Robert Hooke

 Nota: Para um cientista, veja Hook (desambiguação).
Robert Hooke
Descobrimento da Célula
Lei de Hooke
Nascimento18 de julho de 1635
Ilha de Wight
Morte3 de março de 1703 (67 anos)
Londres
SepultamentoSt Helen's Bishopsgate
NacionalidadeInglês
CidadaniaReino da Inglaterra
Progenitores
  • John Hooke
  • Cecily Gyles
Alma materChrist Church (Oxford)
Ocupaçãoarquiteto, astrônomo, físico, diarista, professor universitário, filósofo, inventor, biólogo, naturalista
Distinções
Empregador(a)Royal Society, Gresham College, City of London Corporation, Robert Boyle
Orientador(a)(es/s)Thomas Willis, Robert Boyle, Christopher Wren
InstituiçõesUniversidade de Oxford
Obras destacadasMicrographia, lei de Hooke, Church of St Mary Magdalene, Montagu House, Bethlem Royal Hospital at Moorfields
Religiãoanglicanismo
Assinatura

Robert Hooke (Freshwater, Ilha de Wight, 18 de julho de 1635Londres, 3 de março de 1703) foi um polímata e cientista experimental inglês do século XVII, uma das figuras-chave da revolução científica.[1]

Biografia

Robert Hooke (1635–1703) foi um cientista inglês, nascido em Freshwater. Hooke teve uma infância muito conturbada. Era filho do reverendo John Hooke, de religião anglicana, ministro da paróquia local, e foi o penúltimo dos seus quatro filhos.[1] Seu pai John Hooke suicidou-se em 1648, deixando ao filho uma quantia de 100 libras, pois, tinha em mente que seu filho pudesse tornar-se um relojoeiro.[2]

Quando Hooke foi para Londres, levou suas reservas da herança e apresentou ao Dr. Busby, o reitor da escola, que lhe dedicou grande amizade, constituindo-se em incentivador constante de sua carreira. Doutor Busby era o melhor amigo de Robert Hooke, reitor da Universidade de Oxford. Ambos nutriam paixão ardente por Elizabeth Bernays, empregada doméstica de Busby.[3]

Apesar de seus problemas de saúde, sempre demonstrou grande interesse pela mecânica.[2] Quando tinha 14 anos, foi enviado para Londres, onde estudou arte brevemente com o retratista Peter Lely (1618–1680), o que presumivelmente ajuda a explicar seus belos desenhos posteriores. Depois, ingressou na Westminster School, sempre se destacando pela sua aptidão para mecânica. Aos 18 anos, mudou-se para o Christ Church College, Oxford, como corista, e essa nomeação provavelmente foi facilitada pelo fato de que ele já havia demonstrado habilidade para tocar órgão.[4]

De origem pobre, era provável que o esnobismo e o preconceito da época criassem obstáculos ao longo de sua carreira científica.[5] No entanto, Hooke conseguiu demonstrar talento acadêmico suficiente para ingressar na Oxford University, em 1653, onde começou como assistente de laboratório de Robert Boyle (1627-1691), em 1655, que futuramente colaborou para os estudos sobre gases, se destacando em mecânica.[5]

Hooke fez muitos amigos importantes em Oxford, incluindo o renomado arquiteto Christopher Wren, o clérigo e polímata John Wilkins (1614–1672) e o astrônomo Seth Ward (1617–1689)[6]. Esse ilustre grupo esteve entre os responsáveis pela fundação da Royal Society de Londres em 1660, cuja finalidade era promover a pesquisa.[4]

Apesar de sua notória contribuição para a ciência, a pesquisa de Hooke foi sustentada por seus trabalhos lucrativos como arquiteto e topógrafo em Londres. A renda dessas atividades, especialmente na grande reconstrução que se seguiu ao Grande Incêndio de Londres em 1666, deu a ele liberdade financeira para dedicar-se a seus empreendimentos científicos. Em 1675, Hooke participou de um processo de seleção de escolha do local para a construção de um novo observatório em Greenwich, sendo também atuante como parte fundamental do estágio de design desse projeto junto com Christopher Wren (1632-1723), além de ajudar a supervisionar o longo período de construção do edifício. Hooke e Wren já haviam colaborado no projeto da nova Catedral de St. Paul, dando uma ajuda inestimável no problema de como construir sua grande cúpula. Com sua praticidade, Hooke conduziu experimentos em gravidade e pressão do ar a partir do alto teto do antigo St. Pauls' e até tentou instalar um telescópio gigante dentro do monumento do Grande Incêndio, mas, infelizmente, sem sucesso.[6]

