Cerrado

 Nota: Para outros significados, veja Cerrado (desambiguação).
Cerrado
Ecologia
BiomaSavana
Geografia
Área2 045 064 km²
PaísesBrasil
Parte daAmérica do Sul
Mapa da área do Cerrado conforme delineado pela World Wide Fund for Nature.
Mapa da área do Cerrado conforme delineado pela World Wide Fund for Nature.

Mapa da área do Cerrado conforme delineado pela World Wide Fund for Nature.

Cerrado é bioma brasileiro de savanas,[nota 1] sendo o segundo maior em extensão territorial depois da Amazônia, ocupando uma área de mais de dois milhões de quilômetros quadrados.[1]. O termo "cerrado" pode ser utiilizado em três sentidos[2][3][4][5] O primeiro, a "fisionomia do cerrado sensu stricto" é uma das fisionomias do bioma savana e parte da província florística cerrado sensu lato.

Em segundo, a "província do cerrado sensu lato" é uma província florística ou fitogeográfica — também chamada tipo vegetacional ou fitocório, que é um conceito florístico, que leva em conta a composição dos grupos taxonômicos das plantas de uma comunidade, (isto é, a flora) e biogeográfica (ao se incluir também a fauna). Corresponde à província Oreades de Martius. É composto por três biomas (que é um conceito fisionômico-funcional, e que apesar de englobar tanto as plantas quanto os animais e microrganismos de uma comunidade, na prática, se define pelo clima e pela fisionomia ou aparência geral das plantas da comunidade, isto é, pelo "tipo de formação vegetacional" - não confundir com o conceito florístico de "tipo vegetacional" - embora certos autores usem esta expressão para se referir a fisionomias)[6] e seis fisionomias (subtipos de bioma ou de formação vegetacional): o bioma campo tropical (fisionomia campo limpo), o bioma savana (fisionomias campo sujo, campo cerrado e cerrado sensu stricto) e o bioma floresta estacional (fisionomia cerradão).

Em terceiro, o "domínio do cerrado" se refere a um domínio morfoclimático e fitogeográfico (área do espaço geográfico, com dimensões subcontinentais, em que predominam características morfoclimáticas - de clima e relevo - semelhantes, além de uma província florística (tipo vegetacional) predominante, podendo, entretanto, conter vários tipos de formações (como a floresta ripícola, o campo rupícola, o Cerradão, a floresta estacional decídua, o campo úmido, a mata ciliar, mata de galeria, mata seca, palmeiral, vereda e campo rupestre), algumas pertencentes a outras províncias florísticas (como a Mata Atlântica).

A grafia varia entre os autores: alguns propõem que apenas o terceiro sentido seja usado com inicial maiúscula, outros sugerem o mesmo para o segundo sentido, e alguns usam os três conceitos com iniciais minúsculas. Pode-se observar, então, que embora o cerrado sensu lato e o domínio do cerrado sejam comumente referidos, até mesmo em certos documentos oficiais do IBGE[7] ou da Embrapa, como um bioma (que é definido na literatura internacional a partir de características fisionômicas e ambientais, independentemente da composição taxonômica da comunidade), de acordo com o uso internacional do conceito de bioma, o correto é dizer que o cerrado (seja a província florística ou o domínio morfoclimático) contém biomas, e não que é um bioma.

Extensas pesquisas demonstraram que o Cerrado é uma das regiões de savana tropical mais ricas em biodiversidade e apresenta altos níveis de endemismo. Caracterizando-o por sua enorme variedade de biodiversidade vegetal e animal, o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) classificou o Cerrado como a savana biologicamente mais rica do mundo, com cerca de 10.000 espécies de plantas e 10 espécies de aves endêmicas.[8] Existem quase 200 espécies de mamíferos no Cerrado, embora apenas 14 sejam endêmicas.[8] A grande proporção de terras em propriedade privada, no entanto, dificulta a proteção.[9] O solo de suas áreas de turfeiras pode ser especialmente denso e, portanto, constitui um sumidouro de carbono particularmente potente. Condições persistentemente mais secas nas áreas úmidas ou nas fontes de água a montante, como pode ocorrer com as mudanças climáticas ou devido à destruição do habitat, erodiriam esse armazenamento de carbono, que é seis vezes mais potente por parcela de tamanho semelhante do que na floresta amazônica.[10]

Clima

Vegetação verdejante durante o verão, Chapada dos Veadeiros, Goiás, Brasil

O clima do Cerrado é típico das regiões de savana mais úmidas do mundo, com um clima tropical semiúmido. O Cerrado apresenta duas estações dominantes ao longo do ano: a chuvosa e a seca. As temperaturas médias anuais no Cerrado variam entre 22 e 27 °C e a precipitação média entre 80 e 200 cm em mais de 90% da área.[11] Esta ecorregião possui uma estação seca muito intensa durante o inverno austral (aproximadamente de abril a setembro).[11]

Características

Mapa da área do Cerrado delineado pela World Wide Fund for Nature
Mapa de sobreposição das regiões hidrográficas do Brasil com a área de distribuição do cerrado
Vegetação característica na região noroeste de Minas Gerais, Brasil
Parque Estadual dos Pireneus, em Goiás

O domínio apresenta variações fitofisionômicas ao longo de sua extensão[12]. É uma área zonal, como as savanas da África, e predomina, majoritariamente, no Planalto Central[4].

