Puris

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Retratos de indígenas puris feitos por Johann Moritz Rugendas no século XIX

Os Puris são um povo indígena do Brasil, historicamente associado ao Sudeste brasileiro, sobretudo às bacias do rio Paraíba do Sul, do rio Doce e de rios adjacentes em áreas hoje pertencentes a Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo.[1][2] Na literatura histórica e etno-histórica, os Puris costumam aparecer em relação próxima com Coroados e Coropós, e são geralmente associados ao tronco Macro-jê.[2][3]

Ao longo dos séculos XIX e XX, parte da documentação oficial e da historiografia tratou os Puris como extintos ou assimilados. Pesquisas mais recentes, porém, têm descrito processos de re-existência, ressurgência, reorganização sociopolítica e retomada linguística do povo Puri em diferentes territórios do Sudeste brasileiro.[4][5][6] No Censo Demográfico de 2022, 1.290 pessoas se autodeclararam Puri no Brasil, ante 675 no Censo de 2010.[7][8][9]

Etimologia

Segundo a bibliografia, o termo Puri teria origem na língua dos Coroados, com o sentido de ousado, designação retomada por estudos históricos posteriores sobre os grupos Puri-Coroado-Coropó.[2][1]

História

Primeiros registros

Os registros mais antigos sobre os Puris remontam ao fim do século XVI, no Vale do Paraíba, quando cronistas e documentos coloniais mencionaram a presença de grupos indígenas na região que mais tarde seriam identificados como Puri.[10][2] Nos séculos seguintes, viajantes, militares, missionários e autoridades coloniais passaram a registrar sua presença em áreas do atual Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.[11][2]

Pintura de Johann Moritz Rugendas do século XIX retratando cerimônia de dança dos índios puris

Colonização, aldeamentos e dispersão

A partir do fim do século XVIII e, sobretudo, no início do século XIX, o avanço das frentes coloniais e agrícolas sobre os sertões do leste do rio Paraíba do Sul intensificou os conflitos entre os Puris e a sociedade colonial.[11][2] Nesse contexto, políticas de aldeamento, recrutamento compulsório de mão de obra e violência sobre os territórios indígenas acompanharam a expansão de fazendas, caminhos e obras públicas.[11] Relatos do século XIX também registram fugas frequentes dos aldeamentos e descrevem a dificuldade de submeter os Puris ao padrão sedentário pretendido pelas autoridades coloniais.[12]

Reclassificação e apagamento documental

Ao longo do século XIX, a documentação oficial passou com frequência a reclassificar indígenas e seus descendentes como caboclos, pardos ou mestiços, contribuindo para a invisibilização da identidade indígena e para a negação de direitos territoriais.[13][1][4] Estudos sobre livros paroquiais e memória regional em áreas da Zona da Mata Mineira mostram a persistência de registros e memórias Puri mesmo após a consolidação do chamado paradigma da extinção.[13][14][4]

Dança dos puris, pintura do século XIX de Van de Velden a partir de Johann Baptist von Spix

Presença contemporânea e ressurgência

Registros oficiais e autoidentificação

Pesquisas recentes descrevem a presença contemporânea dos Puris em termos de ressurgência, re-existência, reorganização coletiva e reterritorialização, em contraste com narrativas anteriores de desaparecimento definitivo.[4][5][6]

Os dados censitários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística registraram 675 pessoas Puri em 2010 e 1.290 em 2022.[7][8][9] O etnônimo Puri também aparece em bases administrativas oficiais, como a tabela de povos da Fundação Nacional dos Povos Indígenas, a tabela auxiliar de etnias do Cadastro Único e o dicionário de dados do e-SUS APS.[15][16][17] Segundo a Funai, o reconhecimento étnico deve ser realizado pelas próprias comunidades indígenas, e não pelo Estado.[18]

Textos autorais indígenas contemporâneos também sistematizam e comentam a documentação pública sobre presença Puri atual, autodeclaração, retomada linguística e crítica ao paradigma da inexistência.[19][20]