Hooke continuou seu envolvimento no novo e dramático horizonte de Londres ao projetar, novamente com Wren, o The Monument to the Great Fire of London, uma coluna oca de 65 metros (202 pés) de altura erguida para lembrar a tragédia do terrível Grande Incêndio que devastou Londres e mudou completamente sua organização urbana.[6]

Devido ao Grande Incêndio de Londres em 1666, Hooke desempenhou um papel importante no planejamento da reconstrução da cidade. Na verdade, menos de uma semana após o fim do incêndio, ele produziu um modelo para reconstruir a área queimada. Ele foi um dos três topógrafos oficiais do projeto e projetou vários edifícios em conjunto com Christopher Wren. Ele adquiriu reputação como um arquiteto habilidoso, embora em muitos casos seja impossível separar suas contribuições das de Wren.[4]

Em 1674, Robert Hooke foi contratado para projetar o novo Bethlem Royal Hospital.[2] O novo hospital foi projetado para acomodar 136 pacientes em dois andares, com oferta igual para homens e mulheres. O local ficava encostado no Muro de Londres, próximo à igreja de All Hallows. Hooke adotou um método de construção de estacas únicas para garantir boa ventilação. Essa escolha levou a um edifício longo e estreito. Ele combinava a disposição monástica de uma cela para cada paciente com um amplo corredor semelhante às galerias das grandes casas. Cada cela tinha uma pequena janela gradeada voltada para o sul, sem vidros. As galerias ficavam voltadas para o norte e eram envidraçadas. A última da série de pinturas de Hogarth, A Rake's Progress (No Manicólogo), mostra como as galerias eram usadas. Ao criar a sala da galeria, Hooke introduziu um arranjo que seria usado no projeto de hospitais psiquiátricos por mais de 200 anos. Externamente, o edifício era em estilo barroco e tinha quase 600 pés de comprimento. As galerias percorriam todo o comprimento do edifício, mas eram interrompidas por grades. O bloco administrativo central e os pavilhões finais eram revestidos de pedra. O edifício era decorado com pilastras, balaustradas, plataformas de observação e cúpulas, dando uma impressão de considerável grandeza que lembrava um palácio. Essa semelhança gerou comentários de zombaria e a comparação do hospital ao Palácio de Versalhes levava ao questionando se essa construção arquitetônica era ideal para acomodar lunáticos. Estátuas de "loucura melancólica" e "loucura delirante", do escultor dinamarquês Cibber, ficavam no topo dos postes do portão, anunciando o propósito do edifício.[7]

O caráter de Hooke tinha sérias falhas, que podem ter diminuído seu lugar na história. Ele esteve envolvido em uma série de amargas disputas com várias pessoas, incluindo Newton e Henry Oldenburg, que precederam Hooke como secretário da Royal Society. Hooke sofreu problemas de saúde em seus últimos anos e morreu em Londres em 1703. Seu túmulo não está marcado. É extraordinário que nenhuma semelhança autenticada de Hooke tenha sobrevivido, e isso talvez seja único entre os cientistas ilustres de sua época.[4]

Morreu deixando 9 580 libras e uma pequena propriedade na Ilha de Wight. Nunca se casou ou teve filhos. Ao seu funeral compareceram todos os sócios da Royal Society, em reconhecimento do seu mérito como cientista. Assim que Hooke morreu, Newton assumiu a Royal Society e a partir daí não foram encontrados retratos autenticados de Hooke.[2]