Trata-se do segundo maios domínio fitogeográfico em extensão, estendendo-se, em sua área core ou nuclear, por um território de 1,5 milhão de km²,[13] abrangendo quatro estados do Brasil Central (Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal), além de Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Tocantins, Bahia, Maranhão e Piauí. Incluindo-se as áreas periféricas/disjuntas, este valor pode ultrapassar 2 milhões de km²[14][15]. Essas áreas disjuntas podem ser encontradas em meio a outros domínios, tais como Amazônia, nos estados de Amapá, Roraima e Pará, e Caatinga, em alguns locais do Ceará, Paraíba e Pernambuco[15][16][17][18]. Além disso, há manchas de Cerrado no estado do Paraná, um pouco abaixo do trópico de Capricórnio[19].

É cortado por três das maiores bacias hidrográficas da América do Sul, tem índices pluviométricos regulares que lhe propiciam sua grande biodiversidade. O Cerrado possui duas classificações principais: o Cerrado stricto sensu, que abrange as formações savânicas; e o Cerrado lato sensu, que engloba formações florestais e campestres.[12] O Cerrado stricto sensu cobre a maior parte do domínio, e está representado pelas formações de cerrado ralo, típico e denso, parque de cerrado, palmeiral e vereda. Por outro lado, as formações florestais engloba os cerradões, as matas ciliares e de galeria, e as matas secas; enquanto as campestres exibem campos sujos e limpos e os campos rupestres.[12]

Vegetação

Fitogeografia

Trilha em área de cerradão no Parque Estadual Matas do Segredo, Campo Grande, MS
Interior de cerrado típico na Floresta Nacional de Paraopeba, MG
Campo cerrado em área com influência antrópica em Padre Bernardo, GO
Área de campo sujo no Parque Nacional das Emas, GO
Área de campo limpo no Parque Nacional das Emas, GO
Vereda em Lagoa Grande, MG

Martius (1824), embora não tenha proposto um sistema formal, descreve vários tipos de vegetação presentes no atual domínio do Cerrado.[20][21][5]

Warming (1892), em seu trabalho em Lagoa Santa, usa uma terminologia que seria formalizada por Löfgren (1898). Este é creditado como o primeiro a usar formalmente o termo "cerrado" no sentido fisionômico atual (cerrado sensu stricto), além de elaborar um sistema de tipos de vegetação para a Oreades (futuro cerrado sensu lato).[22][23][5]

  • Cerradão ou Caatanduva
  • Cerrado propriamente dito
  • Campo cerrado ou Caatininga
  • Campo Limpo

Formações (subtipos de vegetação) do cerrado (sensu lato), segundo Coutinho (1978):[24][25][26]

Fitofisionomias presentes no "bioma" (domínio) cerrado, segundo Ribeiro & Walter (1998):[12][5][p.150]

Entretanto, deve-se notar que alguns autores (ex., Ribeiro & Walter, 1998) não incluem o campo limpo no cerrado enquanto área fitogeográfica (cerrado sensu lato).[5][p.94]

Arruda et al. (2008) identificaram 22 ecorregiões no bioma Cerrado, de acordo com aspectos biogeográficos e ecológicos, a fim de servir como referência para o planejamento ambiental: Alto Parnaíba, Araguaia Tocantins, Bananal, Bico do Papagaio, Chapadão do São Francisco, Chiquitania, Complexo Bodoquena, Depressão Cuiabana, Depressão do Parnaguá, Grão-Mogol, Jequitinhonha, Paracatu, Paraná- Guimarães, Paranaíba, Paranapanema Grande, Parecis, Planalto Central Goiano, Província Serrana, São Francisco-Velhas, Serra da Canastra, Serra do Cipó e Vão do Paranã.[27][28]

Tipos de vegetação presentes na "região florística do Brasil central" (província do cerrado), segundo o IBGE (2012):[29]

Tipos de "savana" (entendida neste esquema como sinônimo de cerrado sensu lato) de acordo com o IBGE (2012), com nomes regionais entre parênteses:[29]

  • Subgrupo de formação: Savana (Cerrado)
    • Formação: Savana Florestada (Cerradão)
    • Formação: Savana Arborizada (Campo Cerrado, Cerrado Ralo, Cerrado Típico e Cerrado Denso)
    • Formação: Savana Parque (Campo-Sujo-de-Cerrado, Cerrado-de-Pantanal, Campo-de-Murundus ou Covoal e Campo Rupestre)
    • Formação: Savana Gramíneo-Lenhosa (Campo-Limpo-de-Cerrado)

Flora

Três Lagoas - MS

Até o momento, a flora conhecida do Cerrado revela uma elevada riqueza e diversidade, com altos índices de endemismo. Atualmente, estão catalogadas 14.129 espécies de angiospermas, das quais 7.578 são endêmicas (aprox. 53% do total)[30]. Esse alto número de espécies endêmicas, associado a intensas e constantes ameaças, permite a classificação do Cerrado como hotspot de biodiversidade[31].

