dissimulados entre essa multidão de crentes desarmados que ostentavam estátuas, imagens de santos, e palmas secas, estavam os combatentes equipados com velhos fuzis, aguilhões de vaqueiro, piques e foices. À aproximação dessa multidão, as sentinelas dos postos de guarda mais avançados, surpresas e ainda sonolentas, ripostaram com tiros de carabina disparados ao acaso, e depois se retiraram precipitadamente para a praça da aldeia, forçadas a abandonar às mãos dos assaltantes um de seus companheiros, que foi apunhalado selvagemente. O alarme foi assim dado, e imediatamente a pacata Uauá se transformou num violento campo de batalha. Subitamente confrontados com os jagunços, que haviam prontamente desembocado na praça, os soldados não puderam se desdobrar em formação de batalha e tiveram quando muito tempo para esboçar apressadamente uma frágil linha de tiro, comandada por um sargento. Durante o combate, duma aspereza inaudita mas muito desigual, que então se travou brutalmente, foram utilizadas pelos rebeldes, em combates corpo a corpo em meio a tiros de pistola e revólveres, armas tais como sabres de desbravamento de lâmina larga, aguilhões de boiadeiro, piques de três metros de comprimento, foices, paus e forquilhas. A frágil linha de defesa da tropa regular cedeu logo, e a horda fanatizada dos canudenses despejou-se na praça aos gritos de Viva o Conselheiro! e Viva o Bom Jesus![254]. O tenente Pires Ferreira, em sua descrição do ataque, salientará « a incrível ferocidade » dos assaltantes e a maneira pouco convencional como efetuavam suas manobras, nomeadamente pelo uso de apitos. O efeito surpresa e a velocidade do combate permitiram aos conselheiristas tomar vantagem num primeiro momento. No entanto, a maioria dos homens de tropa se entrincheiraram depois nas casas, praticaram canhoneiras nas paredes de taipa, e se mantiveram na defensiva. A luta então tornou-se desigual para os matutos (camponeses), pois apesar de sua vantagem numérica, a lógica das armas retomara o controle: os soldados do Predefinição:9º batalhão de infantaria, armados e munidos de equipamentos dos mais modernos e mais mortíferos, incluindo fuzis automáticos, infligiram pesadas perdas aos belomontenses, que, reunidos na praça em torno de seus símbolos sagrados, e sob o fogo dos soldados, começaram a cair em massa, ceifados pelas fuziladas de armas de repetição, às quais não podiam opor senão um único tiro de trabuco de cada vez. A batalha prosseguiu assim por quase quatro horas, sem episódios dignos de menção, e sem que fosse esboçado o mais leve movimento tático, cada um lutando por sua conta, conforme as circunstâncias[255]. Comandados por João Abade, os jagunços percorriam as ruas, contornavam a aldeia, e depois se abatiam sobre a praça, vociferando imprecações e vivas. Reconhecendo finalmente a inutilidade de seu combate, abandonaram pouco a pouco o campo de batalha, dispersaram-se nos arredores e levaram a bandeira sagrada de volta a Canudos.
Os soldados, contudo, exaustos, não estavam em condições de empreender qualquer perseguição. Ao término de quatro a cinco horas de combate, depois que os canudenses resolveram se retirar, pôde-se contabilizar as perdas dos dois campos, o balanço indicando então uma indiscutível vitória militar das tropas governamentais; em seu relatório oficial, Pires Ferreira notou que na batalha pereceram, nas fileiras dos conselheiristas,
cento e cinquenta homens, feridos não incluídos
, número a ser comparado com os dez mortos (um cabo, um sargento, seis soldados e os dois guias) e os dezesseis feridos no corpo expedicionário[256]. Essas perdas, ainda que consideradas como
insignificantes numericamente
, motivaram no entanto o comandante, que dispunha contudo de 60 homens válidos, a renunciar a prosseguir a empresa e a iniciar a retirada. A despeito da vitória aparente, a expedição estava de fato vencida, pois exausta e hebetada, estupefata por aquele assalto de tipo incomum, e não tendo mais nem a força, nem a coragem de atacar Canudos, não obstante o destacamento já houvesse então percorrido os dois terços da distância que separava Juazeiro da aldeia rebelde; o médico militar chegou mesmo a enlouquecer[257]. Mal os soldados mortos foram enterrados na capela de Uauá, a tropa, depois de ter pilhado e incendiado a aldeia, regressou na mesma tarde a Juazeiro, que alcançou, a marchas forçadas, em quatro dias. A população, à vista da tropa, que oferecia a imagem da derrota, acreditou que os jagunços estavam lançados em seu encalço e recomeçou com mais força seu êxodo[258].
Segunda expedição (janeiro de 1897)
Preparativos

A derrota de Pires Ferreira em Uauá e os relatos sobre a ferocidade e o fanatismo dos insurgentes provocaram um grande clamor nacional e exigiam uma reação radical. O exército nacional estava agora intimado a submeter a aldeia, que não cessava entretanto de crescer e já havia atingido uma população de 30 000 habitantes. No entanto, existia uma divergência de ponto de vista entre o governador do Estado da Bahia, que tendia a ver aí uma desordem banal, controlável por simples forças policiais, e o chefe das tropas federais, para quem se tratava de um movimento mais temível, capaz de verdadeiras operações de guerra. Contudo, o governo da Bahia, apegado à sua soberania enquanto Estado federado e durante muito tempo relutante a aceitar a intervenção federal, acabou cedendo, compreendendo que a desordem de Canudos, ainda pontual por enquanto, era suscetível de se tornar por contágio o foco de uma deflagração em todo o sertão do Nordeste brasileiro, tratando-se por conseguinte de uma questão que concernia ao país inteiro e exigia a colaboração de todos os Estados federados.

Assim é sob a direção do ministro da Guerra, o general Francisco de Paula Argolo, que foi montada uma nova expedição. O segundo corpo expedicionário, colocado sob as ordens do major Febrônio de Brito, comandante do 9º batalhão de infantaria, e composto de 543 homens de tropa, 14 oficiais, 3 médicos, 2 canhões Krupp de campanha e 4 metralhadoras Nordenfelt, organizou-se sem plano preciso nem responsabilidades bem circunscritas e partiu em 25 de novembro de 1896 para Queimadas, localidade que se encontrava dotada de uma estação de ferrovia e distava cerca de 70 km ao sul de Monte Santo. O chefe da expedição, muito tempo hesitante entre Queimadas e Monte Santo, não partiu resolutamente para Monte Santo senão em dezembro, após a controvérsia entre soberania da Bahia e intervenção federal ter sido dirimida[259].
O comandante do distrito cogitara por um momento atacar os rebeldes em dois pontos distintos, fazendo avançar para um único objetivo não uma, mas duas colunas, sob a direção geral do coronel do 9º de infantaria, Pedro Nunes Tamarindo. Esse plano de campanha, em adequação com a configuração humana e geográfica do conflito, teria visado a pôr em prática primeiramente um círculo em torno de Canudos, a distância da própria aldeia, de enfraquecer os rebeldes fracionando suas forças, para permitir em seguida a tropas regulares pouco numerosas mas bem treinadas enlaçá-los em movimentos envolventes[259]. Esse plano contudo não foi posto em prática.
Aquartelamento em Monte Santo
A vila de Monte Santo, distante uma sessentena de quilômetros (em linha reta, mas de quase 100 km por estrada) ao sul da aldeia rebelde, ergue-se no centro de uma zona fértil exígua, de apenas alguns quilômetros de diâmetro, sulcada de pequenos cursos d'água refratários às secas, e incomparavelmente mais verdejante do que as extensões desoladas da região ao redor. A localidade deve essa vantagem ao fato de se encontrar ao pé de uma curta cordilheira de montanhas de onde jorra a única fonte permanente desta região, e sobre o cume mais elevado da qual foi construída por essa razão um santuário, a igreja do Calvário, que permite alcançar por uma íngreme vereda ladeada por vinte e cinco capelas. Mas o que sobretudo justificava a escolha dessa localidade como local de aquartelamento era sua posição estratégica face aos objetivos da iminente campanha militar, bem como seu valor logístico, por suas ligações com a estação de ferro de Queimadas, a qual permitia as comunicações mais rápidas com Salvador e o litoral[260].
Uma casa com vista para a praça do Mercado, e se distinguindo de todas as outras por ser a única provida de um andar, foi escolhida como quartel-general das tropas. Aliás, a expedição recebeu um acolhimento triunfal por parte das autoridades; a presença da tropa deu lugar a entusiásticas festividades. Ninguém duvidava de que a expedição iria vencer; infelizmente, essa certeza teve o efeito de imobilizá-la durante quinze dias em Monte Santo, quando teria sido necessário, como mandava uma sã consciência do perigo, ao contrário mobilizar-se sem demora e liderar um ataque de surpresa contra o adversário[261].
Entretanto, enquanto os vaqueiros examinavam as peças de artilharia na praça, alguns dentre eles, emissários de Antônio Conselheiro, regressavam em seguida furtivamente para o norte, com destino a Canudos, após terem, sem que ninguém percebesse, observado, recolhido informações, contado os efetivos, e examinado todo o equipamento de guerra. Além disso, a tropa, a despeito do mais absoluto sigilo de suas deliberações, seria acompanhada em sua marcha pelos espiões conselheiristas[262].

O comandante da expedição contudo se propusera inicialmente a lançar um assalto fulminante, conforme atesta o fato de que deixara em Queimadas boa parte das munições, para não retardar ainda mais a marcha e para não dar ao inimigo o ensejo de se reforçar. Com efeito, irritado pelos adiamentos das autoridades políticas, e ultrajado pelas diversas dificuldades que teve que enfrentar, incluindo a ausência quase total de meios de transporte, resolvera juntar-se o mais rápido possível à aldeia rebelde, levando apenas as munições que os homens pudessem transportar em seus cartuchos. Posteriormente no entanto, os tardios intempestivos em Monte Santo aniquilaram os benefícios da rápida partida de Queimadas. Ademais, o comandante, iludindo-se, negligenciou mandar vir de Queimadas o restante do material militar. Assim, após uma longa inatividade em Monte Santo, a expedição partiu ainda menos bem equipada do que quinze dias antes, deixando atrás de si ainda uma parte do que restava do material militar[262].
O tempo assim perdido, tanto em Queimadas quanto em Monte Santo, foi aproveitado pelo adversário para elaborar e pôr em execução um plano de defesa draconiano. Num raio de três léguas em torno de Canudos, os jagunços se engenharam para criar um deserto incendiando, em todas as direções e ao longo de todas as estradas, as fazendas e os lugares de paragem, a fim de isolar a aldeia rebelde no centro de um vasto perímetro de ruínas calcinadas[263].
Euclides da Cunha, a quem foi dado examinar a ordem do dia da tropa, observa:
Nem uma só palavra sobre os inevitáveis ataques súbitos, nada que visasse a uma distribuição das unidades, de acordo com os caracteres específicos do adversário e do terreno. Limitando-se a alguns rudimentos de tática prussiana transplantados para nossas ordenanças, o chefe da expedição — como se liderasse um pequeno corpo de exército para qualquer campo desbravado da Bélgica — dividiu esse corpo em três colunas, e pareceu dispô-lo na previsão de encontros onde pudesse observar uma repartição entre atiradores, reforços e apoios. Nada mais, portanto, que a submissão a um certo número de modelos rígidos de antigos preceitos clássicos de guerra[264].
No entanto, não haveria em nenhum momento a menor possibilidade de desdobrar qualquer linha de combate que fosse, nem de organizar a mais rudimentar ordem de batalha. Não se previa sequer que o conflito pudesse adotar a forma de uma guerra de escaramuças e emboscadas, consistir numa sucessão de ataques-surpresa ferozes e de ciladas traiçoeiras, de refregas súbitas e de entreveros-relâmpago, ou mesmo assemelhar-se mais a uma caça ao homem, a uma série de batidas acirradas, isto é, um conflito onde o desenrolar de uma batalha clássica, com suas diferentes fases, não desempenharia o menor papel. Não se parecia notar que se estava prestes a enfrentar guerrilheiros, cuja tática consistiria num hostil vaivém de avanços e recuos, de curtos ataques logo seguidos de dispersões no coração da natureza protetora[265].
Teria portanto sido expediente substituir um comando único por uma estratégia mais eficaz tendente a dar a iniciativa a comandantes de unidades menores e autônomas, capazes de definir sua ação militar em função das circunstâncias do momento; nomeadamente, teria sido preciso fracionar a tropa em várias colunas de marcha e fazer assim pendant aos métodos do adversário, ao invés de, ao contrário, obstinar-se a deslocar-se unidos, numa clássica estrutura compacta[266].
Marcha para Canudos e travessia do Cambaio

O corpo expedicionário pôs-se a caminho em 12 de janeiro de 1897, em uma única coluna, a partir da base de Monte Santo, seguindo o itinerário do Cambaio, o mais curto mas também o mais acidentado. A estrada, depois de ter feito ilusão por algum tempo atravessando uma planície verdejante, perdia-se após apenas alguns quilômetros numa paisagem muito acidentada, depois tornava-se perto da metade do trajeto cada vez pior, exposta ao sol, desprovida de sombra, sulcada de fendas, serpentando sobre as colinas alternando rampas e depressões de terreno, e transformando-se num caminho pedregoso cada vez menos praticável à medida que se aproximava das contrafortes da cordilheira do Acarú. Ao pé dessa cordilheira, a estrada se inflete para leste e então empreende galgar as montanhas por uma sucessão de três subidas, até acessar o lugar chamado Lajem de Dentro, a 300 metros acima do vale, que a tropa levou dois dias para alcançar. As peças de artilharia, puxadas por mulas, só penosamente escalaram as encostas e retardavam a progressão, obrigando os sapadores, à frente, a reparar primeiro a estrada, desobstruí-la de troncos de árvore, ou preparar desvios para evitar aos pesados canhões Krupp os trechos demasiado íngremes[267].
Foi durante essa marcha que a configuração do terreno deveria pela primeira vez desempenhar um papel determinante, a caatinga se revelando com efeito, segundo a expressão de Da Cunha, ser uma aliada fiel do sertanejo revoltado: enquanto as caatingas se entrelaçam diante do estrangeiro e se tornam impenetráveis, limitando a vista, elas se abrem em múltiplos senderos para o matuto que nasceu e cresceu na região[268]. Ao longo de sua marcha, a tropa sofreu por parte dos rebeldes, emboscados atrás dos magros arbustos e se furtando sem cessar, ocasionais tiros de fuzil, poucos, mas insistentes e bem calculados. As seções da vanguarda, sofrendo tais tiros, mergulhadas numa desordem súbita, emaranhavam-se e tendiam a um refluxo instintivo para a retaguarda. Em reação, a tropa destacou unidades de combate que escalonou ao longo da estreita estrada e que se precipitavam para os locais de onde partiam as detonações, mas ao fazê-lo esbarravam na barreira flexível mas impenetrável das juremas, enredavam-se nas lianas, e infligiam a si mesmas a dor infernal das folhas urticantes[269].
Assim hostilizada todo o trajeto, torturada pela espera dos assaltos imprevistos lançados com precisão em intervalos regulares por um inimigo inapreensível que vê sem ser visto, a tropa desanimou totalmente e foi, antes mesmo de chegar a Canudos, psicologicamente exausta pela angústia e pelo medo das ciladas. Na manhã de 17 de janeiro, após cinco dias de marcha, quando a expedição se encontrava emaranhada nas montanhas, numa posição muito aquém do objetivo fixado, as provisões de boca vieram a se esgotar. Os dois últimos bois foram abatidos, para sustentar mais de 500 combatentes. A marcha aparecia desde então como um combate perdido de antemão[270].
A estrada de Canudos, para transpor o Serro do Cambaio, pequeno maciço montanhoso de aspecto arruinado, galga fortes encostas, estreita-se entre escarpamentos, e depois mergulha na garganta estreita de um desfiladeiro. As colunas aí progrediam lentamente, embaraçadas pelos canhões, junto aos quais deviam se revezar os homens de tropa para ajudar as mulas nas encostas íngremes[271].
Foi nesse maciço que se produziram, em 18 de janeiro, as primeiras escaramuças e primeiros combates abertos da expedição. Os jagunços, até então ocultos nas dobras do terreno, enfiados nas fendas, surgiram em massa numa súbita deflagração de tiros. Prontamente postos em bateria, os canhões abriram fogo a queima-roupa sobre os matutos, que logo se debandaram. Aproveitando esse refluxo, uma centena de soldados empreendeu imediatamente o contra-ataque. A frágil linha de assalto assim constituída no entanto se estirou e logo se fragmentou contra os obstáculos do terreno, enquanto os sertanejos reapareciam num ponto mais elevado, dispostos desta vez em grupos emboscados de três ou quatro homens, que se revezavam para recarregar suas obsoletas carabinas. Sem dúvida conscientes da inferioridade de seu armamento rudimentar, os jagunços desejavam apenas que fossem queimadas ali uma grande parte das cápsulas destinadas a Canudos. João Grande, seu líder, estava no comando e tomava a iniciativa dessas operações. Foi um vaivém incessante de ataques seguidos de fugas, em ordem dispersa ou agrupada, até que finalmente os últimos rebeldes defensores do Cambaio escapassem para longe, perseguidos pela tropa[272].
Após três horas de combate, a tropa se tornara senhora do Cambaio, e a travessia do maciço estava concluída. Abstração feita dos gastos em munições, e dos animais de carga que partiram a galope durante o entrevero, as perdas foram, lado governamental, mínimas: quatro mortos e um pouco mais de vinte feridos. Os sertanejos de seu lado deixaram 115 cadáveres, segundo uma contagem rigorosa[273].
Batalha em Canudos
As tropas regulares chegaram na tarde de 18 de janeiro a três quilômetros da aldeia rebelde. Extenuados pelo combate, com falta de água potável e privados de alimento desde a véspera, os soldados só puderam saciar sua sede na água insalubre da pequena lagoa de Cipó, antes de armar seu acampamento.
A notícia da ofensiva alcançara a aldeia ao mesmo tempo que os fugitivos. Para tentar estancar a invasão iminente, muitos guerreiros deixaram Canudos para se insinuar furtivamente nas caatingas e tomar a passos de lula posição nos arredores do acampamento[274]. Ao amanhecer de 19 de janeiro, as colunas, enquanto se dispunham para o último assalto, foram brutalmente assaltadas por toda a tropa dos guerreiros rebeldes, os quais reeditaram o episódio de Uauá: armados de piques, barras de carroça, foices, forquilhas, longos aguilhões e cutelos, surgiram em campo aberto, todos ao mesmo tempo, soltando urros, e submergiram as tropas governamentais por vagas de mais de 4 000 insurgidos. A pronta riposta dos membros da expedição, consistindo em metralhar os matutos com um fogo rolante dos mais nutridos, não pôde fazer recuar os jagunços que seu ímpeto levava, nem impedir uma luta corpo a corpo e à arma branca de se travar[275]. A despeito do efeito surpresa e da estupefação dos soldados, e graças nomeadamente à presença de espírito do comandante da expedição que encorajou valorosamente seus companheiros e deu o exemplo precipitando-se contra a massa dos adversários, os jagunços puderam ser repelidos. Logo repelidos, os jagunços, não sem terem tentado apoderar-se de um canhão, executaram subitamente um recuo, pelo qual, longe de querer fugir, se redespregaram nos bosques ralos dos arredores e, espalhados e tornados inapreensíveis, retomaram sua costumeira tática do combate à distância, desfechando sobre seus adversários os projéteis rústicos de seus obsoletos trabucos. Era aí, não obstante a tropa regular dispusesse de armas automáticas e os rebeldes sofressem pesadas perdas, um sistema de guerra suscetível de se prolongar indefinidamente, colocando os oficiais diante de uma situação sem saída. Restava a estes dois recursos possíveis: ou deslocar, numa atitude ofensiva, o campo de batalha para a aldeia atacando-a, mas com o risco de serem hostilizados pelos flancos ao longo de uma marcha de 3 km, e depois se defrontar com outros reforços antes mesmo de ter podido, após esgotamento das munições no caminho, alcançar Canudos, e isso além do mais sem poder esperar algum apreciável efeito de um bombardeio preliminar, visto que só restavam vinte tiros de artilharia, — ou a retirada[276].
Retirada
Após convocação de uma reunião dos oficiais, a opção da retirada foi proposta e, embora a tropa não tivesse a deplorar durante todo esse dia senão quatro mortos e uma trintena de feridos — a serem comparados com as trezentas centenas de cadáveres canudenses contados pelo doutor Edgar Henrique Albertazzi[277] —, foi aprovada pelos oficiais, sob a condição expressa de não deixar às mãos do inimigo nem uma só arma, nem abandonar um só ferido, nem deixar um só cadáver sem sepultura.
Entretanto na aldeia de Canudos, até onde chegava o impressionante barulho das fuziladas na montanha, a preocupação com a sorte dos companheiros levou João Abade a mobilizar o resto dos homens válidos, cerca de 600 pessoas, e a conduzi-los em reforço para as alturas. No entanto, a meio caminho aproximadamente, uma chuva de balas perdidas, que atiravam, sem quase ter tempo de ajustar seus tiros, os soldados do exército contra seus primeiros agressores, e que passavam por cima dos combatentes para ir cair mais abaixo na encosta, acolheu inopinadamente a coluna de João Abade. Os jagunços, sem possibilidade de se abrigar, tomados de um terror supersticioso, retiraram-se precipitadamente para Canudos, onde desencadearam um pânico generalizado. Já, grupos de fugitivos começavam a deixar a aldeia[278].
Finalmente, soube-se em Canudos a notícia de que a tropa recuava, o que foi imediatamente interpretado como um milagre. Os jagunços, comandados doravante por Pajeú, mestiço temível por sua bravura e ferocidade, decidiram seguir a tropa a ponto[279]. O corpo expedicionário, que não pudera se alimentar havia dois dias, havia inteiramente perdido sua estruturação militar (é assim um sargento que dirigia a vanguarda, enquanto os oficiais se misturavam aos homens de tropa) e não aplicava mais nenhum daqueles preceitos táticos clássicos que querem que uma formação se desdobre em escalões, permitindo às unidades combatentes se revezarem na defesa. Enquanto a tropa transpúnha o Cambaio no sentido oposto, os jagunços os seguiam, mas, evitando por ora o combate aberto, mantinham-se acima dos barrancos e se limitavam a soltar blocos de pedra para fazê-los precipitar sobre os soldados.
Ao cair da noite, os jagunços, numa tentativa de apoderar-se da artilharia da tropa, lançaram um último ataque a Bendengó de Baixo, curto planalto onde a estrada se aplana e onde a coluna chegara ao fim de três horas de marcha. A configuração do local permitiu às metralhadoras fazer seu trabalho e repelir os rebeldes com rajadas desde as alturas. Estes tiveram que recuar deixando um acréscimo duma vintena de mortos. No dia seguinte de madrugada, a expedição, que não tinha mais um só homem válido, dirigiu-se para Monte Santo, onde foi recebida em silêncio pela população[280].
Terceira expedição (fevereiro de 1897)
Preliminares e entrada em cena de Moreira César
A nova vitória dos insurgentes, complacentemente amplificada e romanceada por aqueles que a contavam, teve o efeito de atrair quantidade de novos adeptos a Canudos, cuja população conheceu em três semanas um aumento considerável. Grupos de novos peregrinos, levando amiúde todas as suas posses, vieram instalar-se nesses lugares que passavam por lendários. Eram, como nos anos anteriores, pessoas de todas as categorias: pequenos criadores ou vaqueiros crédulos, ao lado dos diferentes tipos de sertanejos — bandidos libertos, sicários disponíveis ou com vontade de novas aventuras etc., vindos a juntar-se ao « santo homem ». Dirigiam-se também, amiúde transportados em redes, uma multidão de doentes, de moribundos desejosos de dormir seu último sono no solo de Belo Monte, de cegos, de paralíticos, ou de leprosos, que esperavam um milagre e uma pronta cura pelo taumaturgo Antônio Conselheiro. Os recém-chegados não eram apenas baianos mas também nativos de todos os Estados vizinhos. Por outro lado, a localidade viu convergir para si, ao longo dos dias e vindo de todas as direções, carregamentos cheios de toda sorte de víveres, expedidos por adeptos que reabasteciam a aldeia de longe, fazendo aí reinar uma verdadeira abundância[281].

Na capital Rio de Janeiro, onde finalmente se tomara plena consciência do sério e da amplitude do caso, o governo federal, cedendo às pressões dos políticos florianistas, os quais viam em Canudos um perigoso foco monarquista, decidiu enviar um exército composto de três batalhões de infantaria e um batalhão de artilharia (ou seja, 1 300 homens), todos equipados de novo e treinados, dispondo de 15 milhões de cartuchos, apoiados de quatro canhões Krupp, e cujo governo confiou o comando ao coronel de infantaria Antônio Moreira César, grande domador de revoltas, considerado pelos militares como um herói do exército brasileiro, conhecido e temido por seu caráter impulsivo e autoritário, nunca agindo senão à sua vontade, e apelidado familiarmente Corta-cabeças (« Corta-cabeças ») em recordação do que teria dado ordem de executar a sangue frio mais de cem pessoas durante o esmagamento da revolução federalista em Santa Catarina em 1894. Reputado idealista, pouco interessado por dinheiro, por honrarias ou mesmo por poder, era um nacionalista dedicado que fazia grande caso do progresso técnico e pensava que o exército era o único em condições de instilar a ordem e de preservar o país do caos existente e da corrupção própria à época imperial. Euclides da Cunha esboçou seu temperamento como segue:
Nesta singular personalidade chocavam-se e opunham-se monstruosidades e qualidades superiores, num grau máximo de intensidade. Era tenaz, paciente, dedicado, leal, impávido, cruel, vingativo, ambicioso. Uma alma proteiforme encerrada num organismo dos mais frágeis. Esses atributos no entanto estavam dissimulados sob uma reserva prudente e sistemática[282].
Notoriamente atingido de epilepsia, de que começara a sofrer após seus trinta anos, e que se afirmou em particular durante sua estada em Santa Catarina[283], ele guardou, segundo Da Cunha, um temperamento desigual e bizarro, aplicando-se a dissimular uma instabilidade nervosa sob uma placidez enganosa. Ao longo da expedição, seu mal tendeu a piorar, tanto em frequência quanto em intensidade, levando alguns autores a imputar ao efeito de várias crises de epilepsia sucessivas os funestos erros de apreciação que ele deveria cometer durante toda a campanha militar a ele confiada. Durante seu périplo da Bahia a Canudos, que durou cerca de 25 dias, teve várias crises de epilepsia, algumas delas se prolongando durante muitas horas e provocando uma profunda debilitação física, de sorte que os oficiais da expedição e os médicos militares falavam delas com inquietação[nota 6]. Parece no entanto também que Moreira César manifestou para com seus subordinados, inclusive fora das ditas crises, erros de percepção, uma desconfiança mórbida e sentimentos de perseguição. Essas características sugerem a existência de um transtorno orgânico da personalidade, com traços paranoicos e impulsivos, sem que seja possível concluir por uma psicose pós-crítica, visto que não há relação nítida entre esses transtornos de comportamento e a ocorrência dos ataques[284]. Durante a campanha, essas anomalias iriam se manifestar por exaltações intermitentes e por uma série de extravagâncias, especialmente sob a forma de duas decisões impulsivas: a partida precipitada de Monte Santo, na véspera da data prevista para a marcha, resolução tomada de improviso contra o plano de campanha predefinido e para espanto de seu próprio estado-maior, e, três dias depois, o assalto contra a aldeia ordenado por Moreira César quando as tropas estavam exaustas por uma corrida de várias léguas, aí também na véspera do dia fixado para esse assalto[285].
Tornado confidente do marechal Floriano Peixoto, segundo presidente da república brasileira, Moreira César tinha sob seu comando um batalhão do qual se tornara de certo modo o proprietário e sobre o qual reinava sem partilha. Dotou-o de um efetivo muito além do número regulamentar de soldados, chegando mesmo a incluir, em violação da lei, dezenas de crianças. Dotado de certas qualidades de chefe rigoroso e inteligente, das quais soube fazer prova em seus longos intervalos de lucidez, conseguiu montar o melhor corpo de exército das forças republicanas.
Plano de ataque

A operação dirigida pelo coronel Moreira César se assinalou por sua grande celeridade. Em 3 de fevereiro de 1897, Moreira César partiu para a Bahia, levando, além de seu próprio batalhão, o 7º de infantaria colocado sob as ordens do comandante Rafael Augusto da Cunha Matos, uma bateria do 2º regimento de artilharia, comandada pelo capitão José Agostinho Salomão da Rocha, e um esquadrão do 9º de cavalaria, do capitão Pedreira Franco. Essas tropas, que formavam o núcleo de uma brigada de três armas, associaram-se a três outros corpos, todos incompletos: o 16º, que partiu de São João del-Rei, em Minas Gerais, sob as ordens do coronel Sousa Meneses, com 28 oficiais e 290 homens de tropa; 140 soldados aproximadamente do 33º; e o 9º de infantaria do coronel Pedro Nunes Tamarindo, comandante em segundo da expedição, assim como pequenos contingentes militares do Estado da Bahia[286].

De Salvador da Bahia, onde fez uma passagem muito breve o tempo de recuperar aqueles de seus homens que aí se encontravam já, Moreira César ganhou imediatamente a localidade de Queimadas, que fora escolhida devido à estação de ferrovia de que era dotada como local de reunião geral das tropas, onde se encontraria reunido, já em 8 de fevereiro, todo o efetivo da expedição, ou seja, perto de 1 300 soldados, bem equipados e abundantemente abastecidos com quinze milhões de cartuchos e 70 projéteis de artilharia. Queimadas, a primeira base de operações, foi confiada às ordens de um tenente e aos cuidados de 150 militares menos válidos (doentes e crianças), enquanto o grosso das tropas partiu para Monte Santo, escolhida como segunda base de operações, onde tudo ficou pronto em 20 de fevereiro para a marcha sobre Canudos. Na véspera dessa partida, 19 de fevereiro, Moreira César foi acometido de uma crise de epilepsia, em pleno trajeto, pouco antes do sítio de Quirinquincá. No entanto, embora se pudesse prever que esse mal teria um efeito deletério sobre a firmeza e a presença de espírito de Moreira César e era incompatível com o exercício de suas responsabilidades de comandante geral num contexto de guerra, os principais chefes de corpo, timoratos e complacentes, não cogitaram se concertar a esse respeito e se guardaram de qualquer intervenção[287].
Em Monte Santo, os oficiais do genho, dispondo apenas de uma semana para reconhecer essa região árida e desconhecida e fazer os levantamentos necessários, não tiveram tempo de designar os locais de trincheira estratégicos sobre os quais pudesse se apoiar a futura linha de operações. Assim o reconhecimento dos locais foi malfeito: triangulações aproximadas, bases medidas a olho, distâncias avaliadas a partir de miras imprecisas sobre os cumes indistintos das montanhas, direções e traçados determinados à toa, informações mal verificadas sobre os acidentes de terreno e sobre os pontos d'água. No entanto, o relatório foi aprovado sem outro exame pelo comando.
O itinerário da expedição foi definido em função dos dados assim recolhidos. Pela escolha dessa estrada, que passava mais a leste do que a seguida pela expedição anterior, e era mais longa também duma quinzena de quilômetros, o comando esperava a vantagem de contornar a zona montanhosa do Cambaio. Segundo esse itinerário, as tropas deixariam Monte Santo na direção leste-sudeste para ganhar a aldeia de Cumbe (a atual pequena cidade de Euclides da Cunha), e daí virariam para o norte, transporiam as encostas da montanha de Aracati, dirigir-se-iam em seguida progressivamente para o norte-noroeste, para juntar-se ao sítio (pequena propriedade agrícola) do Rosário a estrada de Massacará.
Uma vez fixado esse itinerário de uma extensão total de 150 km, negligenciou-se para o resto transformá-lo em verdadeira linha de operações, isto é, balizá-lo de dois ou três pontos defensáveis que guarnições teriam sido encarregadas de proteger e que pudessem servir de base de trincheira (para resistir ao inimigo em caso de fracasso), de retirada ou de recuo. Ninguém no entanto previa sequer a hipótese de uma decepção.
Além disso, essa estrada atravessava uma zona desértica, que as estradas seculares sempre se esforçaram por contornar, e que com efeito consistia em vastas extensões de uma vegetação rasteira muito árida, dita caatinga. Para transpor essa zona, era preciso sem cessar preparar senderos; o trecho final atravessava uma zona arenosa vasta de quarenta quilômetros, onde os combatentes não podiam carregar as grandes quantidades de água necessárias sem se afundar nas areias. Para fazer face a esse inconveniente, a tropa decidiu levar uma bomba artesiana.
Ademais, absteve-se de garantir suficientemente a base de retaguarda Monte Santo, deixando assim a tropa de combate de facto totalmente isolada no deserto. Algumas dezenas de homens apenas, sob as ordens do coronel Mendes, aí foram mantidas em guarnição, efetivo muito insuficiente dadas as péssimas condições de defesa que a tornavam uma presa fácil para os jagunços que pudessem apoderar-se dela por meio da pequena cordilheira muito escarpada que margeia a cidade a oeste[288].
Medidas defensivas dos canudenses
Em Canudos, onde se tinham efetivos em profusão, as tarefas defensivas eram repartidas desde cedo pela manhã. Piquetes de guarda, compostos de vinte matutos comandados por um homem de confiança, eram destacados para os diferentes pontos de acesso da aldeia, para assegurar a substituição dos vigias que aí haviam passado a noite.
Os defensores trabalhavam cavando trincheiras nas alturas e à beira dos caminhos. O sistema de fortificação compreendia um grande número de fossas de forma circular ou elíptica, bordejadas de pequenos parapeitos feitos de pedras justapostas, com interstícios servindo de canhoneiras, onde um atirador podia se emboscar e se movimentar à vontade. O trabalho dos sertanejos era facilitado pela presença abundante de placas de xisto, facilmente recolhidas do solo nas diversas formas desejadas. Essas fossas eram dispostas em intervalos regulares, formavam alinhamentos em todas as direções e mantinham os caminhos sob seus fogos cruzados.
Somava-se a isso, como barricada natural, a árida e impenetrável caatinga. Segundo um uso ancestral, os jagunços, após terem reconhecido os arbustos mais altos e mais frondosos, trançavam habilmente os ramos interiores sem desfazer a folhagem, de forma a construir, a dois metros do solo, um pequeno jirau (estrado) suspenso, apto a suportar um ou dois atiradores invisíveis. Por outro lado, os canudenses avistaram uma montanha cujo cume era coroado por um amontoado de grandes blocos redondos e que se empregaram em preparar como fortim, donde dominavam os vales e os caminhos circundantes[289].
Afastava-se a polir e reparar as armas. Dispondo de carvão, salitre, que aflorava nas terras situadas mais ao norte, tinham a capacidade de fabricar eles mesmos a pólvora e de suprir assim a insuficiente quantidade de pólvora comprada nas cidades vizinhas.
Um dos jagunços, João Abade, os dominava e disciplinava, talvez devido a algumas reminiscências de instrução de seu tempo no liceu de uma das grandes cidades do Norte, donde tivera que fugir após assassinar sua noiva[290].
Os emissários canudenses, enviados para o sul para se informar sobre os movimentos das tropas republicanas, reportaram a identidade do comandante-chefe da nova expedição; o renome deste causou grande pavor entre a população da aldeia, provocando mesmo várias deserções[291].
Partida da tropa e marcha para Canudos

O dia da partida das tropas fora formal e irrevogavelmente fixado em 22 de fevereiro de 1897; na véspera da partida foi efetuada na praça de Monte Santo uma revista das tropas em boa e devida forma. No entanto, de forma totalmente inesperada, o coronel Moreira César chegou então a galope e se pôs à cabeça dos soldados. Por sua decisão, a ordem de partida para Canudos foi dada no instante, e a coluna, compreendendo ao todo 1 281 homens, com para cada um 220 cartuchos nos cartuchos e nos animais de carga, além de uma reserva de 60 000 projéteis no comboio geral, pôs-se portanto em movimento ao cair da noite[292].
Se a vanguarda chegou após três jornadas a Cumbe (atual Euclides da Cunha), foi na ausência do comandante, que teve que se retirar para uma fazenda vizinha devido a uma nova crise de epilepsia. Em 26 de fevereiro, ultrapassada a localidade de Cumbe, a tropa se dirigiu como previsto para o norte. Essa parte do sertão, na orla dos planaltos que se estendem até Jeremoabo, distingue-se nitidamente daquela atravessada pela expedição anterior, sendo com efeito menos acidentada, mais árida, e apresentando menos montanhas de encostas escarpadas e mais vastas planícies. Em contrapartida desse aspecto menos tormentoso da paisagem, o solo, arenoso e plano, sem depressões onde buracos d'água salutares pudessem persistir no auge do verão, incapaz de reter em suas areias a água das chuvas esparsas, aparecia absolutamente estéril. Uma flora mais esparsa, onde as árvores rareavam, guarnecia a planície — é a caatanduva, onde a reverberação das areias tem o efeito de exacerbar o ardor da canícula, onde nenhum foco de povoamento vem atenuar a impressão de desolação e onde não se aventuram senão raríssimos viajantes. O terreno, inconsistente e movediço, opunha no entanto súbitas barreiras flexíveis de espinheiros que era preciso forçar a golpes de sabre de desbravamento[293].
Após uma marcha ininterrupta de oito horas, a coluna sedenta chegou ao lugar chamado Serra Branca, previsto como lugar de escala, mas aí não encontrou, no fundo de uma cavidade, senão alguns litros de água. Tentou-se enfiar no solo o tubo da bomba artesiana, mas o esquecimento infeliz de um carneiro tornou a operação irrealizável. Não houve outra possibilidade senão ordenar a partida imediata para o sítio de Rosário, situado uma dezena de quilômetros mais adiante. Enquanto isso, os espiões de Canudos flanqueavam a coluna esgueirando-se ao longo dos caminhos, conforme atestavam os rastros frescos na areia e alguns fogos ainda mornos[294].
No dia seguinte, 1 de março, antes do meio-dia, as tropas alcançaram o sítio de Rosário, composto de algumas casas, uma cerca e uma lagoa, e aí estabeleceram seu acampamento. Os jagunços, aproveitando-se de um aguaceiro, lançaram um ataque súbito e breve[295].
Ao amanhecer de 2 de março, os batalhões se puseram em movimento para Angico, propriedade então ao abandono situada a légua e meia de Canudos, e chegaram por volta das 11 horas a Rancho do Vigário, a 8 km de Angico, onde a tropa foi autorizada a descansar o resto do dia, antes de partir novamente no dia seguinte, 3 de março. Em seguida, em 4 de março, às cinco da manhã, a tropa marchou direto para Canudos e alcançou finalmente a região cuja paisagem — muito acidentada, de aspecto recortado, coberta de uma vegetação estética de cardos e bromeliáceas e entrecortada de riachos — é tão característica dos arredores de Canudos e onde os pequenos aguaceiros da véspera não tinham deixado nenhum rastro.
Chegou-se em seguida ao povoado de Pitombas, onde o riacho homônimo lacera profundamente o solo. Algum piquete dos rebeldes tinha aproveitado a configuração do terreno para atacar bruscamente a tropa pelo flanco, soltando uma descarga duma meia dúzia de tiros sobre o piquete de batedores montados, acompanhado de um guia experiente, que formavam a vanguarda. Os jagunços atingiram mortalmente um dos subtenentes da companhia de atiradores e feriram seis ou sete soldados, para em seguida apressar-se a fugir e se esparramar a fim de se subtrair à réplica, a qual não tardou por meio dos canhões imediatamente postos em bateria. O incidente teve o efeito de galvanizar as tropas; a marcha recomeçou pouco depois a passo acelerado[296].
Por volta das onze horas da manhã, chegou-se finalmente a Angico, a cerca de 3 km de Canudos, lugar que o plano de campanha explicitamente fixara como última paragem, onde a tropa teria que descansar antes de iniciar na manhã seguinte as duas horas de marcha que a separavam ainda da aldeia rebelde. Mas, cedendo às suas tendências impetuosas e ao seu desejo de travar combate sem esperar e levado sem dúvida pelo ímpeto que adquirira a coluna de marcha, Moreira César convocou os oficiais e lhes propôs prosseguir no mesmo passo até Canudos. Assim a paragem em Angico não durou senão um quarto de hora; os batalhões, abatidos e exaustos por uma marcha de seis horas, puseram-se novamente a caminho.
Durante esse último trecho, registaram-se apenas raros tiros dos jagunços, distantes e espaçados. Nos arredores da aldeia e antes do sinal do assalto, na suposição de que o combate seria de curta duração e a fim de não retardar o passo de carga da infantaria, Moreira César autorizou seus efetivos a jogar fora cantis e víveres, a desfazer-se de suas mochilas, cantis, mochilas e de todas as peças de seu equipamento com exceção dos cartuchos e das armas, objetos que a cavalaria seria encarregada na retaguarda de recolher à medida. Ao mesmo tempo, o comandante mandou disparar alguns tiros de canhão a três quilômetros[297].
Chegada a Canudos e assalto contra a aldeia

Tendo transposto os últimos acidentes de terreno, os batalhões chegaram ao cume do morro da Favela, situado ao sul-sudeste de Canudos, donde de repente puderam abraçar com o olhar a aldeia insurgida, isto é: um conglomerado de cinco mil palhoças separadas por uma infinidade de vielas estreitíssimas, comprimindo-se em torno da praça grande e das duas igrejas que a margeavam. O rio Vaza-Barris fazia as vezes de um vasto fosso de defesa traçado em arco de círculo ladeando a aldeia ao sul, ao pé da Favela.
À altura das duas igrejas se encontrava, na margem oposta do rio, uma espécie de pequeno patamar aplainado e baixo com aspecto de jardim, chamado vale das quixabeiras, situado à direita para quem estava na Favela, e onde desembocava uma das encostas da Favela, a qual para o resto se avançava até o rio num talude abrupto. A meio caminho dessas vertentes, que se chamavam Pelados devido à sua aparência desguarnecida, erguia-se uma casa em ruínas, a Fazenda Velha, que sobrepujava um forte ressalto, o Alto do Mário.
Quando, por volta de uma hora da tarde, chegaram os primeiros pelotões, já ofegantes, os canhões foram alinhados em ordem de batalha e, todos juntos, abriram fogo. Os primeiros projéteis, que atingiam a aldeia por trajetórias mergulhantes, explodiam no meio das casas e ateavam vários incêndios. Canudos fez tocar os sinos da velha igreja, mas sem que um só tiro fosse ainda disparado desde a aldeia. Em contrapartida, esta se pôs a se animar, seus habitantes e os jagunços armados correndo em todas as direções sem coordenação. Aliás, excetuando um leve ataque de flanco de alguns rebeldes contra a artilharia, os sertanejos não haviam oposto qualquer resistência; as forças republicanas tiveram portanto todo o lazer de se desdobrar nas encostas da Favela e de começar a descer em direção à margem do rio. Moreira César então declarou:
vamos tomar a aldeia sem um único tiro a mais! À baioneta[298]!
Uma vez ao pé da encosta, a infantaria se desdobrou, para metade à direita no denominado vale das quixabeiras, seguindo a curva do rio, e para metade à esquerda num terreno pouco propício; a artilharia foi disposta no centro desse dispositivo sobre um último ressalto erguendo-se a pique à beira do rio[299].
O assalto no entanto redundou num fracasso fragoroso, essencialmente pelas seguintes razões:
- uma subestimação do adversário, traduzindo-se no pressuposto mal fundado segundo o qual o efeito surpresa e o terror provocado nos sertanejos pelo desabamento de baionetas bastariam para pô-los em fuga;
- uma frente de assalto mal concebida, topograficamente assimétrica: à direita, uma breve extensão de nível (o vale das quixabeiras) que permitia um assalto fácil, visto que o rio nesse local atravessava um terreno plano e suas margens aí eram pouco elevadas; à esquerda em contrapartida, a descida se fazia sobre encostas escorregadias e o rio que separava a vertente da Favela da aldeia formava aqui um fosso profundo. A configuração topográfica da extrema esquerda dessa frente ofensiva, se era pouco propícia a um assalto, poderia ter sido taticamente do maior interesse se aí se tivesse postado uma tropa de reserva, pronta a fazer diversão ou a se lançar na batalha no momento oportuno, conforme os desenvolvimentos posteriores da batalha. O relevo geral do terreno exigia, em vez de uma ofensiva liderada simultaneamente pelas duas alas, antes um ataque parcial pela direita, energicamente apoiado pela artilharia.
- o fato de que a aldeia de Canudos se revelou ser uma armadilha para seus assaltantes, uma cidade-armadilha segundo a expressão de Da Cunha. A aglomeração, com sua trama inextricável de estreitas vielas de menos de dois metros de largura emaranhando-se e cruzando-se em todas as direções, dava uma falsa impressão de vulnerabilidade, aparecendo com efeito largamente aberta aos agressores devido a seus muros de taipa e seus tetos de argila, fáceis de derrubar a coronhadas ou mesmo à força de pulso; mas por aí também, a aldeia agia traiçoeiramente como uma imensa rede flexível, bem trançada, na qual os pelotões iriam se dissolver. Canudos era nisso temível que não resistia primeiramente, que era fácil de investi-la, de aí se enfiar, de a atravessar de parte a parte, de a demolir, de a transformar em montões de escombros de argila e estilhaços de madeira, mas que em seguida era quase impossível se desvencilhar, sentindo-se o invasor subitamente amarrado, preso entre vacilantes divisórias feitas de taipa e lianas[300].
Depois que a mais desastrosa das disposições ofensivas foi assim adotada pelo comandante-chefe e que o sinal do assalto foi dado, a ala direita, avantajada pelo terreno, progrediu a passo de corrida para o rio, desafiando a intensa fuzilaria proveniente dos muros e tetos das casas mais próximas da margem, e transpôs o talude da margem oposta. Logo, os primeiros grupos de soldados emergiram na praça grande, mas haviam desde esse instante perdido todo semblante de formação de combate. À esquerda, tendo superado as dificuldades de um terreno esparso de obstáculos, os soldados tomaram posição atrás da nova igreja, enquanto outros atacavam pelo centro. A parte concertada e ordenada do combate limitou-se a essa primeira irrupção, após o que não houve subsequentemente mais nenhum movimento de tropa, simples ou combinado, mais nenhuma combinação tática, que denotasse de algum modo a existência de um comando. A luta com efeito tendeu muito cedo a se fracionar numa profusão de pequenos combates isolados, perigosos e ineficazes[301].
Depois de terem tomado de assalto, logo nos primeiros minutos do combate, as casas margeando o rio, tê-las incendiado, ter feito fugir e perseguido os canudenses que aí se encontravam, os soldados se enfiaram nas vielas da aglomeração, atropelando-se uns aos outros, virando as esquinas sucessivas, apoderando-se das palhoças na maior desordem, atirando amiúde ao acaso, inconsideradamente, dividindo-se pouco a pouco em seções que, cisão após cisão, se tornavam cada vez menores, se dispersavam sempre mais, até acabar por se dissolver completamente em combatentes isolados[302]. Assim o ataque perdeu rapidamente todo caráter militar, fracionou-se numa multiplicidade de conflitos parciais nos cantos das ruas, tornou-se, em meio às ruínas e às mulheres aterrorizadas, outros tantos combates corpo a corpo à entrada e no interior das casas. Os habitantes dessas casas descarregavam sorrateiramente e a queima-roupa sobre os assaltantes seu último tiro antes de fugir, ou então se precipitavam sobre eles com a arma que se achava ao seu alcance — faca, foice, aguilhão. Numerosos soldados, enebriados pela perseguição que começava a se revelar perigosa e funesta, empenharam-se temerariamente no labirinto das vielas e aí se extraviaram; os papéis então podiam subitamente se inverter, soldados demasiado audazes se vendo cercados e perseguidos por uma súcia de canudenses, devendo por sua vez se entrincheirar nas casas em escombros.
Entretanto, os atiradores postados na nova igreja acampavam em suas posições e puderam à vontade tomar sob seu fogo qualquer alvo visto que a artilharia, que temia atingir suas próprias tropas, evitava alvejá-los. Outro elemento importante da topologia de Canudos era a presença de um subúrbio que, na extrema direita (isto é, a oeste), coroava um longo outeiro separado da praça grande por um profundo barranco; esse subúrbio, menos compacto e menos fácil de tomar, pudera assim se furtar aos assaltos dos soldados mas permanecia ameaçador pois permitia uma defesa em sobrelo por parte dos sertanejos.
Por outro lado, a retaguarda acabava de desembocar na Favela conjuntamente com a polícia e o esquadrão. Moreira César, que permanecera com seu estado-maior na margem direita do rio, observava perplexo a ofensiva liderada por suas tropas sem fazer a mais vaga ideia clara. Deu ordem duma parte à retaguarda de avançar para a extrema direita e de atacar o subúrbio ainda intacto, e de reforçar ao mesmo tempo as operações na esquerda, doutra parte à cavalaria de partir em reforço e de atacar pelo centro, entre as duas igrejas[303].