A contribuição final de Hooke para a literatura científica veio no livro Obras Póstumas que, de forma irônica, abria com uma dedicatória a Newton. O legado de Hooke sofreu quando Newton assumiu a presidência da Sociedade Real, em 1703, e sistematicamente removeu muitas referências ao rival nos 24 anos seguintes[6]. Ainda assim, Hooke permanece como "um dos pensadores mais inventivos e versáteis da revolução científica"[8], uma figura fundamental, que combinou experiências práticas com vasto conhecimento teórico obtido em sua grande biblioteca (com volumes emprestados ou não). Talvez mais importante do que tudo, Hooke defendeu a visão de que instrumentos precisos eram tão essenciais para o arsenal de um cientista quanto um lápis para um arquiteto ou o pincel para um artista[6]. A ciência transformou-se de uma disciplina puramente contemplativa para um campo de atuação caracterizado por testes práticos e experimentação, o que o próprio Hooke descreveu como uma "reforma na filosofia".[9]

Royal Society of London

Em 1662, Hooke foi escolhido para ser o primeiro curador de experimentos da Royal Society, onde suas responsabilidades eram fornecer três ou quatro experimentos em cada reunião. Essa tarefa árdua nem sempre foi cumprida, mas Hooke foi extremamente ativo com muitas demonstrações e comentários.[10] O cargo também lhe dava a custódia exclusiva das chaves da biblioteca da sociedade, e Hooke frequentemente abusava desse privilégio removendo volumes eruditos e manuscritos preciosos para estudo no conforto de sua casa. Em 1663, a sociedade finalmente consentiu em tornar Hooke um membro pleno.[6]

As reuniões da Sociedade eram registradas toda semana e eventualmente impressas.[10] Hooke demonstrou grande entusiasmo e dedicação nessa posição, que ocupou por 40 anos, e a variedade de temas abordados pela Sociedade era extraordinária. Seu livro Micrographia[11] foi publicado quando ele tinha apenas 30 anos e foi a primeira grande publicação da Royal Society. Com suas belas gravuras em placas de cobre, foi um best-seller na época e continua sendo uma leitura agradável até hoje.[4] A Micrographia causou sensação com suas belas gravuras de insetos como moscas-das-frutas e pulgas, além de sementes de plantas e flocos de neve, tudo em alta ampliação[6].

A posição de curador de Hooke na Royal Society lhe conferia grande visibilidade, mas não era remunerada. No entanto, em 1665, Hooke foi nomeado professor de geometria no Gresham College, em Londres.[12] Como resultado, ele se tornou provavelmente o primeiro cientista pesquisador profissional na área de história natural. Ele publicou uma série de palestras que havia proferido no Gresham College, conhecidas como Conferências Cutler, nomeadas em referência ao fundo patrimonial. Eles abordaram uma grande variedade de temas, incluindo estudos do movimento da Terra por observação de uma estrela brilhante, melhorias na construção de telescópios e as propriedades das molas. Isso incluía o que hoje conhecemos como lei de Hooke, ou seja, que, em uma mola, a deformação é proporcional ao estresse. Hooke também reivindicou alguma precedência ao propor que a gravidade obedece a uma lei do inverso do quadrado, o que resultou em correspondência acrimoniosa com Newton, que nunca deu crédito a Hooke pela ideia e de fato geralmente menosprezava as contribuições de Hooke. Em 1677, Hooke foi eleito um dos dois secretários da Royal Society, e esteve ativo na publicação de suas discussões.[4]

Na Royal Society, Hooke foi fundamental em sua atividade experimental e foi pioneiro em melhorias em todos os tipos de equipamentos e instrumentos, como barômetros, relógios, bombas, telescópios e microscópios. Como observa a historiadora Lisa Jardine: "Hooke era um homem de inclinação resolutamente prática, sua resposta a qualquer problema científico era inventar um equipamento para resolvê-lo"[13]. Hooke mantinha laços estreitos com fabricantes de instrumentos e inventores-engenheiros práticos como Thomas Newcomen (1664-1729), que foi pioneiro em variações da máquina a vapor na Revolução Industrial Britânica. Hooke garantiu que suas próprias máquinas tivessem engrenagens idênticas, e isso permitiu a produção em massa delas, uma inovação que muitos copiariam posteriormente.[6]

