Le Cauchemar

Le Cauchemar
Le Cauchemar
O Pesadelo (bra)
Foto de plateau: Georges Méliès como o homem que dorme, rodeado pelas visões do pesadelo
Título em inglês'A Nightmare'
França
1896–1897 •  preto e branco •  aprox. 1 minuto (20 metros) min 
Gênerofilme de truques
DireçãoGeorges Méliès
ProduçãoGeorges Méliès
RoteiroGeorges Méliès
ElencoGeorges Méliès
CinematografiaGeorges Méliès
Efeitos especiaisStop trick
Companhia produtoraStar Film
DistribuiçãoStar Film
Lançamentoinverno de 1896–1897
Idiomamudo
Cronologia

Le Cauchemar (em português: O Pesadelo) é um curta-metragem mudo francês de 18961897, dirigido e produzido por Georges Méliès e lançado pela Star Film. Registrado sob o número 82 do catálogo Star Film com o subtítulo scène fantastique,[1] o filme mostra um homem que adormece e tem um pesadelo poblado por figuras que dançam ao seu redor e sobre ele. Méliès interpreta o homem adormecido.[1] O filme sobreviveu e está disponível em domínio público.

Enredo

O texto explicativo do próprio catálogo de Méliès (1901, p. 3) descreve o filme nos seguintes termos:[1]

Citação: Um senhor se deita e adormece. Ele sonha e vê a transformação de seu quarto onde Pierrot, Colombine e um negro vêm dançar ao redor dele e sobre ele. A Lua, ela também, quer devorá-lo. Ao despertar, todas essas visões desapareceram e ele se encontra em sua cama. escreveu: «Catálogo Méliès, 1901, p. 3, reproduzido em Malthête & Mannoni (2008), p. 90»

Produção

A estrutura do sonho como dispositivo cinematográfico

Le Cauchemar é um dos primeiros filmes a explorar sistematicamente o sonho como moldura narrativa para uma sequência de transformações por stop trick. A lógica onírica — em que qualquer coisa pode aparecer, transformar-se e desaparecer sem necessidade de justificação causal — oferecia a Méliès um pretexto narrativo perfeito para encadear trucagens: o espectador aceita qualquer aparição ou transformação dentro de um pesadelo sem questionar sua coerência.[2] Esta estrutura seria retomada por Méliès em filmes posteriores, consolidando o sonho e o pesadelo como um dos subgêneros recorrentes de sua produção.[2]

Os personagens do pesadelo

As figuras que habitam o pesadelo de Méliès são personagens-tipo da tradição teatral e do entretenimento popular europeu do século XIX. Pierrot e Colombine eram figuras centrais da Commedia dell'arte italiana, amplamente conhecidas do público parisiense através do teatro de variedades e dos espetáculos de pantomima — e Pierrot tinha uma relação específica e consolidada com a Lua: a crítica do século XIX descrevia-o como "ombra lunar imóvel e misteriosa", emprestando à Lua sua palidez mortal.[3] O terceiro personagem — descrito no catálogo de Méliès como "um negro" — corresponde à convenção do *blackface* minstrel, herdada do minstrel show americano que havia se difundido amplamente pela Europa ao longo do século XIX como forma de entretenimento popular.[nota 1] A Lua personificada — que no pesadelo quer devorar o homem adormecido — era uma figura iconográfica ubíqua no entretenimento popular francês do século XIX, presente em slides de lanterna mágica, caricaturas, cartazes e espetáculos de pantomima muito antes de Méliès.[3] Ao retomá-la em Viagem à Lua (1902), Méliès não inventou a Lua com rosto — transportou para o cinema uma imagem que seu público já conhecia de memória.[2]

Local de filmagem

O filme foi rodado ao ar livre no jardim da propriedade de Méliès em Montreuil-sous-Bois, diante de um décor pintado.[1] Como nos demais filmes do período, a câmera permanecia fixa, e o enquadramento reproduzia a perspectiva frontal do espectador teatral.

Vídeo

Le Cauchemar (1896), de Georges Méliès — versão disponível no Wikimedia Commons, domínio público

Registrado sob o número 82 do catálogo da Star Film, Le Cauchemar é precedido por Chicot, dentiste américain (#81) e seguido por Le Cortège du Bœuf gras passant place de la Concorde (#83–84).[4] O filme integra o grupo de produções do inverno de 1896–1897, identificado por Malthête e Mannoni como o período que inclui também Le Manoir du diable e Chicot, dentiste américain.[5]

Preservação

O filme sobreviveu e está disponível em domínio público no Wikimedia Commons. A cópia disponível está em preto e branco; não foi localizada nenhuma versão colorida à mão do filme. A colorização artesanal fotograma a fotograma era uma prática comercial da Star Film no período, mas era aplicada seletivamente — principalmente a produções de maior duração e ambição, como os filmes posteriores de Méliès.[1]

Ver também


Notas

  1. A figura do *minstrel* em blackface era, no final do século XIX, uma convenção do espetáculo popular europeu e americano, considerada entretenimento de massa sem que seu caráter racista fosse reconhecido como tal pela cultura dominante da época. Sua presença em Le Cauchemar é um documento histórico dessa convenção, e não implica qualquer juízo sobre a intenção de Méliès ou sobre a recepção contemporânea do personagem.

Referências

  1. a b c d e Malthête, Jacques; Mannoni, Laurent (2008). L'œuvre de Georges Méliès. Paris: Éditions de La Martinière. p. 90. ISBN 9782732437323 
  2. a b c Hammond, Paul (1974). Marvellous Méliès. Londres: Gordon Fraser. pp. 135–136. ISBN 0900406380 
  3. a b «L.É. Jones, Pierrot-Watteau. A Nineteenth Century Myth». Romantisme (em francês). 16 (52): —. 1986 
  4. Malthête, Jacques; Mannoni, Laurent (2008). L'œuvre de Georges Méliès. Paris: Éditions de La Martinière. p. 337. ISBN 9782732437323 
  5. Malthête, Jacques; Mannoni, Laurent (2008). L'œuvre de Georges Méliès. Paris: Éditions de La Martinière. p. 30. ISBN 9782732437323 

Ligações externas

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