Araponga, Serra do Brigadeiro e a Dança de Caboclos

Em Araponga, na Serra do Brigadeiro, a bibliografia recente relaciona a presença Puri a experiências locais de agroecologia, educação do campo, cultura popular e afirmação étnica.[21][22][3] Trabalhos acadêmicos de Willer Araujo Barbosa e pesquisadoras da Universidade Federal de Viçosa associam a memória Puri local a formas de organização comunitária e defesa do território em articulação com a agricultura familiar e com projetos educativos voltados para a valorização da cultura regional e indígena.[21][22]

A EFA Puris, em Araponga, aparece na bibliografia como experiência de educação do campo e também como espaço de circulação de referências culturais Puri.[23][3] A pesquisa de Aline Luciana de Freitas registra apresentações da Dança de Caboclos na escola e sua articulação com ações do CEPEC e com projetos culturais da região.[3]

A chamada Dança de Caboclos ou Folguedo dos Arrepiados é uma das manifestações contemporâneas mais frequentemente associadas à memória Puri de Araponga. Estudos de geografia cultural e artes cênicas a descrevem como manifestação local executada por moradores que se reconhecem como descendentes dos Puris, articulando elementos indígenas, africanos e europeus e inserindo referências Puri em seus cantos, símbolos e coreografias.[3][5] Segundo essa bibliografia, a manifestação é composta por três partes principais — dança com porrete, dança com arco e flecha e dança da trança de cordas — e foi reorganizada nas últimas décadas sob liderança de Jurandir Puri.[3][5]

Pesquisas recentes também relacionam a Dança de Caboclos à retomada linguística Puri. A dissertação de Mery Nancy de Lima Leite registra que, nesse contexto, Jurandir Puri produziu versões em língua Puri de cantos preservados na oralidade local, aproximando a dança dos processos contemporâneos do Kwaytikindo.[5] A mesma pesquisa descreve Araponga como um dos principais pontos de referência da reorganização Puri na Zona da Mata mineira.[5]

A região da Serra do Brigadeiro é descrita em estudos geográficos como área de grande potencial hídrico, com águas que abastecem as bacias dos rios Doce e Paraíba do Sul.[24] Em pesquisas recentes de autoria Puri, a serra e sua mata aparecem também como território de memória e de continuidade histórica.[6]

Viçosa, Uxo Txori e Kanduna Puri

Na Zona da Mata Mineira, parte importante da mobilização contemporânea Puri se organiza em torno do movimento Uxo Txori. O protocolo comunitário biocultural do grupo afirma que o movimento surgiu do esforço de matriarcas em reaproximar comunidades Puri da região e identifica Helenice Maria Gomes, também chamada Txori Xapuko Puri, como liderança fundadora.[25] O mesmo documento informa que o movimento se consolidou a partir de 2021, articulando lutas por saúde indígena, fortalecimento cultural, juventudes e retomada linguística.[25]

Em Viçosa, trabalhos ligados à Universidade Federal de Viçosa registraram a construção de seminários, acervos e materiais interculturais em diálogo com a retomada Puri, especialmente com o grupo Uxo Txori.[26][27][28] A UFV noticiou, em 2025, o lançamento do Protocolo Comunitário Biocultural do Povo Puri Grupo Uxo Txori da Zona da Mata Mineira como parte de pesquisa colaborativa financiada por CNPq e Fapemig.[28]

A imprensa regional registrou em 2025 a terceira edição do Kanduna Puri, em Viçosa, com apresentação do protocolo biocultural, exibição de documentário da juventude Puri Uxo Txori e partilha de alimentos e sementes.[29] Em trabalhos acadêmicos recentes, o evento aparece como espaço de visibilidade pública, afirmação identitária e circulação de saberes do grupo.[5]

