Roberto Simonsen

Roberto Simonsen
Nome completoRoberto Cochrane Simonsen
Nascimento
Morte
25 de maio de 1948 (59 anos)

Nacionalidadebrasileiro
OcupaçãoEngenheiro, intelectual, industrial, administrador, empresário, escritor e político

Roberto Cochrane Simonsen (Santos, 18 de fevereiro de 1889Rio de Janeiro, 25 de maio de 1948) foi um engenheiro, industrial, intelectual, administrador, empresário, escritor e político brasileiro. Atuou como presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deputado federal classista na Assembleia Nacional Constituinte de 1934 e senador por São Paulo. Foi um dos principais defensores da industrialização e do planejamento econômico no Brasil, notabilizando-se pela polêmica travada com o economista Eugênio Gudin em 1944–1945 sobre os rumos da política econômica brasileira.[1][2][3]

Origens e formação

Filho de Sidney Martin Simonsen, súdito britânico que se estabeleceu no Brasil ainda jovem, e de Robertina da Gama Cochrane, natural do Rio de Janeiro e oriunda de tradicional família de ascendência escocesa.[2][4] A mãe era parente de lorde Cochrane, célebre por sua participação nas lutas pela independência de nações sul-americanas.[2] Seu avô materno e padrinho, Inácio Wallace da Gama Cochrane, foi deputado à Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo entre 1870 e 1879, dirigiu importante firma de exportação de café em Santos e integrou a diretoria da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Inácio Cochrane foi também responsável pela fundação da Companhia Melhoramentos de Santos (The City of Santos Improvements), que, com participação de capitais ingleses, organizou os serviços de bondes, luz e água da cidade.[2][5]

Roberto Simonsen fez o curso primário no Colégio Tarquínio da Silva, em Santos, onde a família vivia. Enviado à capital paulista, passou a residir com o avô materno e cursou o secundário no Colégio Anglo-Brasileiro, tornando-se primeiro aluno da turma.[2] Aos 14 anos, matriculou-se na Escola Politécnica de São Paulo (hoje integrante da Universidade de São Paulo), onde obteve o diploma de engenharia civil em 1909.[2]

Ainda nesse ano, empregou-se na Southern Brazil Railway, considerada à época a melhor ferrovia de São Paulo, permanecendo na empresa até 1910.[2] Casou-se com Raquel Cardoso em 1911.[2]

Início da carreira empresarial em Santos

Em 1912, foi nomeado diretor-geral de obras da Prefeitura de Santos e, logo depois, engenheiro-chefe da Comissão de Melhoramentos do Município.[2] Deixou a administração pública ao fundar, ainda em 1912, em sociedade com os irmãos, a Companhia Construtora de Santos, empresa pioneira na área de planejamento urbano. A companhia realizou diversas obras na cidade, entre as quais a pavimentação de vias, a edificação da Bolsa do Café e da sede da Associação Comercial, uma base de aviação naval, armazéns e agências bancárias.[2] Seguidor dos princípios de Taylor, aplicou métodos de racionalização administrativa na empresa, que, segundo Heitor Ferreira Lima, alcançou expressivo sucesso e deu origem a outros empreendimentos.[2][3]

Entre os empreendimentos derivados da Companhia Construtora, destacaram-se a Companhia Santista de Habitações Econômicas, destinada à construção de casas para operários, e a Companhia Brasileira de Calçamento.[2] Com o apoio do prefeito Belmiro Ribeiro, Simonsen obteve a sanção, em julho de 1912, da Lei nº 501 da Câmara Municipal de Santos, que concedia incentivos a investidores na construção de casas populares.[2]

Em 1914, a Companhia Santista começou a erguer um conjunto habitacional para operários no bairro de Vila Belmiro, projeto que ficou incompleto em razão dos efeitos da Primeira Guerra Mundial sobre a economia. Simonsen denunciou a "concorrência desleal" exercida pela Prefeitura, que construíra casas de madeira isentas de fiscalização sanitária e tributária, atraindo a preferência popular. As moradias que a Companhia projetara para operários passaram a ser procuradas pela classe média, desviando-se dos objetivos iniciais.[2]