Realizações

Hooke desenvolveu o diafragma de íris em telescópios, que limita a entrada de luz no dispositivo para que a luz só entre pela abertura, que pode ser então regulada pelo usuário (como o obturador moderno de uma câmera). Ele desenvolveu um sondador de águas profundas e criou a junta universal, ou seja, uma junta capaz de conectar dois eixos inclinados. Esse tipo de conexão ainda leva seu nome. Hooke tentou criar um cronômetro que suportasse os movimentos bruscos de uma embarcação à vela no mar para que a longitude pudesse ser medida com precisão, mas, como muitos outros antes dele, falhou nessa empreitada. Ele ajudou os marinheiros de outras formas, desenvolvendo um novo tipo de quadrante refletor para navegação e uma bússola autonivelante.[6]

Hooke contribuiu para o aperfeiçoamento dos relógios mecânicos no século XVII, especialmente no desenvolvimento da mola espiral[5], embora sua invenção seja disputada com Christiaan Huygens [14]. Em 1660, criou a lei da elasticidade ou a lei de Hooke, que define que as deformações sofridas pelos corpos são proporcionais às forças que são aplicadas sobre eles [15]. Hooke formulou também a teoria do movimento planetário, a primeira teoria sobre as propriedades elásticas da matéria, descreveu a estrutura celular da cortiça e publicou o livro Micrographia, abordando suas descobertas sobre suas análises dos efeitos do prisma, esferas e lâminas com a utilização do microscópio, instrumento esse que rendeu grande contribuição ao estudo da estrutura da célula. Hooke também aperfeiçoou instrumentos como o barômetro, o higrômetro, o anemômetro, a bomba de vácuo, medidores de chuva e adaptou projetos de moinho de vento.[16]

Desenho de uma pulga por Hooke, contida no livro Micrographia

Seus estudos e suas teorias sobre as rotações planetárias tiveram importância para a astronomia posteriormente, chegando a descobrir estrelas e a rotação do planeta Júpiter. Ele enunciou a lei da gravidade (um corpo em queda livre se sente atraído pelo centro da Terra, caindo em direção a este), que se tornou um dos conceitos elementares da Física.[12] No entanto há controvérsias sobre quem, de fato, primeiro conceitualizou a ideia de gravidade, onde muitos atribuem este feito à Isaac Newton.

Microscópio de Robert HookeScience Museum, Londres.

Robert Hooke fez vários aperfeiçoamentos técnicos no microscópio, como a abertura e o modo como o espécime era iluminado. Também popularizou o instrumento com sua obra Micrographia, publicada em 1665[6].

Hooke utilizou o seu microscópio aprimorado para observar cortes de cortiça e identificar o que hoje conhecemos como parede celular vegetal. Acredita-se que a invenção do microscópio deve-se a Zacharias Jansen e seu pai Hans Jansen, e mesmo sem ter grande relevância na época, a invenção permitiu a evolução do equipamento, que hoje é essencial para o estudo da ciência. A observação de Robert Hooke permitiu visualizar as paredes celulares mortas da cortiça, mesmo sem saber o que a imagem representava exatamente, e sem relacionar os seres vivos a uma composição celular. Ao observar as cavidades vazias, Hooke atribuiu vários nomes para descrevê-la como caixas, bolhas de ar, poros, celas e, inclusive, célula, termo utilizado até hoje e de grande importância na biologia, designando, atualmente, uma estrutura complexa composta por membrana, núcleo, citoplasma, organelas e parede, no caso dos vegetais.[17]

As suas outras realizações significativas incluem a construção do primeiro telescópio refletor, telescópio gregoriano e a descoberta da primeira estrela binária.[3] Ainda, somam-se aos seus inventos, instrumentos como a mola de balanço, utilizada para regular o fluxo de energia que vem da mola principal, sendo um dos componentes principais do relógio; o escapamento de âncoras, passo importante para o desenho de relógios precisos; e uma bomba de ar precisa que foi utilizada pelo químico e físico Robert Boyle nos estudos sobre o comportamento dos Gases.[18]

Outra invenção de Hook refere-se à utilização de uma mola para construir um relógio de pêndulo imune as perturbações marítimas que veio a ser o princípio do cronômetro marítimo.[18]