A composição florística dos cerrados, com seus respectivos hábitos e formas de vida predominantes, também variam segundo a fitofisionomia. Nas formações florestais, por exemplo, predominam espécies lenhosas, de forma de vida fanerofítica, que mantêm suas gemas de crescimento acima de 50 cm do solo. Já em áreas de Cerrado stricto sensu prevalecem hemicriptófitos, representados por ervas e subarbustos cujas gemas estão próximas ao nível do solo[32]

A distribuição dessa flora tem sido amplamente estudada. Pesquisas com pólen indicam que, durante o período glacial, o domínio funcionou como um corredor ecológico entre as florestas Amazônica e Atlântica[33]. Outros estudos revelam uma mistura de plantas típicas da Amazônia e da Mata Atlântica com espécies do Cerrado nas zonas de Mata Ciliar e Mata Seca, além de um gradiente florístico atlântico-amazônico na direção sudeste-noroeste do Cerrado, onde a similaridade entre as espécies diminui conforme se afasta da região central[34][35].

Flor de Cajueiro-bravo-do-campo (Curatella americana L.), espécie oligárquica do Cerrado.

A partir da flora, foi possível identificar três supercentros de diversidade para o Cerrado: Sudeste Meridional, Planalto Central e Nordeste[36]. Cada um desses supercentros apresenta identidade florística própria. Entretanto, é possível notar a presença de espécies vegetais comuns, amplamente distribuídas por toda a extensão do domínio[15]. Trata-me das espécies "oligárquicas" ou "dominantes", que são utilizadas para identificar a influência do Cerrado numa determinada área[37] e auxiliam na identificação de áreas disjuntas.

Provavelmente, cerca de 800 espécies de árvores são encontradas no Cerrado.[11] Entre as famílias de árvores mais diversas no Cerrado estão as Leguminosae (153 spp.), Malpighiaceae (46), Myrtaceae (43), Melastomataceae (32) e Rubiaceae (30).[38] Grande parte do Cerrado é dominada pela família Vochysiaceae (23 espécies no Cerrado) devido à abundância de três espécies do gênero Qualea.[11] A camada herbácea atinge geralmente cerca de 60 cm de altura e é composta principalmente pelas Poaceae, Cyperaceae, Leguminosae, Compositae, Myrtaceae e Rubiaceae. Grande parte da vegetação nas matas de galeria é semelhante à floresta tropical próxima; no entanto, existem algumas espécies endêmicas encontradas apenas nas matas de galeria do Cerrado.[11]

A fertilidade do solo, o regime de incêndios e a hidrologia são considerados os fatores mais influentes na determinação da vegetação do Cerrado. Os solos do Cerrado são sempre bem drenados e a maioria são oxissolos com baixo pH e baixo teor de cálcio e magnésio.[11][39] A quantidade de potássio, nitrogênio e fósforo tem se mostrado positivamente correlacionada com a área basal do tronco das árvores em habitats do Cerrado.[40] Assim como em outros campos e savanas, o fogo é importante para a manutenção e a formação da paisagem do Cerrado; muitas plantas do Cerrado são adaptadas ao fogo, exibindo características como casca grossa e suberosa para suportar o calor.[11]

Acredita-se que a vegetação do Cerrado seja ancestral, remontando talvez ao Cretáceo, antes da separação entre a África e a América do Sul, em sua forma prototípica.[41] Uma dinâmica de expansão e contração entre o Cerrado e a floresta amazônica provavelmente ocorreu historicamente, com a expansão do Cerrado durante períodos glaciais como o Pleistoceno.[42] Esses processos e a consequente fragmentação em múltiplos refúgios provavelmente contribuíram para a alta riqueza de espécies tanto do Cerrado quanto da floresta amazônica.[11]

Espécies comuns no Cerrado

Ipê-amarelo, árvore típica do Cerrado

A vegetação do Cerrado apresenta diversas paisagens florísticas diferenciadas, como os brejos, os campos alagados, os campos altos, os remanescentes de mata atlântica. Mas as fitopaisagens predominantes são aquelas dos Cerrados, como o cerrado típico, o cerradão e as veredas. Nestas, há desde palmeiras, como babaçu (Orbignya phalerata), bacuri (Platonia insignis), brejaúba (Toxophoenix aculeatissima), buriti (Mauritia flexuosa), guariroba (Syagrus oleracea), jussara (Euterpe edulis) e macaúba (Acrocomia aculeata)[43] até plantas frutíferas como araticum-do-cerrado (Annona crassiflora), araçá (Psidium cattleianum), araçá-boi (Eugenia stipitata), araçá-da-mata (Myrcia glabra), araçá-roxo (Psidium myrtoides), bacuri (Scheelea phalerata), bacupari (Rheedia gardneriana), baru (Dipteryx alata), café-de-bugre (Cordia ecalyculata), figueira (Ficus guaranítica), lobeira (Solanum lycocarpum), jabuticaba (Myrciaria trunciflora), jatobá (Hymenaea courbaril), marmelinho (Diospyros inconstans), pequi (Caryocar brasiliense), goiaba (Psidium guajava), gravatá (Bromeliaceae), marmeleiro (Croton alagoensis), jenipapo (Genipa americana), ingá (Inga sp), mama-cadela (Brosimum gaudichaudii), mangaba (Hancornia speciosa), cajuzinho-do-cerrado (Anacardium humile), pitanga-do-cerrado (Eugenia calycina), guapeva (Fervillea trilobata), veludo-branco (Gochnatia polymorpha); madeiras, tais quais angico-branco (Anadenanthera colubrina), angico (Anadenanthera spp), aroeira-branca (Lithraea molleoides), aroeira-do-sertão (Myracrodruon urundeuva), cedro-rosa (Cedrela fissilis), monjoleiro (Acacia polyphylla), vinhático (Plathymenia reticulata), bálsamo-do-cerrado (Styrax pohlii), pau-ferro (Libidibia ferrea), ipês (Tabebuia spp.), além de plantas características dos cerrados, como amendoim-do-campo (Pterogyne nitens), araticum-cagão (Annona cacans), aroeira-pimenteira (Schinus terebinthifolius), capitão-do-campo (Terminalia spp.), embaúba (Cecropia spp), guatambu-de-sapo (Chrysophyllum gonocarpum), maria-pobre (Dilodendron bipinnatum), mulungu (Erythrina spp), paineira (Ceiba speciosa), pororoca (Rapanea guianensis), quaresmeira roxa (Tibouchina granulosa), tamboril (Enterolobium spp), pata-de-vaca (Bauhinia longifólia), algodão-do-cerrado (Cocholospermum regium), assa-peixe (Vernonia polyanthes), pau-terra (Qualea grandiflora), pimenta-de-macaco (Xylopia aromatica), gameleira (Ficus rufa), sem falar em uma grande variedade de gramíneas, bromeliáceas, orquidáceas e outras plantas de menor porte.[44]