A crise econômica do período levou Simonsen a pedir a liquidação da Companhia Brasileira de Calçamento. Acusado de obter lucros ilícitos nessa operação, conseguiu provar publicamente a falsidade das alegações.[2]

Centro dos Construtores e Industriais de Santos

O prolongamento da guerra estimulou o crescimento fabril em São Paulo, impulsionado pela necessidade de substituição de importações. Nesse contexto, em 1916, Simonsen fundou e presidiu o Centro dos Construtores e Industriais de Santos, entidade voltada ao cadastro de trabalhadores, à criação de serviços de assistência e seguro operário e à instalação de escolas profissionais.[2]

Logo no início de sua gestão, organizou uma câmara de trabalho que, muito antes da criação formal da Justiça do Trabalho, funcionou de maneira não oficial como instância pioneira de conciliação entre patrões e empregados no país.[2] Ainda em 1916, adquiriu a Companhia Parque Balneário.[2]

Projeção nacional e missões internacionais

A partir do fim da Primeira Guerra Mundial, Roberto Simonsen passou a ganhar projeção no cenário público nacional. Em dezembro de 1918, em discurso no banquete oferecido em Santos ao recém-nomeado ministro da Agricultura, Antônio de Pádua Sales, defendeu a substituição dos métodos empíricos de produção pela organização científica do trabalho. Esse discurso, publicado com o título Orientação agrícola brasileira, impressionou Pádua Sales, que o convidou a integrar a missão comercial brasileira enviada à Inglaterra em junho de 1919, chefiada por João Pandiá Calógeras.[2]

A viagem à Inglaterra, iniciada um mês antes da posse de Epitácio Pessoa na presidência da República, teve notável êxito. Simonsen pronunciou discurso solicitando a vinda de capitais e técnicos para auxiliar o crescimento da economia brasileira, além de maior incremento nas relações comerciais entre os dois países. Seus artigos sobre a indústria de carnes frigoríficas e sobre oportunidades de negócios com madeira no Brasil foram publicados pelo Times de Londres.[2]

Durante a viagem, foi nomeado representante do Brasil no Congresso Internacional dos Industriais de Algodão, realizado em Paris em setembro de 1919, onde apresentou trabalho intitulado Possibilidades algodoeiras do Brasil e sugeriu a vinda de especialistas para introduzir no país técnicas de expansão da cotonicultura. Como consequência, veio ao Brasil o técnico Arno Pearce, que publicaria em 1922 o livro Brazilian Cotton.[2] Ainda em 1919, Simonsen participou da Conferência Internacional do Trabalho, realizada em Washington.[2]

Construção de quartéis para o Exército

Em 1919, a Companhia Construtora de Santos venceu a concorrência para a construção da Companhia Frigorífica de Santos, da qual Simonsen se tornou presidente. Nessa mesma época, assumiu a presidência da Companhia Frigorífica e Pastoril de Barretos.[2]

Em 1920, assinou contrato com Pandiá Calógeras, então ministro da Guerra do governo Epitácio Pessoa, para a construção de 103 estabelecimentos militares em 26 cidades de nove estados, em um projeto oficial de expansão e melhoria das instalações do Exército Brasileiro.[2] A maior parte das obras foi realizada entre princípios de 1922 e fins de 1923, sendo recebidas com hostilidade por parte de certos setores da imprensa, que denunciaram a existência de irregularidades ao novo presidente da República, Artur Bernardes, empossado em novembro de 1922. Ainda assim, Bernardes confiou à empresa novos trabalhos de engenharia no Sul do país, cancelados em dezembro de 1924 a pedido da própria firma devido às revoluções que conflagraram essa região em 1923 e 1924.[2] Uma devassa procedida em 1930 sobre esses contratos confirmaria a correção dos serviços prestados, levando Simonsen a publicar em 1931 A construção dos quartéis para o Exército, em que se defendeu de todas as acusações.[2]

Liderança empresarial na década de 1920

Ao longo da década de 1920, Simonsen consolidou-se como líder empresarial. Em 1923, passou a presidir o Sindicato Nacional dos Combustíveis Líquidos. No ano seguinte, assumiu a direção da Cerâmica São Caetano e, em 1926, criou a Companhia Nacional da Borracha e a Companhia Nacional de Artefatos de Cobre, dando início à fabricação nacional de produtos até então exclusivamente importados.[2]