Como Hooke era dedicado a inúmeras áreas de pesquisas e uma vasta gama de atividades, uma de suas características está relacionada ao fato de deixar sem finalização grande parte das suas ideias. Sua importância se encontra, portanto, como um ponto de partida para grandes desenvolvimentos, vindos de suas ideais não finalizadas, e também da sua imaginação e inventividade, que permitia a construção própria de seus equipamentos e, por consequência, a introdução de avanços técnicos, em seu microscópio, por exemplo, tais como o formato compacto, tamanho pequeno, adoção de poderoso sistema de iluminação e o sistema de sustentação que permitia movimento em qualquer direção.[19]

Todos esses desenvolvimentos técnicos ilustram a diferença entre Hooke, um mecânico e engenheiro entusiasta, e contemporâneos notáveis como seu mentor Boyle e Isaac Newton (1642-1727), ambos acrescentaram a teologia aos seus estudos em grande parte teóricos. Ainda assim, Hooke claramente tinha amigos na Igreja, pois recebeu um diploma de medicina em 1691, um prêmio orquestrado por ninguém menos que o Arcebispo de Cantuária. O diploma talvez tenha sido um reconhecimento às contribuições de Hooke para a medicina e seus experimentos públicos em dissecação.[6]

Hooke e os estudos com seres vivos

Robert Hooke estudou acerca de vários ramos da ciência, deixando contribuições importantes em várias áreas do conhecimento. Foi um cientista muito inventivo, criativo e com certa habilidade mecânica, o que permitiu a construção e aperfeiçoamento de vários aparatos, entre eles o primeiro barômetro. A princípio, os experimentos com o barômetro não estavam relacionados ao estudo do corpo humano, mas foi graças à introdução desse equipamento que Blaise Pascal pode comprovar a diferença da pressão atmosférica de acordo com a altitude. Essa informação foi essencial para a compreensão do funcionamento do corpo humano em escaladas de grande altitude, por exemplo.

Neste contexto, Hooke construiu, junto com Robert Boyle (1627-1991), a primeira bomba de ar que permitiu realizar medições fisiológicas em pequenos animais sob baixas pressões barométricas, esclarecendo os efeitos fisiológicos da hipóxia no campo da fisiologia respiratória.[4] Pouco depois das demonstrações de Pascal sobre a variação da pressão com a altitude, Otto von Guericke evidenciou a força da pressão atmosférica com seus experimentos. Esses avanços influenciaram Robert Boyle, que passou a investigar os efeitos da redução da pressão em seres vivos. No entanto, isso era impossível com os hemisférios metálicos de Guericke, e assim Hooke e Boyle desenvolveram a bomba de ar. Este dispositivo era constituído de uma esfera de vidro, ou "receptora", como era chamada, com o impressionante pequeno diâmetro de aproximadamente 38 cm, e da própria bomba, que consistia em um pistão dentro de um cilindro, que era acionado por uma cremalheira e pinhão[4].

Com essa bomba de ar, vários experimentos foram realizados em pequenos animais. Boyle e Hooke observaram que uma abelha não conseguia voar em baixa pressão, e uma borboleta "caiu como em um desmaio." Uma cotovia colocada no receptor inicialmente saltou a uma boa altura, mas quando a pressão diminuiu começou a "cair e parecer doente", depois, desenvolveu convulsões violentas. Um pardal parecia morto alguns minutos após a bomba ser ativada, mas revivia quando a pressão era restaurada. Em geral, todos os seres vivos, incluindo enguias expostas à baixa pressão por tempo suficiente, não conseguiram sobreviver. No entanto, uma exceção foram os caracóis domésticos, que não pareciam ser afetados[20].

Hooke também realizou um dos primeiros estudos da ventilação artificial, demonstrando como o pulmão poderia funcionar como um trocador de gás na ausência de seu movimento. A ideia do experimento de Hooke era responder uma questão muito específica: se o movimento dos pulmões era necessário para a vida, uma vez que a respiração artificial já havia sido usada para manter animais vivos, por exemplo, por Vesalius e Leonardo da Vinci.[4]