Fauna

A rã-quatro-olhos (Physalaemus nattereri, parte traseira mostrada) é encontrada no Cerrado aberto, mas não nas matas ciliares adjacentes.[45]

O Cerrado apresenta uma alta diversidade de vertebrados, com 150 espécies de anfíbios, 120 espécies de répteis, 837 espécies de aves e 161 espécies de mamíferos registradas.[46] A diversidade de lagartos é geralmente considerada relativamente baixa no Cerrado em comparação com outras áreas como a caatinga ou a floresta tropical de planície,[47] embora um estudo recente tenha encontrado 57 espécies em uma área de Cerrado, com a alta diversidade sendo impulsionada pela disponibilidade de habitat aberto.[48] O Ameiva ameiva está entre os maiores lagartos encontrados no Cerrado e é o predador de lagartos mais importante da região onde ocorre.[47] Há uma diversidade relativamente alta de serpentes no Cerrado (22–61 espécies, dependendo do local), sendo a família Colubridae a mais rica.[49] A natureza aberta da vegetação do Cerrado provavelmente contribui para a alta diversidade de serpentes.[49] As informações sobre anfíbios do Cerrado são extremamente limitadas, embora o Cerrado provavelmente possua um conjunto único de espécies, algumas endêmicas da região.[45]

A maioria das aves encontradas no Cerrado se reproduz ali, embora haja também algumas aves migratórias austrais (que se reproduzem na América do Sul temperada e passam o inverno na bacia amazônica) e neárticas (que se reproduzem na América do Norte temperada e passam o inverno nos neotrópicos) que passam pela região.[50] A maioria das aves que se reproduzem no Cerrado é encontrada em áreas de dossel mais fechado, como matas ciliares, embora 27% das aves se reproduzam apenas em habitats abertos e 21% em habitats abertos ou fechados.[50] Muitas das aves do Cerrado, especialmente as encontradas em florestas fechadas, são aparentadas a espécies da Mata Atlântica e também da Amazônia.[51] A águia-cinzenta, a arara-azul-grande, o tucano-toco, o curicaca, a codorna-carapé e o pato-mergulhão são exemplos de aves encontradas no Cerrado.

As matas ciliares servem como habitat primário para a maioria dos mamíferos do Cerrado, por possuírem mais água, serem protegidas dos incêndios que devastam a região e apresentarem um habitat mais estruturado.[52] Onze espécies de mamíferos são endêmicas do Cerrado.[52] Entre as espécies notáveis, encontram-se grandes herbívoros como a anta e o veado-campeiro, e grandes predadores como o lobo-guará, a onça-parda, a onça-pintada, a ariranha, a jaguatirica e o jaguarundi. Embora a diversidade seja muito menor do que na Amazônia e na Mata Atlântica adjacentes, várias espécies de macacos estão presentes, incluindo o macaco-prego-amarelo, o bugio-preto e o sagui-de-tufos-pretos.[53]

Os insetos do Cerrado são relativamente pouco estudados.[54] Um levantamento realizado durante um ano em uma reserva no Cerrado brasileiro constatou que as ordens Coleoptera, Hymenoptera, Diptera e Isoptera representavam 89,5% de todas as capturas.[54] O Cerrado também abriga uma alta densidade (até 4000 por hectare) de ninhos de formigas cortadeiras (saúvas), que também são muito diversas.[55] Juntamente com os cupins, as formigas cortadeiras são os principais herbívoros do Cerrado e desempenham um papel importante no consumo e decomposição da matéria orgânica, além de constituírem uma importante fonte de alimento para muitas outras espécies animais.[56] A maior diversidade de insetos galhadores (insetos que constroem galhas) do mundo também é encontrada no Cerrado, com o maior número de espécies (46) na base da Serra do Cipó, em Minas Gerais.[57]