Seguindo a tradição da família, ingressou no comércio do café, diversificando seus interesses. Em sociedade com o cunhado, Edwin Murray, fundou a Casa Comissária Murray, Simonsen e Cia. Ltda., que, durante o governo de Washington Luís (1926–1930), representou os banqueiros ingleses Lazard Brothers, financiadores do Instituto Paulista de Defesa do Café. Criou também a Companhia de Comércio do Café e a Brazil Warrants, ambas sediadas em Santos.[2]

A questão do asfalto em São Paulo

Em 1923, a prefeitura de São Paulo abriu concorrência para pavimentação da cidade especificando a marca do asfalto a ser utilizada — o asfalto natural produzido na ilha de Trinidad pela monopolista Barber Asphalt Company, cujo importador exclusivo era a firma Monteiro & Aranha. A empresa de Simonsen representava a Barret Company, que produzia um asfalto artificial derivado do petróleo. Com o apoio do vereador Luiz Augusto Pereira de Queiroz, Simonsen iniciou uma polêmica que resultou na publicação O calçamento de asfalto em São Paulo — aspecto técnico.[6]

Fundação do CIESP

Em dezembro de 1926, em entrevista ao O Jornal do Rio de Janeiro, Simonsen afirmou que a indústria e a agricultura se opunham ao rebaixamento artificial da taxa de câmbio determinado pelo governo federal para facilitar as importações. A adoção dessa medida, conhecida como "câmbio vil", levou os importadores a abarrotar o mercado nacional com tecidos estrangeiros, provocando sérias divergências entre empresários do comércio e da indústria, até então reunidos na Associação Comercial de São Paulo.[2]

Em janeiro de 1928, os industriais lançaram chapa própria para concorrer à direção da Associação Comercial, em oposição à chapa ligada ao comércio. A disputa culminou numa ruptura definitiva e na fundação, em 3 de junho de 1928, do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP), presidido por Francisco Matarazzo e tendo Roberto Simonsen como vice.[2] Na cerimônia de posse, Simonsen reivindicou ao governo maior proteção tarifária, sustentando que a indústria era motor da soberania econômica do país. Respondeu às acusações de que o setor fabril fosse "artificial" e causador de carestia, argumentando que o problema não era o custo de vida elevado, mas a baixa renda da população.[2]

Revolução Constitucionalista de 1932

O CIESP apoiou a candidatura de Júlio Prestes à presidência da República, opondo-se ao programa da Aliança Liberal (1929). Após a Revolução de 1930, que conduziu Getúlio Vargas ao poder, São Paulo ficou sob a interventoria do tenente João Alberto Lins de Barros, cuja gestão gerou forte resistência das elites políticas locais. A crescente tensão levou, em fevereiro de 1932, à formação da Frente Única Paulista (FUP), movimento que exigia a restauração da autonomia estadual e a reconstitucionalização do país.[2]

Com a deflagração da luta armada em 9 de julho de 1932, Simonsen assumiu a tarefa de converter a indústria paulista para fins bélicos. Sob sua liderança, o CIESP e a Associação Comercial de São Paulo articularam-se para garantir o abastecimento da capital, cercada pelas tropas do Governo Provisório.[2]

Durante o conflito, chefiou a Comissão de Cadastro e Mobilização Industrial, instituída pelo governo revolucionário de São Paulo, e atuou no Conselho Consultivo Econômico estadual, no Departamento Central de Munições e no Conselho de Assistência Civil. Em 30 de setembro de 1932, quando a capitulação estava próxima, convocou reunião da FIESP — cuja presidência exercia em caráter interino — e fez constar em ata a importância do trabalho da entidade na mobilização das indústrias para a guerra.[2] Após a derrota dos paulistas, selada pelo armistício de 2 de outubro, partiu em exílio voluntário para Buenos Aires, de onde retornou semanas depois.[2]