No entanto, enquanto os cavalos passavam a vau até o meio da corrente, e depois derrubavam seus cavaleiros empinando-se e coiceando e voltavam ao seu ponto de partida na maior desordem, a polícia delongava-se diante do barranco do subúrbio elevado.
Moreira César, com o objetivo de
devolver a coragem a essas pessoas
dando o exemplo, teve então o impulso de descer a encosta em seu cavalo branco e se lançar sabre em punho na batalha; foi logo atingido por uma bala, no abdômen primeiro, nas costas depois quando deu meia-volta[304].
O coronel Tamarindo, que estava chamado a substituí-lo mas que desesperava de salvar seu próprio batalhão, ficou impossibilitado de tomar a menor decisão.
Ao cair da noite, os soldados, exaustos por cinco horas de combate sob um sol implacável, começaram a refluir para o rio. As primeiras unidades repelidas, dispersas, correndo ao acaso, surgiram na margem. Esse movimento de recuo começado à esquerda se propagou para o lado direito, cada um lutando à sua maneira, sem comando. Em seguida, alguns soldados, feridos e desarmados, começaram a repassar o rio; os últimos pelotões abandonaram finalmente suas posições[305].
Um primeiro reagrupamento teve lugar perto da artilharia mas, dado que a Favela estava demasiado exposta aos tiros dos jagunços ou mesmo a um assalto noturno, foi preciso, na desordem e arrastando as peças de artilharia, ganhar um local situado mais acima, em direção ao cume do Alto do Mário 400 m mais adiante, onde um quadrado foi apressadamente improvisado para passar a noite. A equipe médica não bastava para o número de feridos; um dos médicos havia além disso desaparecido durante a tarde. Ademais, o novo chefe, o coronel Tamarindo, não estava à altura de suas responsabilidades que visivelmente o oprimiam e havia renunciado a reorganizar a tropa desmoralizada. Apático, tendia a delegar o comando a seus oficiais, os quais infatigavelmente tomavam eles mesmos as medidas que se impunham. Se alguns entre eles ainda alimentavam a ideia de uma nova ofensiva no dia seguinte, a maioria não se fazia mais ilusões e não via mais que uma única opção possível: a retirada.
Assim, os oficiais, reunidos às onze horas, alinharam-se unanimemente a essa solução. Um capitão de infantaria foi encarregado de comunicar a resolução ao coronel Moreira César, que, ulcerado, se opôs imediatamente, invocando o dever militar e argumentando que o corpo expedicionário guardava reservas suficientes em homens (mais de dois terços da tropa permaneciam aptos ao combate) e em munições para uma nova tentativa. Os oficiais mantiveram a resolução adotada e Moreira César, indignado, deu sua última ordem — a de redigir um relatório da reunião, reservando um espaço para aí consignar seu protesto contra a decisão tomada e sua demissão do exército brasileiro.
O coronel Moreira César morreu ao amanhecer, o que levou ao mais alto grau o desânimo geral da tropa; os soldados, além de abatidos por esse fracasso militar inexplicável onde seu chefe, contudo reputado invencível, perecera, estavam sob o império de um terror sobrenatural; com efeito, muitos desses soldados, oriundos do Nordeste, eram da mesma têmpera que os sertanejos que combatiam; o extraordinário mito de Antônio Conselheiro, seus milagres de taumaturgo e seus feitos de feiticeiro apareciam a alguns doravante verossímeis[306].
Retirada e debandada

A retirada degenerou rapidamente numa fuga caótica. O corpo expedicionário retirou-se sem ordem nem formação, dispersando-se primeiro nas encostas da Favela, depois nas vertentes opostas, para reencontrar a estrada, onde a tropa, tal estava apressada a se pôr a largo, negligenciou, à semelhança da segunda expedição, organizar-se em escalões, precipitando-se, em vez disso, ao acaso através dos senderos. A coluna, assim espalhada, estirada sobre os caminhos, tornava-se uma presa fácil para os jagunços, que a flanqueavam de ponta a ponta. Apenas uma divisão de dois canhões Krupp, sob as ordens de um suboficial, com o reforço de um contingente de infantaria, fez mostra da firmeza suficiente para permanecer algum tempo sobre o cume do Mário, de ripostar durante um tempo aos ataques dos rebeldes, e depois de se abalar por sua vez, sem pressa nem desordem, a título de retaguarda. A despeito dos toques repetidos de « meia-volta, alto! » ordenados por Tamarindo, o resto da coluna acelerou a fuga e se afastou cada vez mais, abandonando equipamentos e vestimentas inúteis, mas também os feridos e o corpo de Moreira César, de tal modo que ao fim de algum tempo a retaguarda se viu isolada, cercada por perseguidores cada vez mais numerosos, que não foi mais possível manter à distância e que acabaram por atacar e massacrar os dois batalhões[307], enquanto Tamarindo, ao transpor o riacho Angico, foi precipitado de seu cavalo por uma bala[308]. Entretanto, a maioria dos fugitivos, como se esforçavam por evitar a estrada, extraviaram-se no deserto, para sempre alguns. O resto chegou no dia seguinte a Monte Santo.
Os sertanejos tiveram todo o lazer de colher nas espólios deixados pelo exército entre Rosário e Canudos: material, armamento moderno e munições abundantes constituíam um verdadeiro arsenal a céu aberto. Os jagunços levaram para a aldeia os quatro canhões Krupp, e aos seus velhos trabucos de carregamento lento puderam substituir fuzis de guerra automáticos Mannlicher e Comblain[309].
Em seguida, os jagunços reuniram os cadáveres dos soldados tombados que jaziam esparsos e os decapitaram. As cabeças foram fincadas em estacas e dispostas face a face dos dois lados da estrada, e os uniformes, quepis, dolmans, cantis, cinturões etc., suspensos nos arbustos, compondo juntos o cenário que viria subsequentemente a ter que atravessar a futura quarta expedição[310]. Entre os chefes sertanejos se distinguiram na batalha Pajeú, Pedrão, que ulteriormente comandará os conselheiristas durante a travessia de Cocorobó, Joaquim Macambira e João Abade, braço direito de Antônio Conselheiro, que já dirigira os jagunços por ocasião da batalha de Uauá.
Quarta expedição e liquidação do foco (junho — outubro de 1897)
Resumo
No Rio de Janeiro, a comoção provocada por essa nova derrota foi considerável, ainda mais que se atribuía a Conselheiro o projeto de restaurar a monarquia. Jornais monarquistas sofreram depredações e o coronel Gentil José de Castro, administrador e proprietário de dois deles, foi acusado de entregar armas aos canudenses e assassinado num atentado em 8 de março.
Sob a pressão do governo britânico que havia apoiado o governo republicano, mas que temia que os numerosos investimentos britânicos no nordeste fossem ameaçados se a desordem civil e a resistência monarquista continuassem, o governo federal preparou uma nova expedição. Desta vez, foi planificada de forma mais profissional, com a ajuda de um gabinete de guerra.
Sob o comando do general Arthur Oscar de Andrade Guimarães e sob a supervisão pessoal do ministro da Guerra, o marechal Bittencourt (que chegou a visitar Monte Santo, cidade próxima de Canudos e que servia de ponto de concentração), foi montada uma importante formação militar constituída de três brigadas, oito batalhões de infantaria e três batalhões de artilharia, para um efetivo total de perto de 4 300 homens. Metralhadoras e grossas peças de artilharia, tais como morteiros e obuses, incluindo um canhão Whitworth de 32 cm, acompanhavam os efetivos. Esse equipamento demandou enormes esforços de transporte devido ao terreno difícil de transitar; em particular, o canhão Withworth, pesando duas toneladas, requereu que uma estrada fosse especialmente preparada, para permitir a vinte parelhas de bois arrastá-lo através do sertão. Contudo, viu-se uma nova vez se reproduzir durante essa quarta expedição os mesmos erros e carências logísticas que nas três anteriores. Assim não se dispunha de nenhum serviço de transporte capaz de carregar 100 toneladas de munições, e não houve primeiramente ligação entre Monte Santo e as tropas em campanha.
As duas colunas do corpo expedicionário, de 2 350 homens, partidas resp. em 16 e 19 de junho de 1897, sob as ordens dos generais Oscar e Savaget, fizeram sua junção, como previsto, sobre a favela de Canudos em 27 de junho, não sem terem antes sofrido pesadas perdas (400 mortos e feridos) em diversos combates de vanguarda. Os jagunços dispunham doravante, em lugar de armas de fogo obsoletas como anteriormente, do armamento mais moderno (fuzis de repetição Mannlicher austríacos, Comblains belgas etc.), tomados do exército durante a expedição anterior, e haviam tomado cuidado de se abrigar em Canudos por um sistema de trincheiras, donde faziam fogo sobre as tropas, que, elas, estavam ao contrário totalmente a descoberto, evoluindo em terreno hostil e inóspito, e sujeitas desde as primeiras horas a dificuldades de abastecimento. O balanço do primeiro dia de combate dava conta da perda de 524 homens lado exército regular. Uma parte do trem de bagagem caiu em mãos dos rebeldes, e o exército logo se encontraria confrontado a um grande número de deserções. A expedição teria sem dúvida fracassado, não fosse um comboio de gêneros e munições ter finalmente chegado em 13 de julho, e não fosse a intervenção de Bittencourt, que enviou um reforço de 4 000 homens e um milhar de mulas para assegurar o abastecimento. Aliás, só houve linhas de abastecimento seguras a partir da última semana de agosto, permitindo então nomeadamente finalmente usar efetivamente o canhão Whitworth, e derrubar sucessivamente a torre sineira da velha igreja e as duas torres sineiras da nova. Em 22 de setembro, Antônio Conselheiro morreu, provavelmente em consequência de sua recusa de se alimentar após a destruição dos locais de prece e das sequelas da disenteria.
No final de junho, após um movimento de pinça e a chegada dos reforços, o cerco da aldeia entrincheirada tornou-se completo em 24 de setembro. Depois de ter sido bombardeado sem cessar noite e dia, e faltando víveres e água, o foco foi conquistado progressivamente, ao longo de combates se estendendo por meses. Os rebeldes opuseram ao exército uma resistência feroz inopinada que desafiou o entendimento e custou ao exército um acréscimo de 567 mortos. De lugar em lugar, grupos rebeldes isolados se rendiam, exaustos de combatentes e atraídos por promessas (vãs) de clemência. Alguns dias antes do fim dos combates, tiveram ainda lugar negociações com vista a uma capitulação, lideradas lado rebelde por Antônio Beatinho, membro da guarda pessoal de Conselheiro; para consternação dos assaltantes foram então entregues trezentas mulheres famélicas acompanhadas das crianças e de alguns velhos. Descarregada desse peso, a resistência só se tornou mais acirrada. Finalmente, após um bombardeio intenso de vários dias, e o uso de uma espécie de napalm rudimentar (consistindo em aspergir de gasolina as casas ainda ocupadas, e depois lançar sobre elas bastões de dinamite[311]), a resistência no foco de Canudos finalmente se extinguiu em 5 de outubro, sem que jamais houvesse consentido na rendição; o último grupo de resistentes só contava com quatro pessoas, dois homens armados, um velho e uma criança.
A população sobrevivente teve que sofrer atrocidades, como numerosos estupros e a execução sumária de homens, mulheres e crianças em grupos inteiros por degola (gravata vermelha). Apenas algumas centenas de habitantes sobreviveram aos muitos massacres perpetrados pelo exército. As mulheres mais atraentes foram capturadas e enviadas para os bordéis de Salvador. O corpo de Antônio Conselheiro foi exumado, sua cabeça cortada e enviada para a faculdade de medicina de Salvador (Bahia) para aí ser estudada quanto à presença de estigmas anatômicos « da loucura, da demência e do fanatismo ». Em alguns dias, as 5 200 cabanas e casas que compunham a pequena colônia foram pulverizadas com dinamite.
Alguns autores como Euclides da Cunha (1902) estimam que o número de mortos durante a guerra de Canudos se elevou a cerca de 30 000 (25 000 residentes e 5 000 assaltantes)[312], mas o balanço real é provavelmente inferior (cerca de 15 000 mortos segundo Levine, 1995).
Reação do poder após o fracasso da 3ª expedição

No Rio de Janeiro a comoção provocada por essa nova derrota foi considerável, e várias conjecturas corriam para tentar explicar esse evento impensável e dar razão do esmagamento de uma força militar tão numerosa, liderada quiçá por um chefe de exército de tal envergadura. A ideia se impôs de que os rebeldes não agiam sós e que os distúrbios sertanejos eram os pródromos de uma vasta conspiração contra o novo regime republicano. Segundo alguns relatos, não se tratava apenas de uma revolta de camponeses aos quais se teriam juntado bandidos, mas havia entre eles também soldados de grande valor, entre os quais antigos oficiais do exército e da marinha brasileiras, que estavam em fuga por terem tomado parte na revolta de setembro e que Antônio Conselheiro integrara em sua tropa. Mais alarmantes ainda, alguns relatos davam a entender que os jagunços já se haviam apoderado de Monte Santo, de Cumbe, de Massacará, e talvez de Jeremoabo, e que após terem saqueado essas vilas, as hordas conselheiristas convergiam para o sul e se propunham, após se reorganizarem em Tucano e aí terem operado sua junção com novos contingentes, dirigir-se para o litoral e fazer movimento sobre a capital da Bahia. A imprecisão do relatório militar da 3ª expedição tal como estabelecido pelo comandante Cunha Matos não era feita para apaziguar os espíritos; com efeito, este último, sob o império da febrilidade do momento, fez um relato eivado de erros factuais, no qual as fases principais da ação eram mal definidas e que sugeria a ideia de uma terrível hecatombe. Já, jornais monarquistas sofreram depredações e o coronel Gentil José de Castro, administrador e proprietário de dois deles[313], foi acusado de entregar armas aos canudenses e assassinado num atentado em 8 de março.
Um luto nacional foi decretado e moções de condolências foram inscritas nos atos das assembleias municipais, incluindo nas zonas mais afastadas.
Sob a pressão do governo britânico, que havia apoiado o governo republicano, mas temia que os pesados investimentos britânicos no nordeste fossem ameaçados se a desordem civil e a resistência monarquista persistissem, o governo federal preparou uma nova expedição. Desta vez, foi planificada de forma mais profissional, com a ajuda de um gabinete de guerra. Logo se assistiu a uma mobilização em todo o país: em toda parte, os cidadãos se dirigiram aos escritórios de recrutamento montados pelo quartel-general do exército; os vazios dos diferentes corpos foram preenchidos e os batalhões reconstituídos[314].
Montagem de uma nova expedição
O general Artur Oscar de Andrade Guimarães, solicitado pelo governo, aceitou tomar o comando da quarta expedição. Para constituí-la, batalhões, enviados de todos os Estados do Brasil, ganhavam primeiro a capital do Estado Salvador em unidades destacadas, e depois partiam imediatamente de trem com destino a Queimadas, escolhido como ponto de concentração e base de operações provisória. Essas partidas precipitadas para Queimadas eram uma medida preventiva que se impunha pela suspeita de simpatia monarquista que os novos expedicionários nutriam em relação à população de Salvador; embora essas suspeitas fossem injustificadas, tinham dado lugar a vários incidentes e a soldadesca presente na cidade multiplicava as rixas e as escaramuças[315].
Assim todos os corpos destinados a marchar para Monte Santo se encontraram logo, no início de abril, na vila sertaneja de Queimadas. No entanto, a ordem de partida da expedição só pôde ser dada dois meses depois, no final de junho. Os combatentes permaneceram portanto bloqueados durante longas semanas em Queimadas, e a vila se transformou num vasto campo de instrução. Finalmente, pôs-se a caminho para Monte Santo, mas a penúria de meios de transporte obrigou a proceder por transportes parciais, batalhão após batalhão. A mesma situação no entanto se reproduziu em Monte Santo, onde, para mais de três mil homens em armas, os mesmos exercícios prosseguiram até meados de junho[316].
Finalmente, em 19 de junho, o general Artur Oscar se decidiu a redigir a ordem do dia da partida. A importante formação militar era então constituída de três brigadas, oito batalhões de infantaria e três batalhões de artilharia, para um efetivo total de perto de 4 300 homens. Metralhadoras e grossas peças de artilharia, tais como morteiros e obuses, alguns canhões de tiro rápido, e incluindo um pesado canhão Whitworth[317] de 32 cm, acompanhavam os efetivos.
Uma comissão de engenheiros, protegida por uma brigada, pusera-se em movimento no primeiro, já em 14 de junho. Era encarregada de preparar os caminhos do sertão, retificando-os, alargando e nivelando, ou ligando-os por pontes ou pontilhões, de forma a torná-los aptos a receber as colunas em marcha, incluindo a artilharia, com suas baterias Krupp e o enorme Whitworth, o qual só por si requeria uma estrada transitável. A comissão de engenheiros, dirigida por um verdadeiro chefe militar, o tenente-coronel Siqueira de Meneses, soube levar a bom termo sua tarefa e realizar a estrada pedida até o cume da Favela. Siqueira de Meneses, originário de uma família sertaneja do norte, tendo mesmo parentes próximos entre os fanáticos de Canudos, excelente observador do terreno, havia, após perigosos reconhecimentos, imaginado esse traçado, que surpreendeu os próprios sertanejos[318].
Plano de campanha e fatores de um novo fracasso
A 4ª expedição deveria repetir todos os erros das expedições anteriores, e mesmo acrescentar alguns outros. São em particular:
- Deficiência estratégica.
O plano de campanha geral se limitava a prever uma divisão do corpo expedicionário em duas colunas. Em vez de cercar a aldeia rebelde à distância e em várias direções, ao que teriam bastado os efetivos disponíveis, mediante posicioná-los em pontos estratégicos e assim apertar progressivamente o cerco sobre a aldeia, projetara-se atacar Canudos em apenas dois pontos: uma primeira coluna partiria de Monte Santo, enquanto uma segunda, após se constituir em Aracaju, no litoral do Sergipe, atravessaria esse Estado até Jeremoabo, e depois marcharia sobre Canudos. Os itinerários escolhidos, o de Rosário para a primeira coluna e de Jeremoabo para a segunda, faziam com que as duas colunas convergissem (em 27 de junho, segundo a data prevista) num ponto situado fora da aldeia, na vasta periferia desta, e que os jagunços não seriam portanto combatidos senão em seu flanco sudeste, e guardariam o livre acesso às estradas do Cambaio, de Uauá e do vale da Ema, para oeste e norte, e do imenso sertão do rio São Francisco, onde poderiam, em caso de derrota, facilmente se refugiar e preparar sua réplica — supondo aliás que se resignassem a abandonar a aldeia em vez de opor ao exército uma resistência até o fim. Contudo, existia uma solução à qual não se cogitou e que teria permitido pôr em prática um bloqueio efetivo: a organização de uma terceira coluna, que teria partido p. ex. de Juazeiro, isto é, do oeste, e que, após ter percorrido um trajeto de comprimento equivalente ao das duas outras colunas, estaria em condições de cortar o acesso a todas essas estradas[319].
- Ausência de linhas de abastecimento consolidadas.
Durante a campanha, havia, devido à ausência de serviço de abastecimento organizado, penúria de tudo. Em Queimadas, a base provisória de operações, contudo ligada ao litoral por uma linha de ferro, foi impossível criar um depósito de víveres suficiente.
Não dispondo de carroças para o transporte de munições para Monte Santo, desprovido dos recursos mais elementares, o comandante-chefe viu-se reduzido a esperar durante semanas, primeiro em Queimadas depois em Monte Santo, sem poder tomar decisões. O oficial encarregado do Grande Quartel-General não lograva assegurar um serviço regular de comboios capaz de reabastecer desde Queimadas a base de operações em Monte Santo e de armazenar reservas que pudessem bastar à tropa durante oito dias. Tratava-se nomeadamente de transportar de Queimadas para o teatro de operações perto de cem toneladas de munições de guerra. Em julho, enquanto a 2ª coluna atravessava o Estado de Sergipe e se aproximava de Jeremoabo, não havia mais em Monte Santo um único saco de farinha em reserva[320].
- Medíocre formação dos combatentes.
Os batalhões que desembarcavam em Queimadas não haviam previamente sido treinados em campos de tiro ou em planícies de manobra. Esses soldados improvisados ignoravam as noções táticas mais elementares e dispunham de um armamento em mau estado. Os batalhões tinham na realidade às vezes efetivos mais reduzidos que uma companhia: foi preciso portanto primeiro completá-los, além de armá-los, vesti-los, prover de munições e lhes dar uma formação militar.
- Estrutura inadaptada das unidades combatentes.
Resultava dos reconhecimentos efetuados pelo genho que as aspereza e acidentes de terreno eram mais importantes do que se pensara. Os levantamentos topográficos faziam aparecer três condições essenciais para o sucesso da campanha, mas nenhuma das quais foi levada em conta. Essas exigências eram: 1) forças bem reabastecidas, que não tivessem motivo para recorrer aos recursos das regiões pobres que atravessavam (ao contrário, as tropas partiram de Monte Santo com meia ração); uma mobilidade máxima (sua marcha seria ao contrário entrave pelas toneladas da artilharia pesada); e 3) uma grande flexibilidade, para se adaptar a cada nova configuração do terreno (ao contrário, o exército estava regulado essencialmente sobre uma batalha campal em terreno aberto, e as brigadas deviam, conforme uma campanha clássica, fazer movimento em batalhões separados por intervalos de apenas alguns metros, com quatro homens de frente). Na verdade, teria bastado, para conduzir essa guerra, de um chefe ativo assistido de meia dúzia de sargentos astuciosos e audazes, à frente de unidades de combate muito móveis não se embaraçando com estruturas hierárquicas complexas. As tropas mal repartidas avançavam sem linhas de operações, com base em reconhecimentos superficiais efetuados antes ou por ocasião das expedições anteriores, e sem instruções práticas quanto aos serviços de segurança da vanguarda ou dos flancos. Viu-se portanto batalhões maciços se enredarem em caminhos tortuosos e progredirem com grandes desdobramentos de força, e que iriam se revelar incapazes, na ausência de uma vanguarda e de uma flanco-guarda eficazes, de se garantir dos assaltos de adversários temerários se furtando sem cessar, face aos quais as colunas tendiam cada vez a se imobilizar. Sintomático a esse respeito era o monstruoso canhão de sítio Whitworth 32, pesando 1700 quilos, concebido para derrubar as muralhas de fortaleza, que na ocorrência só podia ser fonte de dificuldades, obstruir a estrada, retardar a progressão, paralisar as carroças, ser prejudicial à rapidez das réplicas. Não é sequer a tenida de combate que não fosse inapropriada: os uniformes, feitos de pano, tinham rápido feito de se esfarrapar ao contato dos espinheiros e bromeliáceas da caatinga. Como nota Euclides da Cunha, bastaria que os homens, ou pelo menos os flancos-guarda, fossem vestidos no modelo do traje do vaqueiro, com sandálias resistentes, polainas e perneiras de couro que tornam inofensivos os espinhos dos xique-xiques, de gibões e coletes protegendo o tórax, e chapéus de couro, com as correias bem atadas sob o queixo, permitindo-lhe lançar-se sem danos na moita. O couro é um isolante térmico de primeira ordem e mantém seco o corpo dos vaqueiros em caso de chuvas torrenciais ou quando atravessam a vau os rios, e lhes permite transpor uma extensão de ervas em chamas[321].
Peripécias e desventuras da primeira coluna
A primeira coluna optara por um itinerário passando mais a oeste do que o da terceira expedição. A brigada de artilharia, que foi a primeira a partir de Monte Santo, em 17 de junho, experimentou desde o começo sérias dificuldades, devido a que o incômodo Whitworth, que arrastavam penosamente vinte parelhas de bois conduzidos por condutores inexperientes, atrasava-se até dois km em relação aos canhões leves. Partiram em seguida o comandante-chefe e o grosso da coluna, constituído das 1ª e 3ª brigadas, com um efetivo de 1 933 soldados. Na cauda da coluna marchava o grande comboio de munições, sob a proteção de 432 homens do 5º corpo da polícia bahiana, unidade que equivalia na verdade a um batalhão de jagunços pois se acabava de formá-lo com sertanejos recrutados nas regiões ribeirinhas do rio São Francisco, e que era o único corpo em adequação com as condições dessa campanha. A coluna toda inteira, forte de uns três mil combatentes ao todo, avançou assim até as contrafortes da cordilheira do Aracati, a 46 km a leste de Monte Santo[322].
Ao contrário de todas as instruções predefinidas, e apesar da formação adotada, a coluna se espalhava por uma extensão de quase oito km e todo o trem da artilharia permanecia às vezes longo tempo separado do resto da coluna, tornando impossível uma concentração rápida das forças na eventualidade de um enfrentamento.
Em 23 de junho, o piquete do comandante-chefe notou pela primeira vez, em algum povoado, um grupo de rebeldes ocupados em recolher as telhas de uma casa. Atacados de improviso por uma carga, os sertanejos fugiram sem réplica, exceto um só, que permaneceu no local e se defendeu bravamente[323].
Em 24 de junho, a progressão se fez mais difícil. Foi preciso p. ex., a estrada se interrompendo, abrir por mais de dois km uma passagem contínua através da caatinga, enquanto chuvas torrenciais se abatiam sobre a região. As 1ª e 3ª brigadas já haviam adiantado quase 5 km o general Oscar e se dirigiam direto para a Fazenda do Rosário, a cerca de 80 km de Monte Santo, onde se bivaqueou. Sobre o rio do mesmo nome, o inimigo fez uma nova aparição, sob as espécies de um grupo de jagunços, dirigido por Pajeú, fazendo fogo sobre a tropa. Esta teve que sofrer em seguida vários desses ataques fugitivos, e na sequência de um deles, um jagunço ferido, de 12 anos, foi feito prisioneiro, mas se obstinou a não falar durante o interrogatório[324].
Em 26 de junho, alcançou-se o Rancho do Vigário, 18 km mais adiante. As tropas, dispondo-se a escalar pelo sul as contrafortes das montanhas que margeiam Canudos ao sul, avançavam doravante com precaução, proibindo-se o uso de clarins. Para transpor as encostas, haviam destacado os animais de tração, e o 5º batalhão de polícia se afadigava a transportar às costas toda a carga dos 53 carros e dos 7 grandes carros de bois. Entretanto, toda a coluna se fracionara ainda mais, deixando o comboio extraviado e sem proteção na retaguarda. Os guerrilheiros no entanto não atacaram e a noite transcorreu pacificamente. No dia seguinte, 27 de junho, dia fixado para a junção das duas grandes colunas, a tropa, deixando totalmente o comboio que, muito atrás, abandonou aos cuidados de outros soldados encarregados de assegurar o transporte dos pesados fardos, iniciou sua jornada de marcha e atravessou o riacho de Angico sobre duas pequenas pontes, estirando-se lentamente sobre uma linha de dez km[325].
Por volta do meio-dia, pouco antes de chegar a Angico, as brigadas, enquanto se deslocavam sobre uma rampa desnudada, foram atacadas de surpresa e de flanco por jagunços amontoados, sob a direção do mesmo Pajeú, sobre o cume de uma altura que se distinguia mal de baixo. O exército soube ripostar com vigor e só perdeu dois soldados, um morto e um ferido. O exército prosseguiu depois sua estrada e atravessou o lúgubre sítio de Pitombas, onde os rebeldes haviam teatralmente disposto vestígios da terceira expedição, incluindo a carcaça decapitada do coronel Tamarindo. Após ter sofrido tiros de fuzil isolados, pelos flancos e pela frente, e ter repelido, com a ajuda dos canhões Krupp, um ataque mais importante perto do cume da Favela, a tropa e o general Oscar alcançaram por volta das duas horas da tarde o dito cume[326].
Na realidade, o cume da Favela se apresenta como uma larga depressão oblonga, dando a impressão de uma planície, espécie de longa calha orientada segundo um eixo norte-sul, comprida de trezentos metros, e barrada ao norte por uma montanha, que se transpõe por um desfiladeiro acidentado e escarpado que a rasga à direita; a estrada de Jeremoabo se enfiava 200 m mais adiante no leito seco do Vaza-Barris, entre duas trincheiras margeando as margens desse curso d'água. À esquerda desse vale estende-se a depressão que margeia o monte do Mário, e à frente, num plano inferior, erguiam-se as ruínas da Fazenda Velha, corpo de alojamento de um antigo domínio agrícola (fazenda). Logo depois vem a pequena cordilheira dos Pelados, cujas encostas descem para o Vaza-Barris. Essas alturas, que não recobre sequer a vegetação típica da caatinga, aparecem desnudadas. A calha funcionará durante longas semanas como uma armadilha para a primeira coluna primeiro, para as duas colunas reunidas depois, mantidas em respeito pelos rebeldes que se haviam ocultado nas trincheiras-abrigos de que as encostas laterais do vale eram salpicadas e que podiam daí fazer fogo sem correr o menor risco. Na verdade, tratava-se sem dúvida de uma armadilha armada pelos jagunços: todas as manobras dos sertanejos haviam, a partir de Angico, tendido a atrair a expedição numa direção precisa e a impedi-la de tomar um dos muitos atalhos que levavam a Canudos[327].
A cabeça da coluna e uma bateria de Krupp se engajou na calha ao cair da noite, em 27 de junho, enquanto o resto da tropa estava atrasada na retaguarda. Então se desencadeou uma furiosa fuzilaria, desencadeada por um inimigo invisível e colocado em sobrelo, que a tropa suportou valorosamente, desdobrando-se em atiradores e descarregando suas armas ao acaso. A bateria, que se empregara em galgar a passo de corrida a encosta em frente para se alinhar em ordem de batalha em seu cume e enviar salvas de canhão sobre Canudos, só fez suscitar uma fuzilaria mais intensa ainda de ponta a ponta da calha. A situação assim criada era desesperadora: a tropa, tomada como alvo de todos os lados, cercada por um adversário perfeitamente abrigado, devia se apertar numa estreita dobra de terreno impedindo toda manobra. Visto que era vão visar os flancos da calha, onde os rebeldes estavam agachados ou deitados nas fossas, e que era suicida tentar desalojá-los por cargas à baioneta nas encostas, e que era igualmente inenvisageável prosseguir a estrada, pois seria expor-se aos ataques mais virulentos e abandonar ao mesmo tempo a retaguarda e o comboio, o exército não tinha outra saída senão manter de pé firme sua posição perigosa, à espera do amanhecer de 28 de junho. Um posto de socorro, improvisado num barranco menos exposto aos tiros dos jagunços, acolheu 55 feridos, os quais, com os 20 mortos espalhados na calha, formavam o balanço das vítimas da jornada, após mais de uma hora de combate. A artilharia se alinhou sobre a crista em frente, dispondo em sua extrema direita o Whitworth. Quanto ao comboio de abastecimento, atrasado em Angico, a 4 km de distância, encontrava-se sem proteção, ao alcance dos rebeldes; aliás, já no dia seguinte, 28 de junho, os rebeldes atacariam simultaneamente nesses dois pontos, na Favela e em Angico; supondo mesmo que o exército vencesse na Favela, depois lançasse um assalto contra a aldeia, alcançá-la-ia cortado de todo abastecimento[328].
A artilharia fora disposta sobre uma altura à direita. Ao amanhecer de 28 de junho, antes que a tropa, desdobrada entretanto em ordem de batalha, se lançasse ao ataque de Canudos, julgou-se que a artilharia deveria primeiro bombardear com tiros mergulhantes a aldeia distante 1 200 m, para permitir assim uma vitória rápida e completa. Mas logo nos primeiros tiros de canhão, os jagunços, que haviam dormido ao lado da tropa, e sem que se pudesse distingui-los, cercaram imediatamente os soldados com suas descargas de fuzil. Estas, nutridas e bem alvejadas, feriram a tropa que permanecia a descoberto, e depois convergiram sobre a artilharia. Dezenas de soldados pereceram, assim como a metade dos oficiais. A guarnição, onde ninguém mais tomava decisão, e onde os pelotões atiravam às cegas, conseguiu no entanto manter pé e não abandonar os canhões a seus adversários, o que teria levado à derrota.
No flanco esquerdo, duas brigadas tentaram então em atiradores uma irrupção em direção à Fazenda Velha, sob o comando do coronel Thompson Flores; essa tentativa fracassou e resultou, para meia hora de combate, numa perda de 114 soldados e 9 oficiais, incluindo o próprio coronel, atingido mortalmente. As outras unidades sofriam danos similares, e as patentes dos chefes baixavam rapidamente. Ao fim de duas horas de um combate liderado sem a mais leve combinação tática, constatou-se que as munições rareavam. A artilharia, fortemente maltratada sobre a eminência que guardava valorosamente, e tendo perdido a metade de seus oficiais, teve que cessar seus tiros por esgotamento de seus projéteis. Percebeu-se por outro lado, após se haver expedido para a retaguarda oficiais a fim de apressar a chegada do comboio, e que estes houvessem voltado a galope sem ter podido atravessar as fuziladas que bloqueavam a passagem, que a retaguarda estava isolada do resto da coluna. Toda a primeira coluna estava assim aprisionada, na impossibilidade de escapar da posição conquistada[329].
Um emissário foi então enviado à caatinga à procura da segunda coluna, que havia feito alto a menos de um km ao norte.
Peripécias e desventuras da segunda coluna
A segunda coluna, colocada sob as ordens do general Cláudio do Amaral Savaget, partiu de Aracaju, capital do Sergipe, no litoral. Avançando primeiro em três brigadas separadas até Jeremoabo (a 150 km a oeste de Canudos), a coluna prosseguiu a partir de 16 de junho sua estrada para o objetivo das operações em formação agrupada. Era forte de 2 350 homens, incluindo as guarnições de 2 canhões Krupp leves.
Ao contrário da primeira coluna, não reinava aí autoridade central, rígida e absoluta, assumida por seu comandante; este, sem contudo atentar contra a unidade militar, consentiu em partilhar a autoridade com seus três coronéis, que dirigiam cada um uma brigada. A marcha da segunda coluna se passou portanto bem diferentemente da primeira, sem instruções prescritas, sem planos premeditados, sem o formalismo inabalável da primeira coluna. A tática era concebida de maneira ao mesmo tempo precisa e improvisada, apoiando-se em deliberações tomadas no momento. Como salienta Da Cunha, era a primeira vez que os combatentes abordavam a campanha numa atitude apropriada: subdivididos em brigadas autônomas, flexíveis, ágeis e firmes, a fim de não se dispersarem; e suficientemente móveis para torná-los aptos à execução de manobras ou movimentos muito rápidos permitindo-lhes fazer face às surpresas dos jagunços. As três brigadas eram abastecidas por comboios parciais zelosos por não entravar seus movimentos.
A brigada do coronel Carlos Teles era, a esse título, exemplar. Este havia se assinalado durante a campanha federalista do Sul, em particular durante o cerco de Bagé. Soube transformar sua unidade em pequeno corpo de exército adaptado às exigências dessa campanha; para esse fim, aliviou-a, treinou-a para o combate, esforçou-se por torná-la capaz de grande celeridade nas marchas e de vivo ímpeto nas cargas, e selecionou 60 cavaleiros hábeis para constituí-los num esquadrão de lanceiros. Esses lanceiros venceram os barrancos do sertão e efetuaram preciosos reconhecimentos. Mais tarde, quando as duas colunas se reuniram na calha da Favela, a lança lhes serviu oportunamente como aguilhão para apoderar-se do gado disperso na caatinga, o que foi durante as longas semanas de cerco a única maneira de assegurar víveres à tropa. A segunda coluna chegou assim a Serra Vermelha em 25 de junho sem se ter deixado surpreender[330].
A zona entre Canudos e Jeremoabo se eriça de um grande número de cordilheiras de encostas desnudadas, talhadas em gargantas, fracionadas em arestas vivas, erguendo-se entre vales encaixados. Há, para transpor essas montanhas, uma passagem obrigatória na estrada de Canudos a Jeremoabo, uma brecha profunda onde se engolfa o Vaza-Barris. O viajante vindo de Canudos deve seguir o leito seco do rio e após ter percorrido alguns metros tomar um estreito desfiladeiro; depois, além desse desfiladeiro, as vertentes abruptas se afastam e determinam um vasto anfiteatro, onde o terreno permanece convulsionado e no centro do qual se erguem outros montes, menos elevados; a passagem no entanto bifurca, encaixando-se o Vaza-Barris na curva da direita; as duas gargantas assim formadas, de larguras variáveis, estreitam-se até cerca de 20 metros em alguns lugares, e depois se encurvam e se aproximam novamente para se reunir a jusante, formando outra passagem única na estrada de Jeremoabo. Os taludes dos montes centrais se opõem às paredes escarpadas das vertentes laterais. Durante suas cheias, o Vaza-Barris invade os dois ramos da bifurcação, transformando então em ilha os outeiros centrais, antes de reunir seus dois braços e se dirigir direito para leste numa vasta planície desimpedida. Lado oeste contudo, isto é, a montante, não há vale aplainado, e a paisagem continua, embora em menor medida, a ser acidentada, forçando o Vaza-Barris a se contorcer em meandros, a tomar amplitude ou ao contrário a se encaixar. A aldeia de Canudos está a menos de quatro km a montante.
Em 25 de junho, pouco antes do meio-dia, a vanguarda da segunda coluna fez alto a cerca de 500 m desse obstáculo. O esquadrão de lanceiros, como se aproximava a galope das trincheiras rebeldes, avistou subitamente o inimigo, foi recebido a tiros de fuzil, perdendo dois soldados feridos, e teve que voltar para a cabeça da coluna. Desdobrou-se imediatamente em atiradores um dos batalhões e mais de 800 homens começaram o ataque por uma fuzilaria nutrida, que iria durar três horas. Os jagunços, que ocupavam excelentes posições em sobrelo, protegidas por parapeitos de pedras, dominando a planície em toda a sua extensão assim como uma grande parte da estrada, não largaram pé e sustentaram o assalto por tiros soltos com precisão. A tropa bombardeou a montanha a projéteis e caixas de metralha, lançados de perto, mas que não tiveram outro efeito senão provocar uma recrudescência do fogo rebelde, a ponto de os atiradores da coluna penarem para fazer face, sem ter aliás ganho uma única polegada de terreno[331].
Das duas opções que se apresentavam — seja recuar lentamente, e depois contornar o trecho intransponível, e procurar um atalho mais acessível, seja lançar-se resolutamente ao assalto das encostas — a segunda foi adotada. Fixou-se um plano segundo o qual uma brigada deveria carregar sobre o flanco esquerdo e pelo leito do rio, a fim de desalojar o inimigo dos outeiros do centro e das colinas do lado esquerdo, enquanto uma outra atacaria pelo flanco direito. O esquadrão de cavalaria deveria engolfar-se ao pé da falésia à esquerda (isto é, no ramo direito do desfiladeiro, para quem desce o curso do rio). Os assaltantes deveriam avançar todos ao mesmo tempo.

As brigadas invadiram portanto as encostas, pegando de surpresa os jagunços, que não haviam previsto tal golpe de audácia, o qual visava a conquistar diretamente, ao cabo de uma difícil ascensão sobre uma encosta escarpada, as posições que ocupavam[332]. Se a linha de combate iria certamente se fracionando segundo os acidentes do terreno, os soldados souberam sempre se reagrupar; no entanto, encontraram as trincheiras sempre vazias, pois, fiéis à sua tática costumeira, os jagunços, cujo número aliás nunca se soube ao certo, se furtavam e recuavam, e exploravam a configuração do terreno para deslocar sem cessar a zona de combate e tomar posição um pouco mais adiante. Finalmente, à força de galgar as trincheiras mais altas, os pelotões forçaram os sertanejos, assim cortados de seus entrincheiramentos sucessivos sobre a linha de crista, a abandonar totalmente essas trincheiras, não em maneira de recuo temporário tático, mas para fugir de vez. Os soldados os perseguiram e acabaram por segurar todo o desfiladeiro.
O balanço da batalha de Cocorobó levantado no final da tarde dá conta de 178 homens fora de combate, dos quais 27 mortos, entre os quais dois oficiais mortos. O general Savaget também fora atingido.
Posteriormente, a coluna não progrediu mais que com lentidão, em meio a combates contínuos. Foi preciso todo o dia de 26 de junho para percorrer os poucos km que separavam Cocorobó da confluência do Macambira. Seguindo o plano definido pelo comandante-chefe, todas as tropas deveriam se encontrar no dia seguinte, 27 de junho, nos arredores de Canudos, para, uma vez feita sua junção, atacar conjuntamente a aldeia rebelde[333].
Em 27 de junho, a vanguarda, tendo penetrado dois km nos subúrbios de Canudos, foi atacada em todos os seus flancos, e ripostou reconduzindo a tática que fora tão eficaz na véspera: lançar-se impetuosamente, baioneta calada, sobre as encostas das colinas. No entanto, os jagunços puseram em prática mais uma vez sua técnica de combate experimentada, desta vez perfeitamente adaptada ao terreno, constituído de inúmeros outeiros, separados por um dédalo de barrancos, por vários km ao redor. Os jagunços, desalojados de tal posição, ressurgiam imediatamente noutra, compelindo seus adversários, ao mesmo tempo que os alvejavam com precisão, a subidas e descidas incessantes, até o esgotamento. A vanguarda, tendo já perdido um grande número de soldados, foi a longo prazo incapaz de suportar mais adiante esse combate dos mais ferozes, ao qual a noite que caía pôs fim. Essa batalha, que tomou nome de combate de Macambira, do nome de uma fazenda próxima, permitiu à expedição empurrar até 500 m da aldeia, ao preço contudo de 148 homens perdidos, dos quais 40 soldados e 6 oficiais mortos. No total, sobre um trajeto de menos de dois km, entre Cocorobó e Canudos, a segunda coluna havia perdido 327 homens, mortos ou feridos[334]. De sua nova posição, desde um pequeno planalto, a coluna se pôs por sua vez a bombardear a aldeia[335].
Em 28 de junho, emissários da primeira coluna apareceram no acampamento e exigiram instantes, por ordem do comandante-chefe, o socorro imediato da segunda coluna. Savaget abandonou então sua posição e se pôs em movimento com todos os seus efetivos, chegando por volta das onze horas da noite sobre a Favela, a tempo de afrouxar o bloqueio. Em seguida, pôde-se enviar um contingente à retaguarda, para retomar posse do comboio de abastecimento e salvar assim uma parte da carga[336].
Desventuras e atolamento das duas colunas reunidas
No entanto, o acampamento das duas colunas reunidas na Favela, compreendendo nesse momento 5 000 soldados, mais de 900 mortos e feridos, um milhar de animais de sela e de tração, centenas de animais de carga, sem flanco-guarda, sem retaguarda, sem vanguarda, estava totalmente desorganizado e desordenado, misturando à revelia todas as unidades combatentes. Por falta de espaço, renunciou-se a armar tendas. Nesse mesmo dia, 28 de junho, 524 homens da 1ª coluna foram postos fora de combate, o que, com os 75 da véspera, elevava o número de perdas a 599. Com os 327 homens perdidos da 2ª coluna, chegava-se ao número de 926 vítimas, sem contar os desmoralizados. Além disso, as tropas não podiam arriscar o menor movimento fora da posição conquistada e deviam viver num estado de alarme permanente. O acampamento era varrido, sem que se pudesse prevê-los, pelos tiros divergentes dos jagunços emboscados e invisíveis, ao qual era quase impossível replicar.
Por outro lado, a expedição se via isolada no sertão sem linha estratégica que a ligasse à base das operações de Monte Santo. Da carga do comboio recuperado, mais da metade havia sido destruída ou caíra em mãos dos jagunços, o que fornecera a estes mais de 450 mil cartuchos, permitindo-lhes vislumbrar uma resistência indefinida[337].
Na manhã de 29 de junho, as provisões se revelaram insuficientes para a ração completa dos homens da 1ªcoluna, enquanto a 2ª não tinha mais para três dias de reserva. Quanto ao bombardeio pelos canhões, permaneceu sem efeito, seus projéteis explodindo no local sem outros danos. Julgou-se portanto mais judicioso alvejar a igreja nova, quase concluída, sobre as duas altas torres da qual se amontoavam os jagunços, e donde se podia, sem ser atrapalhado por nenhum ponto cego, ter em enfiada todos os caminhos, varrer o cume de todas as montanhas circundantes e o fundo de todos os vales[338]. O Whitworth foi bem apontado contra a igreja, mas aqueles que o manobravam, pouco hábeis, não conseguiram atingi-la[339].
Em 30 de junho, o acampamento todo inteiro foi atacado pelos rebeldes; se foram repelidos de todos os lados, foi apenas para voltar algumas horas depois[340]. Nos dias seguintes, não houve uma hora de trégua, os ataques podendo surgir a qualquer instante, sempre inopinados e variados, visando ora a artilharia, ora um dos flancos do acampamento, ou jorrando de todos os lados ao mesmo tempo. Enviavam-se corpos de tropa apoderar-se de suas trincheiras e destruí-las, o que se fazia sem demasiadas perdas; mas a mesma tarefa devia ser recomeçada no dia seguinte, pois os jagunços reconstruíam suas trincheiras durante a noite, por vezes aproximando-se ainda mais. Mas é aos canhões, que destruíam suas igrejas, que os jagunços pareciam votar um ódio particular. Assim, em 1 de julho, os sertanejos tentaram penetrar até a localização das baterias, com o objetivo de capturar ou destruir o Whitworth 32, que chamavam a matadeira, a matadora. Aliás, a artilharia, constatando a pouca eficácia do bombardeio e vendo as munições rarear, não atirou mais que com parcimônia[341].
A posição na calha da Favela era insustentável: acumulavam-se as perdas diárias totalmente inúteis, os homens se desmoralizavam, e as munições se esgotavam. Deserções começaram a ocorrer, e em 9 de julho, vinte soldados escaparam para o sertão, seguidos por outros nos dias seguintes. Vozes se ergueram para propor lançar imediatamente a ofensiva contra a aldeia, opinião que foi contudo rejeitada pelo general-chefe, o qual esperava a chegada próxima de um comboio de provisões de Monte Santo, como lhe fora assegurado, e se propunha dar o assalto apenas então, após três dias de ração completa.
Enquanto isso, os soldados viviam de expedientes e começaram a empreender, por sua própria iniciativa, isolados ou em pequenos grupos, temerárias expedições nos arredores, para colher milho ou mandioca nas raras plantações e caçar cabritos abandonados desde o início da guerra. Apenas o esquadrão de lanceiros realizava esse exercício com alguma eficácia. Os jagunços se apraziram em armar emboscadas aos soldados, e essas expedições tiveram que ser estritamente regulamentadas[342]. A água mesmo acabou faltando, e obtê-la tornou-se extremamente difícil. A partir de 7 de julho, os doentes cessaram de receber víveres. Em 15 de julho, os jagunços, com mulheres e crianças, conseguiram se insinuar à direita do acampamento e levar para a aldeia muitas cabeças de gado[343].
A eventualidade de uma retirada foi evocada. No entanto, era aí uma opção impossível: o exército, com a lentidão que lhe ditaria a artilharia, as ambulâncias e o fardo de mais de mil feridos, seria uma presa fácil para os rebeldes. Artur Oscar, que fazia mostra de uma total ineficácia, se via assim bloqueado na Favela e condenado a permanecer no local.
Na tarde de 11 de julho, um vaqueiro trouxe um despacho do coronel Medeiros anunciando sua chegada e solicitando uma escolta para proteger o grande comboio que levava. Medeiros chegou, aclamado, sobre o alto da Favela em 13 de julho. Mas fez também saber que não havia nada na pretensa base de operações de Monte Santo, que era desprovida de tudo, e que tivera que organizar ele mesmo, penosamente, o comboio que trouxera. Estando este chamado a se esgotar logo, o que traria de volta a situação crítica anterior, a ofensiva contra a aldeia pareceu urgente. Após deliberação, fixou-se o plano de ataque seguinte: após uma marcha ao longo do flanco oriental da aldeia por quase 2 km, as colunas de assalto obliquariam à esquerda para transpor a vau o Vaza-Barris e estabelecer uma linha de combate ao norte da aldeia, antes de assaltar de frente a praça das igrejas.
Ao querer assim lançar uma ofensiva em grandes massas sobre um único flanco, onde teria sido necessário, para fazer frente à agilidade dos jagunços, atacar em dois pontos diferentes (pelo caminho de Jeremoabo a leste, e seguindo as contrafortes da Fazenda Velha a oeste, a artilharia guardando suas posições no centro do dispositivo), só se fazia repetir o mesmo erro[344].
A ordem do dia de 17 de julho, fixando o ataque para o dia seguinte, 18 de julho, foi recebida com frenesi.
Assalto contra a aldeia (18 de julho)

Em 18 de julho, antes do romper do dia, enquanto cerca de 1 500 homens permaneciam atrás para guardar as posições na Favela sob o comando do general Savaget, perto de 3 350 homens entraram em ação, repartidos em cinco brigadas: na cabeça, a 1ª coluna, imediatamente seguida pela ala de cavalaria e uma divisão de dois Krupp, e depois pela 2ª coluna fechando a retaguarda[345]. As tropas deviam primeiro descer para o caminho de Jeremoabo à direita do acampamento, depois virar à esquerda e tomar a direção das margens do Vaza-Barris. A progressão prevista efetuou-se primeiro tranquilamente, sem que o inimigo se manifestasse.
O meandro do Vaza-Barris determinava uma península, que se abria para nordeste e cuja extremidade sul Canudos ocupava. O rio fazia assim figura de circunvalação protegendo a aldeia em três quartos de seu perímetro. Para cortar todo ataque, bastava portanto aos defensores de Canudos manter o flanco nordeste da dita península. O terreno onde as tropas deviam se desdobrar após ter atravessado o rio além de Canudos formava uma elevação, coberta até seu cume por trincheiras de pedras irregulares; ao redor estendiam-se colinas inumeráveis entrecortadas de uma rede inextricável de barrancos. A aldeia se encontrava cerca de 1 500 m mais adiante ao sul.
A primeira coluna transpôs, na sequência dos batedores, de sua massa compacta o leito do rio sob os tiros do inimigo. Mas a linha de desdobramento tal como projetada revelou-se irrealizável naquele terreno acidentado, sem expor perigosamente o flanco antes de poder ganhar a posição prevista. Quando os soldados quiseram se dispersar para a direita, a fim de se alinhar em linha de combate, engajavam-se num dédalo de barrancos sinuosos, conquistavam certamente terreno, mas logo se extraviavam, desorientados, sem ver o resto de seus companheiros, recuando por vezes quando criam avançar, topando amiúde com outras seções, que corriam em sentido inverso. Resultou que, quando a 2ª coluna chegou meia hora depois, deixando uma única brigada atrás, já havia um número elevado de vítimas. Essa 2ª coluna era suposta desdobrar-se ainda mais à direita (isto é, para oeste), a fim de prolongar a frente e privar os jagunços de toda possibilidade de um movimento contornante; essa manobra no entanto não pôde ser executada[346].
O esquadrão de lanceiros conseguiu no entanto uma irrupção, e os soldados se encontravam agora a menos de 300 m da aldeia, sobre uma eminência, onde a tropa estava contudo completamente exposta, sofrendo uma fuzilaria nutrida vinda das igrejas e da parte alta da aldeia situada para noroeste. Não obstante, as brigadas prosseguiram seu avanço, ao preço de grandes perdas e com um desperdício inútil de munições, numa marcha desordenada.
Segundo a tática habitual, os rebeldes desalojados das trincheiras se retiravam para outros esconderijos e fustigavam por vezes os assaltantes a queima-roupa. Foram progressivamente empurrados a se concentrar na aldeia, cujas primeiras casas situadas no leste da península os soldados alcançaram por volta das dez horas da manhã. Enquanto uma parte dos soldados se contentavam em se abrigar nas palhoças conquistadas, uma maioria deles continuou a progredir até a cabeceira da velha igreja. Mas os jagunços aumentaram então sua resistência varrendo com seus tiros as divisórias das palhoças onde os soldados se encolhiam e lutavam individualmente por sua sobrevivência, ou matando-os no interior, de tal forma que a tropa foi incapaz de ir mais adiante e pôs os canhões Krupp em bateria. Ao preço de perdas importantes, apenas um pequeno subúrbio, cobrindo um quinto do perímetro da aldeia, fora conquistado, pelo que se conseguira fechar Canudos apenas pelo leste. A retaguarda transbordava de feridos e mortos, e a expedição acabava ainda de perder perto de mil homens, mortos ou feridos, dos quais três comandantes de brigada. O resto do dia e uma grande parte da noite foram empregados em preparar entrincheiramentos, a consolidar os muros das casas com tábuas ou pedras, ou a identificar os poucos lugares menos expostos aos tiros[347].
Face a essa confusão e essa desorganização desastrosas, o comandante-chefe não tinha outra escolha senão guardar a posição conquistada. Novamente, a expedição se enredava numa situação sem saída, onde o avanço e o recuo eram igualmente impossíveis; mais uma vez, a expedição se via de fato sitiada. Completar o cerco de Canudos, o que teria implicado ocupar um circuito de seis km, estava fora do alcance da expedição, reduzida doravante a um efetivo de pouco mais de 3 000 homens válidos. A cessação temporária das operações impunha-se portanto fatalmente; era preciso contentar-se em defender a posição conquistada, e entretanto pedir novos reforços. O que fez o general Artur Oscar: requereu ao governo um corpo auxiliar de 5 000 homens[348].
A maior liberdade de movimento resultante de que havia doravante dois acampamentos distintos revelou-se ilusória. Os jagunços haviam com efeito retomado suas posições sobre os montes circundantes e tornavam as comunicações com a Favela muito difíceis. Os feridos que aí se arrastavam eram novamente tomados como alvo, e devia-se esperar a noite para trazer as magras rações aos soldados da linha de frente. Em 23 de julho, por falta de munições, os três canhões só puderam disparar nove projéteis[349].
Reação do governo e envio de uma brigada auxiliar
Nas capitais[350] brasileiras, o espectro de uma restauração monarquista reaparecera e inflamava as imaginações; houve assim uma declaração do Senado federal exigindo esclarecimentos sobre um pretenso transporte de armamentos proveniente de Buenos Aires com destino aos portos de Santos e de Salvador, supostamente para os rebeldes de Canudos[351]. Ao lado dos telegramas extravagantes e contraditórios que chegavam da zona das operações, informações verídicas tendiam por outro lado a corroborar essas conjecturas sobre uma ofensiva monarquista de grande envergadura. Os jagunços lideravam com efeito operações de guerrilha em todo o norte do Estado da Bahia, atacando sob o comando de Antônio Fogueitero a vila de Mirandela (mais de 100 km ao sul), apoderando-se da aldeia de Sant'Ana do Brejo e a saqueando. Além disso, tomaram posição nas vertentes do Caipã e sobre as linhas de crista em torno do vale da Ema[352]. Ao alargar assim seu raio de ação, os rebeldes davam a impressão de desenvolver uma estratégia precisa.
Era também o início da estação seca no sertão. O nível das lagoas baixava, e a temperatura era submetida a oscilações extremas — dias ardentes desde as primeiras horas, e noites geladas. Assim, para a transferência a Monte Santo dos doentes e feridos, tornada imperiosa em 27 de julho (desde 25 de junho até 10 de agosto, a expedição sofrera 2049 perdas, mortos e feridos), só se podia marchar no início da manhã e no final da tarde[353]. Monte Santo, assumida por uma guarnição reduzida, fora abandonado por sua população, aterrorizada tanto pelos rebeldes quanto pela soldadesca republicana, e mal podia abrigar os feridos durante um dia. O hospital militar que a autoridade preparara numa grande casa escura era dos mais deploráveis[354]. De Monte Santo a Queimadas, os comboios eram retardados por assaltos contínuos, amiúde o feito de desertores famintos[355].
Acedendo aos primeiros pedidos de reforço do general Artur Oscar, o governo federal rapidamente montara uma brigada auxiliar, denominada brigada Girard, do nome de seu comandante, o general Miguel Mari Girard, e compreendendo 1 042 soldados e 68 oficiais, perfeitamente equipados, com nomeadamente 850 mil cartuchos Mauser. No entanto, essa brigada se revelou de pouca utilidade. Chegada a Queimadas em 31 de julho, deixou Monte Santo para Canudos em 10 de agosto, sob as ordens de um comandante, pois teve que abandonar em Monte Santo um coronel e vários outros oficiais que adoeceram. Além dos pedidos de licença que se multiplicavam, a varíola veio a dizimar. Finalmente, foi violentamente atacada pelos jagunços, primeiro no Rancho do Vigário, onde os rebeldes a tomaram como alvo no flanco direito, desde uma posição em sobrelo e quase de frente, o que lhes permitiu tomar todas as suas fileiras em enfiada, depois em Angico. Dos 102 bois que transportava, não restaram senão onze[356].
Novos reforços e intervenção de Bittencourt

Quando esses ataques foram conhecidos em Salvador, e que se reconheceu a ineficácia da brigada Girard, o governo decidiu constituir uma nova divisão e convocou para isso os últimos batalhões suscetíveis de serem rapidamente mobilizados em todos os Estados do país, do extremo norte ao extremo sul, dando assim a essa mobilização o aspecto de uma leva em massa. Esses novos reforços, que contavam mais de 2 900 homens, dos quais perto de 300 oficiais, foram repartidos em duas brigadas de linha e uma brigada composta dos corpos de polícia. Empregou-se todo o mês de agosto para mobilizá-los e equipá-los, para acabar concentrando-os em Monte Santo nos primeiros dias de setembro. Os batalhões de linha recentemente formados não apenas tinham um efetivo aquém da norma, mas não dispunham senão de velhos fuzis e uniformes usados que haviam servido na campanha federalista do Sul[357].
Por outro lado, a fim de observar de perto as operações, o governo resolveu enviar ao local, em Monte Santo, o secretário de Estado do ministério da Guerra, o marechal Carlos Machado Bittencourt. Dotado de um sólido bom senso, este cedo percebeu as exigências verdadeiras dessa guerra. Compreendeu que não servia de nada acumular um número ainda maior de combatentes na campanha e que aumentar os efetivos só faria piorar a penúria geral. Era urgente em contrapartida pôr em prática o mais rápido possível uma base de operações verdadeiramente operacional e uma linha de abastecimento regular e segura. Impassível em meio à agitação geral, consciente também de que a guerra não podia mais se prolongar além de dois meses tendo em conta o regime torrencial no qual se iria entrar em novembro, Bittencourt impôs um regulamento rigoroso e uma disciplina estrita, tomou um conjunto de medidas conformes às exigências da situação, comprou mulas, contratou tropeiros, e por suas instruções, enfim, nos últimos dias de agosto, concluiu-se a criação de um corpo regular de comboios que era capaz de percorrer continuamente os caminhos e ligar efetivamente, com intervalos de apenas alguns dias, a frente à base de operações de Monte Santo e cujos primeiros comboios partiram para Canudos no início de setembro[358]. Logo, comboios parciais chegavam e voltavam de Canudos quase cada dia. Os resultados dessa política foram imediatos, manifestos em particular por um maior ímpeto nos sitiantes, que se sentiam aptos agora, como se verá, a executar movimentos táticos decisivos[359]. Finalmente, um hospital militar, devidamente equipado e dirigido por cirurgiões, veio a lume.
Até então, no terreno, a expedição, bloqueada nos flancos da aldeia, vinha desde o assalto de 18 de julho de passar mais de 40 dias de atividade perigosa e estéril. Os jagunços haviam aprendido a liderar seus ataques com mais ordem e eficácia. Os comboios, que também recebiam, entravam pelos caminhos do vale da Ema, ao norte da aldeia. Mas para não desguarnecer suas posições, e receando as emboscadas e as colunas volantes de jagunços, os soldados se abstinham de ir interceptá-los. Os três Krupp bombardeavam noite e dia a aldeia desde 19 de julho, ateando incêndios que os rebeldes dominavam a custo, e arruinando totalmente a velha igreja; o resto da torre sineira foi abatido em 23 de agosto pelo Whitworth que se havia descido do alto da Favela, mas ao mesmo tempo quebrou-se uma peça da culatra, o que pôs o canhão definitivamente fora de serviço. As perdas, que não variavam quase, haviam imposto, já em meados de agosto, reorganizar as forças e diminuir em particular o número de brigadas, fazendo-as passar de 7 para 5, enquanto as patentes dos comandantes não cessavam de baixar[360]. Não obstante, nenhum desastre verdadeiro ocorrera: agarravam-se às posições conquistadas, a brigada Girard permitira colmatar os vazios das linhas rareficadas, e os primeiros sinais de desânimo se manifestaram nos rebeldes.
Sobretudo, em 7 de setembro, a linha de frente do cerco iria se ampliar de um arco de círculo em direção ao oeste, em duas etapas importantes. Primeiramente, ao cair da noite, os rebeldes que mantinham a Fazenda Velha foram vencidos por um contingente de soldados, os quais, uma vez a posição tomada, construíram um poderoso reduzido de mais de um metro de altura sobre um ressalto dominando o Vaza-Barris. Segundamente, o tenente-coronel Siqueira de Meneses, informado por alguns vaqueiros leais, soube da existência de um outro itinerário de Monte Santo a Canudos: a estrada do Calumbi, ainda desconhecida do exército, mais curta que a do Rosário a leste e do Cambaio a oeste, entre as quais corria, permitia alcançar a base de operações segundo um traçado quase retilíneo na direção norte-sul. Siqueira de Meneses explorou-a, percorreu-a, aí deixou guarnições, depois, por uma volta, voltou pelo Cambaio, onde surpreendeu vários grupos inimigos, surgiu enfim sobre o rio e apoderou-se de improviso das trincheiras que se encontravam ali. Esse novo senderio, doravante interdito aos rebeldes, que tinham o costume de tomá-lo para se dirigir ao sul, encurtava de mais de um dia o percurso de Monte Santo. Canudos estava doravante cercado por um semicírculo de sitiantes, do extremo norte até o ponto de término da estrada do Cambaio[361]. Contudo, o bloqueio permanecia incompleto: a linha de cerco ainda era bem limitada em relação à aldeia toda inteira e, deixando ao norte um vasto espaço livre, não privava o inimigo de seus recursos; com efeito, magros abastecimentos continuavam a lhe chegar pelos caminhos permanecidos livres do vale da Ema e de Uauá, os quais, subdividindo-se em numerosos senderos, desembocavam sobre os planaltos e alcançavam o São Francisco e os pequenos povoados que o margeavam[362].
O acampamento perdera seu aspecto caótico das primeiras semanas. Fora dos episódios, cada vez mais espaçados, de assalto dos jagunços, o acampamento conhecia doravante a quietude de um pequeno povoado pacífico. Ao contrário, no campo rebelde, as provisões começaram a faltar e o desequilíbrio se agravava entre o número de combatentes válidos, em diminuição constante, e o de mulheres, crianças, velhos, mutilados e doentes, que não cessava de aumentar, reduzindo os recursos, atrapalhando os movimentos dos combatentes, mas se recusando contudo a fugir. Os jagunços mais em vista haviam desaparecido: Pajeú, em julho; o sinistro João Abade, em agosto; o astuto Macambira, mais recentemente; José Venâncio, e muitos outros ainda. As figuras principais doravante eram Pedrão, o defensor de Cocorobó, e Joaquim Norberto, que, por falta de melhor, se havia alçado ao status de comandante[363].
Morte do Conselheiro e cerco

