Iuri Reblin

Iuri Reblin 
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Data de nascimento22 de maio de 1978
Porto Alegre
Alma mater
  • Escola Superior de Teologia
Ocupação
  • teólogo
  • crítico de histórias em quadrinhos
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Iuri Andréas Reblin (it); Iuri Andréas Reblin (mul); Iuri Andréas Reblin (de); Iuri Reblin (pt); Iuri Andréas Reblin (en) Iuri A. Reblin (de)

Iuri Andréas Reblin (Porto Alegre, RS, 22 de maio de 1978) é um pesquisador, diretor, roteirista e teólogo brasileiro, reconhecido por seus estudos pioneiros sobre a interseção entre teologia, histórias em quadrinhos e cultura pop. Atualmente, é Professor Doutor do Programa de Pós-Graduação em Teologia das Faculdades EST, em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil, onde atua na área de concentração em Teologia Prática e Religião e Educação.[1]

Biografia

Sua obra é marcada pela análise teológica de narrativas visuais e pela exploração de elementos religiosos em artefatos da cultura pop, particularmente em histórias em quadrinhos e narrativas de super-heróis. Como ele próprio afirma, "[...] como 'janela da realidade', o mundo que representamos no cinema ou nos quadrinhos é sempre, de uma forma mais nítida ou confusa, um reflexo do mundo que vivemos. Sociedade, economia, religião, cultura, tudo pode ser encontrado nos quadrinhos".[2]

Reblin completou sua formação acadêmica na antiga Escola Superior de Teologia (EST), atual Faculdades EST, em São Leopoldo, onde obteve os títulos de Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia, com concentração em Teologia Prática e Religião e Educação.[3] Sua formação foi motivada por experiências pessoais significativas. Como relata em entrevista, "sou luterano de berço. Meu pai atuoso durante algum tempo em comunidades eclesiais no Estado do Espírito Santo, até que veio a falecer em decorrência de um tumor maligno no cérebro quando eu tinha dezesseis, dezessete anos. O reflexo de seu bom trabalho na comunidade, bem como o da minha mãe, e o vazio de ausência e, na época, o medo de sua morte, me conduziram a fazer o curso de teologia".[4]

Enquanto jovem estudante de bacharelado em teologia, Reblin já dedicava boa parte de seus estudos, histórias em quadrinhos e ao cinema. O informativo do Centro Acadêmico Dr. Ernesto Schlieper (CADES), da EST, publicou inúmeras de suas reflexões sobre cinema, histórias em quadrinhos e arte sequencial.[5] Depois dos estudos teológicos, com o objetivo de se tornar um pastor na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), instituição filiada à Federação Luterana Mundial (FLM), Reblin acabou abandonando a vocação pastoral e optou pela carreira acadêmica.

É membro fundador da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial (ASPAS),[6] uma organização dedicada ao fomento de estudos acadêmicos sobre histórias em quadrinhos no Brasil. Reblin foi o primeiro coordenador geral (2013-2015) e é membro honorário da associação.

Em 2013, Reblin recebeu o Prêmio Capes de Tese, um dos mais prestigiosos prêmios para teses de doutorado no Brasil. Sua tese intitulada A superaventura: da narratividade e sua expressividade à sua potencialidade teológica[7] foi selecionada como a melhor tese na área de Ciências da Religião e Teologia. A tese, orientada pela Profa. Dra. Laude Erandi Brandenburg, foi publicado posteriormente como livro: O alienígena e o menino.[8] Sua atuação acadêmica estende-se à participação em redes de pesquisa nacionais e internacionais, como a SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião) e a Global Network of Public Theology.[9]

Este reconhecimento marcou um momento significativo para a pesquisa sobre quadrinhos no Brasil, consolidando a legitimidade acadêmica dos estudos sobre arte sequencial e sua intersecção com a teologia.

O impacto acadêmico da obra de Reblin concentra-se em sua força inovadora nos estudos acerca das implicações em religião e histórias em quadrinhos, teologia e educação, tanto em instituições brasileiras quanto internacionais.

Principais teses teóricas

A obra de Iuri Andréas Reblin é fundamentada em um conjunto de teses teóricas interconectadas que exploram a relação entre religião, teologia, cultura pop e vida cotidiana. Suas principais argumentações podem ser sintetizadas da seguinte forma:

A superaventura como narrativa religiosa contemporânea

A tese central de Reblin é que as histórias de super-heróis, também designadas por “superaventuras”, funcionam como narrativas religiosas na contemporaneidade. Ele argumenta que essas histórias não são mero entretenimento, mas expressões de questões existenciais e teológicas profundas. Em colaboração com a pesquisadora Larissa Tamborindenguy Becko, Reblin afirma que “as histórias dos super-heróis emergem como uma espécie de narrativa religiosa capaz de evocar práticas de devoção e entusiasmo que se traduzem no comportamento do fã”.[10] Esta tese desafia a separação tradicional entre cultura pop e expressão religiosa, propondo que as narrativas de super-heróis ofereçam um espaço para a exploração de temas como transcendência, sacrifício e redenção.

