Simbi

 Nota: Para outros significados, veja Simbi (desambiguação).
Simbi
Simbi
Ícone angolano de madeira representando Mamba Muntu, também chamada de Dona Fish
Espírito aquático
Culturas Congo • HuduPaloVodu haitiano
Morada Mares, rios, florestas, rochas

Simbi (no plural Bisimbi or Basimbi) é um espírito guardião das águas e da natureza, presente tanto na religião tradicional bakongo quanto em tradições espirituais da diáspora africana, como o vodu haitiano, o hudu no sul dos Estados Unidos e o palo em Cuba. Historicamente, os Simbi têm sido descritos como se manifestando na forma de seres aquáticos semelhantes a sereias, mas também como serpentes, centelhas de fogo, cabaças, objetos de cerâmica e árvores.

Devido ao tráfico transatlântico de escravizados, membros dos povos banto foram comprados ou capturados na África e levados para as Américas. Essa migração forçada de mais de 12,5 milhões de pessoas é a principal razão pela qual a veneração aos Simbi existe hoje em países como Estados Unidos, Brasil, Cuba e Haiti.

Etimologia

Embora existam poucos registros históricos escritos sobre a palavra simbi, há um consenso de que ela surgiu em comunidades de falantes de línguas bantas e do grupo linguístico congo, tendo provavelmente se originado como um meio de compreender a natureza espiritual do mundo ao seu redor.[1]

Alguns acreditam que a palavra simbi derive de simba, um termo em kikongo que significa "segurar", "manter" ou "preservar".[2] A expressão semelhante isimba ia nsi, que se traduz como "uma pessoa de destaque na comunidade", foi registrada em um dicionário de kikongo do século XVII. Essa expressão e outras, como kisímbi kinsí, que significa "a pessoa muito idosa que não morre", constituem alguns dos primeiros indícios da conexão espiritual dos bisimbi com a terra dos vivos e a terra dos mortos. A palavra basimbi também significa "guardiões", sendo que a expressão isimba ia nsi passou, posteriormente, a significar "guardiões da terra".[3]

Espiritualidade da África centro-ocidental

Na região centro-ocidental da África, os simbi influenciam a vida dos vivos de três maneiras: são espíritos tutelares de territórios específicos, encarnam em bebês gêmeos e outras crianças com características especiais e constituem as principais forças animadoras de objetos sagrados chamados de nkisi (no plural, minkisi). Seu papel como espíritos locais é de grande destaque nos mitos de migração de chefes importantes e nos rituais de investidura de chefes. Os mais poderosos desses espíritos estavam associados às unidades políticas mais importantes — como, por exemplo, os santuários de Bunzi e Lusunzi, no antigo reino de Ngoyo, na costa do Atlântico. Desde a destruição das estruturas políticas locais sob o domínio colonial, esses grandes espíritos dotados de nomes próprios caíram praticamente no esquecimento. Hoje em dia, os simbi são conhecidos sobretudo como espíritos anônimos, capazes de causar problemas caso não sejam tratados com o devido respeito. Quando ocorrem muitos acidentes em um trecho de estrada, caminhoneiros podem fazer pequenas oferendas aos simbi em algum curso de água próximo; da mesma forma, se um homem percebe, após mudar-se para uma casa nova, que algo vai mal (seja por estar sofrendo pesadelos ou vendo seus filhos adoecerem) pode ser aconselhado a lançar moedas para os quatro cantos do local a fim de aplacar os simbi daquela área.[4]

Alguns povos bakongo acreditam tradicionalmente que os bisimbi são espíritos das águas dotados de poderes mágicos (em kikongo: nkisi mia mamba) que podem manifestar-se na forma de uma pessoa, uma serpente, um objeto de cerâmica, uma trepadeira de cabaça ou um kalunga — uma centelha de fogo semelhante àquela que deu origem ao universo na mitologia de criação dos bakongo.[5] Há também relatos de bisimbi que aparecem como pássaros, árvores de formas retorcidas e seres semelhantes a sereias.[6] Eles são vistos como guardiões da natureza e como intermediários que transitam pela linha kalunga, situada entre ku seke (o mundo físico dos vivos) e ku mpémba (o mundo espiritual dos ancestrais). Acredita-se ainda que os bisimbi atuem como guias espirituais, utilizando a narrativa e a tradição oral para conectar os vivos aos ancestrais e à sua história.[7] A associação entre os anciãos vivos e os bisimbi, expressa na frase kisímbi kinsí, ressalta a importância dos anciãos bakongo para o bem-estar espiritual da comunidade e para a transmissão de suas crenças de uma geração para a seguinte.