Antônio Conselheiro, quando viu os templos destruídos, os santos em escombros, as relíquias espalhadas, deixou-se morrer intensificando sua abstinência habitual até o jejum absoluto. Segundo outros, foi atingido por disenteria e sucumbiu à doença. No entanto, sua morte, pelo relato que dela foi feito, teve paradoxalmente o efeito de revitalizar a insurreição. Antônio Conselheiro, dizia-se, estava junto de Deus; tudo previra e decidira apelar diretamente à providência. Os jagunços deviam portanto permanecer nas trincheiras, para a expiação suprema. Logo, o profeta voltaria entre as espadas cintilantes de milhões de anjos. Alguns no entanto, entre os quais Vila Nova, deixaram então a aldeia. Foram os últimos a poder fazê-lo, pois Canudos seria totalmente cercado em 24 de setembro[364]; mas também, e inversamente, esse cerco iria pôr fim ao afluxo de novos combatentes, que até essa data de 24 de setembro se haviam engolfado às dezenas ainda através da última abertura[365].
O tenente-coronel Siqueira de Meneses, levando vários batalhões e um contingente de cavalaria, partiu para o noroeste, para o setor do cerco ainda não ocupado, isto é, para o ponto de Canudos mais afastado da primeira frente, a zona diametralmente oposta à Fazenda Velha. Aí se encontrava o subúrbio novo das Casas Vermelhas, edificado após a vitória sobre a 3ª expedição e compreendendo edifícios de melhor aparência, com nomeadamente a única rua digna desse nome que a aldeia contava, alinhada e tendo três metros de largura[366]. Os jagunços não tendo imaginado que os soldados penetrariam até lá, o subúrbio era pouco protegido e desprovido de trincheiras-abrigos, e todas essas casas, devido ao que eram as mais afastadas dos combates, abrigavam mulheres e crianças em grande número. Os soldados, tomando o leito do rio, lançaram-se sobre esse bairro e o invadiram em alguns minutos. Segundo sua maneira habitual, os guerrilheiros, embora atrapalhados pelas mulheres aterrorizadas, recuaram sem fugir e resistiram, o que acabou por cortar a progressão dos soldados nas vielas. Não obstante, Canudos estava agora completamente cercado, e os soldados, que logo tiveram treze perdas em suas fileiras, mas estavam doravante aguerridos a essa guerrilha urbana, ergueram, para segurar sua progressão, barricadas de móveis e escombros, seguindo o procedimento usual obrigatório[367].
Ofensiva final e epílogo
Embora o general-chefe houvesse claramente manifestado sua intenção de conduzir uma guerra de desgaste a fim de evitar ao máximo os derramamentos de sangue, dois batalhões, por um golpe de audácia inesperado, tomaram em 25 de setembro a iniciativa de entrar em ação descendo, secundados pela artilharia, as vertentes do Mário onde acampavam com o objetivo de apoderar-se da aldeia. A despeito do efeito surpresa, os jagunços lhe barraram vigorosamente a passagem e cortaram seus esforços em alguns instantes. O alto preço dessa ofensiva (perto de 80 homens postos fora de combate) era compensado pelas perdas enormes do inimigo: centenas de mortos, centenas de casas conquistadas, os rebeldes não controlando mais doravante senão um terço da aldeia, na borda setentrional da praça, assim como algumas casas perto da igreja. Nos últimos dias, mais de 2 500 soldados se haviam apoderado de cerca de 2 000 casas (sobre um total de cerca de 5000). A população de Canudos se via cercada por um círculo apertado de vinte batalhões e agora devia se ocultar em menos de 500 palhoças. Ademais, os incêndios provocados pelo bombardeio reduziam de hora em hora seu espaço vital. Em contrapartida, os defensores, amontoados nas casas, opunham uma resistência crescente: a exiguidade do terreno e a estreiteza das vielas tornavam impossível todo movimento coletivo e reduziam o combate ao único aspecto da bravura e do afinco individuais[368]. Faltando água, os canudenses cavavam poços profundos, que no entanto secavam rapidamente.
A resistência iria durar uma semana ainda. À noite, os sertanejos conseguiam romper temporariamente o cerco do exército por alguns ataques violentos, nomeadamente nos dias 26 e 27 de setembro, durante os quais se precipitavam todos para as margens do Vaza-Barris para manter temporariamente as cacimbas, lagoas no leito do rio. Noutros momentos, enquanto o grosso dos sitiados liderava ataques para fazer diversão, alguns audaciosos munidos de odres vazios se arriscavam até a borda do rio para aí encher seu saco de couro e depois voltar. Mas essas expedições logo se tornaram impossíveis, após os soldados terem descoberto a verdadeira razão dos ataques noturnos[369]. Fim de setembro, o esgotamento dos canudenses diante do bloqueio implacável tornou-se perceptível. Ao contrário, os soldados podiam percorrer impunemente a quase totalidade da aldeia, e os comboios diários e os correios entravam sem transtorno.
Em 30 de setembro, o alto comando, ao contrário do desígnio primitivo de esperar a rendição dos rebeldes, tomou a decisão de atacar no dia seguinte, 1 de outubro. Havia, em 30 de setembro, 5871 homens sob as armas em Canudos. O ataque seria lançado por duas brigadas, uma aguerrida por três meses de combates, a outra recentemente chegada, composta de combatentes impacientes para enfrentar os jagunços. A primeira deixaria sua antiga posição e se dirigiria para a Fazenda Velha, donde, juntando-se a três outros batalhões, avançaria até se postar atrás e nos flancos da nova igreja, objetivo central da ofensiva. Previamente, um bombardeio sustentado e esmagador, ao qual participariam todos os canhões do cerco, atingiriam durante 48 minutos o núcleo reduzido das últimas palhoças, partindo de um longo semicírculo de dois km, desde as baterias próximas do acampamento até o último recanto à direita, onde desembocava a estrada do Cambaio. O bombardeio aliás não iria provocar nenhum grito, nenhuma silhueta em fuga, o menor tumulto, deixando pensar que a aldeia estava deserta[370].
Conforme o plano, os batalhões se lançaram de três pontos diferentes, atravessaram o rio, ganharam a outra margem, galgaram a margem, e convergiram para a nova igreja. Mas uma vez esse movimento realizado, todos os movimentos táticos preestabelecidos se encontraram, mais uma vez, abolidos pelo despertar inopinado dos jagunços: as brigadas subitamente estagnavam ou se fracionavam, indo novamente se perder nas vielas, compelidas a adotar uma posição puramente defensiva. Os jagunços, contrariamente às previsões, não se deixaram repelir para a praça, onde deviam esperá-los as forças estacionadas nas linhas centrais e nas margens do rio — o objetivo primordial da ofensiva não foi portanto alcançado. Apenas a nova igreja pôde ser conquistada, mas esse sucesso se revelou inútil[371].

Pareceu portanto necessário lançar na batalha novos efetivos, além do plano de ataque inicial. Depois mais quatro batalhões ainda foram engajados no combate. O bairro sitiado parecia engolir as tropas — 2 000 homens ao todo — sem que a situação fosse em nada modificada após três horas de combate[372]. Mesmo a ideia que teve o ordenança do comandante-chefe de lançar dezenas de bombas de dinamite (combinadas a bidões de petróleo derramados para avivar os incêndios) produziu um efeito perverso, pois os jagunços ou conseguiam se abrigar, ou saltavam atrás das trincheiras para lançar assaltos temerários e matar impiedosamente os soldados em suas próprias trincheiras. Estes já enfraqueciam, perdiam coragem, esmigalhavam-se em bandos desorientados sem nenhuma unidade de ação e de comando. Os combates haviam resultado nesse dia em 567 perdas, sem nenhum resultado apreciável; de certa maneira mesmo, a zona de cerco havia ganhado em extensão. No hospital de socorro, a uma hora da tarde, já haviam chegado perto de 300 feridos. Finalmente, às duas horas da tarde, a ofensiva acabou por se imobilizar completamente.
No entanto, para os rebeldes, a situação se deteriorara: tendo sido desalojados da igreja nova, haviam perdido todo acesso às cacimbas, e as vastas brasas que os cercavam os acuavam em seu último reduzido[373].
Em 2 de outubro, segundo dia da última ofensiva, dois sertanejos vieram se render; um deles, Beatinho, foi reenviado pelo comando, com missão de convencer seus camaradas jagunços a capitular. Mas ao fim de uma hora, o emissário voltou seguido de cerca de 300 mulheres e crianças, e de meia dúzia de velhos incapazes. Os jagunços se desfaziam assim dessa multidão inútil, o que lhes permitia economizar seus recursos e prolongar o combate[374]. Nos dias seguintes, os rebeldes resistiram até o esgotamento completo sem consentir em se render. Canudos enfim caiu em 5 de outubro, quando, ao final da tarde, morreram seus quatro últimos defensores, um velho, dois adultos e uma criança.
Em 6 de outubro, terminou-se de destruir a aldeia derrubando todas as suas palhoças, cujo número se estabeleceu em 5200[375].
Atrocidades
|
Os soldados obrigavam invariavelmente sua vítima a lançar um viva à República, exigência raramente satisfeita. Era o prólogo invariável de uma cena cruel. Agarravam-na pelos cabelos, dobravam-lhe a cabeça para trás, expondo seu pescoço; e logo que a garganta estava descoberta, a decepavam. Muitas vezes, a excitação do assassino rejeitava esses preparativos lúgubres. O procedimento era, então, mais expedito: trespassava-se prontamente a vítima com um golpe de facão. Um só golpe, penetrando sob o cinto. Uma rápida evisceração… Tínhamos bravos que se compraziam em realizar essas covardias repugnantes, tacitamente ou explicitamente aprovadas pelas autoridades militares. Embora tivessem três séculos de atraso, os sertanejos não levavam a palma na ostentação de feitos tão bárbaros. (…) A prática era banal, reduzida a um detalhe sem importância. Começada sob o aguilhão da cólera dos primeiros fracassos, terminava friamente como um hábito insignificante face às últimas exigências da guerra. Logo que um jagunço válido e capaz de suportar o peso de um fuzil era preso, não havia um segundo a perder em consultas inúteis. Degolava-se; estripava-se. Um ou outro comandante se dava ao trabalho de fazer um gesto significativo. E podia-se espantar com tamanha redundância. O soldado habituado a essa tarefa dela se dispensaria. Esta, como vimos, era simples. Envolver o pescoço da vítima com uma tira de couro, um cabresto ou um pedaço de chicote; empurrá-la para a frente; fazê-la atravessar as barracas sem que ninguém se espantasse; e não havia que temer que a presa escapasse, pois ao menor sinal de resistência ou fuga bastava puxar para trás para que o laço antecipasse a faca e que o estrangulamento se substituísse à degola. Avançar até a primeira cova um tanto quanto profunda — o que era um requinte de formalismo — e aí matar a vítima a faca. Então, conforme o humor dos carrascos, sobrevinham leves variantes. (…) E os degolavam, ou os estripavam a golpes de faca. (…) A prática era lamentavelmente caída na banalidade mais completa. |
| Euclides da Cunha, Os Sertões, p. 551-552[376] |
A última campanha militar contra Canudos é manchada de crimes de guerra maciços e sistemáticos perpetrados tanto contra os combatentes feitos prisioneiros quanto contra a população civil não combatente. O exército republicano não se limitou a proceder a uma destruição integral da cidade de Canudos, a demolir metodicamente as ruas e as casas com dinamite e a incendiá-las com querosene, mas empregou-se além disso a exterminar a quase totalidade dos habitantes.
Notemos primeiro que Euclides da Cunha não irá muito além que assinalar bastante laconicamente a existência desses massacres. Se bem que fora testemunha ocular dos últimos momentos da guerra, — tendo assistido a cerca de três semanas de combates, de 16 de setembro a 3 de outubro de 1897, quando partiu doente de Canudos, com acessos de febre, dois dias antes do fim do conflito[377] —, não pudera em contrapartida assistir ao massacre dos prisioneiros, à queda e ao incêndio da cidade, nem à descoberta do cadáver do Conselheiro e de seus manuscritos, todos fatos ocorridos entre 3 e 6 de outubro. Não mencionará portanto esses fatos em suas reportagens e só os relatará em seguida, de maneira sucinta apenas, em sua obra[378]. Assim, a decapitação de centenas de prisioneiros no fim da guerra, ocultada em suas reportagens de imprensa, é bem evocada em Os Sertões, mas sem revelar toda a sua amplitude[379], a denúncia parecendo se limitar a alguns casos isolados de decapitação, de evisceração ou de facadas em sertanejos, certamente relatados de modo inteiramente explícito. P. ex., Da Cunha conta o caso de um jovem prisioneiro, que respondera altaneiramente e com indiferença a todas as perguntas com um « sei não! », e pedido para morrer fuzilado, mas a quem um soldado enfia em seguida uma faca na garganta, não deixando ao prisioneiro senão o tempo de soltar esse último grito, que saiu gorgolejando de sua boca ensanguentada: « viva o Bom Jesus! ». Um outro prisioneiro, levado à tenda do general João da Silva Barbosa, comandante da primeira coluna, balbuciou algumas frases que se entenderam pela metade e tirou seu chapéu de couro para se sentar; mas, após tê-lo derrubado a socos por sua insolência, arrastou-se com uma corda amarrada ao pescoço para o « seio misterioso da caatinga », onde, como tantos outros prisioneiros, foi morto com requintes de crueldade[380]. No entanto, Da Cunha vai mais longe e se atreve a acusar atrocidades cometidas em Canudos não apenas os soldados, mas também os altos graduados, que as aprovavam tacitamente ou expressamente, ou mesmo a mais alta instância militar, a saber, o ministro da Guerra, o marechal Bittencourt, a quem o autor de Os Sertões declara cúmplice do maior crime de toda a história brasileira[381]. Não é portanto surpreendente que Da Cunha tenha tido alguma dificuldade para encontrar um editor e que temesse represálias por ter expressado críticas sem rebuços em relação às forças armadas nacionais — nessa época uma instituição de prestígio inalterável — e de heróis nacionais tais como Moreira César, Bittencourt e outros chefes do exército, e acessoriamente em relação à imprensa. Isso não obstante, uma primeira tiragem de seu livro, de mil exemplares, foi escoada em um único mês[382].
Em particular, o ministro Bittencourt foi tido como responsável pela morte intencional de centenas de prisioneiros de guerra, entre os quais homens, mulheres e crianças, incluindo de combatentes que se haviam rendido brandindo uma bandeira branca e haviam recebido, em nome da República, a promessa de proteção e de vida salva. O marechal Bittencourt — que se encontrava no quartel-general em Monte Santo, a algumas dezenas de km do local dos combates — , avisando que se retirava da frente e conduzia para trás canudenses prisioneiros, mandou dizer ao general Artur Oscar « que ele devia bem saber que ele, ministro, não tinha onde guardar prisioneiros! », assim como o relatou o deputado e escritor César Zama, salientando este por outro lado que « o general Artur Oscar compreendeu bem todo o alcance da resposta de seu superior hierárquico ». Todos os homens feitos prisioneiros a partir desse instante foram degolados, segundo a prática dita gravata vermelha (em português gravata vermelha)[383]. Alvim Martins Horcades, médico do exército e testemunha ocular, fez o seguinte relato: « Acontecia que (…) enquanto dormiam, havia-se combinado para lhes dar a morte. Após a chamada ter sido feita, organizou-se esse batalhão de mártires, os braços amarrados, amarrados uns aos outros, cada par tendo dois guardas, e eles seguiam… Desse serviço estavam encarregados dois graduados e um soldado, sob as ordens do segundo-tenente Maranhão, os quais, peritos na arte, já sacavam seus sabres devidamente amolados, de maneira que, logo que tocavam a carótida, o sangue começava a jorrar »[384].
Muitos defensores capturados, incluindo mulheres, foram assim executados apesar de uma promessa, expressa publicamente por Artur Oscar perto do fim da guerra, de que os rebeldes que se rendessem seriam poupados. Marciano de Sergipe, um dos últimos defensores, foi, após sua captura, trespassado a golpes de baioneta em diferentes lugares do corpo e enucleado[385]. Uma mulher grávida, cujas dores haviam começado, foi estendida numa dependência vazia ao longo da estrada e abandonada. Os soldados matavam as crianças esmagando seu crânio contra troncos de árvore. Jagunços feridos foram esquartejados ou cortados em pedaços. Várias das moças levadas a Salvador haviam sido estupradas e espancadas pelos soldados[112]. Essa morte a faca, ou a frio, era o terror supremo dos sertanejos, que acreditavam que nesse caso, sua alma não seria salva. Os soldados exploravam essa superstição e prometiam amiúde a caridade de um tiro de fuzil em troca de revelações ou exigiam que fizessem um viva à República. Muitos sertanejos, instruídos da sorte que lhes seria reservada se fossem presos, preferiram portanto combater até a morte[386].
Quanto ao número de canudenses feitos prisioneiros, não existem números confiáveis, e em particular, o número de prisioneiros masculinos adultos não pôde ser determinado com exatidão. É admitido que entre os 1000 a 3000 prisioneiros se encontravam algumas centenas de homens, e que destes, muito poucos sobreviveram. Com efeito, já durante os combates, o general Oscar dera a ordem « de não fazer prisioneiros os homens, visto que estes só se calariam de forma cínica e recalcitrante »[387]. Por outro lado, um conjunto de elementos leva a crer que houve um outro massacre em grande escala na aldeia de Queimadas[388].
Se o ministro Bittencourt em particular é nominalmente apontado em Os Sertões, no entanto, e mais a montante ainda na escala hierárquica, essas práticas respondiam também às decisões do presidente da república Prudente de Morais ele mesmo, que ordenara uma guerra de extermínio: « Em Canudos, não ficará pedra sobre pedra, para que não possa mais reproduzir-se aquela cidadela maldita, e a Nação deve esse serviço ao Exército heroico e íntegro. »[389]. Pelo que se traduziu essa vontade política foi descrito como segue pelo jornalista Fávila Nunes, então tenente de honra do exército, numa carta datada de 8 de outubro de 1897 e publicada pela Gazeta de Notícias em 28 de outubro:
Tenho a intenção de me dirigir hoje a Monte Santo, pois permanecer aqui é insuportável, dada a situação de Canudos, transformada num imenso cemitério, com milhares de cadáveres enterrados, outros milhares, apenas mal cobertos de terra e, o pior de tudo, outros milhares ainda, inumados de nenhuma maneira. Não se pode dar um passo sem tropeçar numa perna, um braço, um crânio, um corpo inteiro, outro mutilado, um monte de cadáveres, um calcificado pela metade, outro fumegando ainda, outro enfim em total putrefação e disforme, e, no meio de tudo isso, o incêndio e uma atmosfera ardente e impregnada de miasmas pútridos. De todos os lados, o odor horripilante de carne humana assada nas brasas das casas incendiadas[390]…
Os sobreviventes da guerra — mulheres, crianças, velhos, feridos, e aqueles que, à diferença de muitos canudenses, não se haviam precipitado no fogo para não ter que portar vivas à república[391] — foram agrupados num campo de prisioneiros, verdadeiro formigueiro humano, onde os feridos, deixados sem cuidados, agonizavam ou eram tomados pela gangrena[392]. Desses prisioneiros, compelidos em seguida a se juntar a marcha forçada para a cidade de Alagoinhas, um grande número pereceu no caminho de fome e sede; segundo um testemunho, o solo era tórrido e « as pessoas caíam como moscas, mas os soldados não permitiram que os habitantes as ajudassem, nem mesmo com uma prece na hora da morte para aqueles que se deixavam cair ao longo da estrada, sem ter direito a uma sepultura. Eram como vermes »[393]. Segundo esse mesmo relato, 60 por cento aproximadamente das prisioneiras sucumbiram durante essa marcha forçada, de fome, sede, epidemias ou maus-tratos, e seus corpos foram abandonados no caminho, sem serem sepultados[392].
Iluminações particulares
Ligações entre Canudos e a política
Entrelaçamento com a política baiana
Se é justo que Da Cunha refutasse que Canudos fosse um elo, ou mesmo o núcleo, de uma vasta trama monarquista, ele errou ao afirmar que a comunidade, não obstante seu chefe espiritual ser um antirrepublicano declarado, representava apenas uma insana regressão social e moral, totalmente separada do contexto político de sua época. De fato, parece que houve conexões demonstráveis entre conselheiristas e certos meios políticos baianos, e que os adeptos de Antônio Conselheiro ocuparam, por um tempo ao menos, uma posição precisa nas relações de força políticas do estado da Bahia. Essas relações de força podem ser esboçadas como segue.
Na Bahia, no final de 1889, a maioria dos políticos era contrária à instalação da república, temendo que uma mudança institucional dessa magnitude viesse a agravar a crise econômica. Negociantes e homens de negócios receavam que a retórica republicana sobre a justiça social e sobre um acesso ampliado à tomada de decisão política não resultasse na anarquia. Num primeiro momento, o município de Salvador votou contra a ditadura militar nacional e fez questão de reafirmar sua fidelidade à monarquia; só aceitou a república depois que a família imperial tomou definitivamente o rumo do exílio para a Europa[394]. A nova constituição de 1891, que instituiu um federalismo muito avançado, teve o efeito de alimentar ainda mais a tensão política existente ao dar um poder inédito às regiões social e economicamente mais poderosas. O novo sistema federalista recompensava os estados federados mais dinâmicos, em detrimento dos outros, relegados ao status de quase párias[395]. O estado da Bahia, em decadência já há longas décadas, já não tinha mais muita influência no nível federal[396]. Além disso, esse estado, e sua capital em particular, era suspeito de ter permanecido secretamente monarquista, e durante o caso de Canudos, os representantes baianos se empenharam em provar que essas alegações eram infundadas[394].

No processo de reorganização política subsequente ao golpe de Estado de 1889, combatiam-se, em todos os níveis de poder, políticos que eram oriundos da mesma classe dos grandes proprietários de terras e que pouco antes ainda pertenciam ao mesmo Partido Conservador[397]. As dissensões que surgiram no partido republicano baiano logo resultariam em um cisma, com as facções rivais gonçalvistas e vianistas se constituindo em partidos políticos distintos. Esse antagonismo, que não era, portanto, de natureza ideológica ou sociológica, se traduziria durante a guerra de Canudos, nomeadamente, em divergências sobre o engajamento das tropas numa segunda expedição. Luís Viana, que acabara de ser investido governador da Bahia em maio de dezembro, ainda não tivera tempo de consolidar seu poder. Desse ponto de vista, o caso de Canudos caiu em suas mãos muito inoportunamente, pois por enquanto sua preocupação era, em primeiro lugar, consolidar sua autoridade nos sertões do sul da Bahia, onde, apesar do uso irrestrito da polícia estadual, seus esforços de pacificação encontravam uma resistência inesperadamente forte[398].
Os tenentes de Antônio Conselheiro buscaram a proteção da facção liderada por Luís Viana, sem dúvida na esperança de ver esse partido tomar o poder na assembleia estadual e Viana assumir o cargo de governador, e é possível até que alguns desses tenentes tenham servido como fósforos (puxadores de votos nas campanhas eleitorais, agindo por dinheiro; lit. fósforos) para o partido vianista. Este muitas vezes chegou a queimar publicamente os decretos fiscais da facção gonçalvista oposta. Aliás, tais autos de fé visando os decretos fiscais gonçalvistas ocorreram em outros lugares do estado da Bahia, e mesmo em todo o Brasil, não constituindo o auto de fé de Bom Conselho, atribuído a Antônio Conselheiro, nenhuma singularidade[399]. Em outras palavras, os adeptos de Antônio Conselheiro podem ter sido apanhados nas lutas de longa data entre facções rivais da aristocracia baiana, e o incidente na feira de Bom Conselho, evento chave na trajetória do Conselheiro, seria de se interpretar como um ato de política partidária, uma manifestação de lealdade para com Viana, que acabara de perder sua maioria na assembleia baiana, podendo a intervenção do destacamento policial de Maceté, nessa mesma ótica, ser interpretada por sua vez como a vontade dos adversários de Viana de dar uma lição aos partidários deste. Contudo, as alegações de que Antônio Conselheiro teria se engajado numa oposição ativa à república, a ponto de preconizar a desobediência civil, baseavam-se em boatos e eram, com toda probabilidade, falsas, e não é certo, aliás, que ele não tenha sido arrastado a seu contragosto, sob impulso de seus tenentes, para o incidente de Bom Conselho[400].
Tendo a facção vianista finalmente vencido em 1896, Canudos pareceu provisoriamente fora de perigo, mas, paradoxalmente, Luís Viana, agindo agora no poder estabelecido, já não estava em posição de resistir às instâncias de diferentes coronéis, e não era mais capaz de garantir a imunidade de seus antigos aliados do sertão. Na câmara dos deputados da Bahia, o relato dos debates sobre Canudos mostra que defensores e opositores de Antônio Conselheiro se enfrentavam de ambos os lados de uma linha demarcatória que separava os partidos, a saber: os gonçalvistas de um lado, aliados dos coronéis e do latifundiário Cícero Dantas Martins, barão de Jeremoabo, queixando-se de que Canudos desviava sua mão de obra e exigindo pronta intervenção, e do outro lado os vianistas, defendendo o direito de Antônio Conselheiro e seus adeptos de viverem sem serem molestados. As hesitações iniciais de Viana em agir contra Canudos decorriam de um cálculo político que visava irritar o partido de Jeremoabo; sua decisão posterior de intervir foi uma tentativa de restaurar seu crédito junto aos grandes proprietários de terras[399].
O mais influente dos proprietários de terras do nordeste baiano, Cícero Dantas Martins, foi, em conluio com o arcebispo de Salvador, o iniciador da primeira medida conhecida que visava fazer interditar as atividades de Antônio Conselheiro e neutralizar sua influência crescente. Tornando-se o implacável adversário de Antônio Conselheiro, levou sua hostilidade para a arena política baiana. Jeremoabo é a ilustração da interconexão das diferentes elites e de suas redes na região: além de ser um poderoso coronel local, também estava ligado por seu casamento a uma grande família do Recôncavo, isto é, à aristocracia açucareira[401]. Pode-se considerar que, inversamente, a passividade política de Antônio Conselheiro, em particular sua negligência em forjar, no seio das elites, alianças duráveis capazes de garantir proteção à sua comunidade, foi uma das razões principais de sua queda[94].
O boato de uma «ameaça» pairando sobre a cidade de Juazeiro propagado no final de outubro de dezembro foi provavelmente lançado de propósito pela oposição gonçalvista, por meio do juiz Leoni. Este último havia sido transferido de Bom Conselho para Juazeiro logo após a posse de Viana. A oposição percebeu na primeira expedição uma tentativa vianista de inflamar os ânimos dos Canudenses, semear desordem na região e assim obstruir a realização das eleições, ou manipular seus resultados, naquela terceira circunscrição, de qualquer forma impossível de ser tomada por Viana. Não está estabelecido se as tropas foram enviadas a Juazeiro por ordem expressa de Manuel Vitorino, então suplente de Prudente de Morais na chefia do estado federal, ou se, como conjecturará a oposição, foi o próprio Viana quem tratou de despachar uma tropa deliberadamente fraca, a fim de fortalecer Canudos por uma derrota previsível dessa tropa, e assim criar distúrbios na zona de influência de seu rival e manipular em seu próprio proveito as eleições naqueles municípios. A oposição, por sua vez, tentou embaraçar Viana demonstrando que este carregava a única responsabilidade, por suas decisões, do fracasso das duas primeiras campanhas militares contra Canudos, na esperança de que a autoridade federal fosse levada a intervir e depor o governador Viana[402]. O jornal Estado da Bahia, favorável a Gonçalves, que não cessava desde setembro de dezembro de lembrar Viana de sua promessa eleitoral de pacificar a Bahia, gostava de insinuar que o objetivo de Viana era na verdade a derrota eleitoral de Gonçalves e de Martins, aos quais devotaria um ódio inexpiável, e a destruição de suas posses[403]. Num primeiro momento, Viana pareceu sair vencedor do conflito de poder em torno de Canudos, sua aliança com o governo federal e a demissão de Sólon permitiram-lhe consolidar suas posições[404].
Papel do conflito na política nacional
No plano nacional, a repercussão que Canudos conheceu, desproporcional ao perigo que representava para o novo regime, explica-se pelo contexto político particular do pós-golpe republicano, que importa, portanto, descrever brevemente. Paradoxalmente, resultara do dito golpe um movimento republicano dividido, compreendendo ultras, legalistas, convertidos de última hora, moderados etc. Os jacobinos entre eles, e outros que pediam medidas governamentais vigorosas no sentido de erradicar todo sentimento monarquista persistente, aproveitaram a oportunidade oferecida pelo caso de Canudos para glorificar o papel heroico do exército republicano e justificar medidas enérgicas tomadas contra a dissidência. Assim Canudos agiu como um abscesso de fixação e fez figura de última e suprema batalha do Brasil republicano contra o monarquismo[405]. Se os políticos locais se preocupavam principalmente com o fato de o magnetismo de Antônio Conselheiro, além de privá-los de braços, poder também lhes custar votos potenciais, a facção republicana nacional sabia que uma prolongação do conflito arriscava erodir ainda mais sua posição precária[406].
O fato de Canudos ter sido apresentado como fazendo parte de uma trama monarquista mais vasta intensificou ainda mais o impacto psicológico do conflito. Há lugar, a esse respeito, para sublinhar o papel determinante da imprensa: pela primeira vez no Brasil, um evento recebeu cobertura diária na imprensa, e pela primeira vez também, os jornais foram postos a contribuição para criar, pelo menos parcialmente de forma artificial, um sentimento de pânico. A imprensa tornou-se de certo modo a principal arena na qual se disputou o conflito, e a quase totalidade dos políticos brasileiros participaram dessa «guerra das palavras»[407] · [nota 7].
Contudo, muitos problemas nacionais permaneciam sem solução, nomeadamente os conflitos armados regionalistas, a divisão no seio das próprias forças armadas, e a confiança abalada que tinham no Brasil os investidores estrangeiros. O milréis perdeu metade de seu valor entre 1892 e 1897, enquanto as exportações caíam, limitando assim a possibilidade de a federação brasileira contrair novos empréstimos. Inflação e caos econômico se seguiram. Para o estado da Bahia somaram-se as terríveis secas de 1866 a 1868 e de 1877 a 1880, que expulsaram da região seus recursos humanos e fiscais. A economia desse estado era atingida, além pelo Encilhamento (bolha financeira) nacional, também pela estagnação agrícola no Recôncavo e no sul, e por uma queda da produção mineral nas Lavras Diamantinas. O colapso consequente ao Encilhamento maculou a credibilidade do Brasil no exterior, evidenciou o fracasso da criação de um mercado de capitais nacional, e suscitou temores quanto à viabilidade da própria federação brasileira. As dificuldades econômicas persistentes, que minavam os esforços da república para consolidar sua autoridade, e os confrontos traumáticos que se sucediam, determinavam um sentimento obsidional e contribuíam para aguçar a sensibilidade dos governantes à ameaça de Canudos, que logo agiu como um urticante[408]. Para os republicanos, era urgente apagar todos esses focos de incêndio no menor prazo possível. Devido a esse pano de fundo, Canudos não poderia, de fato, ter surgido em pior momento[409]. Canudos foi assim vítima das circunstâncias: seu nascimento e crescimento coincidiram infelizmente com a oportunidade, para o poder republicano central, de montar uma campanha de propaganda agitando o espectro de uma trama monarquista[100]. De um estranho amontoado de rústicos fanatizados, o movimento de Antônio Conselheiro se transformou, após a derrota da 3ª expedição, numa força política a ser considerada. Essa transformação, no entanto, ocorreu não em Belo Monte, mas nos meios jornalísticos da capital. Canudos veio subitamente, como suposto braço armado dos monarquistas, a se encontrar no centro da política federal[410].

O monarquismo permanecia um fenômeno político sem base ampla na sociedade brasileira, e seus líderes pouco se preocupavam em popularizar sua organização e suas ideias. Certamente, com seus órgãos de imprensa, o monarquismo dispunha de uma ferramenta contundente; seus jornais, tais como A Tribuna, Jornal do Brasil, Liberdade, Gazeta da Tarde no Rio de Janeiro, e Commercio de São Paulo na metrópole paulista, exerciam uma crítica contínua das instituições republicanas e de sua política, e representavam — a despeito dos períodos de interdição, de uma censura assediante e de atentados repetidos — um importante fator perturbador em relação à vontade de afirmação da república. É esse poder discursivo — essa «guerrilha verbal»[411] — que entre outros fez superestimar ou exagerar o peso político e a ameaça potencial do monarquismo para o sistema republicano. A imprensa republicana cozinhava assim desde 1890 em fogo brando o perigo de uma conspiração monarquista, que podia, se necessário, amplificar alguns graus numa iminente tentativa de golpe restaurador. É em particular a partir de fevereiro de janeiro que políticos e jornais estabeleceram um elo entre Canudos e o monarquismo oficial. As declarações antirrepublicanas de Maciel/Conselheiro de fato eram bem conhecidas, especialmente sua convicção de que só a monarquia garantia a unidade desejada por Deus entre religião e Estado, convicção que se alinhava com a opinião dos círculos católicos conservadores no seio do monarquismo. Durante a guerra foi arquitetada, sobretudo pela oposição jacobina, a partir dessa suspeita de uma vontade subversiva, uma tese da conspiração, em apoio à qual surgiam sem cessar aqui e ali «provas» de que Canudos estava em contato com comitês monarquistas em Paris e Buenos Aires e era abastecido em armas desde a Argentina ou Inglaterra passando por Sete Lagoas em Minas Gerais. O general Artur Oscar, comandante-chefe da quarta expedição, um dos ardentes partidários da tese da conspiração monarquista, não deixaria de afirmar durante meses que os Canudenses dispunham de equipamentos de artilharia (nomeadamente balas explosivas) que eram desconhecidos em outras partes do Brasil e que, portanto, tinham necessariamente obtido do estrangeiro; assim se podia fazer com que o movimento conselheirista desempenhasse um papel de antagonista militarmente crível. O paradigma de um Canudos parte integrante (consciente ou instrumentalizada) de uma conjuração monarquista visando à derrubada da república adquiriu a partir de março de janeiro um papel relevante no discurso sobre Canudos[412]. Mesmo Rui Barbosa, muito cético quanto à participação de Canudos numa trama mais vasta, foi impotente para invalidar o paradigma, e será por sua vez suspeito de simpatias monarquistas.
A derrota da 3ª expedição provava aos olhos da imprensa não só a veracidade da conspiração monarquista e da tentativa de derrubada do regime, mas também tendia a provar o envolvimento do estado federado onde se situava Canudos, a saber, a Bahia. Esta foi fustigada pela imprensa da capital; A Notícia do Rio de Janeiro, nomeadamente, escreveu, em sua edição de 16 de março de 1897: «Tudo na Bahia cheira a monarquia e reação; é por isso que o Conselheiro, e Canudos, são tolerados, encorajados e protegidos pelos baianos.» Para o Jornal de Notícias, a Bahia era «a pátria dos jagunços e dos inimigos da república»[413]. Essa amalgamação da Bahia ao paradigma monarquista, coerente, aliás, com a assimilação da república ao progresso e do monarquismo à mentalidade pré-moderna, levou nove jornais da Bahia (e entre eles todos os principais) a redigir uma declaração comum à atenção da «imprensa do Rio de Janeiro», na qual protestavam «enquanto imprensa baiana e em nome de todas as classes sociais» contra «a suspeita injusta e ofensiva» de que a Bahia seria um bastião do monarquismo. Um dos argumentos, que sublinhava a moderação política e a tradição baianas, era que, se é certo que faltava à Bahia uma tradição republicana, «a moderação e a lucidez com que domina as fases difíceis de nossa existência social moderna» bastavam para demonstrar as boas disposições republicanas da «Bahia eminentemente conservadora»[414].
O paradigma monarquista funcionava então a todo vapor, mesmo que estivesse claro para os analistas políticos que a causa do fracasso de Moreira César residia na realidade numa sequência de erros do comando militar. Os jagunços não eram destituídos de habilidades militares táticas, mas a assimetria do número de perdas tendia a indicar que o inimigo não dispunha de um potencial expansível ao infinito; aliás, nenhum Canudense até então marchara sobre o Rio de Janeiro, nem mesmo sobre Salvador[410]. Mas o significado militar do ataque mal sucedido não explica sozinho a mudança de percepção do conflito. Com a pessoa de Moreira César, foi de um símbolo republicano radical, encarnação da intolerância para com os inimigos e ameaças, que o corpo republicano foi privado — coisa que era impensável vindo de um amontoado de fanáticos, agindo numa desordem pré-científica, e pressupunha, portanto, em segundo plano, algum poder organizado de uma eficácia temível[410].
Contudo, as vivas tensões existentes então no seio do próprio campo republicano trazem outra luz à irrupção de Canudos na cena nacional. Nos anos 1889-1898, uma árdua luta foi travada pela hegemonia na república, luta que tomou formas que iam muito além do estrito debate parlamentar e que era sentida pela maioria de seus protagonistas como uma luta decisiva. O conflito apresentava uma vertente ideológica e outra institucional, materializando-se na questão de saber qual concepção da república deveria ser privilegiada, e quem teria que ocupar as posições de poder. A batalha política foi travada por diversos meios e em diferentes frontes móveis, tanto no plano militar quanto por deslizamentos no pessoal político e por remanejamentos das estruturas decisórias. No quadro dessa quase guerra civil dentro do campo republicano, Canudos será instrumentalizado como oportuno recurso discursivo[415]. Segundo a historiografia tradicional, a transição entre monarquia e república se deu sem sobressaltos e pacificamente, graças à sabedoria dos pais da constituição, que trataram de garantir certa continuidade. Ao contrário, uma historiografia revisionista evidenciou que o Império foi abolido à margem de qualquer consulta a vastas camadas da população e sem que houvesse pessoal político portador de conceitos operantes e aptos a dar forma à ideia republicana. Antes de 1889, o movimento republicano não tinha, além do princípio geral da república, senão uma ideia muito limitada das futuras transformações a operar na sociedade brasileira, e fora do Rio de Janeiro e de São Paulo penava para tomar corpo institucionalmente; não se pôde, portanto, após o golpe de Estado de 1889, impedir que uma espécie de vazio institucional se instalasse, que se tentou apressadamente preencher com a formação de um governo provisório e a nomeação de uma comissão constituinte. Os primeiros governantes republicanos tinham pouca experiência na administração pública e mostraram pouca aptidão para criar novas formas de organização política. A nova constituição promulgada alguns meses depois previa um sistema presidencialista caracterizado pelo bicameralismo, por um federalismo concedendo ampla autonomia às entidades federadas, e por uma ampla gama de direitos fundamentais acompanhada de um sufrágio restrito. Essa nova constituição encerrava, portanto, a contradição de que a população era amplamente afastada das tomadas de decisão política ao mesmo tempo em que gozava de liberdades individuais extensas no plano econômico e político, liberdades essas que, no entanto, permaneciam para as massas sem significação prática. O liberalismo brasileiro servia mais de legitimação a uma ideologia elitista mais disposta a aprofundar as desigualdades do que a empreender as reformas e promover a emancipação[416].
Penando para se consolidar, a república brasileira se referia a três modelos republicanos diferentes, especificados como segue pelo historiador José Murilo de Carvalho:
Dois deles, o americano (o liberal) e o positivista, partiam certamente de premissas totalmente diferentes, mas ambos punham a tônica na necessidade de regular o poder político. O terceiro modelo, o jacobino, via na intervenção direta do povo o fundamento do novo sistema e desdenhava a questão de sua institucionalização. Se os dois modelos franceses utilizavam a concepção da ditadura republicana, esta, contudo, permanecia vaga na versão jacobina, enquanto os positivistas tinham à mão ideias detalhadas quanto ao papel do ditador, à assembleia, à legislação eleitoral, à política educativa etc.[417]
A epopeia da Revolução Francesa desempenhou um papel importante na jovem república brasileira como modelo histórico bem como como fonte de uma semântica universal e de um conjunto de elementos simbólicos, que ornavam profusamente o espaço público. Servia também como ponto de referência à luz do qual julgar e avaliar os eventos e evoluções no Brasil. Do mesmo modo, a metáfora que assimilava Canudos à Vendeia, popularizada por Da Cunha — os dois artigos que redigiu para o jornal Estado de São Paulo tinham o título de Nossa Vendeia, e ele pensou em dar ao seu futuro livro esse mesmo título antes de reconsiderar e intitulá-lo Os Sertões —, vinculava a revolução brasileira à francesa e concorreu para fazer de Canudos o paradigma da conjuração monarquista[418].
Na prática política dos anos até 1898, positivismo e jacobinismo tendiam cada vez mais a coincidir, mesmo que os jacobinos expressassem a ideia de uma ditadura republicana de maneira mais visível e politicamente mais operante. Finalmente, é a um conflito entre bacharéis (juristas) liberais de São Paulo de um lado, e vanguarda republicana jacobino-positivista de outro, que se pode reduzir, em última análise, o antagonismo decisivo que marcou todos esses anos[419].