Mastofauna

Onça-pintada, um felino típico
A anta (Tapirus terrestris) é um dos animais do Cerrado

Especificamente no que tange à fauna de mamíferos do cerrado, em que pesem as áreas devastadas para a agropecuária e a mineração, ela é ainda bastante diversificada, com representantes de:

Avifauna

Tucano, ave comum no Cerrado

Em relação à avifauna, são inúmeras as aves do Cerrado, e entre elas destacam-se:[58]

Ictiofauna

Piau, peixe típico dos rios do Cerrado

Sobretudo pelo fato de ser em áreas de Cerrado que nascem rios das mais importantes bacias hidrográficas brasileiras, como as bacias Amazônica, Tocantínea, Platina e São-Franciscana, a ictiofauna é extremamente rica e diversificada. Nos rios do Cerrado, há um número bastante relevante de espécies de mariscos,e uma grande variedade de peixes, desde aqueles que são comuns até em pequenos córregos, como piabas (Astyanax spp.); lambaris (Deuterodon spp., Moenkhausia spp), Cará (Aequidens spp, Mesonauta spp), bagres e mandis (Pimelodus spp.), Mussum (Synbranchus marmoratus), tuvira (Eigenmannia spp), até aqueles que são encontrados quase que apenas em rios e ribeirões, tais como caranha (Piaractus spp., Pygocentrus spp.); pacu (Colossoma spp.; Mylossoma spp.; Chaetobranchopsis spp.), piau (Leporinus spp.), traíra (Hoplias spp.), piranha (Catoprion spp.), curimbatá (Cyphocharax spp.), dourado (Salminus spp.), cascudo (Hypostomus spp.; Pterygoplichthys spp), peixe-cachorro (Roeboides spp.), além de cachorra (Hydrolycus scomberoides), peixe-cadela (Oligosarcus hepsetus), pirapitinga (Brycon microlepis), abotoado (Pterodoras granulosus), timburé (Schizodon borellii), taguara ou sardinha-de-água-doce (Triportheus angulatus), e espécies maiores, de couro, como cachara (Pseudoplatystoma fasciatum), jaú (Paulicea luetkeni), barbado (Pinirampus pinirampus), pintado (Pseudoplatystoma corruscans) e surubi (Sorubimichthys planiceps). Há outras espécies menos significativas numericamente, inclusive a muito rara e quase extinta piracanjuba (Brycon orbignyanus).[60]

Histórico e povoamento

A história ambiental do Cerrado brasileiro no século XVII se deu com a corrida para a região interiorana no Brasil. Contudo, a região remonta ao contexto do pleistoceno,[61] com a corrida do ouro seu lugar da natureza aliado ao papel na vida humana, os valores, relações ambientais com um mundo natural para a sociedade como um todo no que diz respeito as concepções do território sendo a fronteira elemento fundamental.[62]

O primeiro relato europeu detalhado sobre o Cerrado brasileiro foi fornecido pelo botânico dinamarquês Eugenius Warming (1892) no livro Lagoa Santa,[63] no qual ele descreve as principais características da vegetação do Cerrado no estado de Minas Gerais.[64] O botânico Johannes Eugenius Bülow Warming (1841-1924) professor de botânica na Universidade de Copenhague e na Universidade de Estocolmo, além de decano nas duas instituições e diretor do Jardim Botânico de Copenhague. Fez expedições científicas e palestras em eventos, em diversos países incluindo o Brasil. Warming esteve no Brasil, mais precisamente em Lagoa Santa, Minas Gerais, de 1863 a 1866.[65]

Aproveitando o brotamento da vegetação herbácea que se segue a uma queimada no Cerrado, os habitantes indígenas dessas regiões aprenderam a usar o fogo como ferramenta para aumentar o alimento disponível para seus animais domésticos.

Xavantes, tapuias, carajás, avá-canoeiros, craós, xerentes e xacriabás foram alguns dos primeiros povos indígenas a ocupar diferentes regiões do Cerrado. Muitos grupos indígenas eram nômades e exploravam o Cerrado caçando e coletando. Outros praticavam a agricultura de coivara, um tipo itinerante de agricultura de corte e queima. A mistura de comunidades indígenas, quilombolas, extrativistas, geraizeiros (que viviam nas regiões mais secas), ribeirinhos e vazanteiros (que viviam nas planícies aluviais) moldou uma população local diversificada que depende fortemente dos recursos do seu meio ambiente.[66]

Até meados da década de 1960, as atividades agrícolas no Cerrado eram muito limitadas, visto que os solos naturais do Cerrado não são suficientemente férteis para o cultivo de lavouras, sendo direcionadas principalmente para a produção extensiva de gado bovino para subsistência do mercado local.[11] Após esse período, porém, o desenvolvimento urbano e industrial da Região Sudeste forçou a migração da agricultura para a Região Centro-Oeste. A transferência da capital do país para Brasília foi outro fator de atração populacional para a região central: de 1975 até o início da década de 1980, muitos programas governamentais de subsídios foram lançados para promover a agricultura, com o intuito de estimular o desenvolvimento do Cerrado.[67] Como resultado, houve um aumento significativo na produção agrícola e pecuária.

