Design ativismo

Design ativismo, também conhecido como design ativista, refere-se a um movimento de práticas no campo do design e das artes voltadas à promoção de transformações sociais e culturais a partir da representação estética dos movimentos sociais, ambientais e políticos.[1] Nesse contexto, o design ativista pode ser compreendido como uma ferramenta simbólica de resistência, voltada à crítica de desigualdades sociais, ambientais e das hegemonias na produção de conhecimento. Onde também se pensa criticamente sobre o papel social do design a partir de abordagens centradas nas pessoas. Portanto, suas práticas buscam dar visibilidade a novas narrativas, novos saberes e ressignificar símbolos que contribuem para um design mais inclusivo e diversa. [1][2][3]
História
Embora a expressão “design ativismo” seja recente, há precedentes históricos de indivíduos e movimentos que questionaram as formas e os propósitos da produção de objetos. O termo activism design aparece com frequência em artigos acadêmicos internacionais, enquanto “design ativista” ainda possui uso mais restrito no Brasil, sendo frequentemente associado ao campo do design social ou design cidadão, em função de seu impacto social.[4] Ao relacionar o ativismo à prática do design, observa-se um deslocamento em direção à ação, não se restringindo necessariamente à atuação de profissionais da área. Entre os antecedentes desse movimento destacam-se John Ruskin e William Morris, figuras centrais no desenvolvimento do estilo neogótico e do movimento Arts and Crafts.[5][6]
Desde o século XIX, ambos já apontavam a necessidade de compreender o design para além de sua função na produção voltada ao sistema capitalista, incorporando questões sociais, políticas e trabalhistas. Nesse sentido, posicionaram-se de forma crítica à massificação da produção industrial. Ruskin, em particular, argumentava que a produção industrial em larga escala comprometia a beleza e a liberdade expressiva presentes nos objetos produzidos por artesãos.[7]
Ainda na década de 1960, no contexto do movimento contracultural, o manifesto First Things First (“primeiro as coisas mais importantes”), escrito pelo designer Ken Garland e publicado em 1963 no Institute of Contemporary Arts, em Londres, criticava a ausência de reflexão sobre o papel social do design. O texto defendia a necessidade de um design menos tecnicista e mais orientado às demandas sociais urgentes, em oposição ao uso predominante do design voltado ao consumo.[7]
Esse cenário de contestação ampliou-se na Europa ao longo da década, atingindo seu auge durante 1968, em Paris. Nesse contexto, estudantes e professores ocuparam a École des Beaux-Arts e criaram o Atelier Populaire, coletivo responsável pela produção de cartazes serigráficos em apoio aos protestos. Dessa forma, o design gráfico ativista transita por essas camadas, evidenciando sua interdisciplinaridade e sua potência na produção de ícones e imagens presentes nas manifestações.[7] Os cartazes são concebidos como instrumentos de luta política, destinados à circulação em espaços públicos, como ruas e fábricas. Combinando imagens, símbolos e slogans de forte impacto que comumente apresentam mensagens diretas e provocativas. Para o coletivo Atelier Populaire, a imagem deveria operar em dois níveis: uma leitura imediata, seguida por uma elaboração mental da ideia. Nesse sentido, o cartaz político era entendido menos como portador de uma verdade estática e mais como um dispositivo de ação e mobilização social.[7][6] Ainda nos anos 60, destacaram-se também manifestações de artistas e coletivos como AfriCOBRA, Keith Haring, Barbara Kruger e Jean-Michel Basquiat, cujas produções dialogaram com questões sociais e políticas, contribuindo para a visibilidade e o debate público. No Brasil, designers, artistas e intelectuais como Luiz Carlos Gá, Abdias do Nascimento, Januário Garcia, Goya Lopes e Maria Auxiliadora contribuíram para levar ao espaço público debates sobre questões raciais, culturais e sociais, por meio de produções visuais e ações políticas.[7]
Já no início da década de 70, Victor Papanek, destacou-se como um dos precursores do que posteriormente seria compreendido como design ativista. Em suas reflexões, ampliou a discussão sobre a responsabilidade do design e dos designers na produção de objetos e ideias que compõem a realidade material e social, defendendo a incorporação de questões emergenciais, como o consumo responsável e a ampliação do debate político.[4]