Na esteira da derrota da 3ª expedição, as autoridades organizaram manifestações oficiais, decretaram dias de luto etc. Não obstante o propósito, ostensivamente proclamado, de superar as clivagens partidárias e os apelos ao consenso nacional, as duas correntes republicanas opostas perseguiam cada uma objetivos distintos, inclusive no plano simbólico. Assim os denominados «batalhões patrióticos» constituídos um pouco por todo o país pelos jacobinos tomaram o nome de Tiradentes, Benjamin Constant, Deodoro da Fonseca e Moreira César. É sobretudo a Rua do Ouvidor no Rio de Janeiro que servirá aos jacobinos de cenário habitual de suas manifestações. Em 7 de março, as tropas de choque dos jacobinos, chamados também florianistas, em homenagem ao marechal Floriano Peixoto, saquearam as redações e as gráficas dos jornais monarquistas Gazeta da Tarde, Liberdade e Apóstolo, e em São Paulo, as instalações do Comércio de São Paulo foram saqueadas, e mais tarde um grupo de oficiais assassinou o diretor da Gazeta da Tarde, Gentil de Castro[420]. Com a posse de Prudente de Morais como presidente da república, os jacobinos foram repelidos para a oposição política, oposição que passaram a exercer de forma coerente e militante, fustigando uma «república dos conselheiros» (república dos conselheiros), onde seriam cata-ventos fiéis ao imperador, monarquistas declarados, rebeldes de 1893, estrangeiros (em particular portugueses), bem como especuladores e apropriadores que dariam o tom. Os jacobinos se viam como os únicos republicanos autênticos e se atribuíam o papel de «guardas da república e da pátria». Como seus homônimos franceses, reclamavam, em defesa da jovem república, uma ditadura militar autoritária e uma repressão sistemática do inimigo interno — nomeadamente do bacharelismo (conjunto dos bacharéis, civis com formação jurídica), resíduo da monarquia e responsável pelo marasmo atual —, preconizavam o protecionismo socialista, etc.[421] Em seu discurso, como de resto entremeado de metáforas militares, a guerra grassava contra a república, o que se sobrepunha com sua visão segundo a qual a política era um combate permanente. Numa situação extrema, os extremistas eram os melhores republicanos, como colocava o jornal Gazeta de Notícias[422]. O exército era constantemente exaltado como o baluarte de defesa da república, sendo o paradigma central do discurso jacobino de fato a capacidade de defesa do povo. Três linhas de força desse discurso são de se realçar: 1) a república está ameaçada em sua existência pelo monarquismo; 2) o governo atual não está em condições de assegurar a república e por isso se tornou culpado de prevaricação; 3) os jacobinos são os defensores efetivos da pátria[423].
Nos meses de março a outubro de janeiro, o projeto liberal bacharelístico, sob os golpes incessantes dos agitadores jacobinos, viveu seus momentos mais difíceis. Os jacobinos dispunham de um potencial militar, não apenas sob a forma de milícias populares, mas ainda no seio das forças armadas, que permaneciam politicamente divididas, mas onde eles tinham numerosos simpatizantes. Eram muito presentes na escola militar da Praia Vermelha, onde reinava desde os anos 1870, sob a influência de Constant, um espírito resolutamente positivista, e onde vinham estudar e se diplomar a maioria dos oficiais brasileiros. O positivismo via no soldado um ator político que podia, mais ainda, devia, intervir. No final de maio de janeiro, os cadetes manifestaram abertamente sua oposição ao governo Morais, o qual havia sensivelmente reduzido o número de florianistas nos postos de influência. Um incidente no parlamento nacional, em relação à revolta dos cadetes, conduziu finalmente à cisão do Partido Republicano Federal e pôs termo à ficção de um campo republicano homogêneo[424]. Quando os jacobinos taxavam os bacharelísticos de monarquistas disfarçados, os liberais, pela voz de Barbosa nomeadamente, assimilaram a oposição à anarquia e à tirania, acusando os jacobinos de exercer, segundo os termos de Barbosa, «um culto republicano de superfície» impregnado de uma «superstição servil fortemente exagerada» conduzindo a uma «idolatria da república», da qual ela não seria senão uma degenerescência. Assim o conflito se cristalizou na antinomia tirania e idolatria contra liberdade e justiça, ou de forma mais lapidar ainda na antinomia violência contra legalidade[425].
Nesse contexto, Canudos foi alçado à categoria de inimigo paradigmático da república, de modo que é a partir do posicionamento em relação a esse inimigo que, aos olhos dos jacobinos, devia ser avaliado se tal partido ou movimento nacional estava à altura da república. Canudos concentrava doravante todas as figuras do inimigo, e foi tido como responsável por todos os desregramentos econômicos e sociais, como a carestia de vida, a inflação e o descontentamento popular[426]. O símbolo vendéu veiculava nomeadamente esse conceito de um poder justo e necessário, o da república, ameaçado de ser derrubado por um poder ilegítimo de destruição e revolta; dito poder legítimo pode ser assumido pelo Estado, mas não obrigatoriamente: se este último vier a falhar, são os guardiões da república mesmos que devem se apoderar do poder[427]. Por conseguinte, os bacharéis liberais de São Paulo percebiam o perigo de uma hegemonia discursiva da oposição jacobina e temiam que esta não lograsse fazer interpretar a persistência de Canudos como a expressão do antirrepublicanismo do governo, e, daí, toda crítica contra a oposição como antirrepublicana; a habilitação para definir a república, depois o magistério intelectual e, por fim, a dominação política, acabariam assim por escapar ao grupo governante, em proveito da oposição[426].
Barbárie contra civilização
|
Quando alcançaram Queimadas, os combatentes (=os soldados do exército regular) da nova expedição perceberam essa transição violenta. Essa discordância absoluta e radical entre as cidades da costa e as cabanas cobertas de telha do interior, que desequilibra tanto o ritmo de nossa evolução, e transtorna lamentavelmente a unidade nacional. Viam-se em terra estrangeira. Outros hábitos. Outras paisagens. Outras gentes. E até outra língua, articulada em um jargão original e pitoresco. Tinham a impressão de atravessar a fronteira para ir fazer a guerra. Sentiam-se fora do Brasil. A separação social era total, dilatava as distâncias geográficas e criava a sensação nostálgica de um longo afastamento da pátria. |
| Euclides da Cunha, Os Sertões, p. 510 (edição de referência). |
Se Da Cunha refutou, com justiça, a ideia de que Canudos era um elo de uma grande trama monarquista, ele credenciou, aos olhos das gerações futuras, a tese de que os Canudenses recusavam e combatiam a república porque temiam o progresso[nota 8]. É verdade que essa tese encontrou um terreno favorável na jovem república, que buscava ardentemente uma explicação maniqueísta do conflito a fim de forjar a unidade nacional e desviar a atenção da imperícia flagrante, a todos os níveis, das forças armadas brasileiras[428]. O impacto mais duradouro de Os Sertões terá sido que o pequeno povo abandonado do sertão se instalou na consciência nacional como fanáticos insanos, arrastados para uma regressão irracional por um herege. Sua narrativa chocou os leitores, forçando-os a tomar consciência de que o estado real da população representava uma ameaça à corrida do país rumo à modernidade. Da Cunha foi comparado a Eurípides, e sua interpretação dos eventos havia adquirido o status de verdade quase intocável[429]. Por pelo menos um século após sua publicação, a historiografia brasileira oficial se alinhará à concepção de Da Cunha de que Canudos era o resultado do clima, da geografia e da raça. Da Cunha descreve o sertanejo como um tipo humano desequilibrado, degenerado, instável, inconstante etc., vítima da fatalidade das leis biológicas, na medida em que pertencente a uma raça atrasada separada do litoral por três séculos de barbárie; mas também o descreve como uma figura contraditória, ora indolente, ora animada, acrescentando uma conotação política: ele é de toda maneira tão inapto a compreender a forma republicana de governo quanto a monarquia constitucional; ambas lhe são abstrações, fora do alcance de sua inteligência[43]. Contudo, sua descrição do jagunço, pintando-o como um «titã de bronze», obstáculo teimoso oposto às cidades do litoral tão desejosas de imitar os refinamentos da Europa, também deixa transparecer, com essa ambivalência típica do autor, certa admiração[430] — da mesma maneira que Sarmiento soube admirar o gaúcho, seu saber-fazer, sua grandeza de alma, seu senso de honra, sua autonomia —, o que o levará a exclamar perto do fim de sua obra:
Decididamente, era indispensável que a campanha de Canudos se desse um objetivo superior à missão estúpida e pouco gloriosa de destruir um povoado dos sertões. Havia aí um inimigo mais sério a combater, numa guerra mais lenta e mais digna. Toda essa campanha seria um crime inútil e bárbaro, se não se aproveitasse os caminhos abertos pela artilharia para efetuar uma propaganda tenaz, contínua e persistente, a fim de trazer ao nosso tempo e integrar em nossa existência esses rudes compatriotas retardatários[431].
Para os observadores vindos do litoral, Antônio Conselheiro era a encarnação do fanatismo e da dissidência antirrepublicana e se mostrara hábil em manipular as pequenas gentes dos campos, em relação às quais esses mesmos observadores sentiam uma pena misturada com nojo[432]. A atitude negativa dos residentes do litoral se exacerbava pelo crescimento demográfico no sertão, o qual empurrava para a costa contingentes crescentes de sertanejos miseráveis e trazia às zonas costeiras o risco de epidemias, desemprego e pobreza; em reação, as autoridades municipais erguiam barreiras rodoviárias à entrada de suas cidades e internavam em campos os refugiados da seca[433].
Na sequência da guerra de Canudos, duas visões se fizeram dia no Brasil: uma, a republicana, preferia pôr em evidência as ações positivas que tinham permitido modernizar o país (abolição da escravatura, constituição de 1891, separação da igreja e do Estado, criação de um regime civil estável, vitória sobre todo tipo de dissidências, de Canudos às revoltas antivacinação de 1904) e aí colhia certo otimismo; a outra ao contrário punha em dúvida a capacidade do Brasil de superar seu legado de atraso e de miscigenação racial[434]. Os eventos de Canudos, além de abalar a confiança nas forças armadas nacionais e em seus aliados jacobinos, afetaram profundamente a maneira como os brasileiros se viam a si mesmos e fizeram cambalear o mito positivista do progresso, próprio ao século XIX. Após o conflito de Canudos, a opinião das elites aderia certamente, em sua muito grande maioria, à ideia, expressa por Da Cunha, de uma dualidade irrevogável da sociedade brasileira entre interior e litoral[434], e poucos republicanos acreditavam ainda em 1898 que o fosso social e psicológico entre Brasil urbano e Brasil rural pudesse ser preenchido impondo uma fachada moderna de instituições civilizadoras. Os dirigentes jacobinos, que tinham inicialmente aspirado a instaurar no Brasil a liberdade antiga da Grécia Antiga, logo abandonaram esses ideais, em favor de um autoritarismo positivista[435].
Por outro lado, essa visão das coisas, somada ao caráter racial (ou percebido como tal) da revolta conselheirista, e à invocação de móveis antediluvianos, mesmo psicóticos, dos fiéis de Canudos, permitiu às elites governantes justificar a execução a sangue frio de todos os sobreviventes masculinos de Canudos, fazer aceitar o sangrento tributo de um grande número de mortos (talvez 30 000), e justificar seu subsequente apoio à política dos governadores, tendente a apertar os mecanismos de controle social outorgando o poder absoluto aos coronéis rurais — mas ao mesmo tempo impediu que a campanha de Canudos pudesse ser objeto da mesma glorificação que outras expedições levadas a cabo contra sedições antirrepublicanas[436]. Por fim, as próprias elites baianas, cuja segurança continuava vacilante diante dos murmúrios no resto do Brasil de que as classes dirigentes desse estado tinham-se demasiado misturado às gentes de cor durante a escravidão, aproveitaram-se do conflito como uma oportunidade para dar demonstração de seu pleno engajamento por um progresso contínuo moldado no exemplo europeu[406].
Aspectos religiosos do conflito
Os adeptos de Antônio Conselheiro obedeciam, para segui-lo, a uma ampla gama de motivos; mas antes de tudo sem dúvida, viam nele um poderoso chefe religioso leigo, cuja ação se inscrevia na tradição católica popular particular à região[432]. Em todo caso, o que pode ser reconstituído a partir dos documentos históricos sobre a vida e a carreira de Antônio Conselheiro contradiz fortemente a imagem do zelote fanático, irreverente, malévolo, herege e antissocial tal como veiculada por Da Cunha e as elites do litoral. O elemento de desvio religioso não estava ausente da imagem catártica de que o novo Brasil republicano precisava como justificativa para reprimir a dissidência rural, e Antônio Conselheiro, por sua teimosia e carisma, se prestava muito bem a essa imagem, entregando-se assim de bandeja aos jacobinos apressados em lançar o Brasil na via do progresso civilizador[437].
Situação da Igreja no estado da Bahia
Em 1887, 124 das 190 paróquias que contava o estado da Bahia sofriam com uma penúria de padres permanentes ou que exercessem em tempo integral. Muitos padres recém-saídos do seminário tratavam logo de fazer todas as diligências necessárias para permanecer na capital do estado ou no litoral. Devido à falta de padres dispostos a exercer seu ministério entre os pobres nas paróquias afastadas, a Igreja tivera de abandonar virtualmente à própria sorte muitos católicos brasileiros camponeses, em particular no sertão. Visto que poucos entre os sertanejos mesmos entravam no sacerdócio, o clero na região era frequentemente de origem estrangeira, às vezes tendo apenas rudimentos de português, e nenhum vínculo sólido os ligava às famílias poderosas da aristocracia local[438]. As classes inferiores da sociedade não eram menos crentes ou praticantes, mas beneficiavam menos da presença do clero, a não ser de padres sobrecarregados, e essa disparidade era mais pronunciada ainda no sertão[439]. Embora a população do sertão não recebesse, portanto, virtualmente nenhuma instrução religiosa formal, e que fosse raro que os sertanejos vissem um representante do clero, a observância do rito católico no sertão se prosseguiu sem interrupção, mesmo na ausência de uma supervisão sustentada do clero, e a piedade não vacilou. Na primeira metade do século XIX, missionários ambulantes tentavam preencher essa lacuna, nomeadamente nas zonas muito afastadas e empobrecidas; suas visitações duravam uma dúzia de dias, verdadeira maratona de preces culminando em sessões de confissão, atos de penitência e administração de sacramentos. De toda maneira, a Igreja visando apenas a salvação espiritual, não a mudança social, os padres, onde a igreja mantinha uma presença, defendiam, mesmo reforçavam o status quo social. Contudo, a prática religiosa no sertão tendia a levar uma vida própria[440]. O fato de que o atendimento religioso era assegurado por missionários evangélicos, pregadores leigos, curandeiros etc., instaurou no sertão a tradição de uma maior liberdade de escolha nessas matérias, e, portanto, pode ter tornado mais fácil, para as famílias do sertão, a decisão de seguir Antônio Conselheiro em direção a seu santuário protegido[34].
A Igreja, através de uma política de acomodações, acabou por se conformar com a república, e os bispos brasileiros fizeram as pazes com o governo republicano. Dando-se conta, por outro lado, de que seus parcos recursos e a penúria de padres bloqueavam qualquer tentativa séria de reafirmar sua influência entre a massa da população, as autoridades eclesiásticas preferiram centrar sua atenção nas elites urbanas, contribuindo assim para fazer com que o centro de gravidade de suas preocupações se deslocasse para as problemáticas urbanas, negligenciando as terras do interior[433]. As difíceis relações da Igreja com o Estado, aliás manifestas desde os últimos anos do Império, não impediam a hierarquia católica de compartilhar com as outras elites os mesmos valores comuns e a mesma visão litorânea. A hierarquia católica não teve, portanto, nenhuma dificuldade em unir sua voz à campanha que pedia a destruição de Canudos[441].
Singularidade religiosa do sertão
No sertão do final do século XIX, a religiosidade se expressava sob formas sensivelmente diferentes do que nas regiões onde a Igreja marcava sua presença de modo mais clássico. Mesmo que a liturgia formal e a prática dos sacramentos permanecessem dentro dos limites da tradição católica romana (inclusive em Canudos), o contexto espiritual geral era nitidamente diferente. A atmosfera penitencialista, sebastianista e milénarista fornecia o contexto perfeito no qual um vidente religioso austero mas carismático podia recrutar adeptos entre as gentes simples e levá-los a segui-lo para uma comunidade autônoma, que não era, aliás, no que diz respeito a Canudos, subversiva senão no sentido mais técnico do termo[442]. Migrantes se deslocando de uma zona rural para outra em busca de salvação religiosa constituíam um crescimento habitual da massa de camponeses pobres; no Ceará, em meados dos anos 1890, milhares de peregrinos empobrecidos seguiram o taumaturgo e padre dissidente Cícero Romão Batista, sendo que as proporções consideráveis tomadas pela veneração de sua pessoa testemunhavam, aliás, que a disposição dos sertanejos para seguir um chefe carismático não estava limitada a Canudos[443].
A população do sertão, que se instruíra na religião católica largamente por si mesma, tendia a associar sua resignação e seu estoicismo cotidianos a esperanças messianistas[394]. Uma devoção particular era dedicada a certos santos, de quem se acreditava que podiam curar doenças, mas, inversamente, também causar aflições, suscetíveis de serem levantadas apenas por uma peregrinação a certas arcas determinadas e certos locais supostamente habitados pela presença do santo em questão[444]. A afirmação de milagres fazia parte do sistema popular; esses milagres, acolhidos com benevolência pela Igreja, traziam um alívio na monotonia da existência. Os citadinos não escapavam à influência da magia e dos milagres[445]. A superstição era natural, senão de certo modo racional de inspiração, pois respondia à necessidade de encontrar explicações para os fenômenos e ajudava à evasão psicológica. A magia e as formas populares de crença, além de serem um alívio, proporcionavam um sentimento de identificação cultural[446].
Práticas de flagelação, introduzidas no século XVI pelos Franciscanos e Jesuítas, subsistiam. Persistia também o culto do fome (culto da fome), o jejum contínuo praticado como ato de penitência para mortificar o corpo. Para os rurais, a penitência e os votos eram, pela justificativa religiosa que continham, os únicos meios pelos quais se podia sair do percurso predeterminado de existência, isto é, pelos quais as coerções temporais que pesavam sobre o curso de suas vidas, com suas restrições imutáveis, podiam ser superadas[446].
Ortodoxia e heterodoxia de Antônio Conselheiro
Antônio Conselheiro era o produto desse ambiente religioso de caráter único, específico do sertão brasileiro. Contudo, nada indica que Antônio Conselheiro pregasse a heresia ou mesmo se afastasse significativamente dos preceitos católicos comumente admitidos na região. Assim, se Conselheiro pregava e dispensava conselhos, ele se guardava de usurpar as funções sacerdotais, abstendo-se em particular de administrar os sacramentos. Agia sempre com o acordo das autoridades, e quando se propunha a realizar uma ação num povoado, sempre referia primeiro ao pároco local, se houvesse um. Só raramente, portanto, lhe acontecia de ser expulso pela polícia por instâncias de um pároco. Suas obras eram feitas em nome da Igreja e a serviço de padres locais. Nomeadamente, a prática de reconstruir igrejas e reparar os cemitérios de povoado correspondia a uma política da própria Igreja, explicitamente enunciada e começada na década de 1860, destinada a melhorar as propriedades eclesiásticas e a estabelecer laços com as classes inferiores[447].
A despeito das lendas, jamais Antônio Conselheiro se vangloriava, em seus sermões, da faculdade de operar milagres, e não fazia curas, nem fornecia medicamentos[94], mas ao contrário apelava apenas à fé e ao duro trabalho. Nunca afirmou ter sido enviado por Deus ou que era profeta; como pregador leigo e beato, permaneceu dentro dos limites formais do catolicismo romano[105]. Não fazia, na verdade, senão prolongar a tradição dos ermitães (leigos) do século XVI, os quais, na ausência de padres, eram então considerados representantes da Igreja; como eles, Antônio Conselheiro trajava uma longa túnica anil sustentada na cintura por um cordão, usava barba e cabelos longos, e andava descalço ou em sandálias rudimentares[448].
Falava de coisas tocantes à vida e às preocupações dos sertanejos: as dívidas, a moralidade, o governo, e o destino individual. O fato de se inspirar na Missão Abreviada para redigir seus sermões testemunha sua busca de um sistema de signos e símbolos medieval simplificado. Sua teologia, contudo, não era ingênua; sua linguagem pôde ser rudimentar em suas metáforas, mas não era desprovida de refinamento. No sertão, onde a grande maioria da população era analfabeta, suas imagens fortes eram adaptadas à situação e eficazes. Além disso, enquanto os habitantes do sertão eram privados da presença tranquilizadora de figuras de autoridade, competentes para definir a fronteira entre comportamento admitido e comportamento reprovável, Antônio Conselheiro, em Canudos, se prestava a preencher esse papel, o que seus adeptos acolhiam com encantamento; a rude disciplina que lhes impunha era para eles o preço (afinal módico) a pagar[215].
Quando a constituição republicana foi sancionada em 1891, ele fustigou as disposições relativas à separação da igreja e do Estado, ao casamento civil e ao registro de nascimentos e óbitos. Comovido com o exílio do velho monarca Pedro II, fulminou contra o regime republicano, que apresentou como uma personificação do Anticristo[448]. Contudo, a oposição de Antônio Conselheiro à nova constituição era então totalmente partilhada pela Igreja Católica, pela sua hierarquia tanto quanto pelo seu clero local, devido mais particularmente ao casamento civil obrigatório e à secularização dos cemitérios. Antônio Conselheiro estava, portanto, longe de ser o fanático revolucionário, obscuro e isolado, tal como pintado por Da Cunha[449].
Na segunda metade do século XIX, os políticos do sertão tinham o costume de intervir na seleção dos padres chamados a ocupar as diferentes paróquias, prática que tornava difícil qualquer tentativa de reforma e frustrava aqueles desejosos de renovar a Igreja. Como ator externo, ligado a nenhuma das facções, nem particularmente interessado a concluir alianças políticas, por desdém em relação a essas atividades temporais, Antônio Conselheiro se mantinha à margem desse sistema e ameaçava abalá-lo. Sua pobreza lhe havia conferido credibilidade junto aos sertanejos e ao mesmo tempo embaraçado os padres que tinham feito escolha de uma vida confortável como clientes ou membros das elites locais[450].
O sebastianismo aflorava sob a superfície da teologia de Antônio Conselheiro. Ao misturar, no espírito popular, a aspiração ao retorno do paternal imperador Pedro II com a devoção local e as referências apocalípticas e penitenciais, adaptou a tradição sebastianista aos seus próprios fins: aquele que era chamado a retornar já não era o santo, mas o imperador. Antônio Conselheiro advertia que os ricos e poderosos sofreriam tormentos eternos após o Dia do Juízo, e os camponeses estavam mais do que nunca dispostos a ouvir religiosos suficientemente humildes para vir entre eles e pregar que as elites estavam carregadas de pecados e seriam em breve chamadas à ordem no inferno do Juízo Final[451].
Reação ultramontana
Por volta da mesma época, no momento em que a Igreja se resignara a anuir à separação da Igreja e do Estado e apoiava tacitamente o governo republicano, o Vaticano pôs novamente a tônica na reforma administrativa da Igreja do Brasil e reiterou suas instruções tendentes a eliminar os elementos de superstição e heterodoxia que nela se haviam instalado com o tempo. A hierarquia exigia a restauração das práticas litúrgicas tradicionais, passando a erradicar variantes locais e mesmo sincretistas antes toleradas. A partir de 1894, em particular após a visita de uma missão de capuchinhos a Canudos (v. abaixo), a Igreja pressionou o governo para intervir contra a comunidade[452]. Contudo, a expressão religiosa profundamente sentida da fé, que os observadores externos taxavam de mística e fanática, pode ser considerada como uma continuação do renascimento espiritual entre o clero rural começado nos anos 1860. Mas a campanha ultramontana brasileira deu às autoridades eclesiásticas de Salvador todas as justificativas para contrapor-se aos párocos locais que tinham preconizado a tolerância para com Antônio Conselheiro e em favor daqueles que insistiam em seu afastamento como elemento potencialmente sedicioso[442]. Após 1870, o clero recém-formado no seminário era encorajado a agir com ardor, fervor evangélico e determinação; a reforma ultramontana e a nova insistência na disciplina ortodoxa dava lugar, entre os novos padres, frequentemente estrangeiros de nascimento, a rigidez e impaciência diante das formas sincréticas da expressão religiosa, e o novo clero já não estava disposto doravante a tolerar a subcultura religiosa, que vicejava.
Paralelamente, procedeu-se a uma reorganização da Igreja brasileira e à criação de novas dioceses. Dom Luís Antônio dos Santos, arcebispo de Salvador a partir de 1880, tornou-se a nova figura dirigente. Os seminários passaram a entregar padres zelosos, conformes às instruções vindas de Roma, hostis ao protestantismo, à maçonaria, ao positivismo e à laicidade. Trouxeram-se, por outro lado, numerosos padres europeus, que foram enviados para trabalhar como missionários no sertão[212].
Houve uma circular da arquidiocese ordenando aos padres que não cooperassem com Antônio Conselheiro, e fazendo interdição aos leigos de pregar. Em fevereiro de outubro, o arcebispo dos Santos enviou uma missiva declarando Antônio Conselheiro persona non grata, quando, contudo, de forma significativa, a Igreja jamais condenou suas práticas religiosas nem sua teologia. Ele de fato sempre permanecera ortodoxo em seu catolicismo e continuava a gozar de boas relações com o clero local, alguns párocos desdenhando mesmo a ordem dada pelo arcebispo contra os pregadores leigos. Aliás, os párocos do sertão diferiam largamente entre si em seu julgamento sobre Antônio Conselheiro[453]. Os párocos de aldeia recolhiam somas vultosas pelos batismos, casamentos, novenas e outros serviços realizados pela Igreja, aos quais o Conselheiro incentivava a população a recorrer, enquanto ele próprio não embolsava nada[454]. Em novembro de fevereiro, uma segunda carta pastoral advertia as congregações contra Antônio Conselheiro. Se alguns párocos, benevolentes para com o Conselheiro, se recusaram a cumpri-la, a maioria obedeceu, e o trabalho de Antônio Conselheiro só se tornou mais difícil[455].
As relações de Antônio Conselheiro com a Igreja conheceram uma virada em 1895, quando o novo arcebispo de Salvador, Jerônimo Tomé da Silva, enviou a Canudos uma delegação pastoral, dirigida por um capuchinho italiano, para tentar trazer as ovelhas para sob a única autoridade da Igreja. Essa visita, marcada pela intransigência do chefe da delegação e por sua falta de tato, aparece na verdade como um verdadeiro ultimato, haja vista a inflexibilidade dos capuchinhos na formulação de suas exigências[95]. Muitos sacramentos — 102 batismos, 55 casamentos, 400 confissões — foram, todavia, celebrados nessa ocasião pelos padres visitantes[456].
As novas leis republicanas, às quais se submeteram as mais altas esferas da Igreja brasileira sem grande oposição, ameaçavam, aos olhos de Antônio Conselheiro, abolir a palavra de Deus e destronar o próprio Deus em benefício do ateísmo. Para a hierarquia eclesiástica do litoral, Conselheiro, ao acusar sem cessar a Igreja de estar infiltrada pelos inimigos do catolicismo e de faltar com fibra moral, agia como um irritante e representava uma fonte permanente de contrariedade, que não fazia senão se intensificar à medida que aumentava a massa de seus fiéis[457].
Fatores econômicos, sociais e psicológicos
A insegurança gerada pelo sistema coronelista, os impasses econômicos, os esforços da Igreja Católica para pôr fim às práticas tradicionais consideradas não ortodoxas, a abolição da escravatura, depois a queda da monarquia e as novas prescrições republicanas (em particular o casamento civil, a supressão das prerrogativas da Igreja em matéria de registro civil, e mais geralmente o abatimento visível da unidade tradicional entre Igreja e sociedade[458]), eram tantos elementos que se somavam ao desnorteamento e à ansiedade dos camponeses do sertão e contribuíam para sua predisposição a seguir Antônio Conselheiro, quando em 1893 e 1894 a notícia sobre o estabelecimento do refúgio de Antônio Conselheiro se espalhou pelos campos[459].
Se os sertanejos temiam os proprietários de terras, odiavam o aparelho de Estado arrecadador de impostos tanto quanto o senhor. O governo do estado da Bahia, confrontado com a nova arquitetura federalista (não redistributiva) do Brasil, se via diante da necessidade de encontrar receitas fiscais a nível local. A maior abertura consequente ao desenvolvimento da rede viária e ferroviária trouxe uma outra intrusão ainda: as forças do mercado, na origem de novas pressões e novos antagonismos na vida das classes inferiores, expressando-se não apenas no plano econômico (queda da necessidade de mão de obra), mas também cultural. A introdução dessas modernizações e o declínio da região acarretaram também uma recrudescência do banditismo, que atingiu níveis incomuns. Assim, enquanto amplos setores do antigo sistema se desagregavam, a tensão aumentava e a ansiedade se espalhava[460]. Alguns sertanejos, todavia, souberam manter sua independência tradicional, mas ao preço de uma marginalização crescente. Outros preferiram emigrar para oásis menos afastados, mas adquiriram com isso um status que os aproximava mais dos meeiros tradicionais, tornando-os, portanto, mais dependentes dos grandes proprietários. Alguns poderiam então ter considerado que a comunidade de Antônio Conselheiro, que prometia estabilidade, ainda que à custa de se conformar pessoalmente a preceitos rígidos, era uma alternativa viável[461]. Canudos, e também a comunidade do Padre Cícero, atraiu muitos jagunços desenraizados e despossuídos, homens acostumados à violência por causa da natureza de sua sociedade e de sua existência[462].
Alguns historiadores sugeriram, na esteira de Da Cunha, que a ocorrência de crises na sociedade do sertão — política, climática, ou ambas juntas — pode ter contribuído para a ascensão do messianismo, do fanatismo religioso ou da insubmissão às leis. A decisão de se mudar para Canudos pode ter sido determinada pelo atrativo que exercia a visão religiosa de Antônio Conselheiro, mas também e talvez antes de tudo por motivos econômicos[463]. A grande seca e a situação desesperadora que dela resultou exacerbou as tensões e pode ter tornado as pessoas mais receptivas a soluções mais radicais, aptas a assegurar sua sobrevivência material[464]. Poucos, na realidade, seguiram Antônio Conselheiro por capricho ou porque estavam seduzidos por um mago iluminado. Os sertanejos tinham um conhecimento íntimo de sua região, e sabiam provavelmente que Canudos se situava numa zona fértil, e supunham, além disso, que tinha boas relações com pelo menos alguns coronéis[94].
Uma vez em Canudos, alguns então se sujeitavam a uma observância religiosa estrita, outros não. Não havia normas de comportamento coercitivas, religiosas ou outras, mesmo que Antônio Conselheiro lembrasse constantemente suas ovelhas de sua obrigação de viver segundo as leis divinas. Embriaguez e prostituição eram banidas, mas a fome causada pela penúria de alimentos era desconhecida. Aqueles que o desejassem mantinham contatos ininterruptos com as comunidades vizinhas do povoado: os Canudenses não viviam em uma redoma, nem eram de modo algum prisioneiros. Vinha-se e ia-se livremente; pessoas entravam em Canudos, tratavam de seus negócios, e depois iam embora. Muitos conselheiristas partiam cada dia para trabalhar fora. Canudos não era um lugar afastado e isolado do mundo exterior, entregue ao mal e à heresia, tal como pintado por Da Cunha, mas um núcleo de povoamento bem integrado na vida geral da região[465]. Vinha-se a Canudos para guardar e cultivar a fé católica, não com a intenção de trocá-la por alguma religião sectária desviante[94]. Aliás, em nenhum momento os habitantes de Canudos deixaram de apreender de maneira racional as realidades da vida no sertão.
A maioria dos sermões de Antônio Conselheiro não era apocalíptica nem taumatúrgica, e exigia simplesmente uma moralidade pessoal e um trabalho assíduo em troca de proteção espiritual contra um mundo temporal corrompido e em crise econômica. Os crentes podiam levar ali uma vida disciplinada de acordo com os preceitos católicos, a salvo tanto das infâmias modernas quanto da fome e da necessidade. Canudos não atraiu desviantes, mas homens e mulheres alienados de sua sociedade, que buscavam a redenção indo voluntariamente viver num ambiente penitencial regulado e seguro[466]. Belo Monte era um refúgio, respondendo certamente a uma organização teocrática, mas pragmaticamente conectado ao território vizinho, o que supõe uma flexibilidade considerável da parte de Conselheiro e de seus assistentes. Os efeitos residuais da seca, a depressão econômica, o uso acrescido da polícia estadual para fazer cumprir os novos preceitos políticos, e o desaparecimento da monarquia e de sua autoridade tradicional se aliavam para tornar altamente desejável a vida estruturada prometida por Conselheiro. A decisão de se transportar para a segurança relativa de um santuário sagrado e guardado não era de modo algum insurrecional, nem o resultado de um fanatismo demencial, mesmo que ameaçasse o status quo. Em todo caso, Antônio Conselheiro não era um revolucionário, e sua comunidade não era nem subversiva, nem deliberadamente provocadora[467], nem muito ativamente proselitista, e não se entregava a nenhuma propaganda política[468].
Tese da psicose coletiva

Entre os diferentes pretextos usados para justificar o aniquilamento de Canudos — proselitismo monarquista, barbárie contra civilização, atentado à ordem pública, depredações etc. —, houve ainda um outro, não menos desprovido de base sólida, e que o só fato de Canudos ter podido se manter e prosperar durante vários anos bastaria para refutar, mas que muitos promotores da república e observadores vindos do litoral se compraziam, todavia, em pôr em evidência, a saber: a alegação de que Canudos seria fruto de uma psicose coletiva[469]. Em Salvador, a personalidade de Antônio Conselheiro era medida, avaliada e interpretada por médicos e universitários de proa, à frente dos quais o médico legista e pesquisador Raimundo Nina Rodrigues, que era então professor de medicina legal na faculdade de medicina de Salvador e que se aplicava a buscar com extrema minúcia em cadáveres de loucos e delinquentes comprovados os estigmas físicos de seu desvio. Seus escritos, que dão conta desses trabalhos e dos quais Da Cunha teve conhecimento, estabeleceram os marcos de uma antropologia criminal do Brasil, preocupada em também levar em conta as particularidades raciais e culturais do país[470]. Ele examinou os caracteres físicos dos criminosos e, mais especialmente, da população mulata, para tentar detectar os sintomas de degenerescência devidos à mistura das raças. Foi a ele que o crânio do Conselheiro seria confiado para perícia, em consideração à reputação que havia adquirido nesse domínio por suas teorias sobre os efeitos degenerativos da miscigenação racial e do elo que havia estabelecido entre doença mental e «contágio messiânico»[471]. Suas teses a esse respeito, que não faziam senão traduzir o pensamento da elite citadina não apenas sobre a personalidade e o estado mental do Conselheiro, mas também sobre a população do sertão em geral, são expostas mais particularmente em dois artigos de sua lavra, que será interessante pôr em contraponto com certas passagens da obra de Da Cunha; são, por um lado, A loucura epidêmica de Canudos. Antônio Conselheiro e os jagunços (N.B. loucura = loucura), redigido pouco antes da liquidação de Canudos e publicado em novembro de janeiro, e por outro, A loucura das multidões. Nova contribuição das loucuras epidêmicas no Brasil, publicado primeiro na França nos Annales médico-psychologiques em maio-junho de fevereiro sob o título Épidémie de folie religieuse au Brésil[472]. Nina Rodrigues aí desenvolve, quando se encontrava em Salvador, sua própria visão da guerra de Canudos, centrando sua interpretação na figura anacrônica de Antônio Conselheiro, o louco de Canudos, cuja loucura lhe parece comprovada, a despeito do caráter parcial dos dados que tem de sua biografia. Pode-se estranhar esse diagnóstico à distância, estabelecido com base em testemunhos não verificáveis (e, mais geralmente, do julgamento peremptório sobre Antônio Conselheiro por diversos cronistas que, contudo, nunca lhes fora dado encontrá-lo), mas, escreve ele no primeiro desses dois artigos, «a alienação que o atinge é conhecida até nos seus mínimos detalhes, e pode perfeitamente ser objeto de um diagnóstico a partir de dados truncados ou insuficientes, como aqueles que se possuem sobre a história pessoal desse alienado»[473]. Assim não hesita em aplicar sobre Antônio Conselheiro seus pressupostos teóricos inspirados nas teses lombrosianas, e observam-se, em sua análise da personalidade do Conselheiro, termos e segmentos de frase tais como «alienado», «cristalização do delírio de Antônio Conselheiro no terceiro período de sua psicose progressiva», «delírio crônico», «psicose sistemática progressiva», «paranoia primária», «loucura alucinatória», «relação com Deus de natureza provavelmente alucinatória», «delírio de perseguição», «loucura hipocondríaca», «alienado migrante», «fase megalomaníaca de sua psicose», «alienado tomado de um Predefinição:Lien» etc.[473], sem esquecer o título mesmo de seu artigo, A Loucura epidêmica de Canudos, por si só muito revelador. O texto comporta, por outro lado, algumas asserções surpreendentes, notadamente que Antônio Conselheiro infligia maus-tratos a sua mulher, que esta foi violada por um policial em Ipú antes de deixar o Conselheiro; que sua personalidade comportava um lado violento e que em certo momento ele tinha ferido seu cunhado; e que suas frequentes mudanças de emprego eram o reflexo de sua instabilidade e denotavam um «delírio de perseguição». Segundo Nina Rodrigues, Antônio Conselheiro teria encontrado «uma fórmula para seu delírio» e uma expressão para sua «megalomania» nomeadamente sob a forma da fustigação do luxo e do prazer[474].
Antes de tudo, Nina Rodrigues considera Antônio Conselheiro como um perturbador vindo romper um equilíbrio e desregrar a «vida pacífica da população agrícola do sertão» preconizando, em lugar de uma existência ordeira, uma «vida de errância e de comunismo». Sua prisão (no âmbito do inquérito sobre a morte de sua mãe) será a ocasião de ver revelada publicamente sua paranoia, começando então o Conselheiro a agir como Cristo e a ser doravante possuído por uma visão «alucinatória»[475].
Contudo, para se chegar a essa loucura coletiva que foi Canudos, era preciso que sua visão alucinatória encontrasse um terreno favorável e uma ressonância, pelo que toda uma população pudesse ser contaminada por seu delírio. O «combustível para acender o incêndio de uma verdadeira epidemia vesânica», é no contexto social, cultural e antropológico do sertão que, segundo Nina Rodrigues, Antônio Conselheiro o encontrará. Em eco, Da Cunha evocará um «insensato» tendo encontrado «um meio propício ao contágio de sua loucura»[476]. Loucura e meio, contudo, interagem: as modalidades de expressão da psicose do chefe rebelde são determinadas e moldadas pelo meio particular do sertão, pois para Nina Rodrigues sua «psicose progressiva reflete as condições sociológicas do meio no qual se organizou», e essa demência não é, portanto, senão o revelador do meio onde se desenvolve[477].
Para Da Cunha tanto quanto para Nina Rodrigues, o «delírio religioso» de Canudos corresponderia a «um estágio primitivo da evolução social»[478]. Da Cunha relaciona o fenômeno Canudos a uma fase longínqua da evolução humana[479]. Esses autores põem ambos em relevo o elo entre regressão social e regressão mental, não apenas no caso específico de Canudos, mas também mais largamente para o conjunto do sertão. Vários fatores explicam essa regressão. Primeiro, ela é imputada por eles, autores do litoral, a uma cultura ancestral herdada, selvagem e guerreira, que retira ao indivíduo seus freios[477]. Da Cunha e Nina Rodrigues insistem na impenetrabilidade do sertão, onde a civilização europeia não teria jamais realmente logrado se estabelecer. O sertão não seria senão «o lugar de enfrentamento entre tribos bárbaras ou selvagens representadas pela massa popular». O jagunço é considerado como condicionado por seus instintos guerreiros e o povo inculto reduzido a um «estágio inferior de evolução social»[477]. Resulta disso, nos diz Nina Rodrigues, que «todas as grandes instituições, na civilização deste fim de século XIX, que garantem a liberdade individual e a igualdade dos cidadãos perante a Lei, são mal compreendidas, desnaturadas e anuladas nessas regiões longínquas». A maldição de Canudos repousa sobre as «crenças fetichistas dos africanos, profundamente enraizadas em nossa população». O jagunço, afirma em seguida Nina Rodrigues, é o «tipo perfeito para ser atingido» pela regressão e pela demência, porque, enquanto produto híbrido da mistura racial, ele «sofre da fusão de raças desiguais». Como recipiente das «qualidades viris de seus ancestrais selvagens índios e negros», ele leva uma vida rudimentar mas livre, ao contrário do mestiço da costa, que é, por sua vez, «degenerado e fraco». O jagunço será, portanto, «naturalmente um monarquista»[475]. Se esse isolamento do sertão favoreceu o arcaísmo, a barbárie, a propensão à violência, a brutalidade, poderia ser ao mesmo tempo também o garantidor fantasmatique de uma certa pureza: pureza da tradição, pureza da língua, e antes de tudo pureza da raça[480].
Vê-se, portanto, que Nina Rodrigues, se tende a se fechar em um quadro lombrosiano organicista e a se enredar num determinismo biológico e racial, acaba por levar em conta também o determinismo do meio, e mesmo o social, pois Nina Rodrigues relaciona a propensão à insanidade não apenas aos mestiços, mas também aos membros das classes inferiores, a qualquer raça que pertençam, indo, portanto, mais longe que as teorias racialistas, sobretudo francesas e italianas (devidas em particular a Lasègue e Falret), sobre a delinquência e o atavismo, teorias desacreditadas hoje mas então ainda comumente admitidas, e das quais Nina Rodrigues era um adepto apaixonado[481]. Assim Nina Rodrigues aparece mais inovador que Da Cunha e seus outros contemporâneos na medida em que reconhece o impacto dos fatores sociológicos sobre o comportamento de Antônio Conselheiro e de seus adeptos. Quando a cabeça do chefe rebelde lhe foi expedida para exame médico, Nina Rodrigues ficou surpreso ao não constatar nenhum dos sinais de degenerescência que esperava encontrar. (Teve, aliás, reação similar ao examinar o crânio do escravo fugido Lucas da Feira, autor de muitos malfeitos algum tempo antes; não descobrindo nada de anormal nesse crânio, Nina Rodrigues chegou a fazer o elogio do escravo maron, sustentando que na África teria sido um grande guerreiro mas que, transportado ao Brasil e domesticado sob coação, tornara-se um delinquente sob efeito de causas sociais[475].) Da Cunha também foi levado a revisar seu ponto de vista ao longo da redação de seu livro e a reconhecer as belas capacidades de adaptação do sertanejo, contradizendo, portanto, sua tese determinista inicial.
Seja como for, ao postular a presença de doença mental em Antônio Conselheiro e ao evocar, através de uma equação simples dando o delírio coletivo dos sertanejos como resultado do encontro contagioso entre a loucura de um indivíduo e o atavismo histórico de uma população e seus determinismos racial, cultural e sociológico, Nina Rodrigues pôs nas mãos das autoridades republicanas um elemento suplementar apto a justificar e racionalizar a brutal repressão de Canudos.
Experiência coletivista?
No início, e durante muitas décadas, a maioria dos historiadores e intelectuais brasileiros acreditou na visão de Da Cunha, que via Canudos simbolicamente como o resultado de impulsos primitivos de camponeses atrasados manipulados por um falso messias. Posteriormente, os autores de esquerda se apropriaram dos eventos de Canudos para ilustrar sua análise particular dos fenômenos sociais e quiseram reinterpretar Canudos como um núcleo de resistência política contra a opressão, magnificando o conflito em uma rebelião heroica sem precedentes contra o feudalismo — era, segundo os termos de Abguar Bastos, «uma das manifestações mais estarrecedoras de coragem humana no Brasil»[482]. Os teólogos da libertação, p. ex., se esforçaram por remodelar esse episódio histórico moldando Canudos em uma comunidade de caridade, praticando uma solidariedade fraterna, e destruída por fazendeiros-exportadores plutocratas e seus clientes burgueses. Os ideólogos do partido comunista brasileiro apresentaram Canudos como o desfecho da conscientização e da mobilização camponesas, e promoveram o conflito como paradigma da luta de classes[483]. Outros, pondo em relevo a estrutura feudal da sociedade do sertão e postulando o antagonismo de classe como a principal mola por trás do fenômeno Canudos, exaltaram os jagunços como soldados lutando contra o sistema latifundiário; segundo os termos de Rui Facó, Antônio Conselheiro levantou uma «rebelião inconsciente mas espontânea contra a monstruosa e secular opressão pela grande propriedade semi-feudal»[484]. Contudo, não há elementos de prova indicando que Antônio Conselheiro jamais tivesse preconizado a insurgência social[485]. Todas essas interpretações não contribuem em nada para uma melhor compreensão da trajetória de vida e das motivações daqueles que seguiram Antônio Conselheiro em direção ao lugar santo. Nenhuma ajuda a melhor apreender Canudos como um fenômeno dinâmico de natureza ao mesmo tempo religiosa e política[486].
Em sua obra póstuma Cangaceiros e fanáticos, publicada em 1963, o intelectual comunista cearense Rui Facó evidencia, após ter passado em revista de forma detalhada os combates entre Canudenses e tropas do exército, o grau (segundo ele) elevado de organização de que davam mostras os jagunços em suas ofensivas e em sua formação de batalha, caracterizadas por uma profunda consciência tática e hierárquica. Segundo Rui Facó, está-se, portanto, autorizado a ver nos combatentes de Canudos autênticos guerrilheiros organizados; Pajeú, um dos principais líderes do movimento, é assim objeto, por ter concentrado em sua pessoa todas essas características, de um retrato muito elogioso. Conselheiro, em contrapartida, considerado contudo pela historiografia como o grande dirigente e a figura maior da comunidade, não se vê atribuir, na análise de Facó, senão um papel secundário, o de aglutinador das massas pobres, mas colocado ele próprio sob a autoridade de Pajeú. Quanto ao messianismo, ele não representa no movimento senão uma espécie de camuflagem destinada a dissimular a verdadeira significação de Canudos, a saber: uma luta contra o sistema latifundista e contra a miséria que dele decorre. Facó atribui, portanto, uma dimensão propriamente política à experiência de Canudos e uma consciência de classe ao trabalhador agrícola, e, por conseguinte, não reconhece ao aspecto religioso senão uma importância acessória. A fraqueza da demonstração, contudo, jaz em que o caráter político de Canudos não se manifesta senão através de sua organização e engajamento no domínio militar; com efeito, quando se considera que o enfrentamento com o exército, por importante que tenha sido, ocupou apenas um lapso de tempo relativamente reduzido em toda a história de Canudos, e que a matéria histórica de Canudos reside em grande parte em seu processo de constituição e em seu tipo de organização, onde a questão e a motivação religiosas são chaves de compreensão essenciais do processo em seu conjunto, percebe-se que a tônica pesadamente posta na questão militar deve ter levado Facó a escamotear certos fatores essenciais do movimento. Pode-se notar, aliás, que essa insistência na ação pelas armas se inscreve no pensamento da esquerda brasileira da época, onde a luta revolucionária era vista como um empreendimento antes de tudo militar visando à conquista armada do Estado pelas classes laboriosas, sobretudo rurais, à imagem da revolução chinesa, onde as populações rurais desempenharam um papel crucial e que se tentava transpor para a América Latina; a subsequente relegação a segundo plano do aspecto religioso, aspecto incompatível com a racionalidade política e com os a priori da esquerda, deve ser compreendida nessa mesma perspectiva. Ao fazer isso, Facó deixa de lado elementos fundamentais necessários à apreensão dos eventos, e chega à ideia de que Canudos deve ser considerado um movimento puramente político e seus atores também como agentes políticos[487].
Encontra-se um eco da visão de Rui Facó — mas reportada também à situação brasileira presente — num texto tardio de Otto Maria Carpeaux intitulado A lição de Canudos:
Cada geração sucessiva encontra algo de novo nessa história impressionante. Nossa época atual também é capaz de encontrar algo de incomum nesse evento: um aspecto que não havia sido detectado antes. Canudos está novamente na ordem do dia. [...] Um pesquisador de hoje, Rui Facó, examinou os aspectos sociais de Canudos: os fatores que não são imutáveis, mas que a história criou no passado e que, por isso, a história do futuro poderá modificar, até abolir. Quais foram esses fatores sociais de Canudos? [...] Se olharmos mais de perto a realidade de então, percebemos que o homem (=Antônio Conselheiro) tinha razão: para os camponeses, a República não tinha mudado nada, e o Brasil, sob um presidente da república, era o mesmo Brasil que o do Imperador, continuando os camponeses a ser dominados pelos mesmos latifundiários. O Brasil oficial, indignado, negava esse fato. [...] Então, quando os camponeses de Canudos começaram a se reunir em torno de seu chefe de seita, o maior proprietário de terras da região, um barão feudal típico, retirou de lá sua família e seus bens. O barão parecia ter percebido já o que Rui Facó nos ensina hoje: que o misticismo sectário de Canudos era a expressão da esperança de acabar com a miséria que durante séculos oprimiu os camponeses brasileiros e que continua a oprimi-los. Homens ignorantes e supersticiosos como eles não conheciam nada das reivindicações sociais. Esperavam a redenção da parte da Igreja, e quando os bispos e os párocos, ligados às classes dominantes, não ouviram o grito de desespero, os camponeses de Canudos se separaram da Igreja, e se tornaram sectários. O verdadeiro motivo dos movimentos rebeldes nos campos brasileiros é a estrutura da sociedade brasileira. Essa estrutura não é uma fatalidade da Natureza ou da Raça, e por isso imutável. Foi criada pelos homens no passado e poderá ser modificada pelos homens, no futuro. Basta que se queira. Mas que se queira de maneira adequada. [...] Como modificar a estrutura da sociedade brasileira, se esta é protegida e garantida pela política, pelas forças armadas, pelos grupos conservadores e por todos os poderes públicos? Isso também, Antônio Conselheiro nos ensinou. Mas é só hoje que começamos a compreender sua lição. É uma faceta de Canudos que jamais até nossos dias foi devidamente apreciada: o aspecto tático militar. Como as coisas começaram? Os camponeses de Canudos estavam, por volta de 1895, tranquilamente reunidos em seu reduto, trabalhando apenas para seu sustento e para o dos seus. Mas é isso que homens como aquele que era então o barão de Jeremoabo não toleravam: pois queriam que os camponeses trabalhassem para o lucro dos barões, do mesmo modo que hoje os grandes proprietários de terras querem que os camponeses trabalhem para seu lucro[488].
Quase ao inverso de Facó, a socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz se aplicou, através de um estudo minucioso da bibliografia, a fazer ressaltar o papel messiânico do movimento. A autora põe em evidência declarações e depoimentos de testemunhas que tendem a demonstrar que a organização social e política de Canudos diferia pouco das outras cidades e localidades da região, que Belo Monte respondia, internamente, a uma hierarquização política rigorosa, na qual as classes pobres teriam ocupado posições subalternas, e que, por conseguinte, Canudos teria sido plenamente integrado ao ambiente local. Essa análise leva Maria Isaura de Queiroz a concluir, fazendo abstração das especificidades econômicas e sociais, que Canudos teria sido na realidade um movimento coronelístico e que, se a comunidade de Belo Monte tivesse alguma especificidade, foi aquela do meio aqui empregado pelo coronel, no caso Antônio Conselheiro, para se alçar ao poder: a religião. Para compreender esse ponto de vista, importa lembrar como Maria de Queiroz concebe o coronelismo: este é definido pela autora a partir de uma estrutura tendo por base a família no sentido amplo, seja os laços de sangue e os laços espirituais (padrinhagem), além das alianças políticas. Tal estrutura criaria assim uma solidariedade entre todos os segmentos da sociedade, de sorte a impedir qualquer outra forma de organização ou iniciativa no seio do segmento social concernente, e, desde logo, também, uma vez Canudos pressionado nesse molde, a tornar ilegítima qualquer hipótese de solidariedade social camponesa que se afastasse da visão preconcebida de Canudos como um movimento coronelístico. A luta de Canudos contra o exército se vê assim eclipsada pelos outros aspectos, e as razões avançadas por De Queiroz para explicar a conflagração se limitam a mencionar os diferendos de Conselheiro com a República (esta encarnando a seus olhos o Anticristo), com a Igreja (por infestada de padres hereges e maçons) e com os coronéis (que o viam como um potencial adversário eleitoral). De Queiroz percebe a origem do conflito no fato de que os Canudenses se viam como «eleitos» chamados a combater as depravações do aqui e agora. Contudo, a autora esquiva a seguinte questão: por que o Estado republicano se obstinou a tal ponto em intervir na estrutura de poder de um coronel que não fazia senão, como tantos outros coronéis afinal, assentar sua autoridade na região sobrepondo-se às instituições políticas existentes? O Estado teve com relação a Canudos uma reação diferente de todas as que tivera até então a respeito de qualquer outro coronel manifestando posições contrárias aos poderes estabelecidos em qualquer outra localidade, até mesmo a respeito de qualquer coronel que seja em qualquer época no Brasil. Trata-se, portanto, mais uma vez de uma visão parcial tendente a reinterpretar Canudos não pondo em luz senão uma parte da ação (principalmente a religiosa) dos Canudenses e ocultando o resto[489].
Ao contrário, a reflexão teórica do sociólogo José de Souza Martins se quer uma síntese global e ambiciona dar conta de toda a potência política e de questionamento da sociedade estabelecida do sertão que representou Canudos, considerando o movimento em toda sua amplitude e em suas dimensões tanto social quanto religiosa. Em sua obra Os Camponeses e a Política no Brasil (1981), ele situa o movimento de Canudos no contexto de crise do coronelismo, o qual, segundo o autor, havia adotado características particulares nas regiões nordestinas especialmente votadas à pecuária. O desmoronamento desse contexto se produziu por consequência da intervenção militar, esse fator realizando a junção entre as guerras de camponeses e as guerras políticas; o movimento de Canudos adquiriu, portanto, seu caráter político apenas por um impacto do exterior. Como o autor apreende Canudos em sua análise teórica como um movimento camponês (camponês), é útil primeiro bem delimitar esse conceito de camponês, que o autor constrói apoiando-se no processo de inserção dos indivíduos no mercado. À diferença do operário de fábrica, que ocupa seu lugar particular no mercado por meio de sua força de trabalho, o camponês se posiciona face ao capital através do produto de seu trabalho, no caso no processo de venda de sua produção, pelo que se forja sua consciência de classe; em consequência, ele não sofre diretamente da ação do capital sobre sua vida, mas indiretamente, através da relação vendedor/comprador, o que lhe dá uma ilusão de liberdade e autonomia, pouco propícia ao desenvolvimento de uma verdadeira consciência de classe, a qual só surgirá sob efeito de um fator externo, no caso, o processo de expropriação do capital, que acabará por imprimir aos movimentos camponeses um caráter pré-político. É essa característica estrutural que, segundo Martins, determina o movimento, mais do que a origem de classe ou mesmo a organização e a potência militares. A religião para Martins faz parte integrante do movimento, não como algo que lhe seria exterior e secundário, mas ao contrário como uma de suas características estruturais, sendo, com efeito, o meio pelo qual o sujeito camponês entra em comunicação com uma sociedade que o despoja de tudo. A religião é a esse respeito não uma alteração ou a marca de uma alienação, mas vem se integrar ao quadro do movimento como objeto de análise, sem desvirtuar esta última ou servir de ponto de partida a tais categorizações preconcebidas. Também Martins consegue restituir o movimento em sua totalidade, em todas as suas dimensões, inclusive reconhecendo-lhe seu caráter político, sem proceder a amputações estruturais ou sem amplificar abusivamente certos aspectos em detrimento de outros[490].
Tentativa de reabilitação oficial de Antônio Maciel
Em 1983, o jornalista e político brasileiro Sérgio Cruz depositou uma proposta de lei tendente a proclamar Antônio Maciel «Patrono nacional dos direitos humanos» (Patrono Nacional dos Direitos Humanos). Sua proposta se enunciava como segue:
O Congresso Nacional decreta:
Art. 1º. Antônio Vicente Maciel, ou Antônio Conselheiro, herói e mártir da guerra de Canudos, é declarado Patrono nacional dos direitos humanos, e
Art. 2º. O 22 de setembro, data da morte de Antônio Conselheiro, será comemorado ao título de «Dia nacional da luta pelos direitos humanos».
Art. 3º. O capítulo da história do Brasil relativo à guerra de Canudos será revisto e atualizado, e esta elevada à categoria de importante evento nacional e ensinada obrigatoriamente nas escolas, já no primário.
Art. 4º. A presente lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.
A essa proposta de lei o autor Sérgio Cruz adjuntou uma longa peça justificativa. Seu propósito é, diz ele, dar uma primeira impulsão a uma revisão da historiografia do Brasil, a qual, tendo-se conscientemente posto a serviço dos grupos dominantes por cuidados de historiadores dos quais está provado que têm parte ligada com certas classes ou facções, é fraudulenta, trufada de lugares-comuns; os heróis brasileiros aos quais presta homenagem como referência cívica da nacionalidade formam uma galeria incompleta, parcial, até discutível. A história oficial do Brasil não é senão uma leitura política dos fatos e uma interpretação contestável dos eventos, feita segundo as necessidades políticas. O exemplo clássico de tal omissão deliberada é o alijamento da Revolução sertaneja dirigida por Antônio Vicente Maciel, episódio que, conquanto sendo o mais importante da república, foi reduzido aos preconceitos pessoais de alguns escritores estabelecidos, à frente dos quais Euclides da Cunha, cuja obra Os Sertões aparece, por sua parcialidade, mais como um romance do que como um documento acabado sobre a primeira guerra civil brasileira[491].
Pelo presente projeto, o Congresso Nacional entenderá, pela voz de seus representantes, prestar a Antônio Conselheiro, um dos heróis mais autênticos da nação, a homenagem que lhe é devida, e render assim justiça aos trabalhos de historiadores que, à margem dos condicionamentos políticos dominantes, se votaram a restabelecer a verdade histórica sobre a guerra de Canudos; são, para só citar alguns de uma longa lista, Edmundo Moniz, Rui Facó, José Carlos de Ataliba Nogueira, Walnice Nogueira Galvão e Nertan Macêdo[492].
Além de um conflito armado, Canudos foi, afirma Sérgio Cruz, a primeira experiência jamais tentada no Brasil de uma sociedade democrática, um embrião de socialismo, que soube reunir, sob uma mesma causa, a esperança de redenção e a liberdade de um povo oprimido e escravizado. Antônio Conselheiro se pôs à frente da primeira revolução contra o feudalismo brasileiro, que notoriamente se enraizou, com todo o seu primitivismo bárbaro, no interior nordestino, onde persiste até hoje, caracterizado por desigualdades sociais visíveis e condenáveis. Canudos não foi um reduto de fanatismo religioso medieval, como declara a história oficial; Antônio Conselheiro, consciente de sua missão, fez nascer nos confins da Bahia uma experiência social similar às de Fourier e Owen[493]. O historiador Edmundo Moniz, recorda Sérgio Cruz, chegou à seguinte conclusão: «Antônio Conselheiro se implantou num mundo primitivo e bárbaro, permaneceu em contato comercial com a Europa, ao mesmo tempo que tentou construir uma comunidade igualitária funcionando fora da organização social do mundo burguês, onde reinava a anarquia da produção. Esforçou-se por implantar uma economia planificada e uma sociedade sem classes, através do desenvolvimento autônomo de uma cultura nova e original, afranquiada das velhas tradições»[494].
A religiosidade de Maciel foi, argumenta Sérgio Cruz, sua principal e indiscutível astúcia. O sertão lhe havia ensinado, durante seus vinte anos de peregrinação, o caminho mais curto para chegar a seus fins. Inteligente, culto, trabalhador, gozando de prestígio dentro e fora de sua zona de influência, esse «grande revolucionário sertanejo» empreendeu vivificar sua causa apoiando-se em sua vocação religiosa reconhecida. Reuniu o povo do sertão por meio da religião, com o objetivo de edificar uma «comunidade homogênea e uniforme», dotada de um governo, regulada por um direito consuetudinário, e capaz de superar em organização, disciplina e ordem, o mais elaborado dos poderes públicos. Testemunha o fato de que durante a luta armada não houve, afirma Sérgio Cruz, nem deserções nem motins[495]. O autor descortina na causa de Canudos uma «significação altamente democrática», e a assimila a um «combate, sem trégua nem capitulação, por um ideal de liberdade, justiça e igualdade — repousando sobre um cristianismo simples e assimilável — contra a injustiça, a prepotência, o despotismo e o arbítrio da elite dominante, que sobreviveu à proclamação da república e que reina, com a mesma perversidade, até hoje»[496].
A versão de que Canudos era um movimento restaurador é contradita pelo fato de que a repressão do movimento conselheirista havia começado em plena monarquia pelo encarceramento de Antônio Conselheiro em 1876, e pelo respeito que devotava aos negros, antes e depois da Lei Áurea. Certamente, é provável que durante a guerra Maciel tenha defendido a monarquia, mas foi porque a julgava menos sanguinária que seus inimigos republicanos, e não porque considerava a monarquia como o regime ideal para o Brasil[497]. A postura monarquista de Conselheiro foi, portanto, puramente conjuntural, conforme ao que qualquer outro dirigente teria feito em seu lugar.
Após 94 anos de existência, raciocina Sérgio Cruz, a república presente não foi capaz de realizar o mínimo nível de democracia e conceder o mínimo de liberdade ao povo; a monarquia ainda não foi superada. A democracia pregada por Maciel é, em substância, a mesma que buscamos neste momento[498].
Não houve neste país, e talvez não na história do mundo, caso conhecido de uma pessoa tão radical quanto Maciel na defesa dos direitos humanos[499]. A própria estrutura social de Canudos, onde a coexistência harmoniosa de seus habitantes decorria da aplicação disciplinada de uma doutrina de insubmissão do fraco face ao forte, revela a existência de um regime inédito de igualdade, possível apenas, estima o autor, onde o respeito à pessoa humana chegou à sua maior plenitude. Daí, sem dúvida, que alguns pesquisadores deduziram que Antônio Conselheiro tentou implementar nos sertões baianos a solução para a nova sociedade humana, que é aquela «baseada na comunidade dos bens»[500].
A comissão de leis, chamada a examinar essa proposta de lei, constatou primeiro que o texto de Sérgio Cruz recapitulava tudo o que eminentes historiadores já haviam escrito sobre o episódio concernente, mas segundo uma revisão romanceada de inspiração marxista. Exigir que o resultado de tal «história química» seja obrigatoriamente ensinado nas escolas, é, julgou a comissão, impor uma filosofia da história e uma interpretação unilateral do fato histórico, e aparece, portanto, contrário à liberdade de convicção filosófica e à livre expressão do pensamento filosófico, e equivale, por conseguinte, a uma subversão do regime democrático. Em 31 de agosto de 1983, a comissão, tendo posto o projeto em votação, o rejeitou como sendo inoportuno, uma falsificação da história do Brasil, e inconstitucional[501].
Desdobramentos
Imediato pós-guerra