Por outro lado, a pressão urbana e o rápido estabelecimento de atividades agrícolas na região têm reduzido rapidamente a biodiversidade dos ecossistemas, e a população na região do Cerrado mais que dobrou de 1970 a 2010, passando de 35,8 para 76 milhões.[68]

Hidrografia

O bioma Cerrado é estratégico para os recursos hídricos do Brasil e da América do Sul. O bioma contém as nascentes e oito das principais regiões hidrográficas brasileiras:[69]

O bioma contém 78% da área da bacia do Araguaia-Tocantins, 48% do Paraná e 47% da área do São Francisco. Além disso, fornece a maior parte da água que abastece estas bacias: 94% do São Francisco (o que impacta diretamente no semiárido brasileiro), 71% do Araguaia/Tocantins e o mesmo percentual para o Paraná/Paraguai.[69] Durante as últimas quatro décadas, as bacias hidrográficas do Cerrado foram fortemente impactadas pelo desmatamento extremo, pela expansão da fronteira agrícola e pecuária, pela construção de barragens e pela extração de água para irrigação.[70]

Atividade comercial

Agricultura

O solo do Cerrado historicamente representou um desafio para a agricultura até que pesquisadores da Embrapa, a agência brasileira de pesquisa agropecuária, descobriram que ele poderia ser adaptado para o cultivo industrial com a adição adequada de fósforo e calcário. No final da década de 1990, entre 14 e 16 milhões de toneladas de calcário eram aplicadas anualmente nos campos brasileiros. Essa quantidade subiu para 25 milhões de toneladas em 2003 e 2004, o que equivale a cerca de cinco toneladas de calcário por hectare. Esse manejo do solo permitiu que a agricultura industrial crescesse exponencialmente na região. Os pesquisadores também desenvolveram variedades tropicais de soja, até então uma cultura de clima temperado, e atualmente o Brasil é o principal exportador mundial de soja devido ao aumento na produção de ração animal causado pela crescente demanda global por carne.[71][72][73]

Atualmente, a região do Cerrado responde por mais de 70% da produção de carne bovina do país, sendo também um importante polo produtor de grãos, principalmente soja, feijão, milho e arroz.[74] Grandes extensões do Cerrado também são utilizadas para a produção de celulose para a indústria papeleira, com o cultivo de diversas espécies de eucalipto e pinheiros, porém como atividade secundária. O café produzido no Cerrado é hoje um importante produto de exportação.[75]

Nos últimos 25 anos, esse bioma tem sido cada vez mais ameaçado pela monocultura industrial, particularmente da soja, pela expansão desregulamentada da agricultura industrial, pela queima de vegetação para produção de carvão e pela construção de barragens para irrigação, fatores que vêm gerando críticas e sendo identificados como ameaças potenciais a diversos rios brasileiros.[67] Com a remoção das florestas nativas, as secas tornam-se mais persistentes na região, reduzindo a produtividade da agricultura local devido à diminuição da evapotranspiração, o que afeta os ciclos hídricos regionais.[76]

Essa agricultura industrial do Cerrado, com o desmatamento para plantações de eucalipto e soja, cresceu tanto devido a diversas formas de subsídio, incluindo incentivos fiscais muito generosos e empréstimos com juros baixos. Isso resultou no estabelecimento de um sistema agrícola altamente mecanizado e com uso intensivo de capital.[77] Existe também um forte lobby do agronegócio no Brasil e, em particular, a produção de soja no Cerrado é influenciada por grandes corporações como ADM, Cargill e Bunge, sendo estas duas últimas diretamente associadas ao desmatamento em massa desse bioma.[78][79][80] Na fronteira agrícola do Cerrado/MATOPIBA, a Conservation International Brazil atuou como parceira implementadora do projeto PNUD-GEF Taking Deforestation Out of the Soy Supply Chain ("Retirando o Desmatamento da Cadeia de Suprimentos da Soja"), que visa reduzir as pressões de desmatamento associadas à expansão da soja e promover uma produção mais sustentável em escala de paisagem.[81][82]

Produção de carvão vegetal

A produção de carvão vegetal para a indústria siderúrgica brasileira é uma importante atividade geradora de renda no Cerrado.[38] Ela está intimamente ligada à agricultura. Quando terras são desmatadas para uso agrícola, os troncos e raízes das árvores são frequentemente utilizados na produção de carvão vegetal, financiando o desmatamento. Tradicionalmente, a indústria siderúrgica brasileira utiliza troncos e raízes do Cerrado para a produção de carvão vegetal, mas, com as siderúrgicas do estado de Minas Gerais entre as maiores do mundo, o impacto sobre o Cerrado aumentou consideravelmente. Devido aos esforços de conservação e à diminuição da vegetação, o carvão vegetal tem sido cada vez mais extraído de plantações de eucalipto.[38]

Conservação

Destruição de habitats

A expansão da fronteira agrícola é uma das principais ameaças ao cerrado

Originalmente com cobertura de pouco mais de 20% do território brasileiro, o Cerrado sofre diversas ameaças à sua biodiversidade, principalmente por conta da profusão das atividades econômicas do agronegócio a partir da década de 1970 e que se intensificaram nos últimos anos.[83][84][85][86]