Em 24 de outubro de 1667, a Royal Society registrou um experimento de Robert Hooke no qual ele manteve um cão vivo por ventilação artificial contínua.[10] Hooke abriu o tórax do animal e fez pequenas incisões nos pulmões, permitindo que o ar insuflado por foles passasse continuamente por eles. Mesmo com os pulmões imóveis (sem o movimento natural da respiração), o cão permanecia vivo: seus olhos reagiam e o coração continuava batendo de forma regular. Quando o fornecimento de ar era interrompido, o cachorro rapidamente entrava em convulsões e sinais de morte. No entanto, ao restabelecer o fluxo de ar fresco, o animal era reanimado.[21]

Em outro experimento, realizado junto com o Dr. King, Hooke fez o cachorro respirar o mesmo ar repetidamente dentro de uma bexiga. Após alguns minutos, o animal entrou em sofrimento respiratório, perdeu força e aparentou morrer. Mais uma vez, ao receber ar fresco por ventilação, ele recuperou os movimentos e chegou a se levantar, comportando-se quase normalmente logo depois.[10]

Com esses experimentos, Hooke contestou a ideia associada a William Harvey de que o movimento dos pulmões era essencial para a circulação sanguínea, demonstrando que o fator crucial para a vida era o fornecimento contínuo de ar fresco.[22] [21] Além disso, ele sugeriu investigar a mudança de cor do sangue nos pulmões, proposta posteriormente desenvolvida por Richard Lower, que demonstrou que o sangue se torna vermelho vivo ao passar pelos pulmões.[23]

Outro feito de Hooke refere-se a construção de uma câmara de descompressão humana, descrevendo suas próprias experiências durante a hipobaria aguda.[4] A chamada câmara de descompressão humana, desenvolvida por Robert Hooke, surgiu a partir de seus estudos com a bomba de ar, que já permitia submeter pequenos animais a condições de baixa pressão em laboratório. Motivado por sua curiosidade científica, Hooke decidiu expandir esses experimentos para investigar diretamente os efeitos da rarefação do ar no corpo humano. Os registros mais detalhados desses experimentos encontram-se na obra The History of the Royal Society of London[10], que documenta as atividades da Royal Society no século XVII. Em janeiro de 1671, Hooke propôs a construção de um recipiente suficientemente grande para acomodar uma pessoa, no qual fosse possível retirar o ar gradualmente, ao mesmo tempo em que se controlava a entrada de ar fresco. A intenção era observar como a redução da pressão atmosférica afetaria funções como respiração e sensação térmica[4].

O dispositivo construído consistia em dois grandes recipientes, um dentro do outro. O compartimento interno era destinado à pessoa, enquanto o externo, preenchido com água, servia para vedar o sistema, impedindo a entrada de ar. O aparato também incluía um medidor para avaliar o grau de rarefação do ar e válvulas que permitiam ao ocupante controlar a saída e a entrada de ar durante o experimento[4].

Em testes realizados posteriormente, o próprio Hooke entrou na câmara e reduziu gradualmente a quantidade de ar em seu interior. Ele relatou que, ao remover cerca de um décimo do ar, não sentiu desconforto significativo, exceto por dores nos ouvidos causadas pela diferença de pressão. Em um experimento seguinte, ao retirar aproximadamente um quarto do ar e permanecer cerca de quinze minutos no interior do recipiente, observou novamente dor nos ouvidos e uma sensação temporária de surdez, que desapareceu após deixar a câmara. Um aspecto relevante do experimento foi a observação de que uma vela acesa levada para dentro do recipiente se apagava antes que ele apresentasse sintomas mais intensos, indicando que a combustão é mais sensível à redução de oxigênio do que o organismo humano em condições moderadas de rarefação do ar[4].

Embora esses experimentos não tenham produzido conclusões fisiológicas profundas à época, eles demonstram a notável engenhosidade de Hooke e representam um dos primeiros esforços experimentais para compreender os efeitos da baixa pressão atmosférica no corpo humano[4].

Ilustração da revisão a The posthumous works of Robert Hooke... publicada em ''Acta eruditorum'', 1707

Hooke e Newton

Embora Robert Hooke fosse reconhecido como um habilidoso experimentador, descrito como seu "empresário experimental e mago prático"[13], ele também acumulou rivalidades dentro da Royal Society. A mais famosa delas foi com Isaac Newton, conhecido por seu temperamento sensível e reservado.