A rejeição da dicotomia entre sagrado e profano

Reblin rejeitou a separação entre “coisas do mundo” e “coisas de Deus”. Ele argumenta que “não é possível separar 'as coisas do mundo' e 'as coisas de Deus', porque Deus se revela no mundo – se não o fez, não ideias ter experiência com Ele e não ideias identificar suas ações”.[11] Esta tese, fundamentada em sua perspectiva protestante e na teologia do cotidiano, permite que ele analise artefatos da cultura pop como locais legítimos de manifestação do sagrado. Para Reblin, a experiência religiosa não está confinada aos espaços institucionais, mas permeia todas as dimensões da vida humana, daí seu caráter vivencial, isto é, cotidiano.

A não oposição entre mito e verdade

Uma das contribuições mais significativas de Reblin é sua reinterpretação da relação entre mito e verdade. Ele critica a tendência de contrapor mito e verdade, argumentando que "[...] eles não estão em contraposição. Eles não existem por serem verdade ou mentira. Eles existem para nos darem uma direção, um horizonte para o qual caminhar, para refletir sobre nossa condição humana no mundo e para serem uma possibilidade de resposta às questões existenciais que possuímos".[12] Reblin defende que narrativas míticas, incluindo as bíblicas e as de super-heróis, devem ser compreendidas não como proposições factuais, mas como histórias que oferecem sentido existencial.

Superman como paradigma do messias contemporâneo

Reblin utiliza a narrativa de Superman como um exemplo paradigmático de como as estruturas messiânicas são reconfiguradas na cultura pop. Ele observa que “[...] desde os criadores da história até os cineastas que a releem buscam essa ancoragem religiosa”, destacando a origem judaica dos criadores de Superman e a forte referência ao herói como “o enviado, o messias”.[13] Em uma conversa teológica, de 2025, Reblin detalha os paralelos cristológicos na história do Superman, como o envio do bebê à Terra, sua adoção, seus conflitos e sua entrega final para salvar a humanidade, demonstrando como as narrativas contemporâneas se apropriam de arquétipos religiosos ancestrais. Numa palestra de 2015, na Unisinos, Reblin afirmou que:

"Em se falando em cinema, para além da narrativa, a composição imagética das cenas revela inspirações sacras. O herói recluso em reflexão/oração, os conflitos, a incompreensão dos homens e até a entrega que faz de sua própria vida para salvar a humanidade — na imagem, o herói está no espaço e cai de braços abertos, em cruz, no vácuo em direção ao planeta Terra que está ao fundo. Depois do encontro com o pai, Superman encara o mal de frente e cai. Não é crucificado, mas é ferido no lado esquerdo do peito com uma lança de kriptonita — cristal de seu mundo de origem, capaz de fazer o herói sucumbir. Permanece em coma, é dado como morto e quando menos se imagina a cama no hospital está vazia. O Homem de Aço ressuscita, sai pela janela, e uma mulher acha o leito vazio. Impossível não associar com a ideia do túmulo vazio de Jesus Cristo”.[14]

A cultura pop como espelho da realidade vivida

Reblin defende que a cultura pop, incluindo os quadrinhos, funciona como uma “janela da realidade”. Ele afirma que "[...] o mundo que representamos no cinema ou nos quadrinhos é sempre, de uma forma mais nítida ou confusa, um reflexo do mundo que vivemos. Sociedade, economia, religião, cultura, tudo pode ser encontrado nos quadrinhos".[15] Esta tese sustenta que a análise de artefatos da cultura popular oferece insights sobre as preocupações, valores e questões existentes de uma sociedade.

O Método Cartográfico-crítico como ferramenta analítica

Para dar suporte a suas teses, Reblin desenvolveu o “método cartográfico-crítico”, uma metodologia para a análise de artistas da cultura pop a partir da perspectiva das ciências da religião e da teologia.[16] Este método oferece um conjunto de procedimentos sistemáticos para investigar as dimensões religiosas e teológicas presentes em expressões culturais, buscando garantir a confiabilidade da análise de interesses subjetivos.