A comunidade LGBTQIAPN+, especialmente no contexto da epidemia de HIV/AIDS nos anos 80, esteve engajada na produção de campanhas e materiais gráficos voltados à educação sobre sexo seguro e à prevenção da transmissão do vírus. As ações mobilizados por grupos como o Grupo Triângulo Rosa (1985), Grupo Gay da Bahia (1980) e o ACT UP (1987)[8], desempenharam um papel relevante na mobilização social e política. Parte dessas ações ativistas incluiu a ressignificação do triângulo rosa, símbolo originalmente utilizado pelo regime nazista para identificar homens homossexuais[9], que passou a ser apropriado como emblema de resistência e afirmação.[10]

Abrangendo diversos outros movimentos ativistas, como o Black Lives Matter ("vidas negras importam"), que evidenciou as questões raciais emergentes. Por isso, essas práticas frequentemente utilizam o design de forma intuitiva e coletiva, promovendo criações espontâneas e produções de caráter artesanal no espaço midiático e urbano.
Outro exemplo é o grupo de ocupação do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que disponibilizou seu arquivo de identidade visual para uso livre por meio da plataforma Twibbon, ao mesmo tempo em que aplicava essa identidade em intervenções visuais na instituição. Dessa forma, observa-se uma menor ênfase na autoria individual, com foco em princípios como o Creative Commons, frequentemente associado à colaboração e a circulação aberta de conteúdos.[11][7]

Exemplos dessas práticas também incluem intervenções gráficas realizadas em manifestações, como o uso de carimbos em superfícies como pisos e paredes e a placa de rua distribuída em ato em outubro de 2018. [12] A partir da manifestação a placa passou a se tornar um símbolo de resistência em ações de mobilização em torno do assassinato de Marielle Franco.[13] Evidenciando o caráter experimental dessas produções e aplicações no contexto do ativismo contemporâneo, as placas passaram a ser utilizadas em diferentes contextos, incluindo como elemento simbólico e decorativo em espaços públicos e privados. Um dos elementos que caracteriza o ativismo contemporâneo é a centralidade da publicização das ações. As táticas de ativismo midiático utilizam tanto meios tradicionais, como jornais e panfletos, quanto plataformas digitais, que ampliam o alcance das mensagens em função do baixo custo de produção, da reprodutibilidade e da velocidade de circulação.[7]
Nos anos atuais, coletivos como o Centro de Mídia Independente e a Mídia NINJA atuam na descentralização da informação e no fortalecimento das mídias livres, por meio da produção colaborativa e da ampliação de vozes historicamente marginalizadas. Organizadas em rede, essas iniciativas tiveram participação ativa nas manifestações de junho de 2013 no Brasil, difundindo informações sobre os protestos e contribuindo para a articulação e mobilização em escala nacional.[14]
Design Feminista
O design feminista refere-se a uma abordagem no campo do design que considera a experiência de diversas mulheres, tendo em vista, as questões de identidades de gênero assegurado a todas as pessoas com útero de seus direitos. Esse conceito pode ser aplicada em diferentes áreas buscando promover práticas mais inclusivas, equitativas e sensíveis às diferenças sociais e culturais.

As Guerrilla Girls, por exemplo, são um coletivo de ativistas feministas anônimas que, desde 1985, utilizam humor, dados e imagens impactantes para denunciar o sexismo e o racismo nas artes, na cultura pop e na política. Reconhecidas por suas máscaras de gorila, elas surgiram em protesto contra a baixa presença de mulheres em uma exposição no MoMA, que apresentou 165 artistas, dos quais apenas 13 eram mulheres.[15][16]
Com cartazes provocativos como “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Met. Museum?”, elas escancararam o contraste entre a escassa representação feminina entre os artistas e a abundância de nus femininos nas coleções de grandes museus. Seu discurso articula-se com debates sobre feminismo, eurocentrismo, privilégio branco, heteronormatividade e o domínio masculino na arte e na sociedade. O grupo defende uma prática artística mais plural, que crie espaços para vozes diversas, incluindo mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+ e de classes sociais marginalizadas, expressarem suas culturas, ideias e desejos, sem serem apagadas ou reduzidas a um padrão único.[15][17]