O IDORT e a Escola de Sociologia e Política

Ainda em 1932, fundou em São Paulo o Instituto de Organização Racional do Trabalho (IDORT), dedicado a estudos de racionalização produtiva, orientação profissional e condições de trabalho. No início de 1933, o IDORT organizou a produção em série numa fábrica de louças, planejou melhor distribuição de medicamentos em drogarias e auxiliou a reforma administrativa do governo estadual, chefiado pelo interventor Armando de Sales Oliveira.[2]

Integrou o movimento intelectual pela fundação da primeira escola superior a oferecer sociologia e política no Brasil, a Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), tornando-se vice-presidente do seu conselho superior e professor da cadeira de história econômica do Brasil, atividade que o levou a publicar vários trabalhos acadêmicos sobre o tema.[2] Pouco depois, foi eleito presidente do Instituto de Engenharia de São Paulo.[2]

Na Assembleia Nacional Constituinte de 1934

Em 1933, a situação política do país foi marcada pelas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, encarregada de redigir a nova Constituição, julgar os atos do Governo Provisório e eleger o presidente da República. Além dos deputados eleitos em pleito direto, estariam presentes representantes classistas escolhidos pelos sindicatos reconhecidos pelo governo. Os empregadores, coordenados pela Confederação Industrial do Brasil (CIB), realizaram em julho de 1933 uma convenção que elegeu seus 17 representantes à Constituinte. Entre eles, figuravam quatro paulistas: Roberto Simonsen, Horácio Lafer, Alexandre Siciliano Júnior e Antônio Carlos Pacheco e Silva.[2]

Durante os trabalhos da Constituinte, iniciados em 15 de novembro de 1933, os representantes patronais paulistas aliaram-se à bancada da Chapa Única por São Paulo Unido, herdeira política do movimento de 1932. Nessa condição, posicionaram-se contra a manutenção da representação profissional com poder deliberativo no Legislativo, sendo assim os únicos constituintes classistas a rejeitar a continuidade do modelo de mandato que detinham.[2]

Segundo a historiadora Ângela de Castro Gomes, os representantes classistas dos empregadores enfatizaram o caráter técnico da sua atuação, preocupando-se sobretudo em sugerir medidas para estimular o desenvolvimento industrial e comercial do país. Simonsen, Lafer e Siciliano Júnior foram os oradores mais ativos. Simonsen entendia que o amparo social aos trabalhadores era obrigação do poder público e direito da classe operária, cabendo ao Estado promover reformas que racionalizassem a regulamentação trabalhista e fomentassem a economia.[2] Ao mesmo tempo, insistia em que a iniciativa privada permanecesse como base da vida econômica, alertando contra os riscos de uma intervenção estatal excessiva.[2]

Os empregadores defendiam a ampliação do caráter federativo do regime político nacional, posição semelhante à da bancada paulista, que propunha que os estados ficassem encarregados de regulamentar e aplicar a legislação social — proposta severamente criticada pela bancada dos empregados e pelos setores tenentistas. A bancada dos empregadores foi ainda contrária ao cálculo do salário mínimo baseado nas medidas médias de uma família, defendendo com êxito a adoção de um salário de subsistência individual.[2]

Deputado federal e presidente da FIESP

A Constituinte encerrou seus trabalhos em 16 de julho de 1934, elegendo no dia seguinte Getúlio Vargas para a presidência da República. Simonsen foi novamente escolhido deputado classista pelos sindicatos de empregadores nas eleições de outubro de 1934 e assumiu a segunda-vice-presidência da CIB.[2] Na legislatura ordinária iniciada em maio de 1935, colaborou em estudos de problemas econômicos e sociais, integrou a Comissão Especial de Leis Complementares da Constituição e as comissões de Legislação Social e de Diplomacia e Tratados, além de participar na elaboração dos códigos de Águas, do Ar e dos Serviços Industrializados do Estado.[2]

Em 1935, Simonsen afirmou que a Constituição aprovada não correspondia à nova realidade do país, marcada pelo agravamento do conflito entre o governo e duas forças antagônicas: a Ação Integralista Brasileira (AIB) e a Aliança Nacional Libertadora (ANL). O jornal A Manhã, ligado à ANL, acusou-o de pressionar Vargas para reprimir essa organização, que viria a ser fechada em julho. Ao mesmo tempo, recebia ataques frequentes do líder integralista Gustavo Barroso, que o acusava de capitalista e "judeu".[2]