Depois da Mata Atlântica, o Cerrado é o ecossistema brasileiro que mais alterações sofreu com a ocupação humana.[83][84] O bioma é considerado um dos 25 ecossistemas do planeta com alto risco de extinção.[87]

Um dos primeiros impactos ambientais graves na região foi causado por garimpos e a atividade mineradora em grande escala, que contaminaram os rios com mercúrio, provocaram o assoreamento dos cursos de água e, em alguns casos, chegou até mesmo a impossibilitar a própria extração do ouro rio abaixo.[84] Contudo, atualmente, a expansão da monocultura intensiva de grãos e da pecuária extensiva de baixa tecnologia representam a principal ameaça à biodiversidade do Cerrado.[83][84][86]

Segundo cálculos realizados em 1998 pelo INPE, restavam apenas 34,22% das áreas nativas remanescentes do Cerrado.[86]

Para alguns estudiosos do bioma, de certo modo fatalistas, a destruição do Cerrado é irreversível.[85][86][88] De acordo com o ritmo atual de sua destruição, algumas previsões apontam a extinção do bioma até o ano de 2030.[86][88] A extinção do Cerrado comprometeria também o abastecimento potável em todo o Brasil, já que o fim do bioma representará a extinção dos grandes mananciais de água que abastecem as grandes bacias hidrográficas do país.[85] Em 2021, o Brasil registrou a pior seca em 91 anos, reduzindo a níveis críticos os reservatórios das hidrelétricas das regiões em que o Cerrado ocorre, que são fontes de 70% da energia hidráulica do país[89].

Apesar do reconhecimento de sua importância biológica e humana, o Cerrado é o que possui a menor porcentagem de áreas sobre proteção integral, tendo apenas 2,85% de seu território como unidades de conservação de proteção integral e 5,36% de unidades de conservação de uso sustentável, incluindo RPPNs (0,07%).[83]

Ao final de 2025, apesar de existirem 706 unidades de conservação no Cerrado, apenas cerca de 8% do bioma está efetivamente protegido, e a maioria dessas unidades possui poucos hectares, enquanto São Paulo, o estado mais importante economicamente do país, conta com pouquíssimas unidades de conservação, configurando um cenário atual de proteção claramente insuficiente[90].

Invasoras

Dentre as principais espécies exóticas invasoras do Cerrado, que competem com plantas nativas, estão algumas gramíneas forrageiras africanas, usadas na pecuária desde os anos 1970,[91] como Melinis minutiflora (capim-gordura), Hyparrhenia rufa (capim-jaraguá), Panicum maximum (capim-colonião) e Brachiaria spp. (braquiárias). Ainda na década de 1970, começou a ser comum também a ocorrência no Cerrado de Pinus elliottii (pinheiro) e Eucalyptus spp. (eucaliptos), usadas em silvicultura. Há também invasões por Pteridium aquilinum (samambaia-brava), uma espécie ruderal de ampla distribuição em todo o mundo.[92]

Peculiaridades das formações abertas

A conservação das formações abertas, sejam campestres ou savânicas, enfrenta uma porção de problemas peculiares, como:

  • a supressão total do fogo e do pastejo de baixas intensidades – as espécies das formações abertas do Cerrado são mantidas, em parte, por distúrbios ambientais muito antigos, como o fogo causado por raios ou o pastejo pela megafauna herbívora sul-americana, hoje extinta em grande parte. Logo, essas fitofisionomias ocorrem desde antes da presença humana e do desflorestamento antrópico. Assim, na conservação destes ambientes, são importantes o manejo controlado do fogo, evitando-se a supressão total de incêndios. Por outro lado, a pecuária em pastos de plantas herbáceas nativas também pode ser um fator benéfico, desde que feita em baixa densidade;[93][91]
  • o florestamento, fruto de uma compreensão errônea de que essas vegetações abertas são sempre um produto da degradação antrópica da floresta;[91]
  • a carência de estudos sobre técnicas de restauro do estrato herbáceo do Cerrado – a maioria dos trabalhos cobre apenas as plantas lenhosas;[94]
  • a dificuldade de as plantas herbáceas nativas sobrepujarem a competição com as herbáceas exóticas em pastos – enquanto isso, as plantas lenhosas nativas se estabelecem mais facilmente sobre pastos de herbáceas exóticas, devido ao sombreamento que proporcionam a tais plantas, cuja fisiologia do tipo C4 exige alta luminosidade;[95][91]
  • a dificuldade de mapeamento por satélite das vegetações campestres[96] – de certa forma, mesmo in loco, pode ser difícil para um leigo diferenciar um campo de herbáceas nativas e um pasto de exóticas;
  • a falta de previsão legal para a conservação de fisionomias não florestais e o restauro com espécies herbáceas;[91]

Manejo do fogo

No período de estiagem, o cerrado sofre com as queimadas

Embora quase sempre apresentado como danoso aos ambientes naturais, o fogo é, no entanto, indispensável para a preservação das formações abertas (campestres e savânicas) do Cerrado.[97][98] As espécies e vegetações do Cerrado não são exatamente adaptadas ao fogo, mas sim a diferentes regimes de fogo. Frequências maiores do fogo tendem a promover a ocorrência de vegetações campestres (campos limpos) ou savânicas (como o cerrado sensu stricto), com suas plantas herbáceas e lenhosas de baixo porte, ao invés das vegetações florestais (cerradão), com suas plantas lenhosas de alto porte.[99]