Outro movimento feminista que se utiliza do design gráfico como ferramenta politica é a A Marcha das Vadias (português brasileiro) ou Marcha das Galdérias (português europeu) (em inglês: SlutWalk) é um movimento social feminista que pede o fim da cultura do estupro como a culpabilização das vítimas e a vergonha que as mulheres passam ao sofrerem violência sexual.[18] As manifestações começaram em 3 de abril de 2011, na cidade de Toronto, em Ontário, província do Canadá, depois que um policial de Toronto sugeriu que "as mulheres deveriam evitar se vestir como vadias" como forma de precaução contra agressão sexual. Posteriormente, inúmeros protestos ocorreram ao redor do mundo.[19]
No campo visual, a Marcha mobiliza cartazes, tipografias e slogans como estratégias de comunicação e protesto, evidenciando o papel do design gráfico na construção de narrativas e na visibilidade das pautas feministas.
Paralelamente, o movimento pelo direito ao aborto, frequentemente denominado pró-escolha, defendem a autonomia reprodutiva e o direito de decidir sobre a continuidade ou não da gestação. Essas mobilizações também são feitas através de cartazes, faixas, ilustrações que reivindicam a legalização do aborto e a garantia de direitos reprodutivos mais amplos, incluindo acesso à educação sexual, métodos contraceptivos, serviços de saúde seguros e proteção contra práticas coercitivas, como o aborto forçado. O design ativismo permeia diversos campos, como os movimentos feministas que, de forma semelhante à outros diferentes movimentos sociais, utiliza o design gráfico como ferramenta política nas produções de cartazes, faixas, camisas, e outros materiais de comunicação. Evidenciando a importância de uma reflexão crítica sobre o papel social do design, bem como a ampliação de seu uso em práticas ativistas.
Referências
- ↑ a b Júnior, José Carlos M.;de Moura, Mônica Cristina;Guimarães, Márcio James S. Design ativismo como prática cidadã contemporânea. Colóquio Internacional de Design. 2020.
- ↑ Prado, Gheysa Caroline (22 de dezembro de 2021). «Design ativismo ou design ativista?». Estudos em Design (3). ISSN 1983-196X. doi:10.35522/eed.v29i3.1273. Consultado em 21 de maio de 2025. Cópia arquivada em 12 de agosto de 2025
- ↑ Batista, Marcelo Viana. Estratégias Ativistas no Design. UNISINOS. Porto Alegre. 2023
- ↑ a b Júnior, José Carlos M.;de Moura, Mônica Cristina;Guimarães, Márcio James S. Design ativismo como prática cidadã contemporânea. Colóquio Internacional de Design. 2020.
- ↑ Morris, William; Morris, William. The Nture of Gothic (PDF). 1982: Kelmscott Press
- ↑ a b Prado, Gheysa Caroline (22 de dezembro de 2021). «Design ativismo ou design ativista?». Estudos em Design. 29 (3). ISSN 1983-196X. doi:10.35522/eed.v29i3.1273. Cópia arquivada em 12 de agosto de 2025
- ↑ a b c d e f g Albuquerque, Elisabete Maria de (29 de outubro de 2018). «Design gráfico em tempos de ativismo». repositorio.ufpe.br. Consultado em 24 de março de 2026
- ↑ Waxman, Olivia B. «How the Nazi Regime's Pink Triangle Symbol Was Repurposed for LGBTQ Pride». TIME (em inglês). Cópia arquivada em 14 de novembro de 2025
- ↑ «SILENCE = DEATH». www.actupny.org. Consultado em 24 de março de 2026. Cópia arquivada em 7 de setembro de 2009
- ↑ Newsome, W. Jake (20 de abril de 2017). «Pink Triangle Legacies: Holocaust Memory and International Gay Rights Activism». Nursing Clio (em inglês). Consultado em 24 de março de 2026
- ↑ Assis, Fernanda Regina Rios (3 de fevereiro de 2022). «Midiativismo e estética como resistência: uma análise sobre o design ativista.». Cópia arquivada em 30 de julho de 2024
- ↑ «Placa». MHN. Consultado em 24 de março de 2026
- ↑ «Placa em homenagem a Marielle Franco é inaugurada no Centro do Rio». CNN Brasil. 14 de março de 2021. Consultado em 25 de março de 2026. Cópia arquivada em 3 de outubro de 2025
- ↑ «Design Ativista». Mídia NINJA. Consultado em 24 de março de 2026. Cópia arquivada em 4 de março de 2026
- ↑ a b «confessions_interview». Guerrilla Girls (em inglês). Consultado em 24 de março de 2026. Cópia arquivada em 4 de dezembro de 2025
- ↑ «MASP». MASP. Consultado em 24 de março de 2026
- ↑ «MASP». MASP. Consultado em 24 de março de 2026
- ↑ Centre, Salal Sexual Violence Support (29 de maio de 2013). «SlutWalk Vancouver: A march to end rape culture». Salal Sexual Violence Support Centre (em inglês). Consultado em 25 de março de 2026. Cópia arquivada em 8 de fevereiro de 2026
- ↑ Brittany, Leach, (2013). «Slutwalk and Sovereignty: Transnational Protest as Emergent Global Democracy» (em inglês). Cópia arquivada em 25 de agosto de 2025
Ligações externas
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