Nesse mesmo ano, assumiu a presidência da CIB (mais tarde transformada na Confederação Nacional da Indústria — CNI) e fundou a Companhia Imobiliária Nacional, a Sociedade Construtora Brasileira e a Fábrica de Tecidos Santa Helena. Em 1936, presidiu comissão de estudos sobre educação técnico-profissional, formada por diretores do CIESP.[2]

Presidente da FIESP e o Estado Novo

Em 1937, Simonsen alcançou a presidência da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), chefiando em seguida a delegação brasileira enviada à Conferência de Paz em Buenos Aires, onde apresentou tese sobre índices de padrão de vida no continente. No mesmo ano, ocupou a vaga de Euvaldo Lodi no Conselho Federal de Comércio Exterior (CFCE), órgão vinculado diretamente a Vargas para a formulação de política econômica. Em setembro, encaminhou ao CFCE parecer sobre medidas de fomento à expansão industrial.[2]

Com a implantação do Estado Novo em 10 de novembro de 1937 e o fechamento de todos os órgãos legislativos, Simonsen perdeu sua cadeira de deputado federal. Ainda assim, não se opôs à outorga da Constituição de 1937. Em janeiro de 1938, foi reeleito para a presidência da FIESP, o que provocou reações contrárias e o desligamento de quase trezentas empresas filiadas, entre elas as Indústrias Reunidas F. Matarazzo.[2]

Em 1938, ingressou no Conselho de Expansão Econômica do Estado de São Paulo, onde permaneceu até 1941. Em 1939, entrou para a Academia Paulista de Letras, tornou-se sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e publicou A evolução industrial do Brasil, trabalho encomendado pelo CFCE para ser apresentado à Missão Universitária Norte-Americana durante sua visita ao país.[2]

Atuação durante a Segunda Guerra Mundial

Entre 1940 e 1941, Simonsen advertiu reiteradamente empresas e autoridades sobre os impactos da Segunda Guerra Mundial no fornecimento de alimentos, matérias-primas e combustíveis, instando a indústria nacional a acelerar a produção de bens antes importados. Como presidente da FIESP, colaborou na implementação do racionamento de álcool industrial, sal e açúcar e na redução do consumo de combustíveis.[2]

Em novembro de 1942, passou a integrar o conselho consultivo da Coordenação da Mobilização Econômica (CME), órgão criado em setembro daquele ano para gerir a economia de guerra e operacionalizar os acordos de Washington — pelos quais o Brasil fornecia matérias-primas estratégicas aos Estados Unidos em troca de financiamento para projetos industriais.[2]

Em 1943, integrou a Comissão de Imposto Sindical, vinculada ao Ministério do Trabalho, e participou do I Congresso Brasileiro de Economia, realizado no Rio de Janeiro com 234 representantes de 192 entidades. O congresso aprovou recomendações sobre agricultura, comércio, finanças, desequilíbrios regionais, salários e bem-estar social, além de endossar a participação do Estado como administrador ou regulador das indústrias básicas.[2]

Em novembro de 1944, integrou a delegação brasileira enviada à Conferência de Rye, nos Estados Unidos, onde apresentou tese sobre a renda nacional, chamando a atenção para a situação dos países subdesenvolvidos e solicitando ajuda mais concreta e eficaz. No mês seguinte, foi um dos seis vice-presidentes do I Congresso Brasileiro da Indústria, organizado em São Paulo pela CNI e pela FIESP, com Getúlio Vargas como presidente de honra.[2]

Planejamento versus liberalismo: a polêmica com Gudin

Designado para o Conselho Nacional de Política Industrial e Comercial (CNPIC), vinculado ao Ministério do Trabalho, Simonsen preparou um relatório — concluído em agosto de 1944 — sobre as diretrizes que deveriam nortear o desenvolvimento industrial e comercial do Brasil. Com base em dados sobre renda nacional, distribuição per capita e balanço de pagamentos, o documento advogava maior participação do Estado no direcionamento da economia.[2]