A obra de Reblin é profundamente influenciada pela Teologia do Cotidiano, uma abordagem que busca identificar e valorizar as experiências religiosas e espirituais presentes na vida cotidiana das pessoas. Sua principal referência nesta área é o teólogo, educador e escritor brasileiro Rubem Alves (1933-2014). Reblin dedicou um livro inteiro ao pensamento de Alves, “Outros cheiros, outros sabores: o pensamento teológico de Rubem Alves” (2009), análise chancelada pelo próprio Rubem Alves, em correspondência pessoal ao autor,[17] e utiliza a perspectiva de Alves como base metodológica para sua análise de histórias em quadrinhos e outros artefatos da cultura pop. Reblin destaca que o elemento fundamental da cultura pop é a narrativa, uma experiência imersiva capaz de se alojar nas memórias afetivas do público e gerar engajamento, especialmente através da cultura de fãs. O autor adverte, contudo, sobre o risco de "enxergar religião em tudo", defendendo que a análise deve partir da compreensão das dinâmicas próprias do objeto de estudo. Trata-se de uma adaptação do método histórico-crítico, tradicionalmente usado na hermenêutica de textos sagrados. A diferença fundamental é que, em vez de focar em uma arqueologia ou historiografia profunda (difícil para produtos culturais recentes), o método propõe a criação de uma cartografia, ou seja, um "mapa" das relações de significado do artefato. Reblin afirma que o método cartográfico-crítico oferece uma abordagem tridimensional e sólida para a análise de artefatos da cultura pop. Ele permite compreender como os sentidos relacionados ao fenômeno religioso são engendrados nessas produções, considerando simultaneamente a linguagem do artefato, seu processo de produção e a sua recepção pelo público. O método se apresenta como uma ferramenta interdisciplinar, capaz de desvendar as complexas camadas de significado presentes na cultura que consumimos diariamente.[18]

Outra influência teológica importante é Paul Tillich (1886-1965), cuja “teologia da cultura” fornece o fundamento teórico para a análise de Reblin sobre como questões religiosas se manifestam em expressões culturais. Reblin também dialoga com o pensamento de Søren Kierkegaard (1813-1855), particularmente em suas reflexões sobre a angústia existencial, e com Martinho Lutero (1483-1546), cuja perspectiva protestante sobre a integração entre fé e vida cotidiana fundamenta sua recusa em separar “coisas do mundo” e “coisas de Deus”, pois, para esta perspectiva, é na existência concreta que a vocação humana se desenlaça.

É nesta perspectiva que se insere sua abordagem como produtor audiovisual da série documental "Nas Trilhas da Reforma". A obra, composta por 12 episódios de média-metragem, explora didaticamente diferentes características da Reforma Protestante, focando no movimento desencadeado por Martinho Lutero, cuja perspectiva teológica surge nos episódios narrados por especialistas como Martin N. Dreher, entre outros.[19]

Influências acadêmicas contemporâneas

Reblin colaborou com diversos pesquisadores que influenciaram seu trabalho, incluindo o sociólogo Nildo Viana, com quem coorganizou o livro Super-heróis, cultura e sociedade (2020),[20] e Remi Klein, colega da Faculdades EST com quem trabalhou em publicações sobre educação religiosa.[21]

Bibliografia

Livros autorais

  • O Alienígena e o Menino: o desenvolvimento do messianismo no universo ficcional do Superman. São Paulo: Paço Editorial, 2015.
  • Para o Alto e Avante: uma análise do universo criativo dos super-heróis. Novo Hamburgo: Cor-Graf, 2008.
  • Outros Cheiros, Outros Sabores: o pensamento teológico de Rubem Alves. São Leopoldo: Oikos, 2009.
  • A Superaventura: da narratividade e sua expressividade à sua potencialidade teológica. Dissertação de Doutorado, Faculdades EST, 2012.
  • Histórias em Quadrinhos: perspectivas religiosas e possibilidades hermenêuticas. São Leopoldo: Faculdades EST, 2019.

Outras Publicações

  • Super-heróis, cultura e sociedade. Goiânia: Edições Redelp, 2020.
  • Ensino Religioso e Docência e(m) formação. São Leopoldo: Sinodal, 2013.
  • Atravessando o Espelho de Alice: estudos sobre religião, cultura pop e mídia. São Leopoldo: Faculdades EST, 2021.
  • Vamos falar sobre gibis? Episódio 2: O retorno dos nerds. Caxias do Sul: Marca de Fantasia, 2022.
  • Vamos falar sobre gibis? Retratos teóricos a partir do Sul. Porto Alegre: Fi, 2021.
  • Vamos falar sobre cultura pop? Retratos teóricos a partir do Sul. Porto Alegre: Fi, 2021.
  • Religiosidades nas Histórias em Quadrinhos. Leopoldina: Aspas, 2015.
  • Arte sequencial em perspectiva multidisciplinar. São Paulo: Marca de Fantasia, 2016.
  • Religião, política, poder e cultura na América Latina. São Leopoldo: Faculdades EST, 2012.
  • Subterrâneo religioso: reflexões a partir do pensamento de Oneide Bobsin. São Leopoldo, RS: Karywa, 2016.
  • Referências