Padre Brito, associação e festival

Em Barbacena, o distrito de Padre Brito tornou-se uma das principais referências da presença Puri contemporânea no Campo das Vertentes. Documentos municipais registram a comunidade remanescente de índios Puris de Padre Brito e apontam, no plano municipal de saúde 2018–2021, uma população de 560 pessoas ligada a esse resgate comunitário.[30]

A Associação Regional da Comunidade Remanescente de Índios Puris de Padre Brito foi fundada em 2016.[31][32] Estudos e registros institucionais indicam que a comunidade foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial do município por ato referendado pelo Decreto Municipal nº 7.937/2016, e que o Festival da Cultura Indígena Puri foi posteriormente incluído no calendário oficial de Barbacena.[31][32] Documentos recentes da prefeitura também registram convênios e termos de colaboração com a associação.[33]

Padre Brito aparece em pesquisas recentes como um ponto de articulação entre memória familiar, demanda por reconhecimento étnico, medicina tradicional e reivindicações por saúde, trabalho, educação e território.[32][34] A bibliografia destaca o papel da família de Dona Geni Trindade e da associação local na visibilidade dessa retomada.[32]

A imprensa local registrou a continuidade do festival em diferentes anos. Em 2018, a segunda edição foi noticiada como encontro que reuniu a comunidade em torno de costumes, comida e danças.[35] Em 2025, a quarta edição foi descrita como Festival Gastronômico e Cultural Puri, com roda de conversa, visita guiada, almoço coletivo, comidas típicas e articulação de entidades da cultura popular regional.[36] A mesma cobertura noticiou a criação do Fórum Permanente de Cultura Popular e Saberes Tradicionais do Campo das Vertentes e o reconhecimento de Dona Geni como Mestra dos Saberes e Fazeres da comunidade remanescente Puri de Padre Brito.[36]

Vale do Rio Doce, Aimorés, Resplendor e Itueta

No vale do Rio Doce, documentos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, do Ministério Público Federal e da Assembleia Legislativa de Minas Gerais registram a presença e as demandas do povo Puri em municípios como Aimorés, Resplendor e Itueta.[37][38][39]

Em setembro de 2024, a Deliberação CIF nº 829 reconheceu o povo Puri da região de Aimorés e Resplendor como impactado pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, determinando a execução de programas e ações em benefício dos atingidos.[37] Em novembro de 2024, a ALMG registrou visita da Comissão de Participação Popular à ocupação Puri na área da Usina Hidrelétrica de Aimorés, mencionando cerca de 50 famílias e a pauta da retomada territorial.[39]

No caso de Itueta, o MPF instaurou em 2025 inquérito civil para apurar e acompanhar demandas da aldeia ou ocupação Krim Orutu Puri, relativas, entre outros temas, a moradia, saúde, educação, assistência social, energia elétrica e acesso à água.[38] A literatura recente também aproxima a experiência Krim Orutu Puri das lutas territoriais e dos impactos do desastre do rio Doce sobre comunidades Puri do leste mineiro.[5]

Rio de Janeiro, São Paulo e coletividades urbanas

Pesquisa recente sobre historiografia linguística e cosmopolítica Puri registra que a formação de coletividades urbanas Puri no Rio de Janeiro e em São Paulo se articulou, em parte, a partir da Aldeia Maraká'nà, no Rio de Janeiro.[5] A mesma dissertação afirma que movimentos como Movimento de Ressurgência Puri e Teyxokawa Puri desenvolveram-se a partir de mobilizações Puri originadas nesse território.[5]

Segundo essa bibliografia, foi também na Aldeia Maraká'nà que Dauá Puri iniciou práticas coletivas de cantos em língua Puri, mais tarde centrais para a retomada linguística contemporânea.[5] Em 2023, Dauá Puri fundou o Museu da Cultura Puri, no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro.[5][40] O museu é apresentado por seus responsáveis como espaço de preservação, difusão e exposição da memória e dos saberes do povo Puri.[40]