A notícia da destruição de Canudos deu lugar em todo o país a manifestações e a encenações de euforia. Os editoriais dos jornais, os oradores em cerimônias improvisadas, os políticos nos conselhos municipais, nos parlamentos das entidades federadas e no congresso nacional rivalizavam em retórica triunfal e em homenagem aos heróis[502]. Em Salvador em particular, o governo do estado da Bahia exultou com o anúncio da vitória do exército republicano, e os jornais baianos organizaram conjuntamente uma celebração triunfal em honra do general Oscar[503]. A oposição política tratou de sublinhar, em sua mensagem de felicitações, sua própria parte nessa vitória. Na capital federal, os jacobinos exultavam, enquanto o presidente Prudente de Morais se esforçava para fazer passar a queda de Canudos como uma performance de seu único governo. A vitória foi exaltada inclusive pelo mais insignificante dos jornais de província, e celebrada com pompa nos povoados mais distantes. Alguns governos estaduais proclamaram feriados nos dias seguintes ao anúncio da vitória[504].
Os comentaristas comprazeram-se em sublinhar que, se o inimigo acabou sucumbindo, a despeito de suas táticas sorrateiras e de suas fintas, foi graças ao modo de combate aberto e honesto das tropas da civilização; o historiador Pernambucano de Mello argumentou que a modernidade do exército residia não tanto em seus equipamentos modernos (artilharia móvel, fuzis de assalto Mauser etc.) quanto em sua tática de lançar vagas de infantaria contra inimigos agachados em trincheiras. Passou-se em silêncio que as perdas da 4ª expedição tinham sido inconsideravelmente elevadas e injustificáveis: não menos de 1 200 homens perderam a vida durante o só trajeto para se dirigir a Canudos, e 3 000 outros foram mortos já nas três primeiras semanas[505]. Face à eficácia tática dos jagunços, o exército apegou-se por muito tempo a concepções militares europeias, inadaptadas ao sertão. Por outro lado, num primeiro momento, os jornalistas relevaram os estragos provocados pela artilharia na população de Canudos, composta em sua maioria de mulheres e crianças[506]; com efeito, dado que foram sobretudo homens que, aproveitando a escuridão e seu conhecimento dos lugares, fugiram do povoado perto do fim da guerra deixando atrás de si sua família, houve entre os últimos residentes de Canudos uma parte crescente de mulheres e crianças, não obstante o que o general Oscar, talvez sob pressão do governo, ordenou um assalto em 1 de outubro, dando expressamente a instrução de usar dinamite e bombas incendiárias à base de querosene. Os observadores descobrirão alguns dias depois os cadáveres calcinados de centenas de pessoas queimadas vivas ou asfixiadas em suas cabanas[507]. Além disso, a maior parte dos prisioneiros masculinos foi brutalmente executada após o fim dos combates, e não há dúvida de que o alto comando estava ciente e tolerou esses assassinatos. As mulheres e crianças entre os sobreviventes foram deportadas e mantidas em condições próximas da escravidão ou da prostituição, e as mães foram coagidas a ceder seus filhos a pais adotivos. O próprio general Oscar distribuía as mulheres e as crianças como gratificação a seus oficiais, mas outros se outorgavam eles mesmos sua recompensa[508]. Esses fatos acabaram por vir ao conhecimento do público e a abalar o antigo consenso.
Repercussões políticas
Nos últimos meses da guerra, a popularidade do presidente Prudente de Morais não cessara de cair. O alto custo das operações agravava o déficit orçamentário do Estado. Por outro lado, tanto as decisões táticas e estratégicas da guerra quanto os potenciais benefícios simbólicos escapavam ao governo. Com efeito, com o general Oscar encontrava-se à frente das tropas um afiliado dos jacobinos e uma de suas figuras emblemáticas, logo após Floriano Peixoto e Moreira César. De fato, a oposição jacobina via nele seu melhor instrumento político, e já circulavam rumores associando seu nome a uma revolta militar iminente contra o governo em vigor[509]. Ele podia à vontade fazer arrastar a guerra para dar assim aos jacobinos tempo e argumentos para aumentar o caos político na capital, e se encontrava em posição de manipular a informação em proveito da oposição, p. ex., privando o governo de informações sobre o desenrolar dos combates, ao mesmo tempo que mantinha informados sua esposa em Recife, o jornal O Paiz e alguns políticos da oposição. Ele se certificava de que os (presumidos) sucessos militares e as ações heroicas fossem creditados ao comando e ao florianismo, omitindo mencionar o ministro da Guerra ou o presidente[509]. Essas manobras testemunham a forte carga simbólica e o alcance político que tinha a vitória sobre Canudos aos olhos dos protagonistas políticos de ambos os campos[510].
À medida que a guerra se alongava, o governo em vigor penava cada vez mais para contrabalançar os jacobinos na luta pelos favores da opinião pública e pela hegemonia no seio do campo republicano. É por isso que Morais resolveu enviar ao front seu ministro da Guerra, o marechal Bittencourt, o qual chegou a Monte Santo em 7 de setembro de 1897. A fim de atenuar a imagem de um enfrentamento simbólico entre Bittencourt e Oscar, e temendo aumentar ainda mais o capital simbólico já adquirido pela oposição, Morais teve a habilidade de nomear ao mesmo tempo o irmão de Oscar, o general Carlos Eugênio Andrade de Guimarães, como novo comandante da 2ª coluna. Bittencourt, que tinha por missão acelerar o curso da guerra, concorreu para uma parte substancial, nomeadamente melhorando a logística e combatendo a corrupção no exército, para que a república fosse vitoriosa a tempo, isto é, antes que os jacobinos lograssem derrubar o governo e instaurar um regime republicano conforme suas visões[502].
Cada campo político se esforçava por instrumentalizar a vitória em seu próprio proveito. Significativamente, após 5 de outubro, Oscar recebeu felicitações da parte do Clube Militar por sua «dupla vitória», isto é, sua vitória simultânea em Canudos e no Rio de Janeiro. A marinha, parte conservadora e antijacobina do exército, honrou publicamente o presidente Prudente de Morais como o «salvador da honra e da constituição da república». Como a notícia da vitória chegou à capital enquanto Morais estava em plena posse de seus poderes de presidente, ele pôde explorar plenamente a vitória e se autorizar dela para pôr em evidência conceitos-chave tais como «civilização e razão», «direito e legalidade», «ordem e progresso», «paz», e sobretudo «república», e não deixou, aliás, de anunciar a notícia a título pessoal. Esforçou-se por organizar as festividades da vitória como uma celebração consensual — isto é, para além das clivagens ideológicas e de classe — da república em sua configuração atual, e como uma exortação a perpetuá-la como tal[511].
Essa tentativa de ligar a vitória sobre Canudos e a necessidade de assegurar e conceituar a república num sentido liberal foi coroada de sucesso. O governo e a república estavam novamente a salvo, e já não se podia negar ao governo sua republicanidade, nem pôr em dúvida sua capacidade de defender a república. Além disso, a vitória ocorrera a propósito pouco antes do congresso do Partido Republicano Federal, reunido para designar os candidatos à presidência e à vice-presidência na perspectiva das eleições presidenciais vindouras. Em 10 de outubro de 1897, Manuel de Campos Sales, até então governador de São Paulo, e Rosa e Silva, chefe da seção pernambucana do partido, puderam ser eleitos sem contratempos. Inversamente, para a oposição jacobina, o triunfo militar em Canudos, obtido contudo sob o comando de um dos seus, se transformou numa derrota política. Os radicais da oposição decidiram então jogar tudo ou nada e planejaram assassinar o presidente da república; a tentativa, preparada desde meses e finalmente fixada para 5 de novembro, fracassou, mas custou a vida ao marechal Bittencourt. O resultado dessa ação foi uma inversão total das relações de força políticas: na rua primeiro, onde grupos de agitadores «reacionários» empreendiam agora a depredar a sede dos jornais jacobinos A República, Folha da Tarde e O Jacobino, no plano político em seguida, após Diocleciano Martyr, redator-chefe do jornal O Jacobino, que o general Oscar havia honrado com um telegrama pessoal logo no dia da vitória, ter sido identificado como o principal instigador do atentado; ao círculo dos conspiradores pertenciam, por outro lado, além de um grande número de oficiais inferiores, uma série de personalidades políticas (civis) de alto escalão, entre as quais o vice-presidente Manuel Vitorino. Resultou do inquérito que ao atentado deveriam seguir-se outras ações em outras cidades, destinadas a precipitar a queda do governo e do sistema liberal-oligárquico[512].
A prisão e a condenação dos líderes da conjuração, bem como a interdição da imprensa jacobina, foram um golpe fatal para o jacobinismo brasileiro. O estado de emergência foi decretado, depois prorrogado até fevereiro de fevereiro, o Clube Militar fechado, o exército expurgado de seus responsáveis jacobinos, e a oposição parlamentar voou em cacos. Morais não teve então nenhuma dificuldade em fazer aceitar seu sucessor paulista e seu plano de renegociação da dívida externa, ao passo que a implementação por seus cuidados de uma política de acomodação nacional, dita política dos governadores, lhe permitiu realizar sua agenda[513].
No plano sociopolítico, o conflito de Canudos repercutiu na percepção geográfica do Brasil pelas populações do centro (São Paulo e Rio de Janeiro). Canudos contribuiu fortemente para o processo de nordestinização, isto é, para a constituição do Nordeste como um novo espaço específico, distinguindo-se do resto do território nacional por um conjunto de características particulares. O estado da Bahia, cujas elites podiam outrora ainda se gabar de sua centralidade política, e haviam prestado seu concurso à edificação do discurso dominante sobre Antônio Conselheiro, viu-se, nessa nova configuração, atribuir uma proximidade estrutural com o sertão de Canudos e, portanto, doravante relegado à periferia[514].
Escritos não literários sobre Canudos publicados após a guerra
Terminada a guerra de Canudos e pertencendo doravante à história, ela se fixou num objeto acabado e circunscrito e pôde se prestar a diversas formas de análise e contemplação: o estudo científico, a reflexão política, os testemunhos pessoais, os escritos apologéticos e — categoria à parte, tratada adiante — a exploração literária[515] (nesta seção, deixaremos de lado as produções literárias, ainda que no caso de algumas obras a linha de demarcação entre ficção e não ficção seja difícil de traçar).
Aqueles desses livros que consignam as memórias de antigos combatentes da guerra seguem a cronologia dos eventos e tomam a feição de uma narrativa heroica. Têm a pretensão de mostrar as coisas «tal como se passaram realmente». Como observa o historiador Bartelt, quanto mais essa ambição se afirma ruidosamente no prefácio, mais bem perceptível é a função ideológica do texto. Se os crimes de guerra, que já tinham então sido mencionados em todos os jornais, nunca são evocados explicitamente, ficando os autores em alusões veladas, preferindo falar de «falhas» isoladas do exército, as acusações de barbárie e fratricídio, contudo, irrigam subterraneamente todos esses textos, e essas acusações estão subjacentes à interpretação que é dada dos fatos descritos e conferem a todas essas obras um comum aspecto apologético[516].
O modo operatório consistirá em prolongar o discurso sobre Canudos prevalecente ao tempo da guerra e recorrer de novo à mesma grade paradigmática[517]. Também todos esses textos caracterizam Canudos como o fora da unidade pátria/república/nação, como um bastião do fanatismo religioso e do messianismo, incompatível, portanto, com o «edifício de 15 de novembro» (data do golpe republicano de 1889) e com o «monumento de 1889»; Canudos é a agressão do exterior, e o «Brasil inteiro» desde então luta contra a «Esfinge»[517]. A «luta contra a Esfinge» é uma referência a Ultima expedição a Canudos de Dantas Barreto, p. 136. O exército assume uma missão a ele confiada pelo país inteiro e salva a república. À nação antropomórfica contínua a opor-se um inimigo reificado ou bestializado, que não é agraciado com um rosto individualizado senão na face carrancuda do Conselheiro. Os autores, apressados a se legitimar, apegam-se a essa imagem de uma besta em vias de asfixiar a república. Os habitantes de Canudos são designados exclusivamente pela tríade fanáticos, inimigos e jagunços, e permanecem, na semântica do fora nacional, anônimos e excluídos do domínio do nós. Os escritos de Cândido Rondon e Antônio Constantino Néri repousam inteiramente nessa grade em vigor durante a guerra. Barreto, Horcades e Soares igualmente reciclam os mesmos velhos paradigmas; não há dúvida para eles de que Canudos devia ser destruída[518].
Pouco depois do fim da guerra, o triunfo tendo entretanto tomado um retrogosto de amargura, uma nova designação para os Canudenses começou a se insinuar prudentemente nos artigos de imprensa: os irmãos. À antiga semântica de exclusão, bestialização, mistura-se doravante um sentimento de fraternidade. Inclusive o comandante-chefe das tropas da 4ª expedição quis bem admitir os inimigos, mal foram vencidos, no seio nacional, ao que antes sempre se recusara, deixando-se ir a notar:
Jamais se viu uma guerra como esta, durante a qual os dois campos perseguiram inexoravelmente seus objetivos opostos. Vocês forçaram os vencidos a soltar vivas à república, e eles glorificaram a monarquia, para se precipitar em seguida nas chamas que roíam a cidade. Estavam convencidos de ter cumprido seu dever de fiel defensor da monarquia. Pois os dois lados, vocês e eles, são, não obstante, em seu antagonismo, brasileiros
— General Oscar, 6 de outubro de 1897.
Se certamente os paradigmas essenciais ainda eram mantidos e que muitos textos anunciando o triunfo do exército reproduziam ainda o mesmo esquema de inclusão/exclusão, viu-se, contudo, operar pelo menos uma mudança terminológica. O irmão veio substituir o inimigo, os antes não brasileiros são admitidos no espaço de solicitude da nação. Do lado dos vencedores surgiram acusações contra o próprio campo, e a reviravolta discursiva se cristalizou no símbolo de Caim, tendo o irmão com efeito golpeado mortalmente o irmão[519].
Na veia apologética predominavam, como de resto, os militares, mas participantes civis na campanha e observadores oficiais se inscreveram também nessa estratégia discursiva, o que traz uma nova ilustração da aliança entre Estado, militares e intelectuais no consenso de aniquilamento. Neles também se percebe a mudança de perspectiva — da atualidade para a História —; na retrospção histórica, mulheres e crianças inocentes já não podiam razoavelmente passar por criminosos punidos com justiça[520]. Enquanto brasileiros, os jagunços tomavam agora traços e sentimentos humanos. Sob o prisma da coragem, mas também sob o da crueldade, tinham-se alçado à altura dos soldados republicanos[521].
Descrição de uma viagem a Canudos (Alvim Martins Horcades)
Descrição de uma viagem a Canudos, publicado em 1898, é uma relação da guerra vista sob o ângulo dos serviços sanitários do exército. Respondendo ao apelo das autoridades baianas, que haviam solicitado aos estudantes de medicina de Salvador que ajudassem o corpo médico no campo de batalha, um primeiro contingente de estudantes deixou a capital baiana em 27 de julho de 1897, contingente do qual fazia parte Martins Horcades, então com 19 anos e estudante de primeiro ano. Seu livro de 1899 é a recuperação e refundição de uma série de artigos que ele havia antes, a partir de 26 de outubro, enviado ao quotidiano salvadorenho Jornal de Noticias[522]. Horcades foi o único civil entre todos os participantes da guerra a pegar na pena, e essa qualidade particular o põe a salvo da suspeita de querer fazer um libelo em favor do exército[523]. O aspecto do livro que sem dúvida impressiona em primeiro lugar é o estilo de escrita, bastante enfático, mesmo ampuloso, onde não são raras as frases que se estendem por quase meia página; evidentemente, o texto foi cuidadosamente aprimorado por seu autor. Isso não impedirá o livro de ser qualificado de «bom testemunho» por José Calasans, que assinou o prefácio da reedição de 1996[524].
O livro se compõe de três partes. A primeira, com o título insólito de Da Bahia a Canudos, relata o trajeto do contingente entre Salvador e o reduto de Canudos, e descreve o bom acolhimento recebido pelos estudantes nas cidades que atravessaram, mas também as primeiras horrores a que foram confrontados. A segunda parte, Em Canudos, a mais interessante, compreende o relato da morte do coronel Tupi Caldas, da descoberta do cadáver de Maciel, e sobretudo dos degolamentos praticados sobre os jagunços. Na terceira parte, De Canudos à Bahia, o autor descreve com muitos detalhes as homenagens prestadas aos estudantes em seu regresso[525].
Na primeira parte, Horcades expõe sua opinião sobre o conflito, investindo virulentamente contra os conselheiristas mas criticando de passagem as autoridades republicanas:
[...] os soldados, defensores das instituições republicanas contra as garras do fanatismo estoico de um grupo de irmãos degenerados, pereciam em Canudos não apenas porque vítimas das balas precisas dos fora da lei (desviados da Lei), mas também porque foram privados do mínimo de alívio, conforto e cuidados para os ferimentos que traziam no corpo, infligidos por esses alucinados, enquanto defendiam a causa sagrada da pátria, da ordem e da lei.
— Alvim Martins Horcades[526].
Horcades queixa-se da atitude indiferente do governo federal para com aqueles que, como ele e seus camaradas, haviam servido em Canudos, nomeadamente o presidente Prudente de Morais se limitando a pronunciar algumas frases de circunstância e o governo baiano outorgando aos estudantes uma gratificação pecuniária apenas suficiente para uma alimentação pouco melhor que a dos soldados de tropa[527] · [528].
Mais de uma vez, Horcades recorda que tinha por único objetivo oferecer seus serviços como apóstolo da caridade, como combatente da civilização contra a barbárie, e como defensor da causa patriótica[529]. Foi certamente o único das muitas testemunhas oculares a divulgar sem rebuço os degolamentos, mas para ele, só os excessos eram criticáveis, não a guerra em si mesma. O grande crime da civilização foi no caso ter-se traído a si mesma e ter degenerado em «barbárie e inumanidade». Para Horcades, a ação militar contra Canudos se justificava, visto que os Canudenses eram refratários à constituição[523]. Contudo, uma evolução em sua atitude é perceptível ao longo do livro. No apêndice, que encerra o livro, a cidadela de Canudos já não é caracterizada como lugar «hediondo e lúgubre» (hediondo e lúgubre), como na primeira parte, mas como uma cidade semelhante a tantas outras, com casas, ruas, igrejas, um cemitério, comércios, pracinhas e diversas atividades. A essa mudança de ponto de vista sobre Belo Monte corresponde um tratamento revisado dos jagunços, vistos não mais como fora da lei, mas como «homens dignos do nome de brasileiro»[530]; todos com efeito não eram criminosos e bandidos; muitos acreditavam, abusados por Maciel, agir apenas para o bem e o futuro de sua família. Os Canudenses demonstraram ser capazes de ir até o fim para defender um ideal, o que os torna mesmo superiores aos soldados republicanos, que combatiam só em parte por convicção, e eram igualmente motivados pelo dinheiro. O verdadeiro heroísmo está do lado de Canudos, por mais necessária que tenha sido sua destruição, com toda a resolução com que fosse necessário combatê-los. Também o texto de Horcades oscila constantemente entre um sentimento de fraternidade inclusivo (incluindo os jagunços) e exclusivo (não incluindo senão os republicanos)[523]. Horcadas também se atreve a refutar a tese de um Canudos bastião monarquista[531].
Os libelos de César Zama

Médico, latinista e antigo político, César Zama redigiu e fez publicar em 1899, sob o pseudônimo de Wolsey, um pequeno libelo intitulado Libelo republicano – Comentários sobre a Campanha de Canudos, cujo propósito era cotejar o conceito teórico de «república pura» por um lado, e a realidade política tal como se apresentava nos fatos por outro. Esse cotejo dá lugar a uma crítica ampla e polêmica da política levada a cabo pelo governo tanto baiano quanto nacional, mais particularmente em relação a Canudos. Após ter primeiro convocado uma moral política universal, exemplificada cada vez pela república romana (em sua pureza e em sua autoridade como em sua corrupção), o autor fustiga sua contraparte negativa na realidade política da Bahia e do governo federal. Quando chega a abordar o caso de Canudos, a crítica se exaspera numa franca contracorrente do discurso dominante, que se perpetuara nos escritos apologéticos do pós-guerra. Assim são postos em dúvida o paradigma do fanatismo e o autor recusa ver em Maciel um desequilibrado, mas o toma antes por um homem de fé e prática religiosa. Que se desse como monarquista era, aliás, seu direito sagrado. O libelo refuta a ideia de que o movimento de Conselheiro tenha apresentado um caráter criminoso ou político, e prefere aí descortinar um fenômeno sociorreligioso. Ao contrário dos cronistas militares e de Horcades, Zama qualifica a ação contra Canudos de violação da constituição; se os Canudenses se tornaram culpados de delitos, teria sido preciso então colocá-los em detenção e submetê-los a julgamento, assim como prescreve o código de processo penal. Se o governo federal tivesse tido motivo para intervir nesse assunto regional (e não nacional), é em favor dos agredidos que deveria tê-lo feito, os quais agredidos gozavam dos mesmos direitos civis e políticos que os demais brasileiros[532]. Zama considerava a ação militar contra Canudos, a quem a justiça pública nada tinha a reprovar, como uma provocação de Luís Viana, então governador do estado da Bahia; segue-se uma condenação de Manuel Vitorino e de Prudente de Morais, que segundo Zama nunca deveriam ter acudido a Luís Viana num ato que violava a constituição republicana. Manifesta uma violenta repugnância em relação aos chefes militares responsáveis pelos degolamentos em massa praticados sobre jagunços já vencidos[533].
Sozinho entre os autores do pós-guerra imediato, Zama faz notar que os Canudenses, embora beneficiando normalmente dos direitos civis, deles foram privados durante o conflito. Numa continuação desse libelo, Zama visa a dar um conteúdo mais concreto à cidadania republicana e acusa o governo de desídia, em especial nisto que ele havia negligenciado fazer construir escolas, enviar nos sertão professores e juízes, aí delegar administradores. Teria sido dever dos padres, dos funcionários e dos juízes impor a ordem e o controle do Estado face ao «socialismo» fourierista e saint-simoniano dos Canudenses. Zama erige assim Canudos antes de tudo em símbolo da decadência da moral republicana. Seus virulentos panfletos se inscrevem numa reorientação geral do discurso sobre Canudos, nomeadamente pela defesa de uma materialização da cidadania, trazendo, portanto, uma contribuição importante no debate recentemente iniciado a propósito das relações entre nação republicana e sertão[534].
O historiador Bartelt observa que Zama, que enquanto político baiano estava a par dos debates travados no parlamento de Salvador sobre Canudos e não podia ignorar o consenso de aniquilamento, se absteve, contudo, de dar a conhecer sua análise logo no início da repressão militar, quando ainda estava ativamente engajado na política, e guardará silêncio até o fim das hostilidades, o que não deixa de surpreender se se admite que lhe interessava prevenir a escalada da violência e o massacre[535].
Campanha de Canudos (Aristides Milton)
O político e jurista Aristides Augusto Milton, que foi várias vezes deputado pela Bahia no Congresso federal, publicou em 1902, nas prensas da imprensa nacional, sob os auspícios do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), um livro intitulado Campanha de Canudos, que pode, portanto, ser considerado como a visão oficiosa senão oficial dos eventos. Milton, que adota uma perspectiva bastante semelhante à de Zama, situa primeiro Canudos numa linhagem de revoltas contra o poder central, linhagem que remonta aos primeiros tempos do império do Brasil. À diferença das crônicas militares acima evocadas, Milton refuta qualquer elo com o monarquismo político, e nega que Canudos tivesse ameaçado fisicamente a república. A ameaça residia, expõe Milton, no plano simbólico, no fato de que Canudos perturbava o equilíbrio entre ordem e liberdade; o direito à liberdade é certamente sagrado, mas a lei da ordem é necessária. Dado que Canudos punha em causa o princípio da autoridade, era mister agir sem tergiversar, para restabelecer «a paz e a ordem, condições necessárias ao progresso e à liberdade». No conflito entre liberdade e ordem, é a esta última que convém dar a precedência. A autoridade e a ordem não são os únicos princípios vitais de um Estado republicano; entram em jogo também fatores psicossociais, que reproduzem no plano simbólico e discursivo as relações de poder, a saber: a honra da pátria, a consideração para com o governo, a confiança no exército, o moral da população, a fé nos princípios fundamentais. Essa ampla ameaça simbólica justifica a atitude do governo. As reticências do autor concernem não o consenso de aniquilamento, nem a legitimidade dessa guerra, mas as formas que ela pôde tomar, seus disfuncionamentos na organização, os erros estratégicos do comando, as violações cometidas. O ponto de vista é sempre o do nós civilizador, oposto aos Canudenses anônimos, bestializados, descerebrados, instrumentalizados pelo doente mental Antônio Conselheiro; nenhuma menção é feita a seus direitos de cidadão[536]. Contudo, por volta da página 100, na data de 18 de julho de 1897, não se trata súbita e notavelmente mais de jagunços combatendo a ordem republicana, mas de brasileiros lutando contra outros brasileiros[521].
Ultima expedição a Canudos (Emídio Dantas Barreto)
Nascido em meio modesto e entrando no exército brasileiro muito cedo, Emídio Dantas Barreto participou da guerra do Paraguai, depois prosseguiu uma carreira militar, galgando rapidamente os postos por seus méritos e ao sabor de suas formações. Combateu a Revolta da Armada em 1892, e participou com a patente de tenente-coronel da 4ª expedição de Canudos como comandante do 25º batalhão de infantaria, depois como comandante da 3ª brigada; permaneceu na zona de combate do início ao fim da guerra e tomou parte nos combates finais, em 1 de outubro de 1897. Terminada a guerra, Dantas Barreto se fez autor, publicando diversos trabalhos científicos, estudos militares e romances históricos. Foi ele também quem escreveu o primeiro livro sobre Canudos, e é a ele sem dúvida que se deve a maior quantidade de informações sobre as campanhas militares contra Belo Monte. Nesse livro, relato da guerra, intitulado Ultima expedição a Canudos, que fez publicar em 1899, ele apresenta o jagunço como sendo representativo do sertanejo, e, por conseguinte, Canudos como sendo representativo do sertão. Este último permanece aqui codificado, em larga medida, como a antítese da normalidade republicana nacional; também não teve escrúpulo em escrever:
Começou-se a arrasar a grande colônia, ainda e sempre por meio do incêndio e da demolição. Era preciso não deixar intacto nenhum muro, nem mesmo a mais ínfima viga [...]. Três dias depois, não havia ali mais nada senão os escombros dessa imensa zona de povoamento, que desapareceu em nome da ordem, da civilização e da moralidade do Brasil
— Emídio Dantas Barreto[537].
Contudo, essa dissociação sertão/nação já não é um obstáculo intransponível a uma assimilação parcial. Se o antigo feixe de paradigmas redutores permanece intacto em Barreto, a ele se acrescenta a dimensão do heroísmo; a performance militar impressionante do sertanejo, sua bravura «honra o brasileiro do Norte» e lhe abre uma porta para o seio nacional[521].
Sobre o mesmo assunto, Dantas Barreto publicará um segundo livro em 1905, intitulado Acidentes da Guerra[538].
A Guerra de Canudos (Henrique Duque-Estrada de Macedo Soares)
No relato de guerra redigido pelo tenente de infantaria Henrique Duque-Estrada de Macedo Soares e intitulado A Guerra de Canudos[539], que saiu em 1902, a ruptura discursiva se produz, como em Barreto, no momento em que o jagunço se revela capaz de resistir com uma vontade inabalável. Macedo Soares nota em particular que dia após dia, eles persistiam em enterrar seus mortos em procissão, o que vale ato de civilização; os soldados republicanos, em contrapartida, compraziam-se em profanar essa cerimônia e em explorá-la adquirindo o hábito de metralhá-la. O autor sublinha que os jagunços se apegavam estritamente às instruções do Conselheiro e que, exceto armas e munição, não se permitiam nenhum butim. Essa atitude é de natureza a resgatá-los parcialmente, a relativizar seu suposto fanatismo, sem abolir inteiramente esse paradigma. À medida que os combates progridem, o desequilíbrio semântico entre sertanejo e soldado republicano se atenua pouco a pouco, até que os dois campos se equivalham do ponto de vista da crueldade[521].
A Milícia Paraense e a Sua Heróica Atuação na Guerra de Canudos (Orvácio Marreca)
O autor, Orvácio Deolindo da Cunha Marreca, fazia parte da brigada de infantaria do Regimento militar do Pará que combateu em Canudos, onde teve a patente de subtenente e foi secretário do 1º corpo de infantaria. De volta a Belém após a guerra, foi promovido a tenente por sua bravura. Serviu nas forças de polícia do Pará por perto de 30 anos e se aposentará com a patente de tenente-coronel[540] · [541].
Entre os republicanos do Pará, agrupados em torno do jornal A República, figurava o médico José Paes de Carvalho, que em 1897 se encontrava sendo o governador do estado, o que permite postular uma conivência com o poder central do Rio de Janeiro, e uma disposição a responder favoravelmente ao apelo do presidente da república de enviar tropas a Canudos. Assim, em março de janeiro, o governador solicitou ao senado do Pará que enviasse, em reforço das forças armadas federais, um destacamento da polícia estadual. Contudo, as tropas do Pará só serão aceitas em julho de janeiro, quando a quarta expedição estiver perto do esgotamento[542]. Há lugar para notar que nos primeiros anos da república brasileira, a presença de militares republicanos na política e nas esferas decisórias era geral e reconhecida pelos civis, testemunha o fato de que o vice-governador do Pará era, nesse mesmo ano de 1897, o major Antônio Baena. Segue-se que, muito provavelmente, a alta hierarquia da polícia paraense era amplamente favorável ao envio de tropas. Em 29 de julho de 1897, terminados os debates a esse respeito, o comandante do regimento, o coronel José Sotero de Menezes, recebeu a ordem do governador de preparar sua brigada de infantaria para se embarcar para a Bahia, o que ocorreu em 5 de agosto de 1897. O contingente do Pará destinado a Canudos tinha um efetivo total de 547 homens, incluindo 39 oficiais e 2 médicos com suas respectivas ambulâncias, equipados segundo as normas em vigor e armados com fuzis Mauser calibre 7. A tropa, que sofreu muitas deserções já antes do embarque[543], chegou finalmente a Salvador em 16 de agosto, onde foi encarregada da manutenção da ordem antes de partir para Canudos em 21 de agosto. Queimadas foi alcançada em 22, e de Monte Santo se partiu para o destino final em 13 de setembro. Em Caldeirão, encontrou-se Euclides da Cunha, que acompanhava o batalhão do Amazonas — cujo comandante, o tenente-coronel Cândido Rondon, fora seu condiscípulo na escola militar do Rio de Janeiro —, e estava ocupado a recolher informações para seus artigos[544]. Os paraenses alcançaram Canudos no dia 16 e se integraram, conjuntamente com a polícia do Amazonas, à 2ª coluna[545].

A primeira ação de combate desse regimento teve lugar em 25 de setembro e valeu a seu comandante, Antônio Sérgio Dias Vieira da Fontoura, ser agraciado com a patente de coronel por sua atitude no combate nesse dia. A batalha se resolveu para a brigada do Pará com 54 perdas, das quais 19 mortos, inumados em Canudos. Se a ação dos paraenses se cumpriu a despeito das ordens do alto comando (pelo que seus chefes foram severamente repreendidos por Artur Oscar), ela trouxe uma contribuição decisiva para o cerco final de Canudos. Subsequentemente, os paraenses participaram ainda dos combates de 1 de outubro, e se viram encarregados de manter posições no noroeste da margem esquerda do rio Vaza-Barris.
Após a queda de Canudos em 5 de outubro de 1897, o 1º corpo de polícia do Pará foi designado, conjuntamente com o 12º corpo do exército, para a guarda dos prisioneiros, guarda durante a qual foi praticada a gravata vermelha. Não resta dúvida de que muitos policiais paraenses perpetraram esses degolamentos, sem que lhes fosse cobrado em seu estado de origem, onde o governador, preocupado em justificar o envio de sua força policial à Bahia, os elevou a heróis[546].
O regimento do Pará, recebida a ordem de retirada em 7 de outubro, chegou a Salvador no dia 16, onde foi festejado, como todas as tropas regressas do sertão. Embarcaram para Belém em 23 de outubro, onde aportaram em 4 de novembro e onde os aguardava uma vibrante acolhida, com desfile das tropas e muitas homenagens oficiais[547]. Houve também protestos, muitas vozes se erguendo com efeito, à imagem do resto do Brasil, contra as injustiças e atrocidades cometidas pelas tropas governamentais em Canudos; contudo, os protestos não tiveram em Belém a mesma amplitude que, p. ex., na capital federal, e não impedirão que vários militares ex-combatentes de Canudos fossem promovidos por motivo de bravura pelo governo do estado federado[548]. O nome de Bairro Canudos foi dado a um bairro no leste da cidade de Belém em homenagem ao contingente policial presente em Canudos.
O primeiro livro de Marreca sobre esse assunto só saiu, sob o título de A Milícia Paraense e a Sua Heróica Atuação na Guerra de Canudos, em 1937, ou seja, 40 anos após o fim da guerra, sem que seja possível identificar a razão desse atraso. Apesar desse desfalque de 40 anos, esse escrito se enquadra na série dos escritos apologéticos de militares, pois lhe conserva o espírito e o ângulo de visão. Num segundo livro, Histórico da Polícia Militar do Pará: Desde seu início (1820) até 31 de dezembro de 1939, Marreca traça a história da polícia militar do Pará ano por ano; o conteúdo desse livro reencontra, no que toca a Canudos, bastante fielmente o da primeira obra, à exceção da inclusão de alguns documentos importantes. É, contudo, no primeiro livro que o autor faz parte de sua visão de Canudos e da guerra. Além de suas memórias pessoais, Marreca recorreu para a redação do livro a documentos primários, como p. ex. os registros da polícia. O texto de Marreca abunda em detalhes sobre a expedição, principalmente sobre o embarque, os itinerários seguidos, os combates e o regresso ao Pará. Não hesita em interromper várias vezes o fio do relato para descrever em seus diversos aspectos certas localidades atravessadas pela tropa, sendo o principal exemplo o burgo de Monte Santo[549].
A visão de Marreca sobre os habitantes de Canudos não difere do discurso dominante difundido pela imprensa de Belém, onde eram sempre qualificados de jagunços; em certas passagens do livro, os Canudenses são assim descritos: «os jagunços, de fisionomia sinistra, busto desnudo, esqueléticos, com a feiura típica dos fracos e o heroísmo característico do brasileiro [...]»[550].
O texto de Marreca, arrebatando o leitor numa verdadeira viagem pelos campos de batalha do sertão baiano, pulula de detalhes sobre os combatentes, mas apenas sobre os de seu próprio campo, permanecendo os adversários no anonimato. Outra tendência do autor se manifesta ao longo de todo o relato, aquela que o leva a tratar como heróis todos os militares de seu regimento, mas sobretudo os oficiais, mais particularmente o tenente-coronel Fontoura, cuja decisão de desobedecer à ordem de Artur Oscar de abandonar as posições conquistadas na sequência do combate de 25 de setembro. O autor justifica o envio da tropa do Pará transformando o combate em que participou em combate decisivo para a vitória das forças republicanas[550].
Embora Marreca escrevesse no Pará, isto é, na periferia do circuito intelectual brasileiro, e que seu livro tenha saído 40 anos após o evento, muito mais tarde que o livro de Da Cunha, o cientismo que transparece em sua obra se apoia bem nas ideias de Os Sertões. O fato de o livro ter permanecido na obscuridade pode sem dúvida explicar-se pela qualidade de militar de seu autor e por sua data de redação, 1937, isto é, em plena era Vargas, marcada por um governo ditatorial, nacionalista e militarista, era seguida de um período de governos militares que durou cerca de 21 anos, que deixou marcas profundas na sociedade brasileira e a predispunha pouco a apreciar uma obra repleta de elogios aos militares e exaltando seu gesto «heroico»[542].
Outros
Houve outros testemunhos e livros documentais sobre Canudos; são nomeadamente (por ordem cronológica)[551]:
- A Quarta Expedição contra Canudos. Primeira Fase das Operações. Diário de Campanha (Pará, 1898), de Antônio Constantino Nery.
- Guerra de Canudos. Narrativa histórica, de Júlio Procópio Favilla Nunes, correspondente da Gazeta de Notícias, que tinha o hábito de se expressar com desdém sobre os sertanejos e que se esforçou por negar as atrocidades cometidas pelo exército (foi também ele que recolheu as cartas enviadas por Canudenses à sua família, coleção que foi infelizmente extraviada depois)[552].
- Histórico e relatório do Comitê Patriótico da Bahia, 1897-1901 (1901), já assinalado, do filantropo Amaro Lélis Piedade, que cuidou dos sobreviventes da guerra, nomeadamente as crianças[553].
- Memorial de Vilanova, memórias de Honório Vilanova, irmão de Antônio Vilanova, um dos principais líderes de Canudos; seu testemunho foi consignado em março de junho no Ceará por Nertan Macêdo[554].
Os sobreviventes e o Comitê Patriótico
No campo dos desdobramentos imediatos da guerra de Canudos, convém acrescentar a fundação em Salvador, em agosto de janeiro, do Comitê Patriótico, constituído de cidadãos que decidiram, por iniciativa do jornalista Amaro Lélis Piedade, associar seus esforços com o objetivo inicial de ajudar os soldados republicanos feridos. No final de julho de janeiro, em Salvador, o pastor protestante Franz Wagner lançara uma iniciativa pública visando ajudar o governo baiano sobrecarregado a tomar a cargo os soldados feridos e sua família e a socorrer as viúvas e os órfãos. A iniciativa fora aparentemente cuidadosamente preparada e encontrou ampla eco. Em 28 de julho foram eleitos um comitê de direção bem como uma comissão central representativa. Esta última reunia 50 altos funcionários oriundos de todos os setores sociais concernentes, do governo baiano até os meios científicos e a Igreja, passando pelos grandes bancos e as casas de comércio. A associação dos trabalhadores enviará também um representante. No comitê diretoria sentavam, além do presidente Wagner, o secretário (e jornalista) Lélis Piedade e o tesoureiro Fernando Koch, ao lado de delegados dos sete principais quotidianos de Salvador[555] · [556]. A questão dos beneficiários, que inicialmente formavam um grupo nitidamente circunscrito, foi objeto em setembro de discussões no seio do Comitê Patriótico quanto a saber se a ajuda deveria se estender às crianças dos soldados caídos no campo de honra. Após ter visitado o front, e não obstante que o Comitê Patriótico havia no momento de sua fundação aderido ao consenso de aniquilamento[557], os membros do comitê logo se puseram a socorrer também os sobreviventes do campo adverso. Com efeito, em setembro de janeiro, Lélis Piedade se dirigiu à cidade de Cansanção a fim de aí estabelecer uma enfermaria de campo, onde se pudesse prestar os primeiros socorros aos feridos. Essa viagem teve como resultado imediato uma mudança de postura do Comitê que, a partir desse momento, se erigiria em principal organização de cuidado e proteção para os sertanejos, em particular os órfãos de guerra[558]. Em 21 de outubro de 1897, diante do espetáculo quotidiano de soldados chegando a Salvador e trazendo consigo jaguncinhos, cuja questão da tutela não estava resolvida, o presidente Wagner fez pôr na ordem do dia a sorte das crianças de Canudos. Demais, muitas dessas crianças não eram manifestamente órfãs, mas haviam sido arrancadas do seio de sua mãe[559] · [560]. Prontamente, o Comitê convenceu-se a tomar essas crianças sob sua proteção e a conduzi-las a orfanatos. Um padre, missionado pelo Comitê a Queimadas, tinha por tarefa recolher todos os órfãos, quer fossem filhos de soldados republicanos ou de jagunços. Em 17 de novembro, Lélis Piedade declarou que o número de crianças abandonadas e postas nas mãos de gente incapaz de as educar era impossível de estimar. Além disso, havia sido solicitado por camponeses a ajudar as numerosas pessoas que, ilegalmente ou de maneira injustificada perseguidas como conselheiristas, tinham tido de se refugiar nos bosques e visto suas casas incendiadas[559]. Na sequência dessas constatações e com base em relatórios tornados públicos relatando que esses sobreviventes eram reduzidos à servidão e à prostituição, o Comitê entrou em ação e se esforçou por trazer de volta a Salvador os jagunços sobreviventes, ao mesmo tempo que a boa centena de mulheres e crianças sobreviventes encontradas em Canudos, a maioria feridas e chorando silenciosamente[561]. O Comitê encontrou e recolheu crianças abandonadas ao longo da estrada, das quais uma com apenas três anos. Os órfãos foram ou colocados junto a seus parentes próximos, quando se pudera localizá-los, ou confiados aos cuidados de famílias voluntárias. Por outro lado, o exército encaminhou para Salvador cerca de 800 novos prisioneiros; os homens eram amarrados de forma tão bárbara que as cordas lhes talhavam a carne[561].
Uma ilustração dramática da prática de furtar crianças a seus pais para oferecê-las em pasto aos soldados é fornecida pela sorte reservada à prole do sineiro de Belo Monte, o qual era uma das figuras mais célebres da guerra e morreu heroicamente, atingido por uma bala de canhão, no cumprimento de sua tarefa quotidiana. Apelidado Timotinho, de seu verdadeiro nome Timóteo Bispo de Oliveira, companheiro de longa data do Conselheiro, o sineiro havia desposado Maria Francisca Dantas de Oliveira, filha do tenente Cosme Dantas, homem residente em Aporá e bastante conhecido na região. Seu filho Antônio foi batizado pelo pároco de Itapicuru em 1891 e teve Antônio Maciel como padrinho. No fim da guerra, o pequeno Antônio, de 6 anos, caiu nas mãos de um soldado do batalhão de polícia de São Paulo, que o levou consigo[562]. A outra criança do sineiro, a pequena Joana, de 4 anos, foi também capturada por esse mesmo batalhão paulista e entregue por um oficial dessa unidade a uma jovem mulher negra, concubina de um soldado e residente no burgo de Queimadas. A mãe das crianças, agora viúva, ignorando tudo do destino de seus filhos, regressou à sua terra natal[563].
Em dezembro, os indícios se acumulavam de que as crianças deportadas eram sujeitas a trabalhos penosos. O Comitê estava resolvido a impedir que as crianças provenientes de Canudos fossem levadas a título de troféu de guerra e reduzidas a uma espécie de escravidão. O Comitê debateu internamente a questão de saber se o objetivo de elevar essas crianças em bons cidadãos da república podia se realizar mais seguramente no lar de subrogados tutores privados ou em estabelecimentos de educação especializados. Para cada criança contavam-se cerca de 25 ofertas de acolhimento ou tutela[559]. Os trabalhos de contabilização da Comissão resultaram num número em torno de uma, talvez de duzentas crianças localizadas. Quando possível, as crianças foram restituídas a suas famílias[560]; nos outros casos, as crianças foram entregues a título transitório ao depósito de mendicidade, até que ficassem concluídos os trabalhos de construção do Colégio Salesiano de Salvador, no bairro de Nazaré, para onde as crianças se mudariam em seguida. Esse estabelecimento de ensino recebeu da parte do Comitê cerca de 6 milhões de réis, soma considerável para a época, a cargo dos padres salesianos recolher os órfãos de Canudos. O montante dessa dotação provocou dissensões entre os membros do comitê, e mesmo a demissão de alguns. Na inauguração da nova escola em março de abril, os cinco primeiros alunos eram crianças de Canudos recolhidas pelo Comitê Patriótico. Foi estabelecida assim a fórmula de ressociabilização desejada para as crianças de Canudos: seriam alimentadas, levariam uma vida sã e regrada, adquiririam hábitos de disciplina e higiene, aprenderiam um ofício, e com ele, a ética positiva do trabalho que a república tentava então, não sem dificuldade, impor a uma sociedade brasileira que durante quatro séculos havia desvalorizado o trabalho como sendo próprio do escravo[564].
No Natal de 1897, o Comitê fez publicar no jornal monarquista O Commércio de São Paulo, em várias entregas, um relatório circunstanciado e crítico, onde era denunciada a escravização de mulheres e crianças, desembocando num bom número de casos na prostituição, onde era constatado o fato de que ninguém procurara impedir o estupro de menores, e onde era desvelado, finalmente, o estado de desamparo total em que se encontravam os prisioneiros, muitos dos quais sucumbiam a seus ferimentos não tratados, ou morriam de consunção e infecções, nomeadamente de varíola[559].
A situação deplorável dos sobreviventes produziu um choque nos citadinos de Salvador, ao passo que a revelação dos crimes de guerra, que fazia aparecer que a barbárie surgira no coração mesmo da república, suscitou uma indignação moral. Somou-se a isso o espanto experimentado diante dos Canudenses, que impressionavam por sua capacidade de sofrimento e pelo orgulho com que mulheres e crianças suportavam seus terríveis ferimentos. Além disso, o Comitê observou que as mulheres sobreviventes eram em sua maioria oriundas de boas famílias e tinham os olhos azuis e a pele geralmente clara, e estabeleceu em seu relatório uma correlação entre cor de pele e integridade moral, deixando entender que, dada a presença de tantos brancos entre eles, o acolhimento, o reagrupamento familiar etc. se justificavam. Os Canudenses se viram assim restabelecidos em sua humanidade e em sua personalidade, e adquiriram o status de irmãos, processo já iniciado pouco depois do fim da guerra[557]. Contudo, resulta de uma análise dos registros oficiais onde haviam sido anotadas as crianças de jagunços repartidas após a guerra, que por volta de trinta por cento do total eram negros ou pardos[565].