O documento foi examinado por comissão composta por Euvaldo Lodi (presidente da CNI), João Daudt d'Oliveira (presidente da Federação das Associações Comerciais do Brasil), Heitor Grilo e Francisco de San Tiago Dantas, que formularam um plano geral de desenvolvimento. O plano fixava como objetivo multiplicar por quatro a renda nacional e sustentava que tal meta seria inatingível pela simples operação do mercado livre, propondo intervenção estatal por meio de planejamento e tarifas protecionistas para ampliar os investimentos industriais.[2]

Aprovado pelo CNPIC, o trabalho foi enviado à Comissão de Planejamento do Conselho de Segurança Nacional, cujo relator, o economista Eugênio Gudin, opôs-se às propostas. Gudin, identificado com posições liberais e crítico da industrialização dirigida pelo Estado, publicou em março de 1945 a coletânea Rumos da política econômica, refutando a ideia de planejamento e sugerindo reformas institucionais, como a criação de um banco central.[2]

Simonsen manteve suas posições. Em maio de 1945, durante a I Conferência das Classes Produtoras, realizada em Teresópolis, propôs a instalação de um ministério voltado exclusivamente à coordenação do desenvolvimento econômico, separado do Ministério da Fazenda, bem como de um órgão técnico de assessoramento direto ao presidente da República — proposta que se concretizaria posteriormente com a criação do Conselho Nacional de Economia. Na mesma ocasião, advertiu que o empresariado não podia ignorar as tensões nas relações de trabalho e que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), por si só, não bastava para assegurar a paz social.[2]

Em junho de 1945, respondeu formalmente a Gudin com a publicação de O planejamento da economia brasileira. Gudin tréplica, em agosto, com a Carta à Comissão de Planejamento. Com a deposição de Vargas em outubro, a comissão foi extinta e o debate sobre planejamento econômico global ficou suspenso por vários anos.[2][7]

Senador da República

No período de redemocratização após o fim do Estado Novo, Simonsen filiou-se ao Partido Social Democrático (PSD), integrando sua comissão executiva. Em 19 de janeiro de 1947, elegeu-se senador por São Paulo, vencendo o pintor Cândido Portinari, que concorria pelo Partido Comunista do Brasil (PCB).[2]

Em outubro de 1947, participou da XXVI Sessão Plenária do Conselho Interamericano de Comércio e Produção, no Hotel Quitandinha em Petrópolis, onde propôs que os países latino-americanos recebessem auxílio econômico nos moldes do Plano Marshall que os Estados Unidos destinavam à reconstrução europeia.[2] Nesse mesmo ano, discursou no Senado em favor da cassação dos mandatos de parlamentares do PCB, partido cujo registro fora cancelado pela Justiça Eleitoral em maio.[2]

Morte

Roberto Simonsen morreu em 25 de maio de 1948, na sede da Academia Brasileira de Letras no Rio de Janeiro, enquanto proferia saudação ao primeiro-ministro belga Paul van Zeeland, que realizava visita oficial ao Brasil.[2] Em sua homenagem, a FIESP criou o Instituto Roberto Simonsen.

Membro de instituições

Foi membro da Academia Paulista de Letras e da Academia Brasileira de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; pertenceu ao Clube de Engenharia do Rio de Janeiro e ao Instituto de Engenharia de São Paulo.[2]

No exterior, era membro da National Geographic Society de Washington, D.C., da Royal Geographical Society de Londres e da Academia Portuguesa de História.

Academia Brasileira de Letras

Simonsen na ABL

Foi eleito em 9 de agosto de 1945 para ocupar a cadeira 3 da Academia Brasileira de Letras, que tem por patrono Artur de Oliveira, como seu segundo ocupante, sendo recebido por José Carlos de Macedo Soares em 7 de outubro do ano seguinte. Foi o primeiro economista a conquistar uma cadeira na ABL.[2]

Homenagens

  • Comendador da Ordem Nacional do Mérito do Paraguai
  • Comendador da Ordem Nacional do Mérito do Chile
  • Escola de Educação Básica Roberto Cochrane Simonsen (SESI Escola Várzea Grande) em Mato Grosso
  • Instituto Roberto Simonsen da FIESP