  1. Reblin, Iuri Andreas. «Deus no Gibi». Cópia arquivada em 11 de maio de 2021 
  2. Instituto Humanitas Unisinos. "Homilia pop: da história de Jesus aos ícones na narrativa de Superman".
  3. Reblin, Iuri Andreas. «Entrevista com Iuri Andreas Reblin». Cópia arquivada em 11 de maio de 2021 
  4. Instituto Humanitas Unisinos. "Homilia pop: da história de Jesus aos ícones na narrativa de Superman"
  5. Reblin, Iuri Andreas (1999). «Fantasmas!». Centro Acadêmico Dr. Ernesto Schlieper (CADES). 100Censura (5): 2-3 
  6. https://blogdaaspas.blogspot.com/
  7. http://dspace.est.edu.br:8080/xmlui/handle/BR-SlFE/286?show=full
  8. O Alienígena e o menino. Jundiaí, SP: Paco Editorial, 2015. 262 p. ISBN 9788581487724.
  9. https://www.gnpublictheology.net/
  10. Becko, Larissa Tamborindenguy; Reblin, Iuri Andréas. "Aspectos religiosos na adoração de super-heróis: olhares ao fã do gênero da superaventura". TEOLITERARIA - Revista de Literaturas e Teologias, vol. 9, no. 18, 2019, pp. 171-197.
  11. Reblin, Iuri Andreas. O Alienígena e o Menino: o desenvolvimento do messianismo no universo ficcional do Superman. 2015: Paco Editorial. p. 23ss. ISBN 978-85-8148-772-4 
  12. Reblin, Iuri Andréas (3 de fevereiro de 2017). «Apresentação». Reflexão (2): 133–134. ISSN 2447-6803. doi:10.24220/2447-6803v41n2a3868. Consultado em 17 de fevereiro de 2026 
  13. Santos, João Vitor. «"Homilia pop": da história de Jesus aos ícones na narrativa de Superman». www.ihuonline.unisinos.br. Consultado em 17 de fevereiro de 2026. Cópia arquivada em 4 de agosto de 2025 
  14. Santos, João Vitor. «"Homilia pop": da história de Jesus aos ícones na narrativa de Superman». www.ihuonline.unisinos.br. Consultado em 21 de março de 2026. Cópia arquivada em 4 de agosto de 2025 
  15. Reblin, Iuri Andreas (2013). O Planeta Diário: rodas de conversa sobre quadrinhos, super-heróis e teologia. São Leopoldo: EST. ISBN 978-85-89754-29-3
  16. Reblin, Iuri Andreas (2020). «Método cartográfico-crítico para análise de artefatos da cultura pop a partir da área de ciências da religião e teologia». REVER. 20 (3). Consultado em 17 de fevereiro de 2026. Cópia arquivada em 22 de abril de 2025 
  17. Reblin, Iuri Andreas (2014). Outros cheiros, outros sabores.. : o pensamento teológico de Rubem Alves. São Leopoldo: Oikos. ISBN 9788578434304 
  18. Reblin, Iuri Andréas (11 de dezembro de 2020). «Método cartográfico-crítico para análise de artefatos da cultura pop a partir da área de ciências da religião e teologia». REVER: Revista de Estudos da Religião (3): 11–26. ISSN 1677-1222. doi:10.23925/1677-1222.2020vol20i3a2. Consultado em 24 de fevereiro de 2026 
  19. «Nas Trilhas da Reforma». Faculdades EST. Consultado em 24 de fevereiro de 2026. Cópia arquivada em 23 de janeiro de 2026 
  20. VIANA, Nildo; REBLIN, Iuri Andréas; SCHAPER, Valério Guilherme. Super-heróis, cultura e sociedade: aproximações multidisciplinares sobre o mundo dos quadrinhos. Aparecida, SP: Idéias e Letras, 2011
  21. REBLIN, Iuri Andréas; KLEIN, Remí. Cinema e Ensino Religioso: possibilidades metodológicas. Fenômeno Religioso e Metodologias: VI Simpósio de Ensino Religioso, 10 a 12 de setembro de 2009, São Leopoldo/RS, São Leopoldo.

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