As denúncias do Comitê equivaliam a uma acusação indireta ao alto comando por omissão de auxílio e por falta ao dever de manter na linha as próprias tropas, que no caso haviam podido maltratar os prisioneiros com toda impunidade. Numa entrega posterior, o relatório do Comitê enunciou que o general Oscar e oficiais superiores haviam abertamente, a título de gratificação, distribuído crianças aos soldados, aos moradores de Queimadas e a alcoviteiros, e inclusive passado recibos. Por fim, o relatório fazia notar que a quase totalidade dos prisioneiros adultos era do sexo feminino, e que não se pudera encontrar mais de 12 homens, em Alagoinhas, ademais todos feitos prisioneiros fora de Canudos. Essa constatação não fazia senão reforçar a suspeita de que todos os homens haviam sido assassinados[387]. O Comitê notou secamente em seu relatório: só restavam doze prisioneiros masculinos, e eles não eram originários de Canudos[566].
A trajetória de alguns dos jaguncinhos, crianças sobreviventes de Canudos (jaguncinho é o diminutivo de jagunço), pôde ser reconstituída. Há, nomeadamente, aquele que foi recolhido por Euclides da Cunha, depois entregue a um seu amigo de São Paulo, e que, sob o nome de Ludgero Prestes, se tornará diretor de escola no estado de São Paulo. Merece atenção também o caso de Melchiades Rodrigues Montes, butim de guerra vivo caído nas mãos de soldados do exército, que no fim de sua vida, aos 82 anos, consignou sua história pessoal por escrito, com muito detalhe, em 69 páginas cuidadosamente datilografadas confiadas a seu filho Eddy Nicolau Montes[567]. Rodrigues Montes, tendo no fim da guerra cerca de sete anos, podia, portanto, lembrar-se bastante nitidamente dos meses que precederam o conflito. Seu pai, Martins Rodrigues Montes, era um humilde lavrador residente em Ipoeira Cavada, na comuna de Chorrochó (distrito de Várzea da Ema), a uma sessenta km de Canudos. Ao lado da agricultura, a família, com seus seis filhos, dos quais Melchiades era o segundo, dedicava-se também à produção de cachaça e de rapadura, produtos típicos da região. Em suas recordações de sua vida com seus pais, retém-se em particular o trabalho no campo que teve de efetuar a partir dos seis anos, a religiosidade da mãe, que rezava cada noite com seus filhos, as noites de lua passadas a descascar mandioca para fazer farinha, as violências do pai exercidas inclusive sobre os filhos, às vezes mesmo com um cutelo, e a fuga em companhia do mais velho, seguido do regresso ao lar ao fim de apenas 12 horas.
A família só decidiu migrar para Belo Monte na sequência da terceira expedição, e é, portanto, no tempo da guerra que se reportam todas as recordações que o jaguncinho guardou da vida no povoado. Melchiades se lembrava com precisão das orações à hora da Ave Maria, na Belo Monte sitiada pelas forças republicanas, diante da Igreja nova. Melchiades, então com sete anos, cortava lenha no mato e tirava água no Vaza-Barris, frequentemente sob uma chuva de balas vinda do morro da Favela, onde acampava o exército. Na fase final da quarta expedição, uma granada explodiu na casa de taipa onde vivia a família. Na manhã de 18 de novembro, a mãe reuniu a família com vista à fuga, mas a recrudescência da fuzilaria lá fora a forçou a esperar um momento mais propício; entretanto, Melchiades adormeceu de novo, e quando acordou, a família já tinha partido, sem se preocupar com sua ausência. Dois soldados do exército irromperam na casa, um querendo matar a criança, o outro pedindo que fosse poupada. Os soldados, ao mesmo tempo que levavam Melchiades, prosseguiram sua conquista das outras casas do povoado. Durante essa marcha, a criança foi posta face ao espetáculo das casas em ruínas, de soldados e jagunços feridos, agonizantes e gemendo[568].
Melchiades foi assim uma dessas crianças que sobreviveram ao lado de um militar do exército, nominalmente o segundo-tenente Bonoso. Este foi gravemente ferido no curso dos combates e transportado para Monte Santo, depois evacuado para o hospital de Queimadas e dali para Salvador[569]. Restabelecido, o segundo-tenente embarcou num navio com destino ao Rio de Janeiro, onde se apresentou a seu regimento com a criança. Do Rio de Janeiro, prosseguiram juntos sua viagem em direção ao estado de Santa Catarina, e chegaram finalmente a Tubarão, onde se encontrava a mulher de Bonoso. Seguiu-se então o único período em que Melchiades frequentou a escola, um colégio de frades. Pouco depois, sua família adotiva mudou-se para Jaguarão, cidade fronteiriça com o Uruguai, no Rio Grande do Sul, onde tomaram quartel na caserna[570]. A criança deixou de ir à escola; como as outras crianças de Canudos, afastadas do ensino escolar, será destinada ao trabalho, e para esse fim receberá um ensino profissional. Na caserna, dadas as incessantes disputas e punições na família Bonoso, Melchiades acabou por ser transferido para outro oficial, o tenente Gustavo Pantaleão da Silva. Na casa deste, o jaguncinho, agora com onze anos, foi empregado como doméstico, antes de acompanhar a senhora, que estava sofrendo, para a fazenda de sua irmã, onde a criança executará os pequenos trabalhos da fazenda — trabalho no campo, construção de cercas, fabricação de queijo, venda dos produtos da fazenda na cidade, levar o gado a pastar etc. No inverno, a família regressava à cidade, onde Melchiades se esforçou por estudar por seus próprios meios. O tenente Pantaleão foi transferido para Santa Vitória do Palmar, no extremo sul do Brasil, onde o segundo pai adotivo decidiu inscrever o jaguncinho na única escola da cidade; contudo, no primeiro dia de aula, a criança foi mandada de volta para casa, portadora de um bilhete do diretor indicando que «o colégio não aceita crianças de cor»[571].
Melchiades seguiu então uma formação de marcenaria. Contudo, aos 17 anos, pediu a Pantaleão, que ele chama de seu «protetor», que o fizesse entrar no exército como simples soldado. Registrado como voluntário em fevereiro de novembro, foi considerado apto após dois meses de instrução, e foi inscrito na escola de infantaria. Tendo passado nos exames, foi feito chefe de esquadrão já no ano seguinte. Em 1909, será afetado a Chuí e promovido a 3º sargento em março do mesmo ano[565]. No final de 1909, foi transferido para a cidade de Jaguarão, onde inaugurou uma escola de alfabetização para as crianças dos soldados que serviam na guarnição. No ano seguinte, em 1917, com a patente de 1º sargento, foi transferido para São Paulo, onde lhe será dado assistir a algumas reuniões públicas de Olavo Bilac[572]. Perto do fim do mesmo ano, o sargento se inscreveu no curso de aperfeiçoamento de instrutor de infantaria que se ministrava em Vila Militar, no Rio de Janeiro, e que concluiu em 1920, para ser nomeado em seguida instrutor em diversos centros de tiro em Petrópolis, perto do Rio de Janeiro. Em 1921, após a fundação pelo governo da Escola de suboficiais de infantaria, Melchiades se inscreveu. Em suas memórias, descreve-se a si mesmo como alguém buscando constantemente se aperfeiçoar pelo estudo[573]. Em 1931, após perto de 30 anos de serviço no exército brasileiro, pede sua disponibilidade, ao posto de 2º tenente, ao mesmo tempo que prossegue todas as suas antigas funções em Petrópolis. Sua trajetória aparece assim exemplar: é o relato de uma ascensão profissional constante, de retidão moral, e do exercício de uma cidadania consciente e atuante. Melchiades é a encarnação do sonho bilaciano do soldado-cidadão, da visão de um exército apto a forjar o caráter de um povo, fábrica de hussardos do ensino[574].
Em 1933, Melchiades veio a assistir ao desfile de um pelotão de Camisas-Verdes proclamando que era dever do integralista aderir às autoridades constituídas, respeitá-las e colaborar com elas. Mais tarde, impressionado com o funcionamento das escolas de alfabetização, de costura ou de música postas em prática por esse movimento, e pelo trabalho voluntário dos médicos integralistas, e após ter frequentado algumas reuniões do movimento, ele se juntou, ao mesmo tempo que seu filho Eddy, às fileiras do integralismo[574]. Em maio de maio, após os integralistas terem tomado e ocupado o palácio Guanabara no Rio de Janeiro, Melchiades foi detido, levado à comissaria de Niterói e dali transferido para a casa de detenção, depois para a prisão, onde permanecerá encarcerado durante oito meses[575].
Durante longas décadas, Melchiades havia enviado em vão a diferentes autoridades baianas pedidos de informações sobre o lugar de permanência de sua família biológica. Em 1960, fez em companhia de sua mulher uma viagem de carro para a Paraíba, passando pelo sertão da Bahia. Chegado ao distrito de Formosa, indagou de sua família e a encontrou na região, e.a. em Várzea da Ema, na atual comuna de Lagoa[576]. Quando em 1961 voltou ao pequeno burgo, tratou de levar consigo seringas, livros de leitura, lápis, e a bandeira brasileira, e consagrou seu tempo no sertão a alfabetizar adultos e crianças, a aplicar injeções de penicilina e a ajudar de diversas maneiras, vindo nomeadamente em socorro da professora local que ensinava numa sala de aula improvisada onde cada aluno tinha de trazer sua própria cadeira[577]. Contudo, Melchiades não se tornará um deles, estando o desenraizamento então feito há muito tempo. Melchiades morreu em Petrópolis aos 93 anos[578].
O destino de vários outros jaguncinhos pôde ser reconstituído, ainda que com menos detalhe. Lélis Piedade ele mesmo hospedou em sua própria casa nada menos que as filhas de Joaquim Macambira, uma das personagens mais consideráveis de Canudos. Ao final da guerra, essas duas meninas tinham sido levadas para Salvador pelo batalhão de Dantas Barreto, e foram tomadas a cargo por Lélis Piedade, assim como ele relata numa carta que publicou o Jornal da Bahia[579]:
(...) comunico-vos que recebi ontem as crianças menores Teresa Macambyra, de 14 anos, e Valeriana Macambyra, de 11 anos, filhas do chefe conselheirista Macambyra, que me foram enviadas pelo coronel Dantas Barreto por intermédio do Predefinição:Dr. Sebrão. Recolhi-as na casa de minha família. A mais nova tem três ferimentos de bala. Essas crianças menores dizem que têm um irmão de 12 anos, chamado Paulo, entregue aqui a alguém de quem ignoram o nome, e que uma outra irmã, de nome Maria Francisca, de 10 anos, doente de varíola, ficou em Queimadas[580].
Sabe-se que esta última, uma vez restabelecida da varíola, se encontrará também no domicílio de Lélis Piedade. Quanto às duas outras meninas, parece que tenham mais tarde regressado à sua região de origem. Maria Francisca morreu na segunda Canudos, mas antes de sua morte, foi, muito idosa já, interrogada por José Calasans, a quem fez parte de sua gratidão para com Lélis Piedade[581]. Seus descendentes vivem ainda em Canudos, dos quais um certo Emerson Macambira, tataraneto de Joaquim Macambira, e uma senhora nascida em Canudos e tornado professora no ensino superior[582]. Joaquim Macambira tinha, por outro lado, dois filhos, um dos quais, Antônio, foi abandonado aos 3 anos à beira de uma estrada no sertão e do qual se perdeu depois todo o rastro, e o outro, o mais velho, que herdou o prenome do pai, morreu à frente de um comando que tentou neutralizar o canhão Whitworth na Favela[583].
O jornalista Fávila Nunes, antigo militar reformado em 1878, escreveu como correspondente de guerra em Canudos reportagens para diversos jornais do Rio de Janeiro. O jornal O País, anunciando seu regresso ao Rio de Janeiro, assinalou que «ao lado de sua esposa e de seus filhos, radiante de alegria por tê-lo de novo perto deles, vimos duas meninas brancas e simpáticas. São duas jaguncinhos que nosso colega trouxe consigo e que integrou em sua família». Dessas duas meninas, sobreviventes do massacre, que eram irmãs, ignora-se o destino ulterior[584]. Por fim, dos doze filhos que tinha o conselheirista Norberto das Baixas, comerciante abastado, membro da elite dirigente de Canudos, que pereceu na guerra ao mesmo tempo que sua mulher, quatro escaparam à morte e foram repartidos por famílias de acolhimento: dois foram recolhidos por oficiais do exército e os outros dois tomados a cargo por um juiz da região[585].
Canudos e a construção da nação brasileira
As aporias do conceito de nação brasileira
Desde sua criação em 1824, o Brasil possuía vários dos grandes pilares sobre os quais se apoiavam no século XIX a maioria das nações europeias: um território nacional nitidamente delimitado e (grosso modo) imutável, uma língua oficial e de cultura única (o português), uma constituição, e um governo legítimo. Faltava-lhe, em contrapartida, o que na Europa será a principal motivação da formação dos conjuntos nacionais, a saber, uma representação global de um povo mais ou menos homogêneo, dotado de um caráter nacional distintivo. Em lugar desse sentimento nacional reinava no Brasil a consciência de um «atraso» histórico em relação à Europa ocidental, a qual havia sido erigida em norma histórica e social, e se encontrava encarnada mais particularmente na Revolução Francesa. Durante o período de 1870 a 1910 ocorreu, pela primeira vez sem dúvida, uma tentativa de cernir o que é o caráter nacional brasileiro, a brasilidade, busca identitária que ocupará verdadeiramente largos setores da elite intelectual, e que, operando com critérios qualitativos sistematizados, conseguirá superar o antigo nacionalismo negativista tal como herdado da época colonial e propenso a se nutrir prioritariamente da rejeição do status de colonizado e da antiga potência colonial[586]. Contudo, no final do século XIX, a capacidade de conceber de alguma maneira a unidade territorial do Brasil permanecia limitada a uma porção mínima da população brasileira. Com efeito, até o fim do século, em largas partes do território e da população, o «poder central só era representado simbolicamente, sob o aspecto da ordem pública; na prática, no entanto, a população não manifestava lealdade senão para com potentados privados, os proprietários de terras. Não se identificava de nenhuma maneira a uma unidade territorial que ultrapassasse essas estruturas rurais de poder»[587].
No século XIX, é nas belas-letras que os diferentes avatares da ideia nacional encontrarão sua expressão. Desde a independência, a literatura era suposta escrever a história nacional; a busca de originalidade, unicidade e autenticidade levou os autores românticos do litoral a prestar atenção às zonas situadas mais para o interior. Segundo Coutinho e Sousa (autores de uma enciclopédia da literatura brasileira), o regionalismo «era desde o romantismo uma das formas do nacionalismo literário brasileiro e uma das respostas à questão oitocentista de saber como a literatura deveria ser constituída para que fosse apta a pôr em evidência as características e a identidade nacionais, isto é, como ela deveria ser tipicamente brasileira»[588]. É em particular a luxuriante natureza nacional, em seus diferentes matizes regionais, que aparecia própria a compensar esse déficit cultural que o espelho europeu devolvia aos escritores do Brasil. Enquanto unidade natural, essa natureza era mesmo um meio eficaz de se opor às tendências separatistas[589]. Os autores que se reclamavam desse regionalismo utilizaram esse tópico local como utopia de fuga para um passado mais desejável. Marginalizando o escravo negro, colocaram uma natureza ideal fabricada e um índio nobre não menos artificial no centro do discurso literário nacional[590].
À rivalidade entre monarquistas e republicanos no início da Primeira República correspondiam dois modelos de nação opostos, cujos delineamentos teóricos permaneciam mal definidos, mas que divergiam quanto à questão da tradição: se uma das duas tendências via a estabilidade política e o prestígio nacional garantidos através da combinação das tradições do Império, da herança da colonização portuguesa e da fé católica, a outra, o republicanismo radical, preconizava uma ruptura total com esse passado e uma reorientação segundo o modelo norte-americano da modernidade e da república. Por fim, uma nova geração, formada cientificamente, fez sua irrupção nos anos 1870 no Brasil e, desejosa de romper com o romantismo literário, reclamava uma modernização política e social e propugnava o realismo científico para todas as produções intelectuais; a literatura a partir de então difundia sobre a coisa nacional um discurso de tendência sobretudo científica e introduzia paradigmas que iriam persistir até a década de 1920[591].
A pressão modernizadora alimentava-se sobretudo do positivismo francês e das teorias evolucionistas. Essas visões novas forneceram as categorias que permitiam apreender e avaliar cientificamente a nação e a sociedade brasileiras. O racismo tradicional apoderou-se das classificações da biologia e, transpondo as distinções taxonômicas de espécie, variedade e raça, postulava uma desigualdade hierárquica entre os homens. Os intelectuais da época foram unânimes em considerar o racismo europeu como seu ponto de referência. Além disso, com a importação das teorias evolucionistas, pôs-se imediatamente o problema de que o nível de civilização do Brasil não podia ser qualificado senão de «inferior» e que o atraso do Brasil pedia uma explicação, que se engenhou em buscar nos determinismos geoclimatológicos, combinados aos dados hereditários e à evolução das espécies. A raça branca (ou caucasiana), favorecida por um clima propício, era colocada no topo da escala de avaliação; inversamente, lá embaixo da classificação se alinhavam as regiões tropicais brasileiras, que tinham gerado duas raças inferiores. Henry Thomas Buckle (que era traduzido e publicado no Brasil), se qualificou a natureza do Brasil de «maravilha do mundo», indicou que a coexistência do excesso de calor e umidade havia acabrunhado a população brasileira e a impedira de ultrapassar o nível de civilização que tinha no momento do descobrimento. As concepções raciais de então convergiam para quatro postulados admitidos sem discussão: 1) as raças são desiguais; 2) só a raça branca superior é virtuosa e apta à civilização; 3) todas as outras são inferiores, segundo certa gradação; 4) a mistura da raça branca com outras dá lugar a degenerescência. Indígenas e escravos negros, codificados como incompatíveis com a civilização e a modernidade, deviam ser postos à margem da sociedade[592].
Um movimento contrário começou a fazer sua aparição no início do século XX, sob as espécies do ufanismo (termo derivado da palavra portuguesa ufano, orgulhoso, vaidoso, palavra que figura no título de um livro de Afonso Celso de 1900), movimento para o qual, ao contrário do pessimismo racial de um Buckle, o topos da natureza brasileira incomparavelmente fértil e viçosa autorizava o otimismo e a confiança no progresso, otimismo e confiança que se estendiam também aos mestiços supostos reunir em si todas as qualidades eminentes das três raças originárias[593].
O poeta e pensador político Sílvio Romero sustentava que o presente e o futuro tanto da literatura quanto da sociedade brasileiras residiam irrefutavelmente na mistura das influências étnicas: «cada brasileiro é um mestiço, seja de sangue ou de ideias»[594]. O conceito de mestiçagem de Romero resulta de um determinismo duplo, o da raça e o do meio. Ele via no mestiço como novo homem brasileiro o resultado do cruzamento de cinco fatores: o elemento português, o africano, o indígena, o meio, e a imitação do estrangeiro. Quanto ao julgamento que se devia fazer dessa mestiçagem, a tese de Romero é ambígua, pois ele julgou retrospectivamente que «a submissão dos negros, a preguiça do índio, e o caráter autoritário e ingênuo do português geraram uma nação amorfa, desprovida de toda qualidade fecunda própria»[595], ao passo que alhures reconheceu ao mestiço brasileiro um potencial de futuro, mediante, contudo, que o elemento europeu guardasse a preponderância política; só a essa condição que a inventividade e a resiliência do índio e do africano, bem como seu poder de adaptação aos rigores do clima, poderão ser enriquecedores para o país. Nos anos 1930, Gilberto Freyre dará ao conceito de mestiçagem um alcance mais cultural, realçando positivamente em particular a influência africana[596].
A todas essas contradições, as teorias sobre a nação brasileira não podiam se subtrair enquanto postulavam a absorção na nação de espaços e populações (notadamente o sertão) que, ao mesmo tempo, essas teorias designavam como periféricos ou inferiores, contraditórios à ideia da nação. Sobreveio então a doutrina do branqueamento, que repousava sobre dois axiomas: primeiro a superioridade da raça branca e a maior pujança dos genes brancos em caso de cruzamento; em seguida a pressuposição de que a população negra cairia proporcionalmente à população branca em decorrência de uma taxa de fecundidade mais baixa e de uma mortalidade superior devido a doenças e a uma coesão social falha, a que se somaria o fato de que os negros tenderão a escolher cônjuges de pele mais clara. A combinação dos conceitos de mestiçagem e de branqueamento, que tomava ato da situação étnica existente, permitiu reivindicar sua originalidade face ao centro europeu e, por um artifício prognóstico, inserir-se ao mesmo tempo no incontornável pensamento dominante então em voga[597].
O sertão e a nação republicana
No início da república, o sertão havia obtido já direito de cidade como espaço paradigmático, equivalendo a seca, relações sociais quase feudais, pobreza extrema, vadiagem, criminalidade e violência, e encerrando uma categoria pseudoétnica própria, o jagunço. Esse espaço permanecia por enquanto excluído da idealização romântica ufanista[598]. O termo jagunço, no início limitado aos homens de confiança dos grandes proprietários de terras, em particular aqueles que se enfrentavam brutalmente na Chapada Diamantina, iria se estender, nas colunas dos jornais, a partir da 3ª expedição, para abranger toda a população de Canudos, e para definir assim o sertão como espaço de anarquia, insegurança, reinado das armas, e não civilização. Da Cunha designou por esse termo não apenas a horda de «fanáticos» em torno de Maciel, mas o sertanejo nordestino em geral; os termos de vaqueiro, de jagunço e de sertanejo são, em Da Cunha, tornados sinônimos[599].
No sertão, as relações sociais eram configuradas pelo sistema patriarcal dito coronelismo, onde os poderes executivo, legislativo e judiciário, embora regulados formalmente pelo Estado, competiam de fato à mesma instância privada, a velha aristocracia fundiária. O Estado aparecia aos olhos da população primeiro sob suas espécies repressivas, cujos representantes (funcionalismo e polícia) se empregavam a fazer com que os cidadãos cumprissem suas obrigações em matéria fiscal e de ordem pública, sem que, contudo, seus direitos cívicos constitucionais lhes fossem tornados acessíveis e aplicáveis[600]. Tal qual, o sertão (e com ele, Canudos) permanecia percebido no Estado-nação brasileiro do final do século XIX estruturalmente como um país estrangeiro nacional, como «corpo estranho», sem que jamais esse Estado-nação renunciasse por isso às suas pretensões totalizantes e homogeneizantes sobre todo o território ou sem que ele não pusesse em questão a aplicação dos direitos constitucionais à totalidade da população sob sua tutela. A percepção da oligarquia camponesa, aliás, não diferia muito daquela das elites do litoral, ainda que ela insistisse para que o distingo fosse feito entre Canudos e sertão, entre jagunços e sertanejo; ao mesmo tempo, ela se esforçava por garantir a ordem estabelecida do sertão, cuja legitimidade, se era pouco atingida pelo discurso dominante sobre Canudos, nem por isso deixava de estar potencialmente ameaçada pelo paradigma de nordestinação; com efeito, Canudos, embora proclamado não típico do sertão, era não obstante assimilado, paradigmática e como símbolo coletivo nacional, ao sertão[601].
Durante a guerra, ou no imediato pós-guerra, os Canudenses eram excluídos da «alma» brasileira (alma), termo que podia se reportar tanto à coletividade nacional quanto a cada um de seus membros em particular. Na sequência da 3ª expedição, mesmo o status de «mau brasileiro» lhes foi negado, e haviam cessado de pertencer à família brasileira. Os jagunços não eram sujeitos da nação, mas objetos antinacionais contra os quais havia lugar de se defender. Os relatórios do exército, mas também muitas reportagens na imprensa, indicavam que se estava em guerra contra um inimigo externo. Trata-se aqui de algo mais do que as habituais operações discursivas pelas quais o inimigo nas guerras civis é despersonalizado e anonimizado para depois declará-lo inimigo interno, apátrida e traidor da pátria, isto é, de relevar de um desvio nacional; com efeito, visto que essas operações discursivas eram acopladas a categorias tais como raça degenerada e a antinomias como natureza/barbárie contra civilização, os Canudenses se viam bem presos nesse emaranhado central de paradigmas inerentes ao debate então em curso sobre a ideia nacional. A comunidade conselheirista não era brasileira de pleno direito e, em última análise, não brasileira. O sertão, confirmando a unidade de essência entre natureza e homem, aparecia, portanto, como fundamente antipatriótico e antinacional. O ufanismo, que se prevalecera da natureza como consubstancial à grandeza nacional, sem excluir o sertão, ficou largamente fora de campo durante toda a duração da guerra. Canudos agiu como um símbolo nacional repulsivo, um contraexemplo assimétrico, concentrando em si as trevas de todas as alteridades, e fazendo ressaltar numa claridade tanto mais intensa as características nacionais desejadas[602].
No discurso dominante, as noções de república e de nação não coincidiam; os direitos republicanos não se estendiam senão sobre tal parte da nação que se mostrasse digna e apta. Ora, os Canudenses ou davam mostras de um comportamento antirrepublicano, ou não estavam em condições de compreender os sistemas de governo, quanto mais de distingui-los uns dos outros; no primeiro caso, Canudos se erguia contra, no segundo se situava abaixo da república; nos dois casos, os Canudenses não podiam ser considerados beneficiários dos direitos constitucionais[603].
Inflexão do discurso sobre Canudos
Terminada a guerra sem glória, brechas logo se fizeram dia no discurso dominante sobre Canudos, que concorrerão para modificar as relações entre sertão e nação republicana[604]. Apareceu que essa guerra havia na realidade sido travada contra uma comunidade de pobres gentes, estranhas a qualquer conspiração política que fosse, sem ligação de nenhuma sorte com grupos monarquistas organizados — os quais, aliás, pertenciam a uma classe social totalmente diferente, branca e urbana, tendo jagunços e fanáticos em horror — e não tendo beneficiado de nenhum apoio logístico ou outro, quer do próprio Brasil, quer do estrangeiro. Ademais, foi revelado que o comportamento do exército não tinha sido irrepreensível, manchado em particular pela prática da denominada gravata vermelha e pela venda das crianças sobreviventes.
Deu-se conta de que os relatos da imprensa sobre os eventos tinham sido tendenciosos e em grande parte falsificados. Produziu-se então uma reviravolta na opinião pública brasileira, traduzindo-se num mea culpa generalizado e numa vigorosa condenação dos atos cometidos pelo exército brasileiro sob o comando de Bittencourt. Muitos com efeito se perguntaram como um exército, que pretendia ter marchado sobre Canudos para defender a civilização, pudesse matar seus prisioneiros a cutelo — homens, mulheres e crianças. Alvim Martins Horcades escreveu: «digo-o com sinceridade: em Canudos, quase todos os prisioneiros foram degolados. (...) Matar uma mulher (...) é o cúmulo da miséria! Arrancar a vida a jovens crianças (...) é a maior das barbáries e dos crimes monstruosos que o homem possa praticar!»[605]. Estudantes manifestaram-se contra a matança, e os estudantes da faculdade de direito da universidade federal da Bahia publicaram um manifesto denunciando o «cruel massacre que, assim como toda a população desta capital já o sabe, foi perpetrado sobre prisioneiros indefesos e amarrados, em Canudos e até na cidade de Queimadas; e (...) vêm declarar diante de seus compatriotas que consideram como um crime o degolamento dos miseráveis conselheiristas feitos prisioneiros, e o reprovam e o condenam expressamente como uma aberração monstruosa […]. É urgente que estigmatizemos as iníquas decapitações de Canudos»[606] · [607]. Num texto escrito logo após a guerra, o jurista, político e escritor Rui Barbosa se erigiu como advogado dos prisioneiros mortos, chegando a chamar os Canudenses de «meus clientes», e prometeu obter para eles, a título póstumo, um habeas corpus, «porque, escreveu ele, nossa terra, nosso governo, nossa consciência foram comprometidos: nossa terra seria indigna da civilização contemporânea, nosso governo indigno do país, e minha consciência indigna da presença de Deus, se esses meus clientes não tivessem advogado»[608]. Por fim, Euclides da Cunha fez publicar um livro, intitulado Os Sertões, pelo qual se propunha a reabilitar e resgatar os rebeldes, e na nota preliminar do qual teve esta frase tornada célebre: «A campanha de Canudos evoca um refluxo para o passado. Foi, em toda a força do termo, um crime. Denunciemo-lo»[609].
Mas é na imprensa que o abatimento do discurso dominante sobre Canudos se fará primeiro sentir. O editorialista do jornal Diario de Noticias, referindo-se ao relatório do Comitê Patriótico no qual era evocada a prática da gravata vermelha, encolerizou-se denunciando «a selvageria primitiva dos indígenas, que massacram ilegalmente os prisioneiros de guerra» e requereu que os prisioneiros fossem tratados conforme as convenções sobre os prisioneiros de guerra dos «povos civilizados»; a gravata vermelha não era o meio indicado para erradicar o fanatismo e a falta de instrução desses «filhos desviados». Contudo a maioria dos demais órgãos de imprensa republicanos se absteve nos primeiros tempos de abordar o tema dos crimes de guerra; a censura e a autocensura fizeram obstáculo à realização de um debate público sobre o assunto, e em particular, nenhum jornal quis reproduzir em suas colunas o manifesto dos estudantes da faculdade de direito de Salvador denunciando abertamente esses crimes de guerra (ver abaixo). Aliás, o Diario de Noticias não voltará mais a esse tema após o editorial de 21 de outubro. Quanto às memórias de guerra de Horcades, saíram primeiro no quotidiano Jornal de Noticias no final de 1898, e depois só em forma de livro em 1899; nas entregas do jornal, a parte sobre os degolamentos havia sido suprimida, e Horcades assinalou que não foi autorizado a publicá-la, devido ao cartel do silêncio que reinava sobre esses malfeitos. O governo do Rio de Janeiro, que logo tivera conhecimento desses crimes, podia, portanto, considerar que não devia se pronunciar a esse respeito[566].
A reputação do exército brasileiro, que se distinguira outrora durante a guerra do Paraguai e viera em seguida a desempenhar um papel de proa na política nacional, impulsionando nomeadamente a abolição da escravatura e contribuindo para derrubar a monarquia, se viu fortemente abalada pela revelação das atrocidades cometidas em Canudos. Os presidentes da república, cujos dois primeiros haviam sido militares, serão doravante todos civis, assim como os sucessores de Bittencourt (a partir de Alfredo Pinto Vieira de Melo, em 1919) no posto de Predefinição:Lien.
Por outro lado, contudo, a guerra de Canudos acabou de consolidar o regime republicano, exorcizando de vez o espectro de uma restauração monárquica. Os Canudenses serviram a suas expensas de vítima expiatória, de inimigo interno comum que, embora largamente fantasiado, permitiu forjar uma união nacional no Brasil[610]. Se houve escaramuças numa zona mais ampla do que escreverá Da Cunha, os receios de uma extensão do conflito numa insurreição regional se revelarão infundados[611]. Mas os emblemas do Brasil moderno, votado ao progresso — as cidades em brotamento do litoral com sua cultura material importada de além-mar —, continuarão a ter todas as penas em mascarar as pulsações primitivas e antissociais sempre endêmicas no interior rural. O choque do conflito de Canudos e os receios de que a rebelião pudesse se estender às cidades levaram a classe política brasileira a apertar o controle social e a rejeitar toda reforma capaz de conduzir o país para uma democracia realmente operante. No campo oposto, o desenrolar e o desfecho do conflito levaram aqueles com simpatias pela ideologia do Conselheiro a temer a combinação funesta da Igreja e do Estado obrando em uníssono para suprimir toda expressão popular não ortodoxa. Quer estivessem conscientes ou não, os intelectuais e comentadores continuarão subsequentemente a escolher um ou outro campo, ou aderindo à visão denegridora de Da Cunha, ou, mais amiúde, alçando os Canudenses ao papel de heróis utópicos[612].
O impacto da guerra de Canudos foi, sem dúvida, paradoxalmente menos sentido no Nordeste que alhures, embora levasse algum tempo para que os povoados de onde os adeptos de Antônio Conselheiro haviam partido reencontrassem sua normalidade de outrora. A pressão da modernidade continuou a se fazer sentir, do mesmo modo que persistiu a tendência ao êxodo, desta vez sob a forma de populações deixando, na esperança de um emprego industrial, o sertão árido para o litoral ou para o sul. O sistema dos coronéis sobreviveu até bem dentro do século XX. A igreja como antes fez poucos esforços para aumentar o número de padres no interior, e, talvez em consequência disso, outras figuras religiosas carismáticas, notadamente Padre Cícero no Ceará, continuaram a exercer um poder encantador sobre os sertanejos[611].
A transmutação da guerra de Canudos, de evento político atual em evento histórico, terá por efeito não apenas deslocar a atividade discursiva do espaço jornalístico para o da edição e do livro[604], mas ainda levar os cronistas a não mais expressar o conflito em termos unicamente militares. O antagonismo sociopolítico subjacente remontou à superfície e a tendência será doravante à reflexão sobre as perspectivas de futuro. Com efeito, a república agora havia tomado posse efetiva do sertão, e este assim se convidara para o grande questionamento subjacente ao discurso de autoafirmação da primeira década da república, a saber: como considerar e assegurar, tendo em conta sua população mista composta de várias raças de valor desigual e mediante um programa de recuperação civilizadora, o futuro do Estado-nação brasileiro como construção político-econômica — questionamento que havia adquirido uma dimensão suplementar: a das relações, do ponto de vista antropológico, econômico e político, que deve manter esse imenso interior (o sertão) com a nação republicana e com sua visão do futuro[555]. Os livros publicados após a guerra, de ficção ou imaginação, dos quais alguns já foram evocados acima, inscrevem-se nessa perspectiva.
Dois textos são emblemáticos da ruptura discursiva ocorrida no imediato pós-guerra: o discurso (não pronunciado) de Ruy Barbosa, concebido, supõe-se, pouco tempo após o atentado de 5 de novembro de 1897, e o manifesto dos estudantes da escola de direito de Salvador. Se esses dois textos não tiveram nenhum eco na imprensa da época, são, não obstante, sintomáticos da ruptura discursiva em curso, que já começava a se fazer dia na imprensa, e que deveria se intensificar em seguida[613].
O discurso de Rui Barbosa

Rui Barbosa se propunha a pronunciar diante do Senado um discurso que, impresso no papel, compreendia, além das cinco páginas do discurso propriamente dito (incompleto), oito páginas suplementares de notas e citações consistindo todas ou quase em referências e comentários extraídos da literatura jurídica internacional sobre o tratamento dos prisioneiros de guerra. A temática abordada no fragmento é dupla: por um lado o mutismo observado sobre os crimes de guerra cometidos pelo exército, e por outro a possível repercussão desses crimes no que concerne aos valores centrais do Brasil. É suspeitado que as razões pelas quais ele renunciou finalmente a pronunciar esse discurso tenham a ver com considerações de oportunismo; com efeito, esse discurso devia na realidade servir antes de tudo a seus próprios objetivos políticos, mas as vantagens esperadas arriscavam ser aniquiladas pelo custo político que induziria uma tomada de posição indo tão audaciosamente na contracorrente da retórica triunfalista então dominante[614].
Nas cerca de cinco páginas de seu discurso propriamente dito, Barbosa critica de maneira indireta a conduta do exército em Canudos, detendo-se mais especialmente na noção de glória, que se encontrava no centro da retórica vitoriosa, mas à qual Barbosa entendia dar uma acepção mais restrita. A glória verdadeira, compreendida como «a irmã do dever, da humanidade e da honra» não saberia coadunar-se com o fato de passar crimes em silêncio e abafar seus escrúpulos; a glória verdadeira se manifesta «na plena claridade da coragem, do sacrifício e da magnanimidade». O adversário é aqui o mesmo que ele já havia atacado em seu discurso de maio de janeiro: o clima geral de violência política, a «selvageria sanguinária dos clubes», o «republicanismo matador»[615].
Como foi assinalado, Barbosa reclamou para os Canudenses, a título póstumo, um habeas corpus, nestes termos:
Aqueles para os quais não pude obter habeas corpus, isto é, justiça, quando ainda estavam vivos, me obrigam agora, enquanto mortos, a implorar essa justiça junto de Deus para minha consciência, e junto de nosso país para seu governo, e junto do mundo civilizado para nossas latitudes.
— Rui Barbosa[615]
Para finalizar, Barbosa indica o ensinamento a tirar da guerra de Canudos. Esse ensinamento se decompõe em quatro pontos:
- 1) os Canudenses se tornaram as vítimas de sua miséria global, consequente a uma «falta de instrução e assistência moral» e a um «nível de desenvolvimento rudimentar»;
- 2) a guerra pôs a nu a deficiência das forças armadas e a necessidade de submetê-las a uma reforma profunda;
- 3) a guerra desvelou, para surpresa geral, a existência «de um Brasil misterioso, permanecido longo tempo desconhecido do mundo, e que os sertões do norte vêm de nos revelar sob as espécies desta raça, que fez frente aos mais fortes da terra. Fica assim ao mesmo tempo provado quão difícil, quão impossível será, para uma potência ou para uma anarquia, impor sua vontade ao Brasil pela força»;
- 4) para os vencidos, resulta da guerra que os vencedores têm para com eles o dever de «entregar-se menos às querelas políticas e refletir mais às exigências de nosso progresso; de cogitar disto: que não podemos nos nomear a nós mesmos um povo civilizado enquanto negligenciarmos completamente a instrução, a educação moral e a cristianização desses vigorosos ramos de nossa própria família»[616].
Por esse discurso, os Canudenses tomam simbolicamente lugar nas tribunas do público no parlamento federal e, tornados subitamente parte integrante da república, reivindicam seus direitos constitucionais. Não apenas Barbosa traz os sertanejos de volta ao seio da grande família brasileira, mas ainda os coloca no mesmo pé que os vencedores do centro e os declara heróis de mesmo nível; visto que realizaram proezas militares extraordinárias, provaram ser «verdadeiros brasileiros», e, tendo sido reconhecidos como brasileiros, como membros da família, a ética militar bem como os valores familiares ordenam que seus feitos sejam reconhecidos, não obstante sua oposição política. Se certamente, nesse raciocínio, Canudos permanece atribuído, conforme o discurso ambiente, no espaço do sertão, definido por seu subdesenvolvimento e por seu status de zona a modernizar, é por outro lado classificado doravante por Barbosa no campo da nação, pelo menos no da futura nação ainda a conceber[617].
O manifesto dos estudantes de direito
O manifesto, intitulado À nação, publicado em 3 de novembro de 1897 e assinado por 42 estudantes da faculdade de direito de Salvador, denunciava, com mais nitidez e vigor ainda que Barbosa, as «cruéis matanças», os «terríveis degolamentos de Canudos», como sendo uma «degenerescência monstruosa», uma «flagrante infração à lei» e um ato «de inhumanidade». Como em Barbosa, a lei e a humanidade entram aqui em jogo como elementos do paradigma da civilização tal como encarnado pelo Ocidente, numerosas referências à história europeia em apoio. Os estudantes, enquanto baianos, estimavam por outro lado de seu dever recordar o comportamento republicano irrepreensível dos baianos durante a guerra e rejeitar a censura de criptomonarquismo coletivo, e afirmar a necessidade para a Bahia de atingir as normas nacionais republicanas e civilizacionais, na falta de atingir as econômicas[618].
Esboço de conciliação entre sertão e nação republicana
Vimos que em apenas algumas semanas após o fim da guerra, devido aos danos colaterais do conflito, o discurso sobre Canudos se transformou de maneira duradoura sob a superfície de sua retórica triunfalista. A revelação dos crimes de guerra teve um retumbante impacto, pondo a nu, no espelho estendido pela Europa, graves falhas civilizacionais —, a glória da vitória se transmudando agora em «inglória» do exército, que assume o papel de bode expiatório[619].
Após se ter dado conta do equívoco, isto é, que o conflito não era um entre sistemas políticos, a população canudense reapareceu no debate público, mas sob outra figura, tendo com efeito, «num esforço notável e trágico, feito a demonstração de sua existência e escrito de seu próprio sangue uma veemente protestação contra o desdém de que era objeto»[620].
Canudos se alçou à categoria de símbolo do sacrifício, e o discurso dominante foi se deslocar para o plano da relação entre nação republicana e sertão. O sangue vertido por ambos os campos fez esmaecer a linha de demarcação, até então nítida, que punha de um lado os jagunços no papel de malfeitor, e de outro os soldados republicanos no de vítima, e reforçou a ideia de um sacrifício comum pela nação. O jagunço viveu simbolicamente uma ressurreição em sertanejo e foi iniciado à brasilidade. Graças a esse sacrifício, república e sertão podiam doravante se associar em uma só nação[621].
Há lugar para precisar o papel da produção literária nesse processo de conciliação. Escritos científicos especializados consagrados ao sertão existiam, mas eram balbuciantes e não tinham no final do século XIX senão um fraco retumbamento. É a literatura que até então fora a arena onde se debatia a questão da identidade nacional, e que de forma geral permitia as trocas intelectuais. Isso se explica pelo fato de que a literatura da época era resolutamente escrita e comentada como uma literatura nacional, e em seguida porque esses trabalhos literários tinham pelo menos alguma chance de atingir um público, por mais restrito que fosse[622].
O escritor e jornalista Afonso Arinos de Melo Franco, autor do romance Os Jagunços (ver abaixo), muito crítico em relação à república, argumentou que o sacrifício de Canudos era um sacrifício necessário. Já em 9 de outubro de 1897, pediu que Canudos fosse compreendido como um objeto histórico-sociológico de ordem superior, como um fenômeno psicossocial que nos entrega a chave do caráter nacional brasileiro. O sacrifício que os Canudenses realizaram para seus irmãos do sertão foi um sacrifício necessário no seguinte: que a civilização só se adquire pela violência, isto é, se instaura como o resultado da vitória numa batalha, na eterna luta pela existência; só a posteriori a nação reconheceu no sertanejo um elemento de valor para si mesma. Dado que esse elemento de valor tivera de ser destruído, a justa guerra defensiva travada pela república contra seu inimigo interno se transmudou numa tragédia nacional, que tomou assim os traços de um mito fundador[621]. A guerra de Canudos, a matança recíproca, carregou-se de sentido e tornou-se um evento constitutivo, e pôde ser integrada como evento fora do comum na epopeia nacional brasileira: ele evoluiu para um símbolo nacional[623].
Em O Rei dos jagunços de Manoel Benício, romance mesclando ficção e documentário (ver adiante), expressava-se certa ambivalência na evocação do sertão, ambivalência que reencontrava a dicotomia sertão/república do discurso dominante, análoga ao par barbárie/civilização. Aqui também, esse antagonismo se reverterá em seu contrário, revelando-se os soldados e os políticos republicanos (como em Afonso Arinos e mais tarde em Da Cunha) como bárbaros, acirrados em destruir a civilização sertaneja, que, se não era ainda evoluída, era suscetível de evoluir. Como indicado abaixo, Benício designou o sertão como tema nacional de primeira ordem, do qual Canudos representava a normalidade humana — uma realidade ordinária, ao oposto da imagem de extrema singularidade de Canudos tal como veiculada pelo antigo discurso dominante. É por isso, argumenta o historiador Bartelt, que as descrições da vida cotidiana e dos sentimentos dos Canudenses tomam um lugar importante no livro, ao passo que a guerra p. ex. não cobre senão cerca de um terço, isto é, nitidamente menos que todos os outros textos do imediato pós-guerra. No mesmo sentido, a componente literária do texto oferece, por seu enredo fictício, a ocasião de pôr em primeiro plano universais humanos (amor, fé, honra, traição…) e de encenar plasticamente, através de destinos individuais, situações sociais abstratas, contrariando assim por uma humanização e uma normalização da sociedade canudense a anonimização e bestialização doutrora, e ajudando a superar a antiga dicotomia[624]. À diferença de Afonso Arinos, Benício não se engenha a impor ao leitor uma simpatia fraterna com os sertanejos; ao contrário, a semântica do livro compraz-se em sublinhar a estranheza do sertão e a marcar a distância quase intransponível entre modernidade e pré-modernidade, civilização urbana e vida rústica, intelectuais e analfabetos, fanático ignorante e homem instruído e esclarecido[625]. O sertão permanece aqui um oxímoro nacional: se o sertão pertence à nação, a separação entre barbárie e civilização (republicana) não tem mais razão de ser, mas nesse caso o sertão está cortado de seus antigos ideais, do que fazia sua antiga normalidade[622].
Os sertanejos vistos como «raça forte»
Canudos cessou assim de ser o expoente da posição de inferioridade do Brasil no concerto das nações. Da valentia militar dos Canudenses, valentia à altura da qual se avalia a qualidade de uma nação, pode nascer uma força maior se a nação souber amalgamá-la: «essa força nova deve ser incorporada em nossa nacionalidade, isto é, como confirmação permanente dessa nacionalidade mesma». Se aquilo pelo que o jagunço lutava era totalmente incompatível com as representações modernas de uma nação, sua fé inabalável, sua natureza forte e sua bravura marcial constituem juntos um elemento de que a nação pode fazer seu proveito. Maciel aparece agora como sertanejo paradigmático, que em sua luta defensiva age (segundo Milton) «com pujança, tenacidade e calma». Isso reencontra nomeadamente a tese de Os Sertões de Da Cunha, segundo a qual se formou no sertão uma «raça forte» específica, em torno da qual teria a se construir a futura nação brasileira. Recorde-se que, segundo Da Cunha, o sertanejo é um tipo histórico que, a favor de um isolamento relativo, se desenvolveu a partir do cruzamento originário do indígena e do português de maneira racialmente homogênea; se é certamente atrasado, em contrapartida pôde se preservar dessa degenerescência típica própria da mestiçagem do litoral[626]. Em Barbosa, o sertanejo se vê atribuir o status de uma raça particular, muito superior, sob o prisma da pujança, à «população citadina híbrida, sem espinha, efeminada». Se o discurso dominante sobre Canudos se concentrara até então sobretudo na multirracialidade, na mistura, é aqui ao contrário uma raça ou sub-raça à parte que é introduzida. O sertanejo concentra em si uma força simbólica, que a nação republicana pode se apropriar como seu si mesmo autêntico[627].
Os Sertões e a síntese nacional doravante envisagível
O debate sobre a maneira de catalogar Os Sertões — como obra literária ou como trabalho científico — não parece poder ser dirimido. A despeito das pretensões históricas e científicas do autor, expressas em seu preâmbulo, nota-se que Da Cunha era bastante pouco zeloso quanto aos testemunhos oculares que recolhia, e pouco se preocupava em citar suas fontes com precisão. Sabe-se que ele só permaneceu poucas semanas em Canudos e que deixou o local quatro dias antes do fim das operações militares. É muito difícil discernir no texto quais detalhes foram vistos ou vividos por Da Cunha pessoalmente, quais lhe foram relatados e por quem, e quais foram completados por ele ou ornados de elementos oriundos de sua imaginação[628]. Contudo, pesquisadores puseram a descoberto o que Da Cunha procurara dissimular ao longo de seu livro, a saber o tributo que devia a quase todos os grandes textos anteriores, inclusive ao livro de Afonso Arinos, ao de Benício, às crônicas de antigos combatentes, ao relatório do capuchinho Monte Marciano, além de recortes de imprensa. Os modos de travestimento dessas fontes vão do raciocínio emprestado e dado sem referência, até a citação textual não assinalada como tal, passando pela amplificação do que ele pretende ter visto com seus próprios olhos[629].

O autor diz querer pôr em obra o ideal contemporâneo de uma aliança entre ciência e arte, no sentido de que a ciência deve adotar em sua apresentação uma forma artística e não se esgotar no que ele chama de «compêndio». A crítica da época festejou o sucesso dessa aliança, e acolheu a obra como uma obra primeiramente literária, sem dúvida a despeito do próprio autor, para quem o aspecto literário devia servir o conteúdo científico antes que o inverso[628].
Não obstante, a obra é literária, e em alto grau, tendo em conta suas pesquisas formais, em particular no plano da composição e da escrita. A literariedade de Os Sertões difere daquela de Os Jagunços e de O Rei dos Jagunços, no fato de que o livro de Da Cunha não é nem um romance nem uma crônica romanceada. Os Sertões comporta uma multiplicidade de gêneros e de categorias textuais, e reúne em si as três formas fundamentais, epopeia, drama e lirismo. Mas também se pode apreendê-lo em sua não literariedade como uma síntese de temas, pontos de vista, ideologias, de certo modo uma «enciclopédia do sertão»[630]. Essa literariedade, além de seu aspecto de estratégia publicitária e sua normalidade na produção intelectual na virada do século, é bem mais que um suplemento de alma adicionado à exposição teórica, ou que um simples ornamento; a livre carreira dada por vezes ao sentimento, a técnica de fazer coexistir narrador imparcial e narrador flamejante, o recurso abundante à metáfora, permitem, argumenta Bartelt, abordar segundo uma perspectiva plural a questão central: a relação difícil e a redefinir entre sertão e nação republicana:
[Um texto literário] permite fazer coexistir os pontos de vista divergentes dos diferentes protagonistas. Pode […], por meio de hipérboles, de redundâncias, de sequências imagéticas e simbolizações, colocar tais acentos. O narrador onisciente pode, ao inverso do ‘narrador honesto’, pôr em evidência juízos morais. Face ao rigor, à univocidade e à linearidade, aos quais as exposições científicas são obrigadas a se curvar, a forma literária ao contrário permite a equivocidade, a perspectiva múltipla, a ambivalência, até a polivalência. Ela permite admitir contrários e reuni-los[631].
O quadro temático, de uma atualidade então candente, é dado pelo conflito interno no seio de uma nação dilacerada e que não se conhece a si mesma, ou: o conflito entre o centro e a periferia em Estados-nações onde a presença do Estado está em larga medida apenas virtual. No Brasil, é em Canudos que essa tensão encontrou onde se descarregar. Os Sertões toma, portanto, por assunto um problema universal de concretização nacional. Na tragédia de Canudos, as contradições nacionais atingiram seu ponto culminante e seu ponto de não retorno. Canudos faz com que seja incontornável para o futuro pensar juntos sertão e nação republicana[632].
A metáfora do adormecimento, amiúde utilizada, simboliza a posição de fora ocupada pelo sertão na consciência nacional, situação que, contudo, é suscetível de evoluir, mediante que o sertão «acorde» ou «seja acordado». Importa notar que Da Cunha, a despeito da polifonia de pontos de vista, fala, como a maioria dos autores antes dele (à exceção de Benício), do sertão sempre indubitavelmente sob o ângulo republicano. É, portanto, a partir desse lugar mental, que forma o coração do discurso e da nação republicanos, que é afirmado que o sertão (o fora) deve ser incorporado nesse mesmo lugar (o dentro). Nisso, Da Cunha confirma, portanto, a visão, presente na opinião pública, de um sertão como zona estrangeira nacional. Canudos coloca sertão e nação numa relação de contradição interna; por outras palavras, os erige num oxímoro. Esse oxímoro subjaz à tese decisiva do livro: o sertanejo é o fermento da futura nação brasileira. Uma ambivalência assumida será o princípio organizador da demonstração[633].
Esse sertanejo é a «rocha viva de nossa raça». Essa referência à geologia permite a Da Cunha descrever a construção nacional como um processo de deslizamento de estratos étnicos se encontrando a distâncias diferentes da superfície e do centro da terra. Como estrato de profundidade, o sertanejo se encontra muito afastado da superfície civilizada. Mas ao mesmo tempo, formou-se a salvo das tormentas e perturbações de superfície, e deverá desenvolver qualidades tais que possa tornar-se o «núcleo duro de nossa nação em devir»[634] · [635]. Contudo, a força do sertanejo é de se apreender menos como uma data empírica que como uma figura simbólica; por sua existência isolada, ele recorda à nação republicana as tradições esquecidas, as virtudes perdidas e as forças enterradas. Essa autenticidade só se compreende em relação à nação das cidades costeiras, nação que se apreende a si mesma como não autêntica, quer tenha perdido essa autenticidade, quer nunca a tenha tido. A guerra deveria agir como uma gênese, como um terremoto, que, agitando as camadas geológicas, traria à luz a «rocha viva»[636]. O crime da campanha militar, decidida por uma república fanatizada, é de haver, ao destruir esses «titãs», aniquilado o futuro núcleo étnico da nação.
Seria apressado daí deduzir uma simpatia ou empatia de Da Cunha em relação ao sertão, uma vontade de se fazer advogado dos sertanejos. É preciso recordar que a ambivalência deliberadamente cultivada pelo autor lhe permite mudar sem cessar de perspectiva e aí admitir os paradigmas (muito em voga nos meios intelectuais) evolucionistas e do determinismo racial; os topos de bestialização, de invisibilidade, de loucura acoplada à religião etc. não faltam aqui. A mentalidade do sertanejo, «anacronismo palpável», permanece antropologicamente incompatível com as «altas ambições da civilização». Aliás, a empatia, se já existe no autor, será desmentida pela acolhida feita ao livro em diversos lugares, acolhida para a qual não contribuíram pouco os distanciamentos racialistas operados pelo texto e o fato de ele se esforçar por demonstrar que um abismo intransponível separa o nós republicano e o eles dos campos do interior[637].
A crítica de Da Cunha não é dirigida contra a república em si, mas contra a prática real da república, contra uma civilização de clérigos, permanecida inatenta à sua essência própria, à sua autenticidade nacional. Se ele constata o retorno, nessa guerra, da barbárie na civilização, isso não significa que ele recuse esta última. O oxímoro como operador cognitivo quer aqui tender um arco entre o projeto de uma integração na civilização (isto é, no universal) e o projeto de criar uma cultura nacional distinta (isto é, de se enraizar no particular). Integrar-se na nação implica extrair-se do sertão; com efeito, uma nação existe desde já, e os sertanejos só podem se curvar social e culturalmente às condições que a nação fixa. Enquanto isso, o sertão tem a insigne vantagem de ser pura particularidade, incólume de toda civilização. O beneficiário dessa particularidade, contudo, é o litoral, pois a especificidade do sertão (ambiente natural e configuração étnica) dá aos intelectuais desse litoral a possibilidade de formular um projeto político: a assimetria nova, em que o sertão aparece como o lugar do si mesmo nacional, ao qual faz pendant o desenvolvimento cultural e a realidade política das cidades do litoral (assimiladas a um impasse nacional), opera como subsolo simbólico à formação discursiva da república brasileira[638].
Além do nível simbólico, Os Sertões contém alguns elementos pragmáticos que permitem ultrapassar o oxímoro e restaurar a unidade e a homogeneidade da nação dilacerada: integração espacial (dotar o sertão de uma rede de instituições, de barragens[639] etc.), temporal (reduzir o atraso de fase acusado pelo sertão no eixo temporal do desenvolvimento histórico), e racial (pela mobilidade, a migração interna, e a continuação da mestiçagem, onde a raça branca seria chamada a desempenhar o primeiro papel, mesmo que Da Cunha nunca pronuncie a palavra branqueamento). O autor subscreve o discurso sobre a necessidade de uma modernização, a concretizar pela inovação e a formação técnicas sob a direção de especialistas brancos oriundos das metrópoles nacionais e formatados no paradigma universalista. A civilização, entendida como a supremacia da cultura de origem europeia, aparece, tendo em conta a realidade racial da mestiçagem, como a condição da perenidade nacional[640]:
Outros […] exageram a influência do africano, e sua capacidade, certamente real, de reagir em diversos pontos contra a absorção da raça superior. Então surgiria o mulato, que proclamam o tipo mais característico de nossa subcategoria étnica.
O assunto parte, portanto, à deriva sob mil formas duvidosas.
É assim, cremos, porque o essencial dessas investigações se reduziu à busca de um só tipo étnico, quando certamente existem vários.
Não temos unidade de raça.
Não a teremos, talvez, jamais.
Estamos predestinados a não formar uma raça histórica senão num futuro longínquo, se, todavia, uma duração suficientemente longa de vida nacional autônoma nos permitir. Sob esse aspecto, invertemos a ordem natural dos fatos. Nossa evolução biológica reclama a garantia da evolução social.
Estamos condenados à civilização.
Progrediremos, ou desapareceremos.— Euclides da Cunha[641].
Contudo, o problema teórico da mestiçagem permanece sem solução. A proposta de Da Cunha se situará, portanto, primeiro no plano cultural; o sertão, enquanto si mesmo autêntico, terá a conferir à literatura nacional, à produção intelectual, à atitude do Brasil para com as grandes nações estrangeiras, essa consciência de si, pelo que uma cultura nacional autêntica poderá ver a luz[640].
Resta que a crítica foi pouco receptiva à proposta ambivalente de alçar o jagunço rural e bárbaro à categoria de obreira de um reavivamento civilizacional. A ideia de uma integração das raças não foi levada a sério por ninguém; só a perspectiva de alistar o «sertanejo forte» na tropa teve eco favorável no mundo político. Os Sertões logo ocuparia um lugar de primeira escolha no comentário literário, mas permanecerá à margem do debate social e político[642].
Canudos hoje

A Canudos atual é, na verdade, a terceira com este nome na região. A primeira surgiu no século XVIII nas margens do rio Vaza-Barris, a 10 km (em linha reta) a oeste-sudoeste da localidade atual, e era no final do século XIX apenas um pequeno vilarejo agrupado em torno da fazenda de Canudos. Com a chegada de Antônio Conselheiro e seus adeptos em 1893, o domínio, rebatizado de Belo Monte, conheceu um crescimento vertiginoso, abrigando, antes de ser destruído pelo exército em 1897, cerca de 25 000 habitantes. Terminada a guerra, as autoridades militares presentes no local e as autoridades civis republicanas trataram de apagar todo vestígio do povoado, a fim de que Canudos servisse de exemplo e que fosse evitada a proliferação de experiências similares. Segundo Aristides Augusto Milton, os generais trataram de não deixar o mínimo muro de pé, a mais ínfima viga intacta; só deviam reinar dali em diante a solidão e a morte[643]. Assim, no fim da guerra, o sítio de Canudos oferecia o espetáculo da mais total desolação, com cadáveres insepultos, casas incendiadas, as duas igrejas arrasadas pelo canhão. Só ainda se erguia, no meio da praça, a grande cruz ali erigida por Antônio Conselheiro em 1893. Um certo Manoel Ciríaco, que em 26 de setembro de 1897, após ter confirmação da morte do Conselheiro, escapara com sua família (ao mesmo tempo que Vilanova também deixava Belo Monte), voltou ao local após a guerra, e deu a seguinte descrição:
Era um horror, de dar medo. A podridão fedia a léguas em redor. (...) Ninguém havia sido enterrado. Foi então que Ângelo Reis, por sua própria caridade, trouxe uns homens e se pôs a enterrar no local a tropa dos jagunços mortos. (...) Acabou-se Canudos, e durante uns dez anos, só se vinha aqui de passagem. Nenhuma casa até 1909. E as pessoas que tinham fugido ficavam nas fazendas[644].
Durante algum tempo, era mais seguro, para quem quisesse penetrar nesses lugares, dispor de um salvo-conduto, pois certos fazendeiros continuavam a perseguir os jagunços; Lélis Piedade, secretário do Comitê patriótico da Bahia, será levado a estabelecer vários desses salvo-condutos[645].
Passado algum tempo, algumas pessoas que haviam conseguido escapar durante a guerra começaram a tomar o caminho de volta e empreenderam reconstruir no mesmo local uma nova Canudos, que viu pouco a pouco a luz por volta de 1910, sobre as ruínas da antiga Belo Monte, e cujos primeiros habitantes eram, portanto, sobreviventes da guerra de Canudos[646]. Em 1940, no entanto, na esteira de uma visita do presidente Getúlio Vargas à região, foi decidido edificar nas proximidades uma barragem de irrigação, cujos trabalhos de construção começaram em 1950. O lago de retenção em gestação estava fadado a engolir o burgo de Canudos, e os habitantes tiveram de deixar o local, com destino a outras localidades dos arredores, principalmente Bendegó (na comuna de Monte Santo), Uauá, Euclides da Cunha e Feira de Santana. Ao mesmo tempo, um novo núcleo de habitat se constituiu ao pé da barragem em construção, na antiga fazenda denominada Cocorobó, situada a uma vintena de km (pela estrada) da antiga Canudos. Ao término dos trabalhos, em 1969, o local onde se encontrara Canudos desapareceu sob as águas da barragem de Cocorobó. Alguns só se resignaram a deixar sua casa depois que a água começara a se escoar para dentro[647]. Apenas um pequeno bairro do povoado emergia ainda fora das águas e foi denominado Canudos Velho; depois, entre 1994 e 2000, nos períodos de seca, teve-se o lazer de visitar as ruínas dessa segunda Canudos. O burgo de Cocorobó foi erigido em comuna em 1985 e, para tirar partido da reputação do nome, deu-se a denominação de Canudos, tornando-se assim a terceira localidade com este nome.
Nas primeiras décadas após a guerra, os sobreviventes e seus descendentes preferirão guardar silêncio sobre os eventos e não quebrar a lei do silêncio, resignando-se, portanto, à opressão de sua memória ― opressão operada pela predominância da história oficial e pelo aniquilamento sistemático dos suportes materiais da memória canudense[646]. Durante décadas, os sobreviventes que voltaram a se instalar em Canudos para aí reconstituir o burgo viviam isolados nas margens do rio Vaza-Barris, permaneciam desconfiados em relação aos estrangeiros, e se apegavam a fazer reviver no seio de seu lar, diante de seus descendentes, um capítulo da história do Brasil que os intelectuais e as autoridades se esforçavam por excluir da história oficial do país[393]. Assim, pouco a pouco, no interior do grupo, no círculo familiar, a memória foi sendo transmitida e perpetuada, e acabou por se materializar[648].
Em 1947, por ocasião do cinquentenário da destruição do povoado, o escritor e jornalista Odorico Tavares realizou as primeiras entrevistas com os sobreviventes, entrevistas publicadas em seguida na revista O Cruzeiro, acompanhadas de um conjunto de fotografias de Pierre Verger. Segundo José Calasans, é graças ao livro Cangaceiros e Fanáticos de Rui Facó, de 1964, que Canudos se viu novamente no centro do interesse público, pela primeira vez desde Euclides da Cunha. Não obstante, o medo e um consequente mutismo continuaram por muito tempo ainda a abater a maioria dos rescapados[649].