Obras

A produção intelectual de Roberto Simonsen foi voltada para aspectos econômicos e à atividade no magistério de economia. Publicou os seguintes livros e trabalhos:[2]

  • O município de Santos (1912)
  • Os melhoramentos municipais de Santos (1912)
  • The meat & cattle industry of Brazil (1919)
  • O asfaltamento de São Paulo — aspecto técnico (1923)
  • A situação econômica e financeira do Brasil (1928)
  • Orientação industrial brasileira (1928)
  • As crises no Brasil (1930)
  • Crisis, finance and industry (1930–1931)
  • As finanças e a indústria (1931)
  • A construção dos quartéis para o Exército (1931)
  • À margem da profissão (1932)
  • Rumo à verdade (1933)
  • Ordem econômica e padrão de vida (1934)
  • Aspectos da economia nacional (1935)
  • Possibilidades da expansão industrial brasileira (1937)
  • A indústria em face da economia nacional (1937)
  • Consequências econômicas da Abolição (1938)
  • Aspectos da história econômica do café (1938)
  • A evolução industrial do Brasil (1939)
  • Objetivos da engenharia nacional (1939)
  • Recursos econômicos e movimentos das populações (1940)
  • Níveis de vida e a economia nacional (1940)
  • As indústrias e as pesquisas tecnológicas (1941)
  • O Congresso Eucarístico Nacional de 1942 (1942)
  • As classes produtoras do Brasil e o momento nacional (1942)
  • Ensaios sociais, políticos e econômicos (1943)
  • Alguns aspectos da política econômica mais conveniente ao Brasil para o período de após-guerra (1943)
  • A engenharia e a indústria (1944)
  • Elos da indústria (1944)
  • A planificação da economia brasileira (1944)
  • A indústria e seus problemas econômicos e sociais (1945)
  • Roosevelt (1945)
  • O problema social no Brasil (1947)
  • O Plano Marshall e a América Latina (1947)
  • Cultura e civilização (1947)
  • Direito internacional social (1948)
  • A importância econômica das ciências (1948)

Referências

  1. «Roberto Simonsen | CPDOC». cpdoc.fgv.br. Consultado em 17 de fevereiro de 2021 
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab ac ad ae af ag ah ai aj ak al am an ao ap aq ar as at au av aw ax ay az ba bb bc bd be bf bg bh bi bj bk bl bm bn DIAS, Sônia. «SIMONSEN, Roberto». Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro (DHBB). CPDOC/FGV. Consultado em 1 de janeiro de 2024 
  3. a b LIMA, Heitor Ferreira. Mauá e Roberto Simonsen: dois pioneiros do desenvolvimento. São Paulo: Editora Edaglit, 1963. (Coleção ensaios)
  4. «SIMONSEN, Roberto». Fundação Getúlio Vargas. Consultado em 29 de março de 2022 
  5. de Azevedo, Aroldo (1965). Cochranes do Brasil (PDF). São Paulo: Companhia Editora Nacional. p. 223. 354 páginas 
  6. Marcovich, Jacques (2003). Pioneiros & Empreendedores. [S.l.]: Edusp 
  7. SIMONSEN, Roberto; GUDIN, Eugênio (2010). A controvérsia do planejamento na economia brasileira. Brasília: IPEA 

Bibliografia

  • Simonsen e a operação pan-americana. São Paulo: CIESP. 1958 
  • FANGANIELLO, Helena (1970). Roberto Simonsen e o desenvolvimento econômico. [S.l.: s.n.] 
  • LIMA, Heitor Ferreira (1976). Três industrialistas brasileiros: Mauá, Rui Barbosa, Simonsen. [S.l.: s.n.] 
  • SIMONSEN, Roberto; GUDIN, Eugênio (2010). A controvérsia do planejamento na economia brasileira. Brasília: IPEA 
  • de Azevedo, Aroldo (1965). Cochranes do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional 

Ligações externas

Precedido por
Filinto de Almeida
(fundador)
ABL — segundo acadêmico da cadeira 3
1945 — 1948
Sucedido por
Aníbal Freire da Fonseca

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