Segundo o missionário e etnógrafo Karl Laman, com base em observações realizadas entre 1891 e 1919 junto ao povo basundi, os simbi eram espíritos locais da natureza, geralmente considerados protetores benevolentes de suas comunidades. Os basundi acreditavam que os simbi habitavam rios, montanhas, florestas, planícies e formações rochosas proeminentes, e podiam punir aqueles que os desrespeitassem ou violassem normas rituais. Suas origens eram interpretadas de diversas maneiras: algumas tradições os consideravam uma classe distinta de seres sobrenaturais, enquanto outras os associavam aos espíritos dos mortos, particularmente aos ancestrais que haviam passado por uma transformação adicional no mundo subterrâneo. Os basundi também viam os simbi como agentes morais que puniam transgressões, fosse diretamente, como ao fazer a canoa de um ladrão virar durante a travessia de um rio, ou indiretamente, por meio de ataque sde animais como crocodilos.[8]

Religiões da diáspora

Hudu afro-americano

A crença de que os bisimbi habitam rochas, ravinas, riachos e poços, e são capazes de influenciar a fertilidade e o bem-estar daqueles que vivem na região foi levada para os Estados Unidos por povos bakongo e ambundu escravizados. Visto que quarenta por cento dos africanos capturados durante o tráfico transatlântico de escravizados eram provenientes da Bacia do Congo, na África Central, e quarenta por cento de todas as pessoas escravizadas trazidas para a Carolina do Sul entre 1733 e 1807 eram de ascendência kongo ou ambundu, vindas de Angola, os bisimbi passaram a ser reverenciados nos Estados Unidos por comunidades negras, no âmbito da tradição hudu, em todo o sul americano.[9]

Relatos de avistamentos

O mais antigo registro conhecido sobre os espíritos simbi foi feito no século XIX por Edmund Ruffin, um rico proprietário de escravizados da Virgínia que viajou para a Carolina do Sul "para manter viável o sistema econômico escravista por meio de reformas agrícolas".

Ruffin relatou que um jovem escravizado foi buscar água em uma fonte tarde da noite e ficou muito assustado com um "cymbee" que corria em círculos ao redor da fonte. Embora Ruffin tenha encontrado poucas testemunhas que viram os cymbees, ele afirmou que, na crença geral dos escravizados, esses seres eram frequentes e numerosos. Parte da superstição ditava que ver um deles trazia má sorte caso a pessoa contasse sobre o ocorrido; a consequência certa para quem relatasse o encontro nas semanas seguintes seria a morte. Outro relato, feito por um homem escravizado, descrevia os espíritos simbi como seres de cabelos longos.[10]

Sukey e a Sereia

No folclore afro-americano, o povo Gullah Geechee, da região das terras baixas na Carolina do Sul, conta uma história infantil intitulada "Sukey e a Sereia" (Sukey and the Mermaid), que narra o encontro de uma menina chamada Sukey com uma sereia chamada Mama Jo. Na história, Mama Jo ajuda e protege Sukey, oferecendo-lhe apoio financeiro por meio de moedas de ouro. Essa história deriva da crença nos espíritos simbi da África Central. Na África, os espíritos da natureza simbi protegem seus seguidores e lhes concedem riquezas. Existem contos populares sobre encontros com sereias tanto na África Central quanto durante a travessia do Atlântico a bordo dos navios negreiros.[11]

Vodu haitiano

No vodu haitiano, Simbi é uma grande e diversificada família de loás. Apesar da natureza aquática de muitos simbi, vários deles são considerados membros da nanchon Petro, cujos membros são majoritariamente associados ao calor e ao fogo. Pesquisadores como Courlander e Desmangles entendem Simbi como uma versão Petro de Dambalá, o loá serpente que circunda o mundo.[12]

De acordo com o antropólogo belga Luc de Heusch, o Simbi Dlo ocupa uma posição intermediária entre os ritos Radá e Petro. Devido ao seu nome ("dlo" significa "água" em crioulo haitiano), ele poderia ser transferido para a nanchon Rada, que abriga loás gentis e relacionados ao frio. Simbi Dlo, porém, é representado como um bêbado, marido da temível Èzili Je Wouj (Erzilie de Olhos Vermelhos). Simbi Makaya ("makaya" significa "folhas" em kikongo) é um feiticeiro, enquanto Simbi Andezo ("simbi de duas águas", que é representado com um pé na água doce e outro na água salgada) é considerado o simbi das ervas medicinais e venenosas juntamente com Simbi Anpaka.[13]

Os praticantes de vodu acreditam que os Simbi são loás preguiçosos. Eles relutam em entrar no hunfò; acredita-se que, durante as cerimônias, eles se enroscam do lado de fora do terreiro e, tal como crianças pequena na companhia de adultos, mostram-se tímidos ao exibir seu conhecimento.[14]

Visto que tanto Dambalá como Simbi são associados a serpentes, os praticantes do vodu os identificam com São Patrício ou com Moisés; o primeiro, devido à famosa história de São Patrício expulsando as serpentes da Irlanda, e o segundo, devido ao milagre realizado por Moisés diante do faraó egípcio, quando ele lançou seu cajado ao chão e o transformou em uma serpente.[14]

Referências

  1. Brown 2012, p. 1-2.
  2. Brown 2012, p. 113-114.
  3. Brown 2012, p. 112.
  4. Heywood 2002, p. 213.
  5. Adams 2007, p. 9-10.
  6. Brown 2012, p. 113.
  7. Brown 2012, p. 97, 99, 114.
  8. Heywood 2002, p. 192-196.
  9. Adams 2007, p. 7.
  10. Adams 2007, p. 4–5.
  11. Connolly 2021, p. 79–83, 83–85..
  12. Desmangles 2000, p. 124-128.
  13. de Heusch, Luc (1989). «Kongo in Haiti: A New Approach to Religious Syncretism». Man. 24 (2): 290–303. ISSN 0025-1496. doi:10.2307/2803307. Cópia arquivada em 10 de maio de 2024 
  14. a b Desmangles 2000, p. 130.

Fontes

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