O centenário da guerra e, pouco depois, o da publicação de Os Sertões, abriram caminho a um grande número de trabalhos e discussões que tentaram abordar Canudos por vias plurais, e permitiram tornar públicos novos relatos de sobreviventes, nos suportes mais variados, numa época, além disso, em que um novo espírito historiográfico, reconhecendo a legitimidade do testemunho oral como fonte documental, consentia em explorar a história oral, e em que, no contexto de novos paradigmas historiográficos e de valorização da interdisciplinaridade, intelectuais de formação diferente, tais como cineastas, jornalistas, antropólogos, historiadores, tanto brasileiros quanto estrangeiros, visitavam o sertão baiano. Contudo, embora a historiografia tivesse a partir dos anos 1950 empreendido uma revisão da produção universitária sobre Canudos, para os próprios Canudenses, a reconstrução de sua própria história só será iniciada efetivamente a partir da década de 1980, sob impulso de pesquisadores cristãos ligados à teologia da libertação e das comunidades eclesiais de base[650].
Os esforços empreendidos nos anos 1980 e mais ainda na década de 1990, visando a encontrar adeptos sobreviventes de Antônio Conselheiro e a fixar sua versão dos fatos, permitiram identificar ainda alguns outros antigos moradores, vivos e lúcidos, do antigo povoado. Esse trabalho de reconstrução da memória e, por aí, da identidade dos Canudenses, permitiu não apenas dar a palavra aos sobreviventes e a seus descendentes, mas também substituir finalmente uma identidade positiva ao estigma negativo que pesava sobre a memória de Canudos, ao estigma de ter sido um seguidor do Conselheiro[651]. Certos relatos foram recolhidos nos livros de José Calasans, de Evandro Teixeira, de Marco Antônio Villa, de Odorico Tavares, de Rinaldo de Fernandes e de outros que haviam tomado a tarefa de consignar as memórias de velhos conselheiristas e de sua família[652].
Em 1992, antigos Canudenses estabelecidos em São Paulo fundaram a União Pelos Ideais de Canudos (em abreviatura UPIC), cujo objetivo não é, segundo seu presidente, reconstituir a história de Canudos, mas sim perceber como esse objeto memorial coletivo é transformado pela memória e pelo imaginário. A UPIC se deu por meta não apenas reforçar a coesão e a identidade do grupo dos migrantes Canudenses de São Paulo, mas também permitir o encontro, o conhecimento mútuo e a implementação de uma rede de parentesco real ou simbólico[653]. Em alguns casos, sobreviventes voltaram a visitar os locais da antiga Canudos, com a qual continuam até hoje (2011) a se identificar seus descendentes ― filhos, netos e bisnetos[651].
No território da comuna se estende hoje o Parque Estadual de Canudos, onde foram preservados alguns sítios ligados aos combates da guerra de Canudos, dos quais o Alto do Mário e o Alto da Favela, ou ainda a Fazenda Velha, onde faleceu o coronel Moreira César. Na comuna se encontra também o Instituto popular memorial de Canudos (IPMC), que conserva a cruz de Antônio Conselheiro, crivada de balas durante a guerra, bem como uma coleção de objetos de arte popular remetendo à história de Belo Monte e uma pequena biblioteca sobre a guerra de Canudos e sobre a questão rural. A municipalidade, por fim, também abriga o Memorial Antônio Conselheiro, o qual, confiado aos cuidados da universidade do estado da Bahia (UNEB), recolhe os achados arqueológicos da região, além de possuir um conjunto de trajes e máscaras utilizados para as filmagens do filme A Guerra de Canudos de Sérgio Rezende.
A guerra de Canudos na cultura universal
Transposições literárias
Nos anos seguintes à guerra de Canudos, esta forneceu a matéria para um romance: Os Jagunços (1898) de Afonso Arinos de Melo Franco, e para um poema épico: Tragédia épica. Guerra de Canudos (1900), de Francisco Mangabeira[654]. Registra-se também uma coletânea de poesias, Canudos, história em versos (1898), do poeta Manuel Pedro das Dores Bombinho, que havia participado como militar da quarta expedição contra o povoado[655]. Já foi assinalado que alguns textos dessa época desprezam a distinção entre obra de ficção e trabalho documentário. Manoel Benício, com seu O Rei dos jagunços, e Euclides da Cunha, com seu Os Sertões, amalgamam cada qual à sua maneira um projeto de relato objetivo ou científico com elementos literários[656]. Por outro lado, Canudos logo apareceu na literatura de cordel, chamada no Nordeste brasileiro literatura de cordel.
Canudos na literatura de cordel
Sílvio Romero, o «pai do folclore brasileiro», foi o primeiro, em 1879, a chamar a atenção para um ciclo de poesia popular em vias de se constituir em torno da figura de Antônio Conselheiro, que nessa época não era muito conhecido além dos sertões da Bahia e de Sergipe. Em seus estudos sobre a poesia popular do Brasil, publicados na revista fluminense Revista Brasileira, o autor, após algumas reflexões sobre o aparecimento da misteriosa personagem, «um missionário sui generis» (um missionário a seu jeito), reproduzirá a título de amostra uma escolha de quartetos dessa poesia. Esses versos, que recordam o responsório de santo Antônio, foram os primeiros de uma vasta série de composições tendo por assunto a colônia de Canudos e Antônio Conselheiro, que já gozava de um grande prestígio no sertão. Pode-se afirmar hoje que a produção versificada sobre o messias de Belo Monte é uma das mais ricas da poesia popular brasileira[657].
Na literatura popular estão a classificar também as poesias escritas pelos próprios Canudenses e que o exército descobriu nas humildes cabanas de Belo Monte na fase final da guerra. Euclides da Cunha ficou impressionado e sublinhou sua função e sua significação para a psicologia do combatente conselheirista[658]. Versificar ajuda a sustentar a luta, recordou ele, e os jagunços, para fazer face às dificuldades, se apoiaram na poesia, trazendo assim as primeiras contribuições ao hinário canudense. Da Cunha, além de formular essas considerações, tratou também de reproduzir em Os Sertões alguns desses versos por ele coletados, mas corrigindo bastante lamentavelmente a ortografia original[659]; citou assim sete quartetos extraídos dos dois cadernos escolares encontrados em Canudos (os ABCs) de que teve conhecimento e que copiara em seu caderno[659]. Esses quartetos glorificavam em particular dois eventos importantes ocorridos na história do movimento conselheirista: primeiro, a vitória obtida em maio de setembro sobre a polícia baiana durante o entrevero em Masseté; e segundo, a maneira como o coronel Moreira César encontrou a morte e a derrota completa das tropas sob suas ordens, em março de janeiro. Ao dizer do historiador José Calasans, os habitantes do sertão ainda tinham guardado memória dessas duas peças, ao menos de alguns fragmentos, até os anos 1980[660].
No que se refere à literatura de cordel propriamente dita, quatro obras se destacam mais particularmente, escritas em épocas e em lugares diferentes, adotando pontos de vista opostos, e representando tendências divergentes do cordel brasileiro. São as obras de: João de Souza Cunegundes (em 1897), João Melchiades Ferreira da Silva (numa obra não datada), Arinos de Belém (em 1940) e José Aras (alias Jota Sara, em 1963)[661].
João de Souza Cunegundes[662], que residia no Rio de Janeiro durante a guerra, já gozava de certa renome na capital brasileira. Seu poema sobre a guerra de Canudos, intitulado A Guerra de Canudos no sertão da Bahia, foi composto por volta da época em que a campanha militar estava a terminar, e conheceu ao menos duas edições. Reflete a visão que prevalecia nesse momento no Rio de Janeiro e que dava como adquirido que Antônio Conselheiro e seus sequazes eram monarquistas desejosos de derrubar a república. O poema, onde a figura mais incensada é o coronel de infantaria Moreira César, termina com uma condenação dos jagunços e por uma glorificação dos soldados republicanos. A obra de Cunegundes exprimia o ponto de vista de um poeta da capital federal, ponto de vista inteiramente determinado pela imprensa da época, e serviu bem os interesses políticos do poder em vigor[663].
O fascículo de João Melchiades Ferreira da Silva, intitulado A Guerra de Canudos[664], é de origem e natureza diferentes, pois é o testemunho de um participante da guerra. João Melchiades, apelidado o chantre da Borborema, natural da Paraíba, foi com efeito sargento na 27ª brigada de infantaria, e a esse título teve de batalhar contra os jagunços. Os sextilhas que compôs relatam fatos aos quais, em grande parte, ele havia assistido em pessoa; trata-se da única obra de cordel, conhecida até hoje, produzida por um antigo combatente. Engajado nas fileiras da causa republicana, João Melchiades teve, contudo, o bom senso de não se deixar arrastar pelas paixões da época, e, esforçando-se por assumir o papel de testemunha imparcial, narrou em seus versos coisas vistas e vividas abstendo-se de toda imprecação e de toda virulência de linguagem. Não descuidou, contudo, como de resto, de exaltar os feitos e gestos de seus companheiros de armas, a começar pelo comandante de sua própria unidade, o major Henrique Severiano da Silva. Não é, aliás, senão muitos anos mais tarde que Melchiades, já reformado, resolveu consignar em sua poesia o que lhe fora dado ver em Canudos. Como essa reforma data de 1904, pode-se afirmar com certeza que A Guerra de Canudos foi escrito no século XX[665].
Posteriormente, Canudos caiu no esquecimento por longos anos. O sociólogo Manuel Diegues Júnior, que estudou as produções de cordel que tomam por tema o fanatismo religioso ou o misticismo, fez observar que raramente se tratava de Antônio Conselheiro, enquanto que no mesmo tempo um número considerável de fascículos aparecia em torno da personagem de Padre Cícero, outra figura carismática do Nordeste. Contudo, a partir dos anos 1970 sobretudo, constata-se a existência de uma apreciável produção de cordel centrada na temática de Canudos; merecem ser citados a esse respeito Maxado Nordestino (Profecias de Antonio Conselheiro), Minelvino Francisco da Silva (Antonio Conselheiro e a Guerra de Canudos), Apolônio Alves dos Santos (Antonio Conselheiro e a Guerra de Canudos), Rodolfo Coelho Cavalcante (Antonio Conselheiro, o santo guerreiro de Canudos), Raimundo Santa Helena (Guerra de Canudos), José Saldanha Menezes (O apóstolo dos sertões), José de Oliveira Falcon (Canudos, guerra santa no sertão), e Sebastião Nunes Batista (Canudos revisitada). Mais dois se destacam mais particularmente, História de Antonio Conselheiro (ou Campanha de Canudos, em sua versão completa), de Arinos de Belém, e Meu folclore (História da Guerra de Canudos), de Jota Sara[666].
Jota Sara, de seu verdadeiro nome José Aras, baiano de Cumbe (rebatizado Euclides da Cunha), era um grande conhecedor da vida do sertanejo, tendo vivido toda a sua vida no sertão do Conselheiro, onde morreu octogenário em 1979. Cedo, empreendeu recolher informações sobre a guerra de Canudos junto a sobreviventes, mas também bebeu na tradição oral, viva na região. José Aras não tardou a se tornar conselheirista, odiando Moreira César e comprazendo-se em mencionar, em sua reconstituição dos combates, os nomes e proezas dos jagunços. Mais, portanto, que um conjunto de versos de boa qualidade, o fascículo aparece ainda como uma contribuição histórica, forjada a partir da voz do povo, o qual ainda se lembrava de Maciel, e amiúde o elevava às nuvens[667].
Arinos de Belém (pseudônimo de José Esteves), autor de História de Antonio Conselheiro[668], foi provavelmente atraído pelo tema de Canudos devido à participação da polícia de seu estado de origem, o Pará, na guerra, tendo dois batalhões sido com efeito enviados a Canudos pelas autoridades de Belém, fato aliás evocado na obra. O autor compraz-se em pôr em luz as performances do corpo dos Paraenses e termina seu poema manifestando seu anticonselheirismo[669].
Os Jagunços (Afonso Arinos de Melo Franco)
Afonso Arinos de Melo Franco, autor monarquista, defendeu num artigo publicado em O Commércio de São Paulo em outubro de fevereiro e intitulado Campanha de Canudos (O Epílogo da guerra) uma posição contrária à tese, outrora geralmente admitida, de um Canudos bastião monarquista, e se juntou assim aos pontos de vista defendidos por Horcades e Benício. Anteriormente já, na qualidade de redator-chefe do supramencionado jornal, e sob o pseudônimo de Espinosa, ele havia procurado invalidar a ideia de uma trama restauracionista e acabou por defender a causa de Belo Monte. Postulou que as origens do movimento conselheirista deviam ser buscadas na religiosidade específica do sertão, busca que segundo ele contribuiria além disso para permitir uma «investigação psicológica do caráter brasileiro», e defendeu a concepção (que será também a de Da Cunha) de que o sertão também fazia parte integrante do Brasil e que o sertanejo não era outro senão um brasileiro que a civilização havia marginalizado e deixado à mercê da «lei da natureza»[670].
Afonso Arinos, aliás, não era o único intelectual monarquista a acreditar na importância de incorporar o sertanejo na nacionalidade brasileira. Eduardo Prado, proprietário de O Comércio de São Paulo, afirmou também a necessidade de levar em conta o caboclo como elemento característico da nação, argumentando que este era «um homem que todos devemos admirar por sua pujança e porque é ele quem, no fim das contas, é o que é o Brasil, o Brasil real, bem diferente do cosmopolitismo artificial em que vivemos, nós moradores desta grande cidade. Foi ele que fez o Brasil»[671]. O escritor Afonso Celso também contestava as teorias segundo as quais o mestiço seria um degenerado e um ser racialmente inferior e se apegou a sublinhar ao contrário que o «mestiço brasileiro não apresenta nenhuma inferioridade de nenhuma sorte, nem física nem intelectual»[672]. Os vaqueiros nomeadamente, recordou ele, estão entre os mestiços, esses vaqueiros cuja sobriedade e desinteresse são notórios, que gozam de uma saúde inalterável, são de uma força e destreza raras, etc.[673]
Aos olhos de Afonso Arinos, a mestiçagem não aparece, portanto, representar nenhum problema para os povos da América. Através da descrição de Aninha, protagonista cabocla do romance Os Jagunços, Afonso Arinos subentende que da mistura étnica resultará algo de novo, o mestiço, «no qual não poderão mais ser discernidas as hereditariedades de tal ou qual descendência, doravante unificadas»[674]. De fato, Afonso Arinos fazia sua a tese sobre a formação racial do Brasil sustentada pelo naturalista alemão Carl von Martius e publicada na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1845; essa tese, que sustentava que o Brasil se teria constituído pela conjunção de três raças diferentes — brancos, índios e negros —, deu lugar a controvérsia na segunda metade do século XIX, tomando com efeito o contrapé das teorias racialistas que postulavam a degenerescência do mestiço, e.a. das afirmações de Gobineau de que os brasileiros não seriam senão uma «banda» de mulatos e mestiços de compleição raquítica, repugnantes e desagradáveis ao olho[675]. Afonso Arinos, por sua parte, não estimava que a mistura das raças pudesse ser de algum modo prejudicial ao futuro do Brasil, como pensavam vários intelectuais da época[676].
Seu romance Os Jagunços saiu em 1898 numa tiragem de apenas uma centena de exemplares. Contudo, convém relativizar esse número, em consideração à circunstância de que primeiro o texto havia sido previamente publicado em folhetim no quotidiano O Commércio de São Paulo, sob o pseudônimo de Olívio Barros, e que em segundo lugar ele faz parte das numerosas fontes não citadas de Os Sertões de Da Cunha, como vários estudos puderam demonstrar[656] · [677].
O enredo desse romance, que evoca Canudos através dos feitos e gestos do vaqueiro Luiz Pachola, pode ser resumido como segue. Durante uma estada na fazenda Periperi em 1877 para uma vaquejada (reunião do gado com rodeio), Pachola faz pela primeira vez o encontro de Maciel e de sua pequena comitiva e se apaixona pela mulata Conceição. Esta, contudo, perece quando tenta proteger Pachola das facadas de um rival ciumento. Esse sacrifício leva o herói a se consagrar doravante à fé e à penitência, e o decide a se juntar a Maciel. Mais tarde, em 1897, em Belo Monte, Pachola ocupa um posto de confiança e pertence ao comando militar de Canudos. Sobrevive à guerra e escapa com alguns outros sobreviventes em direção à caatinga[678] · [679].
O romance se coloca na perspectiva das pequenas gentes, vaqueiros e jornaleiros, tornando palpável a vida quotidiana da comunidade conselheirista. Desse só ponto de vista já, O Jagunços está em contracorrente com o discurso dominante sobre Canudos. Além disso, a violência procede claramente do exército republicano, enquanto os Canudenses apenas defendem seu projeto. Todo ato delituoso da parte deles é sistematicamente negado pelo narrador, inclusive o passado criminoso de alguns protagonistas: a pacata e industriosa colônia se concentra numa economia de subsistência e na busca de alguns pequenos negócios e aparece inteiramente integrada no ambiente socioeconômico da região[678].
Dotado do subtítulo Novela sertaneja, a obra se inscreve na tradição regionalista brasileira e, resituando Canudos no seio mesmo do sertão, abandona ostensivamente o ângulo de visão que é o da centralidade republicana. A primeira parte compreende longas descrições não apenas da vida dos vaqueiros, mas também de realidades culturais tais como o lundu e a congada, descrições entremeadas de poesias e refrões populares e salpicadas de vocábulos e torneios regionais. O herói ao contrário, pertencendo ao tipo cavalheiresco, modesto, cheio de nobreza de alma e de misericórdia cristã inclusive para com seus inimigos, adulado de seus companheiros, ferido por um amor infeliz, representa um tipo europeu universal, situado para além do espaço e da História, e que nenhum traço regional caracteriza[678].
O sertão é evocado de maneira antinômica, o sertão benfazejo da época imperial contrastando com o sertão republicano doravante arrasado. Uma cultura popular intacta, uma moral salutar e uma estrutura social inviolada, onde as hierarquias existentes não provocam nenhum conflito, caracterizam o sertão imperial. A natureza está isenta de seu potencial hostil, e as secas são silenciadas. Canudos é assim o paradigma de um sertão pacífico, ao que se opõe o caráter criminoso da república[680]. Canudos serve de símbolo coletivo permitindo ao autor dar corpo à sua visão monarquista e antirrepublicana, onde Canudos funciona como alegoria da sociedade rural pré-republicana[681].
O romance se interessa pouco pelas motivações dos Canudenses: abstração feita das personagens principais, eles permanecem fanáticos anônimos, codificados como jagunços, em adequação com a natureza áspera. Esta última, contudo, reclama um trabalho rude mas honesto, ou seja, o exato contrapé da ociosidade preguiçosa e da moral decadente das cidades costeiras. O sertão é essencialmente natureza, a qual respira a especificidade nacional e se esquiva a uma civilização urbana mal compreendida[682].
O missionário, isto é, Maciel, cujos antecedentes não são indicados, aparece antes como um beato, um santo, mas é também «negro como a sombra da morte». A esfera religiosa tende a se autonomizar ao se abstrair em misticismo. Não obstante, o Conselheiro toma também traços terrenos, comprometendo-se em tratativas políticas, à maneira de um coronel, e tolerando em Belo Monte castigos cruéis; é um «fanático religioso megalômano», ambivalente, com quem o narrador não se identifica[680], ainda que o termo fanático não deva, segundo alguns comentadores, induzir a pensar que o escritor aderia ao paradigma de fanatismo religioso, loucura e perturbação, exprimindo o termo fanático aqui apenas a veneração de que era objeto a figura do Conselheiro, a adesão completa às ideias divinas supostamente emanar de sua figura[683]. Afonso Arinos, aliás, julgava positiva a influência de Antônio Conselheiro sobre as gentes dos sertões, pois «nenhum outro poder humano conseguiu, como ele fez, domar esse povo rude, fazer dele um grande instrumento de disciplina, arrancando-o ao mesmo tempo às manifestações do banditismo»[684].
O Rei dos jagunços (Manoel Benício)
Manoel Benício foi, na qualidade de capitão honorário do exército — Euclides da Cunha era tenente reformado —, repórter de guerra em Canudos para o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro. Ao contrário de Da Cunha, que, antes de mergulhar no sertão, havia permanecido todo o mês de agosto de janeiro em Salvador com o objetivo de coletar informações sobre a região, Benício parece ter sido enviado diretamente ao campo de batalha[685]. Não podia, para se recomendar, fazer estado, em matéria de experiência jornalística, senão de algumas reportagens para o jornal carioca O Tempo sobre a Revolta da Armada. À diferença de Da Cunha e dos outros autores, Benício não esperou a capitulação de Canudos para denunciar com pujança a inaptidão do alto comando[686].
A primeira carta-reportagem de Benício, datada de 4 de julho de 1897, na qual relata o malfadado ataque levado a cabo em 27 de junho pelo general Oscar, dá o tom de toda sua correspondência ao jornal e manifesta desde logo a intenção do autor de levar ao conhecimento do público todas as asneiras de Oscar. A nãochalance com que era tratado o aspecto logístico da guerra, negligência que será responsável pela subalimentação da tropa, das doenças, de mortes estúpidas de soldados, do abandono e desespero dos soldados feridos, bem como a morte dos segundos-tenentes Bezouchet e Cisneiros, ambos ainda muito jovens, serão expostas em suas reportagens, com certa predileção em mostrar o lado hediondo, sórdido, nada glorioso, da guerra de Canudos. Seu status de capitão honorário fê-lo participar do conflito não apenas como espectador, mas também como quase-soldado, isto é, fê-lo enfrentar os mesmos perigos que os combatentes, ver a morte de perto, expor a própria vida etc. Essa circunstância explica sem dúvida o tom vibrante e emocional de suas correspondências de guerra. Benício não poupa nos detalhes para dar ao leitor uma visão a mais completa possível dos enfrentamentos. Outro traço que o distingue de Da Cunha é o pouco cuidado que pôs em redigir seus textos, sem preocupação com o estilo, o que Benício justificou pelas condições precárias em que teve de redigir suas cartas[687].
Nas «notas avulsas» de sua carta-reportagem de 8 de julho, Benício deixa entrever também as qualidades do inimigo, que seu engajamento a sempre dizer a verdade o levou a reconhecer e a consignar — esse mesmo engajamento que lhe fará, por outro lado, levar graves acusações contra os comandantes do exército. Para Benício, o jagunço se caracteriza por sua habilidade, sua familiaridade com a caatinga, sua coragem e sua perspicácia[688]. Esse reconhecimento do sertanejo, contudo, não levarão Benício a mostrar outra coisa que uma fria indiferença cada vez que fizer alusão a, ou notar laconicamente, a prática da gravata vermelha. Essas reportagens serão recicladas pelo autor na segunda parte de seu O Rei dos jagunços, intitulada Militares e Políticos[689].
Se dermos crédito às suas cartas, Benício se afastou de Canudos por razões de saúde e porque estava impedido de realizar seu trabalho de repórter. Suas denúncias sistemáticas contra o general Oscar, o relato dos mortos e feridos em contracorrente com as notas oficiais, faziam com que não apenas suas reportagens fossem censuradas pelo exército, mas ainda que o próprio autor se visse diante de inúmeras dificuldades para cumprir sua missão. Na realidade, a razão pela qual Benício não permaneceu no local senão um pouco mais de um mês é o fato de que sua própria vida estava em perigo. Horcades revelou que se Benício não tivesse deixado Canudos três horas antes da hora que havia anunciado, um assassino de aluguel engajado para esse fim o teria violentamente molestado e «talvez transformado em nada (em nada) pelas mentiras que havia enviado em suas correspondências ao Jornal de Commércio»[690]. Aliás, o jornal julgou prudente não publicar suas reportagens antes de 3 de agosto de 1897, isto é, no dia seguinte à partida de Benício e no mesmo dia em que Bittencourt embarcava para a Bahia, quando o jornal estava de posse dessas correspondências bem antes desse dia, até um mês antes[691].
Chegado a Salvador, no caminho de volta, Benício temeu que suas reportagens não fossem acreditadas e que seriam refutadas pelos jornais republicanos; além disso, podia-se esperar que o envio iminente de reforços (5 000 homens), sob a supervisão de Bittencourt, não pusesse breve fim ao conflito, e que então todas as provas que tivera de atravessar como repórter e suas incriminações do alto comando cairiam rapidamente no esquecimento. Daí sem dúvida que Benício concebeu o projeto de escrever O Rei dos jagunços, como uma «obra vingativa»[692]. Quando o Jornal de Comércio se pôs, através das reportagens de Benício, a contestar o ponto de vista de Oscar, nomeadamente sobre a ajuda que os conselheiristas supostamente receberiam do exterior de seu reduto, o Clube Militar votou por unanimidade a adoção de uma reprimenda contra o jornal e riscou Benício de seus quadros[693].
É verdade que no momento em que saiu sua crônica romanceada, em 1899, o clima se tornara muito mais propício à publicação de escritos críticos sobre a guerra de Canudos. Na sequência da tentativa de assassinato de Prudente de Morais em 5 de novembro de 1897, e após inquérito, que estabeleceu a responsabilidade de altas patentes do exército e do Clube Militar, este será fechado e Benício assim parcialmente vingado[694].
Benício, a despeito das esperanças que havia depositado nos artigos de Da Cunha, não contava esperar o grande livro deste último para ser vingado totalmente das humilhações e sofrimentos experimentados em Canudos, e fez, portanto, publicar ele mesmo uma versão romanceada da guerra, O Rei dos jagunços[695]. Publicado em 1899, nas prensas do Jornal do Comércio[696], o livro caiu depois no esquecimento e só foi reeditado em 1997, por ocasião do centenário da guerra de Canudos. A questão de saber como catalogar essa obra não é fácil de resolver; se o próprio autor chama seu livro de «crônica histórica», então é uma na qual se insinuaram dois gêneros diferentes, o documentário e o comentário. A obra pretende «a maior precisão histórica», e o subtítulo deixa entrever um objetivo de autenticidade e veracidade documentais. A estrutura do livro e o título dos capítulos estão aí também para sinalizar um relato objetivo[697]. O «tom romanesco», precisou o autor, só aparece na obra para «suavizar a aspereza do assunto e o aborrecimento de descrições fastidiosas feitas por alguém que não tem estilo»[695].
A primeira parte, concebida segundo um plano sistemático, relata os antecedentes familiares de Maciel e descreve as tradições religiosas populares do sertão. É apenas no terceiro capítulo que se percebe que uma ficção se inicia, sem transição, que no curso ulterior do livro alternará com as passagens documentais e atravessará todo o restante do livro; por outras palavras, numa medida considerável, a parte documental se duplica de uma ficção literária. A segunda parte se desenvolve cronologicamente e retrata o desenrolar da guerra da primeira à quarta expedição. A exposição histórica e a trama romanesca alternam então de maneira mais desconexa. O autor intervém inopinadamente aqui e ali na primeira pessoa como comentador ou narrador[697].
O enredo da componente ficcional é semelhante ao do romance de Afonso Arinos. Uma trama amorosa, menos trágica que em Os Jagunços, dá lugar a pequenos quadros eróticos e a cenas da vida cotidiana, no meio de passagens documentais e de descrições objetivas[698].
Publicado três anos antes de Os Sertões, o livro de Benício perseguia a mesma ideia de base, a saber interpretar Canudos como um fenômeno representativo do sertão e apresentar a guerra como algo mais que um simples evento nacional: como um evento de alcance nacional. O autor supôs que a forma literária era a mais apta a servir esse desígnio; anunciado como um documento, o texto foi, contudo, lido como literatura e julgado como tal. A crítica não vendo aí senão um amontoado de anedotas melosas, o livro não tardou a cair no esquecimento, a despeito da reputação, certamente bastante controvertida, que Benício adquirira enquanto jornalista por suas reportagens agudas e críticas sobre a guerra de Canudos para o Jornal do Commércio e por seu afastamento forçado do lugar das operações militares, e a despeito do fato, como se pode supor, de que uma boa parte da intelectualidade da época leu o livro. Bartelt nota, contudo, que não mais que Afonso Arinos, Benício não conseguiu dar forma de maneira convincente ao trágico dos eventos, ao seu alcance social e ao potencial que encerravam para o futuro da nação brasileira[699].
Nas passagens documentais, Canudos oferece uma surpreendente diversidade étnica e social, em espera de integração nacional. As personagens são moldadas segundo tipos sociorraciais, sem, contudo, desembocar no racismo biológico, ordinário para a época, com a ideia concomitante da degenerescência dos mestiços[624]. Como em Os Jagunços, mas mais sistemática e radicalmente, Canudos encarna o sertão como subespaço nacional. Ao contrário do romance de Afonso Arinos, Canudos representa aqui, longe dos atavios românticos, a normalidade enraizada do sertão. Benício, contudo, procede de maneira desordenada, alternando as diferentes perspectivas e semânticas, como sinal de uma ambivalência fundamental onde a ação do romance e o nós republicano se enfrentam, se sucedem e se neutralizam parcialmente. Assim marcas de empatia alternam com julgamentos fortemente denigrantes contra os sertanejos. Maciel é retratado como um fanático insano, um exorcista rigorista e um tático político, praticando um catolicismo popular aculturado, e mais apto que o clero oficial decadente a satisfazer as necessidades religiosas dos camponeses[700]. Sua loucura remontaria a seu pai Vicente Maciel, atingido por uma «demência intermitente», da qual seu filho estava inexoravelmente predestinado a herdar[701]. O título do livro, bem como várias metáforas no interior da narrativa (tais como califa de Canudos etc.), põem em evidência o domínio pessoal direto e autocrático exercido por Maciel. O sistema político se caracteriza pela predominância do poder privado e de códigos de honra rígidos, das tradições orais e de uma profunda religiosidade[625].
Contudo, Benício afirma que Canudos foi criminalizada sem fundamento. A hostilidade a toda forma de modernização se explica segundo o autor pela atitude conservadora fundamental do sertanejo, que além disso vê em toda mudança a tentativa sub-reptícia de introduzir aumentos de imposto, e por sua incapacidade de apreender a ideia que subjaz às reformas políticas e sociais e ao progresso; em particular, a separação da Igreja e do Estado feriu suas convicções[702].
Os Sertões (Euclides da Cunha)

Euclides da Cunha, engenheiro militar de formação, republicano convicto, dirigiu-se a Canudos na qualidade de jornalista e redigiu para o jornal O Estado de S. Paulo uma série de artigos sobre o conflito em curso. Contudo, teve de, por motivo de doença, deixar Canudos quatro dias antes do fim da quarta e última expedição, e não assistiu, portanto, ao desfecho do dito conflito no início de outubro de janeiro. Não obstante, teve a ocasião de reunir, além de suas notas pessoais tomadas no calor dos acontecimentos, todo o material necessário para elaborar sobre esses eventos, durante os três a quatro anos seguintes, uma obra que fará data na história das letras brasileiras, Os Sertões: campanha de Canudos, publicada em 1902. Nessa obra híbrida, que se quer um texto ao mesmo tempo científico (pondo a contribuição todo o saber humano: geografia física, botânica, climatologia, e também antropologia, sociologia etc.) e literário (recorrendo aos procedimentos do lirismo e da epopeia), Da Cunha pretende analisar todos os meandros dessa guerra. Essa vasta obra (seiscentas páginas) se decompõe em três partes principais, a Terra, o Homem, e a Luta, nas quais o autor expõe, respectivamente: as características geológicas, botânicas, zoológicas, hidrográficas e climatológicas do sertão; a vida, os costumes, a cultura oral, os trabalhos e a espiritualidade religiosa dos sertanejos, em particular do vaqueiro, o guardião do sertão, que concretiza o casamento do homem com essa terra; e por fim, as peripécias, contadas com força detalhes e vislumbres militares, das quatro expedições enviadas pelas autoridades contra o povoado dirigido por Antônio Conselheiro.
Nessa obra, Da Cunha rompeu totalmente com seu ponto de vista anterior, isto é, com a ideia preconcebida e então geralmente admitida que queria que Conselheiro acariciasse um grande desígnio político e que o movimento de Canudos fosse uma tentativa, pilotada à distância pelos monarquistas, de restaurar o regime imperial no Brasil. Mas ele teve de abandonar outra ideia preconcebida ainda, emprestada ao positivismo e ao darwinismo: a certeza absoluta de que a «civilização superior» implantada nas cidades do litoral brasileiro se encontrava, com o movimento messiânico de Canudos, face a uma sobrevivência da barbárie e do fanatismo que devia ser erradicada. Certamente, Da Cunha apresenta Canudos como uma revolta de retardatários, como uma irrupção do passado no presente, um acesso de particularismo, uma singularização, a contrapelo de sua própria visão linear da história e da ideia de progresso; em particular, o messianismo de Conselheiro é visto como regressão do cristianismo para sua antiga fonte, para um estágio atrasado, o judaísmo (ele estabelece uma ligação implícita entre esse messianismo e a condição social dos camponeses e sua exploração, mas esse aspecto permanece para ele secundário e não será aprofundado). Mas, tendo-se apercebido de que a sociedade do sertão era radicalmente diferente da do litoral, e que a realidade das terras do interior correspondia muito pouco às representações que habitualmente se fazia delas nas cidades, foi levado a reinterpretar o conflito para fazer dele, assim como precisa em sua nota preliminar, uma variante do assunto geral que doravante o preocupa, a saber: a guerra de civilização então em curso no Brasil. A guerra de Canudos, despojada do sentido político que lhe foi erradamente dado inicialmente, é o confronto de dois mundos, duas civilizações, duas eras da história. Os Sertões exprime a necessidade de buscar no interior, na luta entre barbárie e civilização, as fontes ambíguas, e a verdadeira identidade do país em vias de se fazer ou desfazer. Importa, portanto, quebrar a imagem artificial que o Estado dá de si mesmo a partir dos modelos europeus. A convicção de Da Cunha é de que o Brasil não pode realizar sua homogeneização (necessária à sua sobrevivência enquanto Estado independente) senão pelo progresso da civilização. Os sertanejos, nos quais, segundo o autor, preponderaria nitidamente o sangue tapuia (tribo indígena), e que viveram durante três séculos em círculo fechado, mergulhados num abandono completo, souberam assim «conservar intactas as tradições do passado» e apresentam hoje, escreve ele, «uma notável uniformidade, oferecendo a impressão de um tipo antropológico imutável»; é uma subcategoria étnica constituída, consolidada, estável, dispondo por aí — ao contrário do «mestiço proteiforme do litoral», tipo instável, frágil — de uma base sólida o tornando recetivo a uma ação civilizadora progressiva. Em lugar de massacrar os revoltados de Canudos, teria sido, portanto, mais judicioso instruí-los, por graus, enviando professores aos sertanejos tresmalhados na barbárie, assegurando primeiro, como prévio, a garantia da evolução social. Da Cunha finalmente coloca no mesmo plano o misticismo retrógrado e a modernidade brutal que se impõe sem considerações, e postula que as contradições culturais entre o sertão portador de uma síntese das forças vivas oriundas da história, e a «civilização» factícia do litoral herdeira da colonização, voltada para a Europa e o Atlântico, podiam se resolver numa terceira via: a da integração política desses «rudes compatriotas» provisoriamente afastados do «progresso» e «mais estrangeiros nesse país que os imigrantes europeus». Pela narrativa que faz Da Cunha, a guerra de Canudos pode assim se transfigurar em mito fundador da nação brasileira, mito, contudo, polivalente e complexo, paradoxalmente fundado sobre um crime original; essa transfiguração é, aliás, favorecida por um partido-estilístico amalgamando expressão poética e metafórica de um lado, e precisão e rigor científicos de outro. (O papel que desempenhou, ou que ambicionava desempenhar, essa obra na formação da consciência nacional brasileira foi exposto mais detalhadamente acima).
A Guerra do Fim do Mundo (Mario Vargas Llosa)

Mario Vargas Llosa, que participava em 1972 com o encenador português Ruy Guerra num projeto cinematográfico tendo por assunto a guerra de Canudos, foi levado, para se documentar, a ler Os Sertões, diretamente em português, e deveria mais tarde tirar daí a matéria de seu romance A Guerra do Fim do Mundo. Ao contrário de Os Sertões, trata-se de uma obra de ficção; no caso, o trabalho da imaginação consistirá nomeadamente em fazer entrar em cena personagens fictícias (entre as quais se desenrolam todo tipo de intrigas políticas e sentimentais) e em introduzir a biografia de diferentes jagunços (que se deixa agir e raciocinar como indivíduos concretos, com seus sentimentos e suas ideias particulares). As principais personagens fictícias são Galileo Gall, anarquista e frenólogo escocês, um jornalista míope, um guia da região e sua esposa, um grande proprietário de terras, um político republicano detentor de um jornal influente, etc. À composição cronológica de Os Sertões opõe-se aqui uma estrutura estilhaçada, fragmentada, com incessantes defasagens temporais e mudanças de plano, com a intenção de pôr lado a lado ações muito distantes umas das outras no tempo, de enxertar na ação em curso um conjunto de elementos de contextualização (quadro socioeconômico, pano de fundo histórico etc.), de dar um vislumbre das condições sociais e da mística religiosa dos jagunços, de traçar um quadro da situação política dessas regiões, e de descrever as peripécias dessa guerra sob ângulos de abordagem diferenciados: o dos militares, dos rebeldes, e de outros interessados agindo em bastidor (imprensa, políticos, grandes proprietários, etc.), o conjunto visando a dar o como e o porquê de Canudos segundo uma multiplicidade de pontos de vista, e de apresentar uma imagem caleidoscópica da sociedade brasileira. Enquanto Da Cunha só podia observar os eventos desde fora, Canudos pode assim ser visto de dentro tanto quanto de fora, na medida em que as passagens que se passam entre os jagunços sejam realmente de natureza a nos esclarecer sobre o mistério de Canudos, e de nos dar conta, p. ex., de que bandidos de estrada puderam se converter ao conselheirismo (de uma maneira mais satisfatória do que indicar que foram tocados pelo anjo). Contudo, as intrigas políticas que se estendem como pano de fundo no romance já não têm muito relação com Canudos. A opinião pública, que é ridicularizada em Os Sertões por acreditar numa vasta trama monarquista e não desempenha nenhum papel em Da Cunha, é aqui ao contrário um elemento essencial, o motor da ação, no particular de que ela é instrumentalizada para fins políticos pelo protagonista republicano, o qual, nomeadamente, serve-se da personagem escocesa para fazer crer num apoio britânico aos insurgentes de Canudos. É também um romance de ideias, pois nele se segue a trajetória intelectual percorrida pelo jornalista míope, trajetória semelhante à de Da Cunha, isto é, de republicano convicto, a observador cético e crítico do regime republicano. A maioria das personagens, aliás (militares, médicos, etc.), acaba por ser invadida de dúvidas: acerca de sua missão, da natureza real da insurreição de Canudos, da estratégia militar posta em prática pelo comando, etc.
Outras
A obra de Da Cunha, considerada uma das obras maiores da literatura brasileira, inspirou em todo o mundo criações literárias baseadas nos eventos de Canudos. As mais notáveis são (por ordem cronológica): A Brazilian Mystic (1919), do político e escritor britânico Robert Bontine Cunninghame Graham[703], simples demarcação do relato de Da Cunha, sem jamais, aliás, fazer a mínima menção[704]; o Mago do Sertão (1952), do escritor e historiador belga Lucien Marchal[705], que se acusou, em particular no Brasil, de ser apenas uma «demarcação romanceada» de Os Sertões, ou quando muito um «demarcação astuciosa», queixas feitas sem razão, pois o autor, mesmo que siga a mesma cronologia linear de Da Cunha, se entrega a uma reorganização do material original, a fim de produzir um romance histórico na tradição clássica do século XIX, dramatizando, portanto, os eventos, introduzindo suspense (ausente em Da Cunha), permitindo-se várias adulterações da verdade histórica, introduzindo aqui e ali episódios de seu próprio punho, e sobretudo, dando espessura (biográfica e psicológica) aos diferentes protagonistas, a começar pelo próprio Conselheiro, cujo desenvolvimento dos antecedentes é longo, e a seus tenentes, que na maioria não são mencionados senão de passagem em Os Sertões (todo espessamento das personagens é supérfluo desde que, segundo o credo de Da Cunha, o determinismo do meio e do tempo basta para dar conta totalmente das personagens)[706]; Veredito em Canudos (1970)[707], do escritor húngaro Sándor Márai; a Primeira Veste (1975), do escritor georgiano Guram Dotchanachvili; e A Guerra do Fim do Mundo (1980), já evocado, do autor peruano Mario Vargas Llosa[708].
A obra O Pêndulo de Euclides do escritor e professor universitário baiano Aleilton Fonseca é a última em data a tomar Canudos por tema. Nesse romance, publicado em 2009 (e em tradução francesa em 2017, sob o título La Guerre de Canudos. Une tragédie au cœur du sertão), três homens — um professor universitário brasileiro, que se propõe a redigir uma obra sobre o assunto, um francês e um poeta —, que mal se conhecem, mas que têm em comum uma paixão intelectual e sentimental por Canudos e uma admiração sem limites por Euclides da Cunha, empreendem uma curta viagem no sertão do Vaza-Barris. À sua chegada a Monte Santo, o professor, além de seu primeiro sentimento de intenso estranhamento cultural, logo fica encantado com as informações que recolhe da boca dos habitantes do lugar, onde tudo gira em torno do mito do Conselheiro, e mais particularmente da parte da personagem de Ozébio, que se revela possuir um conhecimento aprofundado e detalhado do conflito. A partir de suas informações se desdobra em seguida, sob a forma de um texto largamente dialogado, que se quer também uma homenagem a Guimarães Rosa, toda uma reflexão sobre o que se passou realmente no sertão nordestino no final do século XIX[709] · [710].
No cinema