O conflito entre os dois se intensificou quando Hooke acusou Newton de plagiar suas ideias, especialmente no campo da óptica e na formulação da lei do inverso do quadrado da gravidade. No entanto, essas acusações são hoje consideradas infundadas. A disputa acabou contribuindo para um clima de tensão entre os dois cientistas e marcou uma das rivalidades mais conhecidas da história da ciência.[19]

Newton retirou-se da sociedade e recusou-se a aceitar sua presidência até que Hooke morresse. Como diz o historiador William E. Burns: "[Para] Hooke e Newton, dois dos mais talentosos que guardavam rancor da revolução científica, a disputa foi longa e feia"[8]. Talvez fosse verdade que Hooke deu a Newton a ideia ao notar que a descoberta de Johannes Kepler (1571-1630) de que planetas se moviam em órbitas elípticas poderia ser causada por uma força que hoje chamamos de gravidade, mas Newton se recusou a reconhecer qualquer ajuda de qualquer pessoa. Os dois homens envolveram seus próprios seguidores pessoais na disputa e, assim, por anos, a ciência e a matemática britânicas se fragmentaram em dois grupos: os newtonistas e os hookeistas, uma linha de falha que desperdiçava muita energia e atrasava novas descobertas.[6]

Havia muita antipatia mútua entre Hooke e Isaac Newton. Tudo começou em 1672, quando Newton publicou o artigo "Nova teoria sobre luz e cores" nas Philosophical Transactions da Royal Society de Londres.[1]

Newton expôs suas ideias para serem debatidas, respondeu pacientemente os duros questionamentos feitos por Hooke e o cientista holandês Christiaan Huygens. Porém a paciência de Newton era limitada, e ao ser duramente criticado ficou extremamente irritado prometendo nunca mais publicar um artigo científico, chegando até a ameaçar abandonar por completo a investigação científica. Newton recolhe-se e permanece em silêncio científico até 1675, quando visita Londres e descobre que finalmente Robert Hooke acabara de aceitar suas teorias sobre as cores.[24]

Em suas cartas formais, é possível perceber a ausência de afeição entre ambos.

Hooke e o voo humano

Hooke tinha grande entusiasmo com a possibilidade de que o ser humano pudesse voar e de que ele próprio pudesse ser um de seus pioneiros. No início de sua carreira, e em muitas ocasiões posteriores, ele refletiu seriamente sobre como esse tipo de voo poderia ser realizado, criando diversos projetos e modelos de máquinas que ele mesmo poderia usar nessa empreitada. Ele chegou a demonstrar alguns desses modelos ao seu amigo e colega John Wilkins, já que este havia proposto, em 1640, que um dia os homens voariam até a Lua. Isso certamente entusiasmou Hooke, assim como teria empolgado muitos outros. Diante desta ideia, Joseph Priestley, já depois do lançamento dos Sputniks, declarou em um discurso em Oxford que "tais aspirações seriam de uma loucura total”[25].

Em vários momentos posteriores de sua carreira, Hooke voltou a explorar métodos e modelos de máquinas voadoras, incluindo aquelas com asas extravagantes ou molas que poderiam ser acopladas ao corpo. No entanto, quando esses modelos eram testados, raramente demonstravam mais do que uma capacidade mínima de manter alguém no ar e, muitas vezes, eram até contraproducentes[25].

Na década de 1670, Robert Hooke construiu vários modelos baseados em projetos descritos anteriormente por cientistas franceses e italianos. Mas logo concluiu que nem as asas do francês, nem a cesta suspensa do italiano tinham utilidade, a mesma descoberta que ela já havia feito para uma carruagem movida por molas que ele também projetou e testou na época. Apesar disso, continuou retornando a essas ideias repetidamente, e após sua morte foram encontrados mais diagramas e anotações sobre o tema[25].

Interessante pontuar que, Leonardo da Vinci, também grande polímata, cerca de 200 anos antes, já havia projetado máquinas voadoras e, assim como Hooke, interessou-se por modelos mecânicos e por questões militares. Para ambos, porém, o design de máquinas voadoras tornou-se uma verdadeira obsessão. Eles provavelmente perceberam rapidamente que o sucesso ainda não estava ao alcance[25].

Publicações

Referências

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