Língua

A língua puri é historicamente documentada por vocabulários, relatos de viajantes e estudos linguísticos. No século XXI, processos de retomada e vitalização linguística passaram a ser descritos pelos próprios Puri sob o nome Kwaytikindo.[41][5] O artigo Kwaytikindo: retomada linguística Puri, assinado por Txâma Xambé Puri, Tutushamum Puri e Xindêda Puri, descreve a retomada da língua a partir de registros históricos, oralidade remanescente e criação de novos usos rituais, poéticos e cotidianos.[41]

Em 2023, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional destacou o projeto Teyxokawa como iniciativa voltada ao resgate da fluência, à documentação da língua puri e à inserção contemporânea dessa tradição linguística.[42] O Iphan registrou ainda que a iniciativa, conduzida por membros da etnia Puri, promove, registra e preserva tradições culturais dos ancestrais enquanto insere a cultura Puri na contemporaneidade.[42]

Pesquisas posteriores de outras universidades passaram a utilizar o Kwaytikindo como estudo de caso sobre retomada linguística e resistência cultural.[43]

Produção intelectual e cultural contemporânea

A produção intelectual e artística Puri contemporânea inclui teses, dissertações, artigos, livros, museus, filmes e projetos pedagógicos. Na universidade, destacam-se trabalhos como Re-existência e ressurgência indígena: diáspora e transformações do povo Puri, de Melissa Ferreira Ramos;[4] Kwaytikindo: cosmopolítica e historiografia linguística Puri, de Mery Nancy de Lima Leite;[5] e Cosmopoéticas do reencantamento: arte Puri contemporânea como continuação da guerra, de Way Sanà-Marya Pury.[6]

No campo editorial e autoral indígena, instituições e veículos culturais registraram o lançamento de livros como Morukah Puky e Boacé Uchô: a história está na terra – narrativas e memórias do povo Puri da Serra da Mantiqueira, de Aline Rochedo Pachamama.[44][45] Essas obras integram um conjunto mais amplo de iniciativas de documentação da memória, da espiritualidade, da oralidade e da autoapresentação do povo Puri em primeira pessoa.[45][5]

Ver também

Referências

Referências

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  3. a b c d e f Freitas, Aline Luciana de (2016). Uma análise da distribuição espacial da Dança de Caboclos “Folguedo dos Arrepiados” no Território Serra do Brigadeiro (PDF) (Monografia (Bacharelado em Geografia)). Viçosa: Universidade Federal de Viçosa. Consultado em 16 de abril de 2026 
  4. a b c d e Ramos, Melissa Ferreira (2017). Re-existência e ressurgência indígena: diáspora e transformações do povo Puri (Dissertação (Mestrado em Educação)). Viçosa: Universidade Federal de Viçosa 
  5. a b c d e f g h i j k l m n o Leite, Mery Nancy de Lima (2025). Kwaytikindo: cosmopolítica e historiografia linguística Puri (PDF) (Dissertação (Mestrado)). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro. Consultado em 16 de abril de 2026 
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  8. a b «Tabela complementar 20 - Pessoas indígenas, segundo etnia, povo ou grupo indígena - Brasil - 2022» (XLSX). Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Consultado em 16 de abril de 2026 
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Bibliografia

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  • Ramos, Melissa Ferreira (2017). Re-existência e ressurgência indígena: diáspora e transformações do povo Puri (Dissertação (Mestrado em Educação)). Viçosa: Universidade Federal de Viçosa 
  • Leite, Mery Nancy de Lima (2025). Kwaytikindo: cosmopolítica e historiografia linguística Puri (Dissertação (Mestrado)). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro 
  • Pury, Way Sanà-Marya (2025). Cosmopoéticas do reencantamento: arte Puri contemporânea como continuação da guerra (Dissertação (Mestrado em Antropologia Social)). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro 
  • Pachamama, Aline Rochedo (2020). Boacé Uchô: a história está na terra – narrativas e memórias do povo Puri da Serra da Mantiqueira. [S.l.]: Pachamama Editora 

Ligações externas

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