Canudos pôde fazer sua aparição nas telas de cinema sob diferentes formas[711], indo de uma adaptação direta de Os Sertões, a incontornável obra-prima de Euclides da Cunha (adaptação direta da qual não existe até hoje senão um único exemplo, a saber o filme de Sérgio Rezende, de 1997), até a encenação de elementos díspares emprestados do sertão nordestino (decoração, religiosidade particular, personagens de jagunços ou de cangaceiros, beatos, pregadores etc.) e remetendo pouco ou muito ao conflito de Canudos.
Se a extensão e a natureza específica do texto de Da Cunha, obra inclassificável, ao mesmo tempo ensaio, texto de tese, e relato histórico, de estilo barroco mas se querendo ao mesmo tempo rigoroso, o tornam pouco propício a uma transposição cinematográfica, o legado euclidiano se impôs em contrapartida no Brasil de maneira mais profunda e mais difusa, ao fixar o Nordeste como uma referência identitária incontornável de um ponto de vista socioeconômico: as tensões norte/sul, rural/urbano, pobre/rico, a importância do fato religioso e o hábito das migrações internas constituem temáticas recorrentes no cinema brasileiro a partir dos anos 1950, e a imagem tradicional do sertão, nomeadamente através da figura do cangaceiro, tornou-se emblemática do país inteiro[712]. Com efeito, Os Sertões não cessou de ser reeditado, e faz parte integrante da cultura geral de todo brasileiro, e nomeadamente daquela dos cineastas nascidos nos anos 1920-1930. Essa influência de Euclides da Cunha sobre os cineastas, bem como a tomada de consciência pelos brasileiros da dimensão sertaneja que terá necessariamente de adotar sua identidade em curso de construção, impregnam várias gerações de realizadores de cinema. O apogeu dessa tendência se situa incontestavelmente nos anos 1960 com o cinema novo, mas os cineastas das décadas 1990 e 2000 quiseram por sua vez se debruçar sobre suas raízes nacionais[713].
Embora a vontade de produzir um cinema nacional tenha sido uma das preocupações recorrentes do cinema brasileiro, é forçoso reconhecer que Canudos, e o sertão nordestino em geral, só fez sua aparição tardiamente no cinema brasileiro, e que foi preciso esperar o ano de 1997 para ver sair nas telas uma adaptação cinematográfica de Os Sertões. A explicação desse fenômeno reside de um lado sem dúvida no atraso do cinema brasileiro tout court, imputável ao fato de que, segundo o crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, o cinema brasileiro não tinha terreno cultural próprio, distinto do ocidente, onde mergulhar suas raízes, e de outro lado na recusa, ostentada pela crítica no entre-guerras, de ver levados às telas certos aspectos da realidade brasileira julgados negativos para a imagem do país, recusa tendo como corolário uma preferência marcada pelos filmes estrangeiros. Assim, logo no início do cinema, e nomeadamente na sequência da realização (entre 1912 e 1930) de vários documentários regionais, a revista Cinearte, criada em 1926 por Mario Behring e Adhemar Gonzaga, muito preocupada com a imagem que arriscaria ser dada do Brasil para o exterior, reprova a encenação da realidade brasileira, denunciando «a mania de mostrar índios, caboclos, negros, animais e outras aves raras dessa terra infeliz» e se inquietando com «a imagem de um país igual ou pior que a Angola ou o Congo»[714]; «Fazer um bom cinema no Brasil», lê-se ainda nessa revista, «deve ser um ato de purificação de nossa realidade, através da seleção do que merece ser projetado na tela: nosso progresso, nossas construções modernas, nossos belos brancos, nossa natureza[715].»
As coisas, contudo, mudaram logo com o advento nos anos 1950 do movimento cinema novo, para quem um dos desafios do cinema devia ser ao contrário mostrar o país tal como é, e que conseguirá se impor no plano internacional ao levar às telas a sociedade brasileira em seu conjunto[716]. «A terra longínqua e quente, filmada de modo primitivo, tendo por personagens principais seres humanos que vivem em condições precárias mas que são detentores de uma cultura própria, vai tornar-se», se dermos crédito ao ensaísta Fernão Ramos, «a matéria fonte de inspiração da nova geração[717].» A influência do neorrealismo italiano foi aqui determinante: nos dois casos, cinema novo e neorrealismo italiano, trata-se de um tipo de cinema marcado pelo humanismo e pela «realidade», movido por orçamentos modestos e sofrendo de condições de realização precárias, ao oposto do cinema hollywoodiano — todas características encorajando uma démarche de reflexão sobre a significação cultural do cinema e levando os jovens cineastas a encenar a realidade brasileira[718]. Paralelamente, na esfera literária, o romance regionalista nordestino dos anos 1930 fará figura de referência dessa nova busca, que correspondia a duas ambições maiores comuns dos autores e dos jovens cineastas: aquela primeiro de renovar totalmente a expressão mesma, isto é, de elaborar uma linguagem nacional bebendo nos elementos da cultura e da mitologia nacionais, e aquela em seguida de um engajamento político e social tendente a fazer o inventário do subdesenvolvimento a fim de denunciá-lo[719]. Nessa época, por razões ideológicas e sociais, o Nordeste era um dos assuntos privilegiados no cinema, com nomeadamente a seca e suas consequências como temática dominante, o sertão aparecendo então de certo modo como a metáfora do país[720].
Uma série de filmes porá assim o sertão em honra, entre os quais em particular o que se convencionou nomear a tríade sagrada do cinema novo, a saber: Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e Os Fuzis, de Ruy Guerra, todos três saídos em 1963. É nessas três obras que se nota sem dúvida o impacto mais significativo da obra e das ideias euclidianas, e onde, portanto, se encontrará indiretamente o mais forte eco de Canudos. Com efeito, se se examina brevemente o percurso intelectual desses três cineastas, podemos neles recolocar um encontro pessoal entre cada cineasta e a obra de Da Cunha, cada qual segundo suas próprias preocupações políticas. O baiano Glauber Rocha está todo impregnado das representações de Da Cunha, e, se não fez certamente nunca uma adaptação direta de Os Sertões, nem pôs em imagens o drama de Canudos, ele encenou deuses, demônios, conselheiros, cangaceiros, beatos, santos guerreiros inspirados no universo de Da Cunha, mais particularmente em Deus e o Diabo na Terra do Sol. Nelson Pereira dos Santos, paulista instalado no Rio de Janeiro, embora reconhecesse a influência de Da Cunha, escolheu adaptar outros textos literários tratando do Nordeste e do sertão, nomeadamente Vidas secas (1963) e Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos, e Tenda dos Milagres (1977) e Bahia de Todos os Santos (1986) de Jorge Amado.
Dez anos antes da tríade acima evocada, O Cangaceiro, de Lima Barreto, com diálogos de Rachel de Queiroz, havia obtido em 1953 o prêmio de melhor filme de aventura em Cannes. Embora de tipo hollywoodiano, o filme deixava nitidamente transparecer o indissolúvel apego do sertanejo à sua terra[721].
Nos anos 1995-2000, o sertão nordestino está de volta às telas brasileiras, com A Guerra de Canudos de Sérgio Rezende (em 1997) e Central do Brasil de Walter Salles (em 1998). Rezende é o primeiro e o único até hoje (2014) a se ter arriscado a uma encenação direta de Os Sertões e a não se ter deixado amedrontar pela envergadura da obra-prima de Da Cunha ou ainda (principalmente por falta de meios financeiros) pelo número de cenários e de figurantes necessários. Anteriormente, em 1972, Ruy Guerra havia trabalhado na elaboração de um roteiro a partir do texto de Da Cunha em colaboração com Mario Vargas Llosa, mas esse projeto nunca foi adiante, por razões pessoais. A adaptação de Os Sertões por Rezende, a despeito de um orçamento imponente (6 milhões de reais), sua duração (2h40) e a participação de atores de renome deve, segundo Sylvie Debs, ser considerado um fracasso. Em vez de manter Antônio Conselheiro interpretado por José Wilker como personagem principal, o realizador optou por se focalizar nas peripécias de uma família cuja filha se recusa a seguir seus pais a Canudos. O realizador abandona a dimensão religiosa, e o filme não permite compreender a gênese da comunidade de Canudos, nem o que esta representa. Ficamos impressionados com um certo número de desvios em relação à história tal como contada por Da Cunha; assim o próprio caráter atribuído no filme a Antônio Conselheiro é desnorteante: ele aparece como um ser assustador e raivoso, longe da imagem de peregrino místico benevolente que Da Cunha deu dele[722].
O filme de Salles, Central do Brasil, embora longe de ser uma adaptação de Os Sertões, contém, contudo, quantidade de elementos pertencentes ao seu universo. Como Da Cunha, opõe o norte ao sul, o sertão ao litoral, mas desta vez de modo inverso: em relação ao sul urbano, corrompido e violento, coloca o norte rural, honesto e hospitaleiro. Sylvie Debs vê nesse filme um canto de esperança, que proclama a possibilidade de uma mudança, não mais pela rebelião mas pela descoberta dos valores humanos e por uma revolução das almas[712].
Por fim, há lugar para assinalar também alguns filmes documentários consagrados a Canudos: Canudos (1976), de Ipojuca Pontes, com Walmor Chagas (Brasil, 1978)[723]; Paixão e guerra no sertão de Canudos (1993), de Antônio Olavo; Os 7 sacramentos de Canudos (1994, título alemão Die sieben Sakramente von Canudos), filme realizado por Peter Przygodda para a ZDF alemã, com a participação dos encenadores brasileiros Joel de Almeida, Jorge Furtado, Otto Guerra, Luís Alberto Pereira, Pola Ribeiro, Ralf Tambke e Sandra Werneck[724] · [725]; Sobreviventes - Os Filhos da Guerra de Canudos, de Paulo Fontenelle, realizado por Canal Imaginário, 2004/2005[726].
No teatro
- O Teatro Oficina de São Paulo tirou dessa saga sertaneja uma longa adaptação teatral, começada em 2001, e que se escalonou depois por 25 horas de representação no total. Compunha-se de três partes: a Terra, o Homem (I e II) e a Luta (I e II). A peça foi também representada na Alemanha, no Festival de teatro de Recklinghausen e na Volksbühne de Berlim.
- Uma outra adaptação teatral da guerra de Canudos, com o título O Evangelho Segundo Zebedeu, foi realizada em 1971 pelo Teatro União e Olho Vivo de São Paulo, sobre um texto de César Vieira (pseudônimo de Idibal Piveta).
Ver também
- Acervo da Guerra de Canudos
- Massacre da Gravata Vermelha
- Batalha de Uauá
- Caldeirão de Santa Cruz do Deserto - movimento considerado um "novo Canudos", liderado por José Lourenço Gomes da Silva
- José Aras
- Guerra do Contestado, conflito armado entre posseiros e pequenos proprietários de terra contra o Estado Brasileiro, ocorrido entre 1912 e 1916, nos estados do Paraná e Santa Catarina
Notas
- ↑ Cabe deter-se neste termo jagunço. Quanto à sua etimologia, é comumente aceito que a palavra é de origem oeste-africana e constitui uma alteração de zarguncho, designando uma arma de guerra semelhante a uma pique ou a uma lança, ainda que uma minoria de autores a derive do vocábulo tupi jaguar, pois as pessoas autodenominadas jagunços gostavam de se comparar a felinos. Os dicionários da segunda metade do século XIX, notadamente o Aulete de 1888, dão uma definição bastante restrita: homem de coragem (mas também valentão), e guarda-costas a serviço de um proprietário de terras ou de um dono de engenho de açúcar. Os dicionários mais modernos, como o Freire de 1957, dão, além dos sentidos anteriores, o de capanga, de sertanejo, de camponês, de bandido de estrada (equivalente a cangaceiro), e de pique. Antes de 1897, jagunço era usado sobretudo na Bahia e significava um miliciano empregado por coronéis, os quais precisavam deles para assegurar seu poder local e regional; mais especificamente, jagunços foi o termo usado para designar as milícias privadas envolvidas nos violentos combates entre certos coronéis na Chapada Diamantina em 1895 e 1896. A partir da terceira expedição a Canudos, jagunço será o termo privilegiado e onipresente na imprensa para fazer referência aos combatentes de Canudos. No entanto, o campo de aplicação do termo logo se estenderá para abranger impropriamente toda a população de Canudos — extensão de sentido certamente pertinente na medida em que todos os residentes, mulheres e crianças incluídos, estavam de alguma maneira envolvidos nas operações militares. Em todo caso, o discurso midiático tendencioso sobre Canudos realizava assim uma manobra linguística tendente a criminalizar os canudenses em seu conjunto. Da Cunha dá à palavra o sentido geral de sertanejo nordestino, ou mais especificamente de vaqueiro, enquanto em Nina Rodrigues jagunço tomará o sentido de uma categoria antropológica onde predominam as características do jagunço em sua acepção de bandido. Mais tarde, a palavra adquiriu progressivamente uma conotação positiva, e isso já no discurso (nunca pronunciado) de Rui Barbosa diante do parlamento do Rio, onde declara: « Jagunços? Deus dê ao Brasil muitos desses, quando lhe perigar a liberdade, ou se houver de medir com o inimigo estrangeiro. Imposto a tais homens, esse nome, em vez de os desdoirar, se enobrece a si mesmo. » (Jagunços? Deus dê ao Brasil muitos desses, quando lhe perigar a liberdade, ou se houver de medir com o inimigo estrangeiro. Imposto a tais homens, esse nome, em vez de os desonrar, se enobrece a si mesmo. Cf. Obras completas, Vol. XLVII, 1920, tomo III, p. 137.). Mesmo quando o escritor Afonso Arinos usou a palavra jagunço para se referir aos sertanejos em geral, isso aliás sem a menor conotação pejorativa, e abstração feita de alguns usos irônicos (o professor Calasans p. ex. chamava suas estudantes de jaguncinhas), permanece que usar o termo para designar os canudenses em geral dá margem a confusão e deveria ser evitado. Ver D. D. Bartelt, (2003), p. 247-252.
- ↑ A igreja popular do sertão era hierarquizada, comportando de fato beatos e conselheiros. Honório Vilanova, notável personagem de Canudos que conseguiu escapar bem no final da guerra e que o historiador José Calasans pôde interrogar, contou a este que conhecera em 1873, no Ceará, o beato Antônio (Maciel), e que o vira mais tarde, na Bahia, mas desta vez na qualidade de conselheiro. Honório Vilanova precisou que um conselheiro estava acima de um beato, e que ao beato cabia a missão de rezar orações, cantar as ladainhas, pedir esmola para financiar os trabalhos da igreja, ao passo que o conselheiro, mais versado nas matérias religiosas, estava habilitado a pregar e a prodigalizar conselhos. Um conselheiro podia ter sob suas ordens um ou vários beatos; era o caso de Antônio Conselheiro, a quem vários beatos eram subordinados (Calasans 1986, p. 1).
- ↑ Observa-se aliás uma similitude entre essas ações (arrancamento de cartazes, incêndio dos painéis municipais etc.) e o modus operandi dos revoltosos ditos quebra-quilos. Em sua obra Quebra-Quilos. Lutas sociais no outono do Imperio (p. 203-204), o historiador Armando Souto Maior considerou verossímil que Maciel tivesse convivido, durante sua estada no Pernambuco, precisamente em 1874, com os sertanejos que participavam do Quebra-Quilos; parece portanto legítimo admitir uma influência destes últimos sobre a atitude refratária que Maciel desenvolverá subsequentemente.
- ↑ Ou, se se quiser outro ponto de comparação, a população de Canudos era igual a mais de um décimo da de São Paulo em meados da década de 1890. Cf. Levine, 1995, p. 2, 16.
- ↑ Levine menciona o rio Tapiranga, mas é sem dúvida Itapicuru que se deve ler (Tapiranga é uma pequena localidade situada nesse rio), cf. Levine, 1995, p. 159.
- ↑ Em particular, segundo Emídio Dantas Barreto,
(E. Dantas Barreto, Accidentes de guerra, Rio Grande do Sul, ed. Livraria Rio-Grandense, R. Strauch, 1905).teve vários ataques graves entre Queimadas e Monte Santo. Em Serra Branca, queixou-se de uma sensação esquisita que enchia seus ouvidos de um som metálico persistente. A marcha teve novamente que ser interrompida em Cansanção, às 23 horas, essa sensação desagradável continuando a atormentá-lo; falava com dificuldade, sua fala era pastosa, inacabada, e a língua, talvez sonolenta, atrapalhava a clara expressão de seus pensamentos. Uma hora depois, nas proximidades de Quirinquinquá, mais uma vez assaltado por seu mal, desceu do cavalo e teve uma crise horrível. A crise cessou subitamente e Moreira César, afadigado e quebrado, embora plenamente consciente, descansou e dormiu até o dia seguinte. Entre Monte Santo e Cumbe (a atual localidade de Euclides da Cunha), em Lajinha, o coronel sofreu sucessivamente duas novas crises, mas menos graves que as primeiras.
- ↑ Ver, sobre o estado da imprensa no Brasil nessa época, D. D. Bartelt, 2003, p. 159-164. Bartelt diz discordar de Levine quando este coloca que a reação à derrota da 3ª expedição foi uma psicose artificial, fabricada de alto a baixo pela imprensa, por espírito de sensacionalismo; para o historiador alemão, esse pânico correspondia a uma inquietação real e justificada, cf. D. D. Bartelt, 2003, p. 176.
- ↑ Rui Barbosa também, mas já em maio de 1897, refutará peremptoriamente a tese do antirrepublicanismo como móvel principal de Canudos. Barbosa, aquele mesmo que reclamará, após o massacre, um habeas corpus a título póstumo para os Canudenses, insistiu, como Da Cunha mas em termos muito mais rudes, na incompatibilidade civilizacional e se esforçou por elevar Canudos a um paradigma da anticivilização e a apresentá-lo como um concentrado de doenças sociais, exigindo, por conseguinte, saneamento e desinfecção: «Canudos não é senão o acúmulo monstruoso da escória moral do sertão. Canudos é a crueldade das lutas primitivas, a rudeza dos instintos camponeses, a credulidade da incultura analfabeta; Canudos é o banditismo pilhador e a delinquência, a inflexível mentalidade belicosa do ódio local, a escória dos campos e da cidade, o refugo do desocupo, da miséria, do quartel e do presídio. Todos esses sedimentos orgânicos da anarquia, carreados de todos os recantos do Brasil e encalhados no estuário das baías afastadas do nosso interior, puderam aí fermentar e chocar em toda tranquilidade durante 20 anos sob o efeito do fascínio por um iluminado, do delírio de uma alucinação supersticiosa. A indulgência tipicamente brasileira deixou esse processo anormal e ameaçador se desenrolar sem entrave durante 20 anos e atravessar dois regimes políticos. O homem, com efeito, não parecia ser senão um inofensivo monomaníaco religioso. Contudo, isso deveria acarretar essas consequências inéditas e fatais.» (citado por D. D. Bartelt, 2003, p. 204). Em contraponto, mencionemos a reação do escritor carioca Machado de Assis, intelectual do sul, então com 45 anos, que numa crônica de 22 de julho de 1894, publicada em A Semana - Gazeta de Notícias e intitulada Canção de Piratas, se atreveu a fazer um singular elogio de Antônio Conselheiro, agradecendo-lhe por ter sabido, ele e seus jagunços, cortar todos os laços com a realidade perclusa e enfadonha de sua época, e escreveu: «Jornais e telegramas dizem dos clavinoteiros e dos sequazes do Conselheiro que são criminosos; nem outra palavra pode sair de cérebros alinhados, registrados, qualificados, cérebros eleitores e contribuintes. Para nós, artistas, é a renascença, é um raio de sol que, através da chuva miúda e aborrecida, vem dourar-nos a janela e a alma. É a poesia que nos levanta do meio da prosa chilra e dura deste fim de século.» (Cf. Wikisource).
Referências
- ↑ a b Levine 1995, p. 25.
- ↑ Levine 1995, p. 13.
- ↑ Levine 1995, p. 11.
- ↑ Levine 1995, p. 12.
- ↑ Levine 1995, p. 40.
- ↑ August Willemsen, posfácio a De binnenlanden, p. 531.
- ↑ da Cunha 1993, p. 48, 69.
- ↑ da Cunha 1993, p. 160, 204.
- ↑ Levine 1995, p. 79.
- ↑ da Cunha 1993, p. 60.
- ↑ A palavra sertão tem por plural sertões.
- ↑ da Cunha 1993, p. 103.
- ↑ da Cunha 1993, p. 50, 60.
- ↑ da Cunha 1993, p. 52.
- ↑ da Cunha 1993, p. 48, 51.
- ↑ da Cunha 1993, p. 56.
- ↑ da Cunha 1993, p. 66-68, 81.
- ↑ da Cunha 1993, p. 65, 67.
- ↑ da Cunha 1993, p. 47.
- ↑ a b Levine 1995, p. 77.
- ↑ a b c D. D. Bartelt, (2003), p. 65.
- ↑ da Cunha 1993, p. 58.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 76-77. A notar que esses dados demográficos variam fortemente de uma fonte contemporânea para outra.
- ↑ da Cunha 1993, p. 131, 135.
- ↑ Levine 1995, p. 91.
- ↑ Levine 1995, p. 155.
- ↑ a b Levine 1995, p. 73.
- ↑ Levine 1995, p. 82.
- ↑ Levine 1995, p. 47, 155.
- ↑ da Cunha 1993, p. 163-164.
- ↑ Levine 1995, p. 199.
- ↑ a b Levine 1995, p. 107.
- ↑ da Cunha 1993, p. 165.
- ↑ a b Levine 1995, p. 88.
- ↑ Levine 1995, p. 81.
- ↑ da Cunha 1993, p. 146-147, 150.
- ↑ da Cunha 1993, p. 81.
- ↑ a b Levine 1995, p. 116.
- ↑ a b c Levine 1995, p. 92.
- ↑ Segundo o relatório do inspetor do Tesouro da Bahia de 12 de maio de 1896, citado por Levine, 1995, p. 43.
- ↑ Levine 1995, p. 45.
- ↑ José Alípio Goulart, Brasil do boi e do couro (Rio de Janeiro, ed. GRD, 1964-1965; João Camilo de Oliveira Torres, Estratificação social no Brasil (São Paulo, ed. DIFEL, 1965). Citados por Levine, 1995, p. 85.
- ↑ a b Levine 1995, p. 115.
- ↑ Levine 1995, p. 106.
- ↑ Levine 1995, p. 101-102.
- ↑ a b c Levine 1995, p. 86.
- ↑ Levine 1995, p. 98.
- ↑ Levine 1995, p. 89.
- ↑ Levine 1995, p. 116-117.
- ↑ a b Levine 1995, p. 57.
- ↑ Alguns dos primeiros coronéis (plural de coronel, = coronel em português), eram graduados da guarda nacional, daí a denominação. No entanto, os coronéis das municipalidades do sertão estavam longe de ser todos militares. Cf. Levine, 1995, p. 94.
- ↑ Levine 1995, p. 94-95.
- ↑ Levine 1995, p. 97.
- ↑ Levine 1995, p. 114.
- ↑ Levine 1995, p. 99.
- ↑ Levine 1995, p. 100.
- ↑ a b Levine 1995, p. 93.
- ↑ Levine 1995, p. 75, 115.
- ↑ Levine 1995, p. 56-57.
- ↑ Levine 1995, p. 101.
- ↑ Levine 1995, p. 43.
- ↑ a b Levine 1995, p. 90.
- ↑ a b Levine 1995, p. 75.
- ↑ Levine, 1995, p. 93, citando Francisco Vicente Vianna, Memória do Estado da Bahia, Salvador, 1893.
- ↑ a b Levine 1995, p. 105.
- ↑ Levine 1995, p. 85.
- ↑ Levine 1995, p. 117.
- ↑ a b D. D. Bartelt, (2003), p. 70.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 71.
- ↑ Eduardo Hoornaert, Verdadera e falsa religião no Nordeste (Salvador, ed. Benedina, 1991). Citado por Levine, 1995, p. 97.
- ↑ Levine 1995, p. 121.
- ↑ Levine 1995, p. 124.
- ↑ Levine 1995, p. 126.
- ↑ a b c d Levine 1995, p. 131.
- ↑ a b Levine 1995, p. 6.
- ↑ Levine 1995, p. 195.
- ↑ da Cunha 1993, p. 209.
- ↑ da Cunha 1993, p. 210.
- ↑ Levine 1995, p. 125.
- ↑ Levine 1995, p. 194.
- ↑ da Cunha 1993, p. 199.
- ↑ Levine 1995, p. 63-64.
- ↑ a b c Levine 1995, p. 147.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 52.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 48-49.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 48, nota 40.
- ↑ Levine 1995, p. 146.
- ↑ Marco Antônio Villa, Canudos. O povo da terra, ed. Ática, São Paulo 1995, p. 55; citado por D. D. Bartelt, (2003), p. 65.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 72. Bartelt se refere à cronologia dada por Pedro Jorge Ramos Vianna, Die wirtschaftlichen Grundlagen von Canudos, art. in ABP. Zeitschrift zur portugiesischsprachigen Welt, n.º 2, p. 111-125.
- ↑ Gumercindo Martins, Canudos: Juntando Cacos, in Revista Canudos, Predefinição:1ª ano (1996), n.º 1, p. 139 e segs.; citado por D. D. Bartelt, (2003), p. 72.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 73.
- ↑ Trata-se de J. P. Favilla Nunes, Guerra de Canudos: narrativa histórica. Rio de Janeiro, ed. Moraes, 1898.
- ↑ Testemunho do frei capuchinho João Evangelista de Monte Marciano, citado por da Cunha, 1993, p. 215.
- ↑ a b c d e Levine 1995, p. 133.
- ↑ a b c Levine 1995, p. 148.
- ↑ Citado por da Cunha, 1993, p. 202.
- ↑ Levine 1995, p. 162.
- ↑ da Cunha 1993, p. 204.
- ↑ da Cunha 1993, p. 217.
- ↑ a b c Levine 1995, p. 62.
- ↑ Levine 1995, p. 126, 158.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 82. Repartição racial estabelecida a partir de Yara Dulce Bandeira de Ataíde, As origens do povo do Bom Jesus Conselheiro, art. in Revista USP, n.º 20, ano 1994, p. 88-99 (leitura online)
- ↑ Levine 1995, p. 159.
- ↑ a b c D. D. Bartelt, (2003), p. 82.
- ↑ a b Levine 1995, p. 139.
- ↑ Levine 1995, p. 158-159.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 83.
- ↑ a b c Levine 1995, p. 157.
- ↑ Levine 1995, p. 183.
- ↑ a b Levine 1995, p. 132.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 71-72. Segundo J. Calasans, Canudos. Origem e desenvolvimento de um arraial messiânico, art. in Revista USP, n.º 54, ano 2002, p. 72-81 (leitura online).
- ↑ a b Levine 1995, p. 191.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 80. Bartelt se refere nomeadamente a J. Calasans, Canudos. Origem e desenvolvimento de um arraial messiânico, art. in Revista USP, n.º 54, ano 2002, p. 72-81.
- ↑ a b D. D. Bartelt, (2003), p. 90.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 91.
- ↑ a b c Levine 1995, p. 213.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 77.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 77-78. Número dado igualmente por Y. D. Bandeira de Ataíde, As origens do povo do Bom Jesus Conselheiro, art. in Revista USP, n.º 20, ano 1994.
- ↑ a b c D. D. Bartelt, (2003), p. 78.
- ↑ a b c D. D. Bartelt, (2003), p. 80.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 79. Segundo uma carta publicada no Jornal do Commercio em 12 de agosto de 1897.
- ↑ Segundo um art. de Gazeta de Notícias de 23 de agosto de 1897, citado por D. D. Bartelt, (2003), p. 79.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 80, apoiando-se em P. J. Ramos Vianna, art. Die wirtschaftlichen Grundlagen von Canudos, in ABP, n.º 2, ano 1997, p. 111-125 e em M. A. Villa, Canudos. O povo da terra, ed. Ática, São Paulo 1995, p. 220. R. M. Levine não examina a questão e se limita a retomar o número de 5 200 casas.
- ↑ Levine 1995, p. 240.
- ↑ Levine 1995, p. 241.
- ↑ Levine 1995, p. 227, 236.
- ↑ Mônaco Janotti, Maria de Lourdes. Os Subversivos da República. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 154.
- ↑ da Cunha 1993, p. 227.
- ↑ Levine 1995, p. 226.
- ↑ da Cunha 1993, p. 222.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 84.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 86. Bartelt cita Calasans, 1986, p. 53-69.
- ↑ a b Calasans 1986, p. 2-3.
- ↑ a b Calasans 1986, p. 2.
- ↑ a b Calasans 1986, p. 4.
- ↑ Calasans 1986, p. 4-5.
- ↑ Calasans 1986, p. 5.
- ↑ Calasans 1986, p. 5-6.
- ↑ Calasans 1986, p. 7.
- ↑ Calasans 1986, p. 8.
- ↑ Calasans 1986, p. 13-14.
- ↑ a b D. D. Bartelt, (2003), p. 86.
- ↑ Segundo nomeadamente o relatório do capuchinho Marciano, cf. D. D. Bartelt, (2003), p. 86.
- ↑ a b D. D. Bartelt, (2003), p. 88.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 87. Manoel Benício e outros faz menção desse comitê dos « Doze Apóstolos » (cf. O Rei dos jagunços, reed. Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro 1997, p. 91).
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 87. Manoel Quadrado é evocado por Calasans, 1986, p. 73-75, 78-80.
- ↑ a b c d D. D. Bartelt, (2003), p. 99.
- ↑ J. Calasans, Canudos. Origem e desenvolvimento de um arraial messiânico, art. in Revista USP, n.º 54, ano 2002, p. 471.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 88. Bartelt diz aderir ao ponto de vista de João dos Santos Filho, Guerra dos gravatas vermelhas: 35000 cabeças sem história, tese de doutorado, Pontificia Universidade Católica de São Paulo 1989, p. 243 e segs.
- ↑ Sangue de irmãos, edição de autor, Canudos 1974, citado por Bartelt, D. D. Bartelt, (2003), p. 88.
- ↑ Salomão de Sousa Dantas, Aspectos e Contrastes. Ligeiro estudo sobre o estado da Bahia, ed. Revista dos Tribunaes, Rio de Janeiro 1922. Citado por D. D. Bartelt, (2003), p. 89. Sousa Dantas era procurador (promotor público) no tribunal de Monte Santo durante a guerra de Canudos (cf. artigo de J. Calasans, p. 10).
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 89.
- ↑ Levine 1995, p. 163.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 74, citando nomeadamente M. Benício, O Rei dos jagunços, reed. 1997, p. 96.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 75.
- ↑ a b Levine 1995, p. 161.
- ↑ Levine 1995, p. 212-213.
- ↑ Levine 1995, p. 64.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 74-75.
- ↑ Segundo M. A. Villa, O Povo da terra, ed. Ática, São Paulo 1995. Citado por D. D. Bartelt, (2003), p. 75.
- ↑ Levine 1995, p. 65.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 74, referindo-se a M. A. Villa, Canudos. O povo da terra, ed. Ática, São Paulo 1995, p. 67.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 75-76.
- ↑ da Cunha 1993, p. 209, 217.
- ↑ da Cunha 1993, p. 211.
- ↑ Levine 1995, p. 154, 156.
- ↑ da Cunha 1993, p. 208.
- ↑ Levine 1995, p. 158.
- ↑ M. Benício, O Rei dos jagunços, reed. de 1997, p. 90 e J. Aras, Sangue de irmãos, Canudos 1974, p. 50. Citados por D. D. Bartelt, (2003), p. 92.
- ↑ Levine 1995, p. 96, 158.
- ↑ Levine 1995, p. 158, 239.
- ↑ J. Aras, Sangue de irmãos, p. 50 e M. A. Villa, Canudos. O povo da terra, p. 33. Citados por D. D. Bartelt, (2003), p. 92.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 93.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 92.
- ↑ M. A. Villa, Canudos. O povo da terra, p. 72. Citado por D. D. Bartelt, (2003), p. 93.
- ↑ da Cunha 1993, p. 211-212.
- ↑ Levine 1995, p. 168.
- ↑ Levine 1995, p. 166.
- ↑ da Cunha 1993, p. 211, 216, 220.
- ↑ Levine 1995, p. 167.
- ↑ Calasans, 1986, p. 2-3. Ver também Manuel Benício, O rei dos jagunços, p. 170, e Edmundo Moniz, A guerra social de Canudos, p. 129.
- ↑ João Evangelista do Monte Marciano, Relatório apresentado, em 1895, pelo reverendo frei João Evangelista do Monte Marciano, ao Arcebispado da Bahia, sobre Antônio “Conselheiro” e seu séquito no arraial dos Canudos, Typ. do Correio de Notícias, Salvador 1895, p. 4.
- ↑ Calasans 1986, p. 3.
- ↑ Nertan Macêdo, Memorial de Vilanova, ed. O Cruzeiro, Rio de Janeiro 1964.
- ↑ José Aras, Sangue de irmãos, citado em Calasans, 1986, p. 5.
- ↑ J. Aras, Sangue de irmãos, p. 24.
- ↑ a b Calasans 1986, p. 6-7.
- ↑ Manoel Benício, O Rei dos Jagunços, p. 168.
- ↑ Euclides da Cunha, Os Sertões, p. 282.
- ↑ Rinaldo de Fernandes, O Clarim e a Oração, Cem anos de Os Sertões, Geração Éditeur, São Paulo 2002, p. 469.
- ↑ Walnice Nogueira Galvão, No calor da Hora: a guerra de Canudos nos jornais, p. 366.
- ↑ Segundo Da Cunha; de dezoito homicídios segundo Levine (« wanted for eighteen murders in Volta Grande », cf. Vale of Tears, p. 165), que se baseia sem dúvida no número dado pelo capuchinho João Evangelista, Relatório, p. 5.
- ↑ a b c Calasans 1986, p. 11-12.
- ↑ J. Aras, Sangue de irmãos, p. 82.
- ↑ E. da Cunha, Os sertões, p. 549.
- ↑ Calasans 1986, p. 12-13.
- ↑ E. da Cunha, Caderneta de campo, Introd., notas e comentários de Olímpio de Souza Andrade, ed. Cultrix, São Paulo & INL, Brasília, 1975.
- ↑ E. da Cunha, Os sertões, p. 605.
- ↑ W. Nogueira Galvão, No calor da hora, p. 202.
- ↑ Euclides da Cunha, Os sertões, p. 606, citado em Calasans, 1986, p. 14-15.
- ↑ Alvim Martins Horcades, Descripção de uma viagem a Canudos, Litho-Typ. Tourinho, Salvador 1899, p. 110.
- ↑ Calasans 1986, p. 15.
- ↑ Calasans 1986, p. 16-18.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 42-43.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 44-45.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 46.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 98-99.
- ↑ Calasans, 1986, p. 53-69, citado por D. D. Bartelt, (2003), p. 86.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 100.
- ↑ Levine 1995, p. 134, 140.
- ↑ Levine 1995, p. 228.
- ↑ a b Levine 1995, p. 129.
- ↑ a b D. D. Bartelt, (2003), p. 101.
- ↑ Levine 1995, p. 229.
- ↑ a b c Levine 1995, p. 198.
- ↑ Levine 1995, p. 237.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 107.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 108. Bartelt constituiu um corpus de textos recolhendo principalmente artigos de imprensa e todos os tipos de relatórios oficiais. Sua obra Nation gegen Hinterland se atém mais particularmente a estudar em profundidade o tratamento discursivo que foi feito a Antônio Conselheiro e a seu movimento pelas elites do litoral e a gama de paradigmas que o subjazem.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 108.
- ↑ a b D. D. Bartelt, (2003), p. 112.
- ↑ Cf. carta do pároco Novaes a seu bispo, abril de 1876. Citado por D. D. Bartelt, (2003), p. 111.
- ↑ Segundo a circular do bispo Dos Santos de Salvador, fevereiro 1882. Citado por D. D. Bartelt, (2003), p. 111.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 113.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 114.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 116.
- ↑ Carta do presidente da província da Bahia ao ministro do Interior, o barão de Mamoré, Salvador 15 de junho de 1887, citada por D. D. Bartelt, (2003), p. 119.
- ↑ Obras Completas de Rui Barbosa. O Partido Republicano Conservador, Discursos Parlamentares, vol. XXIV, 1897, tomo I, Imprensa Nacional, Rio de Janeiro 1952, p. 69. O texto português original está reproduzido nesta página.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 210. A última frase é traduzida literalmente de Bartelt.
- ↑ Obras Completas de Rui Barbosa. O Partido Republicano Conservador, Discursos Parlamentares, vol. XXIV, 1897, tomo I, Imprensa Nacional, Rio de Janeiro 1952, p. 68.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 210-213.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 214-217.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 125.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 126.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 127.
- ↑ Citações encontradas em D. D. Bartelt, (2003), p. 128.
- ↑ a b D. D. Bartelt, (2003), p. 131.
- ↑ Seu relatório, inicialmente publicado em 1895, foi reeditado em 1987, sob forma de fac-símile, pelas prensas universitárias da UFBA, sob o título de Relatório apresentado pelo Revd. Frei João Evangelista Marciano ao Arcebispado da Bahia sobre Antônio Conselheiro e seu séquito no arraial de Canudos.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 129.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 147.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 153-154.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 157. A expressão consenso de aniquilamento é de Bartelt (« Vernichtungskonsens »), D. D. Bartelt, (2003), p. 199 e passim.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 143. A carta de Gonçalves a Morais está datada de 8 de março de 1897.
- ↑ Carta do capitão Salvador Pires de Carvalho e Aragão ao general Solon, Salvador, 6 de dezembro de 1896 (arquivos IHBG, citado por D. D. Bartelt, (2003), p. 103.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 199.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 134.
- ↑ da Cunha 1993, p. 235.
- ↑ da Cunha 1993, p. 238-240.
- ↑ da Cunha 1993, p. 243.
- ↑ da Cunha 1993, p. 242.
- ↑ da Cunha 1993, p. 245.
- ↑ da Cunha 1993, p. 246.
- ↑ da Cunha 1993, p. 247.
- ↑ da Cunha 1993, p. 248.
- ↑ da Cunha 1993, p. 249.
- ↑ da Cunha 1993, p. 250.
- ↑ Pires Ferreira, Manuel da Silva. Relatório do Tenente Pires Ferreira, comandante da Expedição contra Canudos. Quartel da Palma, 10 de dezembro de 1896.
- ↑ da Cunha 1993, p. 251.
- ↑ da Cunha 1993, p. 252.
- ↑ a b da Cunha 1993, p. 524.
- ↑ da Cunha 1993, p. 269.
- ↑ da Cunha 1993, p. 276.
- ↑ a b da Cunha 1993, p. 277.
- ↑ da Cunha 1993, p. 262.
- ↑ da Cunha 1993, p. 278.
- ↑ da Cunha 1993, p. 279.
- ↑ da Cunha 1993, p. 280.
- ↑ da Cunha 1993, p. 281.
- ↑ da Cunha 1993, p. 256.
- ↑ da Cunha 1993, p. 257.
- ↑ da Cunha 1993, p. 282-283.
- ↑ da Cunha 1993, p. 284-285.
- ↑ da Cunha 1993, p. 287-288.
- ↑ da Cunha 1993, p. 289.
- ↑ da Cunha 1993, p. 290.
- ↑ da Cunha 1993, p. 291.
- ↑ da Cunha 1993, p. 292.
- ↑ da Cunha 1993, p. 293.
- ↑ da Cunha 1993, p. 294.
- ↑ da Cunha 1993, p. 295.
- ↑ da Cunha 1993, p. 297-298.
- ↑ da Cunha 1993, p. 318, 321.
- ↑ da Cunha 1993, p. 309.
- ↑ {{Oleone Coelho Fontes, O Treme-Terra. Moreira César. A República e Canudos. Predefinição:2ª ed. Petrópolis, ed. Vozes, 1996.}}
- ↑ Cf. Artigo no site SCIELO: When epilepsy may have changed history: Antônio Moreira César as the commander of the third expedition in the war of Canudos, por Elza Márcia Targas Yacubian.
- ↑ da Cunha 1993, p. 313.
- ↑ da Cunha 1993, p. 314.
- ↑ da Cunha 1993, p. 315.
- ↑ da Cunha 1993, p. 316-317.
- ↑ da Cunha 1993, p. 318-320.
- ↑ da Cunha 1993, p. 321.
- ↑ da Cunha 1993, p. 322.
- ↑ da Cunha 1993, p. 324.
- ↑ da Cunha 1993, p. 326.
- ↑ da Cunha 1993, p. 326-327.
- ↑ da Cunha 1993, p. 328.
- ↑ da Cunha 1993, p. 334.
- ↑ da Cunha 1993, p. 335-336.
- ↑ da Cunha 1993, p. 337-338.
- ↑ da Cunha 1993, p. 340.
- ↑ da Cunha 1993, p. 341, 343.
- ↑ da Cunha 1993, p. 342.
- ↑ da Cunha 1993, p. 344.
- ↑ da Cunha 1993, p. 346-347.
- ↑ da Cunha 1993, p. 347.
- ↑ da Cunha 1993, p. 348-349.
- ↑ da Cunha 1993, p. 352-353.
- ↑ da Cunha 1993, p. 356.
- ↑ da Cunha 1993, p. 358.
- ↑ da Cunha 1993, p. 359.
- ↑ da Cunha 1993, p. 360.
- ↑ Introdução ao Brasil - Um Banquete no trópico, obra coletiva sob a dir. de Lourenço Dantas Mota, ed. Senac, São Paulo 1999, contrib. de Walnice Nogueira Galvão, p. 167.
- ↑ «WAR STATS REDIRECT». users.erols.com. Cópia arquivada em 9 de junho de 2026
- ↑ A saber: Liberdade e Gazeta da Tarde. Sobre as circunstâncias de sua morte, ver p. ex. O Assassinato do Coronel Gentil José de Castro, por Afonso Celso, Paris 1897, consultável online
- ↑ da Cunha 1993, p. 372.
- ↑ da Cunha 1993, p. 375.
- ↑ da Cunha 1993, p. 378.
- ↑ E não Withworth, como escrevia Euclides da Cunha e, em sua esteira, outros autores.
- ↑ da Cunha 1993, p. 384.
- ↑ da Cunha 1993, p. 377.
- ↑ da Cunha 1993, p. 379.
- ↑ da Cunha 1993, p. 382.
- ↑ da Cunha 1993, p. 385-386.
- ↑ da Cunha 1993, p. 389.
- ↑ da Cunha 1993, p. 391.
- ↑ da Cunha 1993, p. 393.
- ↑ da Cunha 1993, p. 395.
- ↑ da Cunha 1993, p. 398.
- ↑ da Cunha 1993, p. 396-398.
- ↑ da Cunha 1993, p. 404.
- ↑ da Cunha 1993, p. 407-408.
- ↑ da Cunha 1993, p. 409-413.
- ↑ da Cunha 1993, p. 414-415.
- ↑ da Cunha 1993, p. 417-418.
- ↑ da Cunha 1993, p. 420.
- ↑ da Cunha 1993, p. 419.
- ↑ da Cunha 1993, p. 422-423.
- ↑ da Cunha 1993, p. 423-425.
- ↑ da Cunha 1993, p. 400.
- ↑ da Cunha 1993, p. 426-427.
- ↑ da Cunha 1993, p. 429.
- ↑ da Cunha 1993, p. 434-436.
- ↑ da Cunha 1993, p. 431.
- ↑ da Cunha 1993, p. 430-445.
- ↑ da Cunha 1993, p. 441-444.
- ↑ da Cunha 1993, p. 447.
- ↑ da Cunha 1993, p. 450-452.
- ↑ da Cunha 1993, p. 454-459.
- ↑ da Cunha 1993, p. 461.
- ↑ da Cunha 1993, p. 465-466.
- ↑ As chefes-lugares dos Estados do Brasil são chamadas de capitais.
- ↑ da Cunha 1993, p. 482.
- ↑ da Cunha 1993, p. 483.
- ↑ da Cunha 1993, p. 481.
- ↑ da Cunha 1993, p. 477.
- ↑ da Cunha 1993, p. 483-484.
- ↑ da Cunha 1993, p. 488-489.
- ↑ da Cunha 1993, p. 493.
- ↑ da Cunha 1993, p. 496-499.
- ↑ da Cunha 1993, p. 518.
- ↑ da Cunha 1993, p. 500-502.
- ↑ da Cunha 1993, p. 522-525.
- ↑ da Cunha 1993, p. 536.
- ↑ da Cunha 1993, p. 535-537.
- ↑ da Cunha 1993, p. 537-538.
- ↑ A. Willemsen, De taal als bril, p. 331.
- ↑ da Cunha 1993, p. 567.
- ↑ da Cunha 1993, p. 539-540.
- ↑ da Cunha 1993, p. 558-561.
- ↑ da Cunha 1993, p. 562-563.
- ↑ da Cunha 1993, p. 573-575.
- ↑ da Cunha 1993, p. 577.
- ↑ da Cunha 1993, p. 578.
- ↑ da Cunha 1993, p. 581-584.
- ↑ da Cunha 1993, p. 587.
- ↑ da Cunha 1993, p. 592.
- ↑ Para a versão original portuguesa, cf. Wikisource, Os Sertões.
- ↑ José Calasans, Euclides da Cunha nos jornais da Bahia, in Cartografia de Canudos, Secretaria de Cultura e Turismo, Salvador 1997, p. 130-131.
- ↑ Le Brésil face à son passé, intervenção de Roberto Ventura, p. 57.
- ↑ Não nos explicamos a expressão « de maneira bastante velada » usada aqui por Roberto Ventura (le Brésil face à son passé, p. 57), se não que Da Cunha deixou o véu sobre a verdadeira amplitude do fenômeno.
- ↑ Le Brésil face à son passé, intervenção de Roberto Ventura, p. 56.
- ↑ August Willemsen, De binnenlanden, posfácio, p. 522.
- ↑ August Willemsen, De binnenlanden, posfácio, p. 525.
- ↑ Zama, César. Libello Republicano Acompanhado de Comentários sobre a Campanha de Canudos. Salvador, 1899
- ↑ Alvim Martins Horcades, Descrição de uma Viagem a Canudos, Salvador, 1899. Reeditado em 1996.
- ↑ Levine 1995, p. 187.
- ↑ Le Brésil face à son passé, intervenção de Roberto Ventura, p. 57. Alusão a da Cunha, 1993, p. 552.
- ↑ a b D. D. Bartelt, (2003), p. 266.
- ↑ D. D. Bartelt, (2003), p. 268.
- ↑ Prudente de Morais, in Jornal do Commercio (Rio de Janeiro) de 8 de outubro de 1897 (« Em Canudos não ficará pedra sobre pedra, para que não mais possa reproduzir-se aquela cidadela maldita e este serviço a Nação deve ao heróico e correto Exército. »). Citado por Roberto Ventura, le Brésil face à son passé, p. 59.
- ↑ Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 28 de outubro de 1897, citado por Walnice Nogueira Galvão, No calor da hora, ed. Ática, Predefinição:2ª edição, São Paulo 1977, p. 207.
- ↑ Luitgarde O. Cavalcanti Barros, Crença e parentesco na guerra de Canudo, in Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes e João Arrudo (dir.), Canudos as falas e os olhares, ed. da UFC, Fortaleza 1995, p. 80.
- ↑ a b V. Sattamini Varão Monteiro, (2011), p. 121.
- ↑ a b Cavalcanti Barros, p. 80.
- ↑ a b c Levine 1995, p. 35.
- ↑ Levine 1995, p. 37, 59.
- ↑ Levine 1995, p. 58.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 138.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 139-140.
- ↑ a b Levine 1995, p. 142-143.
- ↑ Levine 1995, p. 144-145.
- ↑ Levine 1995, p. 136.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 140.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 141.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 144.
- ↑ Levine 1995, p. 23.
- ↑ a b Levine 1995, p. 56.
- ↑ Levine 1995, p. 22, 24.
- ↑ Levine 1995, p. 37, 41.
- ↑ Levine 1995, p. 39.
- ↑ a b c D. D. Bartelt, 2003, p. 176.
- ↑ Maria de Lourdes Monaco Janotti, Os Subversivos da República, ed. Brasilense, São Paulo 1986, p. 85.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 146-147.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 148.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 151.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 176-177.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 178-179.
- ↑ José Murilo de Carvalho, As Forças Armadas na Primeira República; O Poder Destabilizador, in Boris Fausto (dir.), História Geral da Civilização Brasileira, tomo XIX, p. 181-234, ed. Dífel, São Paulo 1990.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 194-196.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 182.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 183-184.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 181.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 185.
- ↑ É D. D. Bartelt que levanta esses três pontos, cf. D. D. Bartelt, 2003, p. 186.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 189.
- ↑ Rui Barbosa, Obras Completas, vol. 24, tomo 1, p. 59 e segs. Citado por D. D. Bartelt, 2003, p. 190.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 187.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 196.
- ↑ Levine 1995, p. 7.
- ↑ Levine 1995, p. 18.
- ↑ Levine 1995, p. 59.
- ↑ da Cunha 1993, p. 514.
- ↑ a b Levine 1995, p. 9.
- ↑ a b Levine 1995, p. 49.
- ↑ a b Levine 1995, p. 28.
- ↑ Levine 1995, p. 243, 245.
- ↑ Levine 1995, p. 28-29.
- ↑ Levine 1995, p. 29.
- ↑ Levine 1995, p. 30-31.
- ↑ Levine 1995, p. 48.
- ↑ Levine 1995, p. 31, 33.
- ↑ Levine 1995, p. 31.
- ↑ a b Levine 1995, p. 33.
- ↑ Levine 1995, p. 39, 104.
- ↑ Levine 1995, p. 108.
- ↑ Levine 1995, p. 109.
- ↑ a b Levine 1995, p. 111.
- ↑ Levine 1995, p. 128-129.
- ↑ a b Levine 1995, p. 127.
- ↑ Levine 1995, p. 144.
- ↑ Levine 1995, p. 197.
- ↑ Levine 1995, p. 199-200.
- ↑ Levine 1995, p. 30-32.
- ↑ Levine 1995, p. 134.
- ↑ Levine 1995, p. 140.
- ↑ Levine 1995, p. 130.
- ↑ Essa visita é contada minuciosamente por Levine, 1995, p. 149-150; também por da Cunha, 1993, p. 225-230.
- ↑ Levine 1995, p. 205.
- ↑ Levine 1995, p. 203.
- ↑ Levine 1995, p. 91, 96.
- ↑ Levine 1995, p. 119.
- ↑ Levine 1995, p. 94.
- ↑ Levine 1995, p. 206.
- ↑ Levine 1995, p. 149.
- ↑ Levine 1995, p. 138.
- ↑ Levine 1995, p. 142.
- ↑ Levine 1995, p. 227.
- ↑ Levine 1995, p. 238.
- ↑ Levine 1995, p. 229-230.
- ↑ Para esta seção, valemo-nos largamente da exposição da historiadora Élise Grunspan-Jasmin, intitulada l’Épidémie de Canudos : Nina Rodrigues et Euclides da Cunha e publicada em le Brésil face à son passé, p. 99-113.
- ↑ Le Brésil face à son passé, É. Grunspan-Jasmin, p. 102.
- ↑ Levine 1995, p. 206-207.
- ↑ Le Brésil face à son passé, É. Grunspan-Jasmin, p. 103.
- ↑ a b Le Brésil face à son passé, É. Grunspan-Jasmin, p. 104.
- ↑ Levine 1995, p. 207.
- ↑ a b c Levine 1995, p. 207-208.
- ↑ Le Brésil face à son passé, É. Grunspan-Jasmin, p. 105-106.
- ↑ a b c Le Brésil face à son passé, É. Grunspan-Jasmin, p. 107.
- ↑ Le Brésil face à son passé, É. Grunspan-Jasmin, p. 109.
- ↑ Le Brésil face à son passé, p. 108.
- ↑ Le Brésil face à son passé, É. Grunspan-Jasmin, p. 109.
- ↑ Levine 1995, p. 291, nota 40.
- ↑ Abguar Bastos, A visão histórico-sociológica de Euclides da Cunha, São Paulo, Editora Nacional, 1986, p. 7-8.
- ↑ Levine 1995, p. 209.
- ↑ Rui Facó, Cangaceiros e fanáticos, p. 833.
- ↑ Levine 1995, p. 210.
- ↑ Levine 1995, p. 8.
- ↑ Cláudio Maia et alii, Canudos - Um Povo Entre a Utopia e a Resistência, p. 51-53.
- ↑ Datiloscrito descoberto nas gavetas do autor após sua morte, datando provavelmente do início da década de 1970, e conservado na fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Citado parcialmente por Luís-Sérgio Santos, em sua biografia de Rui Facó, Rui Facó — O Homem e sua Missão, Fortaleza (2014), p. 67-69.
- ↑ Cláudio Maia et alii, Canudos - Um Povo Entre a Utopia e a Resistência, p. 53-54.
- ↑ Cláudio Maia et alii, Canudos - Um Povo Entre a Utopia e a Resistência, p. 54-56.
- ↑ Proposta de lei apresentada pelo deputado Sérgio Cruz à Câmara dos Deputados em 19 de agosto de 1983, p. 3 (utilizamos a paginação do datiloscrito).
- ↑ Proposta de lei de S. Cruz, p. 5.
- ↑ Proposta de lei de S. Cruz, p. 6.
- ↑ Proposta de lei de S. Cruz, p. 8.
- ↑ Proposta de lei de S. Cruz, p. 9.
- ↑ Proposta de lei de S. Cruz, p. 10.
- ↑ Proposta de lei de S. Cruz, p. 10-11.
- ↑ Proposta de lei de S. Cruz, p. 13.
- ↑ Proposta de lei de S. Cruz, p. 14.
- ↑ Proposta de lei de S. Cruz, p. 17.
- ↑ Proposta de lei de S. Cruz, fim do documento (página não numerada).
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 223.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 225.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 218.
- ↑ M. A. Villa, O Povo da terra, p. 192.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 219.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 220, nota 280.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 221.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 222.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 227. Testemunha também a meticulosa ordem de precedência segundo a qual o Senado do Brasil apresentou suas felicitações oficiais às diferentes frações vitoriosas: primeiro à Nação inteira, depois ao exército, depois aos regimentos dos estados federados, etc. (D. D. Bartelt, 2003, p. 224).
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 226.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 226-227.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 227-228.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 232.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 275.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 285-287.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 285.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 286.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 262.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 292.
- ↑ a b c d D. D. Bartelt, 2003, p. 293.
- ↑ Sílvia Maria Azevedo, O Rei dos jagunços de Manuel Benício. Entre a Ficção e a História, prefácio à reed. de O Rei dos jagunços nas ed. da universidade de São Paulo, São Paulo 2003, p. 27.
- ↑ a b c D. D. Bartelt, 2003, p. 294.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 27.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 28-29.
- ↑ Alvim Martins Horcades, Descrição de uma viagem a Canudos, ed. EGBA-EDUFBA, Salvador 1996, p. 2.
- ↑ Alexander Magnus Silva Pinheiro, Uma experiência do front: a guerra de Canudos e a Faculdade de Medicina da Bahia, monografia de licenciatura, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, Salvador 2009, p. 95 (leitura online)
- ↑ Alvim Martins Horcades, op. cit. (1899), p. 155.
- ↑ Alexander Magnus Silva Pinheiro, Uma experiência do front, monografia de licenciatura, p. 98.
- ↑ M. Benício, O Rei dos jagunços, p. 155. Citado por S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 29.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 29.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 289.
- ↑ Nota de J. Calasans para a reedição de 1998 dos libelos de César Zama (leitura online)
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 289-290.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 290.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 291-292.
- ↑ Citado numa monografia no site da fundação Joaquim Nabuco.
- ↑ Acidentes da Guerra, ed. Liv. Rio-Grandense, Rio Grande do Sul 1905 (2ª edição: Recife, Livraria Econômica, 1984.
- ↑ Henrique Duque-Estrada de Macedo Soares, A Guerra de Canudos, ed. Typ. Altiva, Rio de Janeiro 1902.
- ↑ Gregorio Ferreira Gomes Filho, Sombras da historiografia brasileira: Marreca e o regimento militar do Pará em Canudos, monografia publicada na revista da Predefinição:Lien e extraída da monografia de fim de estudos do autor, universidade federal do Pará, Belém 2007, p. 3 (leitura online)
- ↑ Ver também Anderson Alexandre Cruz Vilhena, Agentes da ordem e da desordem. Polícia, política, e sociedade no Pará de 1879 a 1904, monografia de mestrado, universidade federal do Pará, Belém 2014, p. 75 e segs.
- ↑ a b G. Ferreira Gomes, Marreca e o regimento militar do Pará em Canudos, p. 7.
- ↑ G. Ferreira Gomes, Marreca e o regimento militar do Pará em Canudos, p. 8.
- ↑ Orvácio Marreca, A Milícia Paraense e a Sua Heróica Atuação, p. 22.
- ↑ G. Ferreira Gomes, Marreca e o regimento militar do Pará em Canudos, p. 9.
- ↑ G. Ferreira Gomes, Marreca e o regimento militar do Pará em Canudos, p. 10.
- ↑ Orvácio Marreca, A Milícia Paraense e a Sua Heróica Atuação na Guerra de Canudos, ed. Guajarina, Belém 1937, p. 54.
- ↑ Orvácio Marreca, A Milícia Paraense e a Sua Heróica Atuação, p. 49.
- ↑ G. Ferreira Gomes, Marreca e o regimento militar do Pará em Canudos, p. 4.
- ↑ a b G. Ferreira Gomes, Marreca e o regimento militar do Pará em Canudos, p. 5.
- ↑ Cf. le Brésil face à son passé, comunicação de Élise Grunspan-Jasmin, p. 100, nota 1.
- ↑ Levine 1995, p. 168-169.
- ↑ Reed. Portfolium, Salvador 2002. ISBN 978-8-589-40601-7
- ↑ Ed. O cruzeiro, Rio de Janeiro 1964.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 263.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 31.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 265.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 32.
- ↑ a b c d D. D. Bartelt, 2003, p. 264.
- ↑ a b V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 33.
- ↑ a b Levine 1995, p. 188.
- ↑ Lélis Piedade, Histórico e relatório do Comitê Patriótico da Bahia, Salvador, impr. Reis, Salvador 1901, citado em Calasans, 1986, p. 7.
- ↑ Calasans 1986, p. 7-8.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 37-38.
- ↑ a b V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 90.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 268.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 82.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 83.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 87.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 88.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 89.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 91-92.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 95.
- ↑ a b V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 97.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 98.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 100.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 101.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 102.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 126.
- ↑ Jornal da Bahia de 7 de novembro de 1897.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 127.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 128.
- ↑ Calasans 1986, p. 61.
- ↑ J. Calasans, Favila Nunes, Repórter em Canudos, p. 6-7.
- ↑ Calasans 1986.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 237.
- ↑ Elisa Pereira Reis, O Estado nacional como ideologia: o caso brasileiro, in Estudos históricos, 1988/2 p. 191 (leitura online)
- ↑ Afrânio Coutinho e José Galante de Sousa, Enciclopédia de literatura brasileira, ed. Global, São Paulo 1990, p. 1133.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 238.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 239.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 239-240.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 240-242.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 243.
- ↑ Sílvio Romero, História da literatura brasileira, ed. Garnier, Rio de Janeiro 1888 (reed. José Olímpio, 1953/54), p. 85.
- ↑ Sílvio Romero, Estudos sobre a poesia popular do Brasil, ed. Laemmert, Rio de Janeiro 1888 (reed. Vozes, Petrópolis 1977), p. 266.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 244.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 245.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 246.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 248-249.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 253.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 253-257.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 257-259.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 288.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 235.
- ↑ Alvim Martins Horcades, Descrição de uma viagem a Canudos, ed. EGBA-EDUFBA, Salvador 1996, p. 131.
- ↑ A Nação - Faculdade de Direito da Bahia (3.11.1897). Republicado na Revista da Fundação Pedro Calmon, 1997, p. 130-142.
- ↑ Lélis Piedade, Histórico e Relatório do Comitê Patriótico da Bahia. Salvador, 1901. Reeditado em 2003.
- ↑ Rui Barbosa, Terminação da Guerra de Canudos, in Obras Completas de Rui Barbosa, vol. 24, tomo 1, 1897, p. 299-304 (versão online). Ver também Levine, 1995, p. 28.
- ↑ da Cunha 1993, p. 34.
- ↑ Introdução ao Brasil - Um Banquete no trópico, sob a dir. de Lourenço Dantas Mota, contrib. de Walnice Nogueira Galvão, p. 168.
- ↑ a b Levine 1995, p. 242.
- ↑ Levine 1995, p. 4-5.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 269.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 269, nota 64.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 270.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 271.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 272.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 273.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 274.
- ↑ Afonso Arinos de Melo Franco, artigo publicado em O Commercio de São Paulo de 9 de outubro de 1897, citado por D. D. Bartelt, 2003, p. 274.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 295.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 307.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 296.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 305.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 306.
- ↑ A esse respeito, ver as primeiras páginas do capítulo III de Os Sertões, nomeadamente a famosa caracterização do sertanejo como «Hércules-Quasímodo» (p. 140), e D. D. Bartelt, 2003, p. 296-297.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 297-298.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 309.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 315.
- ↑ Conforme o dito de Berthold Zilly. Citado por D. D. Bartelt, 2003, p. 310.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 314.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 316.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 318-319.
- ↑ da Cunha 1993, p. 138.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 320.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 323.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 322.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 323-325.
- ↑ da Cunha, 1993, p. 87-90, a exemplo do que os franceses realizaram na Tunísia.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 326.
- ↑ da Cunha 1993, p. 101.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 328.
- ↑ Aristides Augusto Milton, A Campanha de Canudos, Salvador, universidade federal da Bahia, 1979. Citado por V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 107.
- ↑ Conforme Odorico Tavares, Canudos 50 anos depois, ed. Conselho Estadual de Cultura / Academia de Letras da Bahia / Fundação Cultural do Estado da Bahia, Salvador 1993. Citado por V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 116.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 108.
- ↑ a b V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 109.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 117.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 111.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 110.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 112.
- ↑ a b V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 113.
- ↑ V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 114.
- ↑ Segundo José Alôncio, citado por José Roberval Freire da Silva, Migrantes Canudenses em São Paulo: a memória num contexto de discriminação. Cf. V. Sattamini Varão Monteiro, 2011, p. 110.
- ↑ Esta peça pode ser lida online no site Literatura Digital da UFSC.
- ↑ Manuel das Dores Bombinho, Canudos, história em versos, Hedra, Imprensa Oficial do Estado e Editora da Universidade Federal de São Carlos, São Paulo, 2ª edição, 2002.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 298.
- ↑ Calasans, 1984, p. 1. A esse respeito, ver também O Ciclo Folclórico do Bom Jesus Conselheiro (1950), do mesmo José Calasans.
- ↑ da Cunha 1993, p. 213.
- ↑ a b Calasans 1984, p. 3.
- ↑ Calasans 1984, p. 4.
- ↑ Calasans, 1984, p. 5. Essas obras são reproduzidas integralmente no livro de Calasans, ao mesmo tempo que vários poemas dos ABC.
- ↑ A Guerra de Canudos no sertão da Bahia, Livraria do Povo, Quaresma & Cia. Livreiros Editores, Rio de Janeiro 1897.
- ↑ Calasans 1984, p. 5-6.
- ↑ João Melchiades Ferreira da Silva, A Guerra de Canudos, s.l.p., s.c.p., s.d.
- ↑ Calasans 1984, p. 7.
- ↑ Calasans 1984, p. 8.
- ↑ Calasans 1984, p. 9-11.
- ↑ Saiu das prensas da Casa Editora de Francisco Lopes, Belém.
- ↑ Calasans 1984, p. 9.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 30.
- ↑ A guerra dos jagunços: o conflito de Canudos e o sertanejo nos escritos de Afonso Arinos, artigo de Flávio Raimundo Giarola, publicado em Revista de História 5, 1-2 (2013), p. 209. A citação de Prado é extraída de O catolicismo, a Companhia de Jesus e a colonização do Brasil, em III centenário do venerável Joseph de Anchieta, ed. Aillaud, Paris & Lisboa 1900, p. 47.
- ↑ Afonso Celso, Porque me ufano do meu país, p. 114.
- ↑ F. R. Giarola, A guerra dos jagunços, p. 210.
- ↑ Vanderson Roberto Pedruzzi Gaburo, O sertão vai virar gente, p. 125.
- ↑ Georges Raeders, O inimigo cordial do Brasil: O Conde de Gobineau no Brasil, ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro 1988, p. 90; F. R. Giarola, A guerra dos jagunços, p. 216.
- ↑ F. R. Giarola, A guerra dos jagunços, p. 216-217.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 31.
- ↑ a b c D. D. Bartelt, 2003, p. 299.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 32.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 300.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 301.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 300-301.
- ↑ Vanderson Roberto Pedruzzi Gaburo, O sertão vai virar gente, p. 120-121; F. R. Giarola, A guerra dos jagunços, p. 215.
- ↑ A. A. Melo Franco, “Os jagunços”, p. 244; F. R. Giarola, A guerra dos jagunços, p. 215.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 13.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 14.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 14-16.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 17.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 18.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 18-19.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 19-20.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 22.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 25.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 26.
- ↑ a b S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 34.
- ↑ Manoel Benício, O Rei dos Jagunços, ed. Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2ª edição 1997.
- ↑ a b D. D. Bartelt, 2003, p. 301-302.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 302.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 303.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 304.
- ↑ S. M. Azevedo, Prefácio 2003, p. 37.
- ↑ D. D. Bartelt, 2003, p. 304-306.
- ↑ Robert Bontine Cunninghame Graham (1920). A Brazilian mystic: being the life and miracles of Antonio Conselheiro (em inglês). Nova Iorque: Dodd, Mead and Company. 253 páginas
- ↑ Cf. Levine, 1995, p. 5: «The Englishman R. B. Cunninghame Graham simply appropriated Da Cunha’s entire story, though without making a single reference to Os Sertões, which had not yet been translated into English (and would not be until 1944).».
- ↑ Lucien Marchal, Le Mage du Sertão, ed. Plon, Paris 1952.
- ↑ Ver a análise de Régis Tettamanzi, em le Brésil face à son passé, p. 147-157.
- ↑ Márai, Sándor. Ítélet Canudosban (lit. Veredito em Canudos), 1970. Romance em húngaro, não traduzido.
- ↑ Mario Vargas Llosa, título esp. original La guerra del fin del mundo, Seix Barral, Barcelona 1981. Trad. francesa, La Guerre de la fin du monde, Gallimard, 1983. ISBN 2-070-37823-3.
- ↑ Aleilton Fonseca (2009). O Pêndulo de Euclides. romance. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 210 páginas. ISBN 978-85-286-1402-2 (tradução francesa por Dominique Stoenesco, sob o título La guerre de Canudos. Une tragédie au cœur du Sertão, nas ed. Petra, Paris 2017, 238 páginas).
- ↑ Ver e.a. a análise de Girleide Barbosa Fontes:«O Pêndulo de Euclides, mais que ficção: Um diálogo entre história, memória e identidade» (PDF). Salvador: Universidade do Estado da Bahia / 29º Simpósio de história nacional. Consultado em 27 de novembro de 2018. Cópia arquivada (PDF) em 9 de junho de 2026.
- ↑ Para Canudos no cinema, ver a comunicação de Sylvie Debs em Le Brésil face à son passé, p. 159-173, da qual damos aqui uma síntese.
- ↑ a b Le Brésil face à son passé, S. Debs, p. 172.
- ↑ Le Brésil face à son passé, S. Debs, p. 163.
- ↑ Paulo Emílio Salles Gomes, Humberto Mauro, Catagueses, p. 89-90, citado por S. Debs, Le Brésil face à son passé, p. 165.
- ↑ Cinearte, Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1929, citado por S. Debs, Le Brésil face à son passé, p. 165.
- ↑ Le Brésil face à son passé, S. Debs, p. 165.
- ↑ Fernão Ramos, História do cinema brasileiro, Art Editora, São Paulo, 1987, p. 320. Citado por S. Debs, Le Brésil face à son passé, p. 166.
- ↑ Le Brésil face à son passé, S. Debs, p. 166.
- ↑ Le Brésil face à son passé, S. Debs, p. 167.
- ↑ Le Brésil face à son passé, S. Debs, p. 169.
- ↑ Le Brésil face à son passé, S. Debs, p. 171-2.
- ↑ Le Brésil face à son passé, S. Debs, p. 171.
- ↑ Canudos – página web consagrada ao documentário no IMDb.
- ↑ Die sieben Sakramente von Canudos - página web consagrada ao filme no IMDb
- ↑ Le Brésil face à son passé, S. Debs, p. 168.
- ↑ Sobreviventes - Canal Imaginário, página consagrada ao filme.
Bibliografia
- Calasans, José (1997). Cartografia de Canudos. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, EGBA
- Cunha, Euclides da (2013). Os Sertões 🔗 (PDF). Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro. Cópia arquivada (PDF) em 7 de março de 2026
- Galvão, Walnice Nogueira (1977). No Calor da Hora: a guerra de Canudos nos jornais. São Paulo: Ática
- Galvão, Walnice Nogueira (2001). O Império do Belo Monte: Vida e morte de Canudos. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo
- Macedo, José Rivair; Maestri, Mário (2004). Belo Monte: uma história da guerra de Canudos. São Paulo: Expressão Popular
- Moniz, Edmundo (2001). Canudos: A luta pela terra. São Paulo: Global
- Levine, Robert M. (1995). Vale of Tears: Revisiting the Canudos Massacre in Northeastern Brazil, 1893-1897 (em inglês). Berkeley/Los Angeles/Londres: University of California Press. 353 páginas. ISBN 0-520-20343-7
(trad. port. sob o título O sertão prometido: o massacre de Canudos). - Euclides da Cunha (1993). Hautes Terres. La guerre de Canudos (em francês). Paris: Métailié. 634 páginas. ISBN 978-2-86424-855-2 (Tradução, prefácios, cronologia e glossário por Jorge Coli e Antoine Seel).

- August Willemsen (1987). De taal als bril. in twintig stukken (em neerlandês). Amsterdam: De arbeiderspers. pp. 314 e segs. ISBN 90-295-5743-5 (Coletânea de ensaios e artigos de imprensa sobre a literatura lusófona).

- Muzart-Fonseca dos Santos, Idelette; Denis Rolland (2005). Le Brésil face à son passé. la guerre de Canudos. Col: Recherches & documents Amérique latine (em francês). coord. de Denis Rolland. Paris: L’Harmattan. 215 páginas. ISBN 2-747-58077-6

- Dawid Danilo Bartelt (2003). Nation gegen Hinterland. Der Krieg von Canudos in Brasilien. ein diskursives Ereignis (em alemão). Stuttgart: Franz Steiner Verlag. 352 páginas. ISBN 3-515-08255-7. Bartelt

- Cláudio Lopes Maia; Maria Dulce M. de Aguiar (1999). Canudos. um povo entre a utopia e a resistência. [S.l.]: Centro Popular de Estudos Contemporâneos. 375 páginas. ISBN 978-8523213763
- Rui Facó (2008). Cangaceiros e Fanáticos. Goiânia: Editora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ed. estabelecida por Carlos Nelson Coutinho, prefaciada por Leonilde Servolo Medeiros. Editado anteriormente na coleção Civilização Brasileira, Edições UFC, 1980. Primeira publicação pelas ed. Livraria São José, Rio de Janeiro, 1963).
- José de Souza Martins (1981). Os Camponeses e a Política no Brasil. Petrópolis: Vozes. 123 páginas
- Maria Isaura Pereira de Queiroz (1976). O Messianismo no Brasil e no Mundo. São Paulo: Alfa-ômega. 442 páginas. ISBN 978-8529500300
- José Calasans (1959). No tempo de Antônio Conselheiro. figuras e fatos da campanha de Canudos. Salvador: Publicações da Universidade da Bahia
- José Calasans (1968). Antônio Conselheiro e a escravidão. Salvador: S. A. Artes Gráficas
- José Calasans (1984). Canudos na literatura de cordel (PDF). São Paulo: Ática. 104 páginas. Cópia arquivada (PDF) em 9 de setembro de 2023

- José Calasans (1986). Quase biografia de jagunços. Salvador: UFBA. Cópia arquivada em 9 de setembro de 2023

- José Calasans (1997). Cartografia de Canudos. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da Bahia
- Marco Antônio Villa (1995). Canudos, o povo da terra. São Paulo: Ática. 278 páginas. ISBN 978-8508055913
- Edmundo Moniz (2001). Canudos. A Luta Pela Terra. [S.l.]: Gaia/Global
- Edmundo Moniz (1978). A Guerra Social de Canudos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira
- Walnice Nogueira Galvão (2001). O Império do Belo Monte. Vida e Morte de Canudos. [S.l.]: Fundação Perseu Abramo
- Frederico Pernambucano de Mello (2014). A Guerra Total de Canudos. [S.l.]: Escrituras
- Vanessa Sattamini Varão Monteiro (2011). Crianças do sertão: a história de vida dos jaguncinhos da guerra de Canudos (Tese de Doutorado). Margarida de Souza Neves. Rio de Janeiro: PUC-Rio. 152 páginas. Satta. Cópia arquivada em 26 de abril de 2025
Ligações externas
- Canudos - Um Povo Entre a Utopia e a Resistência, de Cláudio Maia, David Maciel, Sergio Paulo Moreyra e Sonia Aparecida Lobo, sobre o site do Instituto federal de educação, ciência e tecnologia de Goiás.
Content Disclaimer
Informasi ini disarikan dari Wikipedia dan disajikan kembali untuk tujuan edukasi. Konten tersedia di bawah lisensi CC BY-SA 3.0. Kami tidak bertanggung jawab atas ketidakakuratan data yang bersumber dari kontribusi publik tersebut.
- The information displayed on this website is sourced in part or in whole from Wikipedia and has been adapted for the purpose of restating it. We strive to provide accurate and relevant information, however:
- There is no guarantee of absolute accuracy. Wikipedia is an open, collaborative project that can be edited by anyone, so information is subject to change.
- It is not intended to constitute professional advice. The content displayed is for informational and educational purposes only. For important decisions (e.g., medical, legal, or financial), please consult a professional.
- Content copyright. Wikipedia is licensed under the Creative Commons Attribution-ShareAlike License (CC BY-SA). This means that content may be reused with appropriate attribution and shared under a similar license.
- Responsible use. Any risk arising from the use of information from this website is entirely the responsibility of the user.