Logo, alterações no regime natural de fogo (sejam pela sua indução em frequência e intensidade muito altas, ou pela sua supressão completa), podem ter efeitos negativos para a biodiversidade no Cerrado.[99][100][101] No caso da gestão de áreas naturais adaptadas ao fogo, alguns autores defendem a promoção de uma "pirodiversidade", isto é, o manejo de áreas em mosaico com diferentes regimes de fogo controlado (mas não muito frequentes, nem ausentes), de modo a favorecer a ocorrência e a preservação de espécies e vegetações adaptadas a diferentes regimes.[102] Além disso, a queima controlada e regular elimina o acúmulo de material inflamável, e assim, evita incêndios catastróficos, muito intensos.[103]

Florestamento

Recentemente, o uso da técnica de florestamento – o desenvolvimento de florestas em áreas que não eram originalmente florestadas – como estratégia de sequestro de carbono e de conservação de biomas florestais tem sido criticado por representar uma ameaça à conservação de biomas não florestais, como os campos e savanas do Cerrado. Uma alternativa mais adequada seria o reflorestamento de áreas desmatadas, onde originalmente havia presença de florestas.[104][105]

Tendências e desafios ecológicos

O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul e a savana com maior biodiversidade do mundo. Abrange o Aquífero Guarani e abriga os maiores reservatórios subterrâneos de água doce do continente. O Cerrado também desempenha um papel hidrológico crucial, fornecendo água para um terço do rio Amazonas e sustentando diversas das principais bacias hidrográficas da América do Sul.[80][106]

Apesar de sua importância ecológica, as políticas agrícolas e o planejamento de uso da terra no Brasil historicamente consideraram o Cerrado como de baixo valor de conservação. Como resultado, apenas 1,5% do bioma está protegido por reservas federais.[8] Em 1994, aproximadamente 695.000 km² (69.500.000 ha), representando 35% de sua área total, já haviam sido convertidos em paisagens antropogênicas.[67][64] No total, 37,3% do Cerrado foi completamente convertido para uso humano, enquanto outros 41,4% são utilizados para pastagens extensivas e produção de carvão vegetal.

As florestas de galeria do bioma estão entre os ecossistemas mais degradados. Segundo estimativas recentes, apenas 432.814 km² (43.281,400 ha) — ou 21,3% da vegetação original — permanecem intactos.[107] A perda de vegetação continua em ritmo alarmante, com projeções sugerindo que outros 31 a 34% do bioma remanescente poderão ser desmatados até 2050, caso as tendências atuais persistam.[108] Essa mudança é impulsionada principalmente pela expansão da produção de soja.[76] Quando as florestas nativas são removidas, as secas se tornam mais persistentes na região, reduzindo a produtividade da agricultura local devido à diminuição da evapotranspiração, o que afeta os ciclos hídricos regionais.[76]

Estudos realizados entre 2019 e 2023 mostraram que aproximadamente 19% do Cerrado, cerca de 17 milhões de hectares, apresenta significativa expansão de plantas lenhosas. Essa densificação, marcada por um aumento de 40% na cobertura arbórea, levou a uma redução de cerca de 30% na diversidade vegetal.[109][110]

Um dos principais desafios para o estabelecimento de reservas naturais eficazes no Cerrado reside na sua heterogeneidade florística e no complexo mosaico de tipos de vegetação, o que dificulta a seleção de áreas representativas para a conservação.[67] Para enfrentar esse desafio, esforços colaborativos têm sido realizados envolvendo a Universidade de Brasília, o Centro de Pesquisas do Cerrado (CPAC) da Embrapa e o Jardim Botânico Real de Edimburgo, com o apoio de financiamento brasileiro, europeu e britânico. Essas parcerias se expandiram para uma importante iniciativa anglo-brasileira intitulada Conservation and Management of the Biodiversity of the Cerrado Biome ("Conservação e Manejo da Biodiversidade do Bioma Cerrado"), financiada pela Administração de Desenvolvimento Ultramarino do Reino Unido. O objetivo principal do projeto é mapear padrões florísticos, identificar hotspots de biodiversidade e recomendar áreas prioritárias para conservação.[11]

Áreas protegidas

Um Parque Estadual no Cerrado – Área Protegida.

De acordo com o Cadastro Nacional de Unidades de Conservação do Brasil, existiam, em novembro de 2024, 560 áreas protegidas no bioma Cerrado.[111] No Brasil, as áreas protegidas são conhecidas como unidades de conservação, e as do Cerrado representam 19% de todas as unidades do país. Embora uma avaliação em março de 2026 tenha constatado que existiam 645 unidades de conservação no bioma, totalizando 186.416 km² (18641,6 ha), isto representava apenas cerca de 9,81% da área total do Cerrado protegida.[111] Apesar de sua importância ecológica, o Cerrado não é reconhecido pela Constituição brasileira como Patrimônio Nacional.[11]

A primeira área protegida no Cerrado brasileiro foi a Floresta Nacional de Paraopeba, criada em 1952.[112] Até o início da década de 1990, o desenvolvimento da rede foi lento, com apenas algumas áreas protegidas sendo criadas a cada ano. No final da década de 1990 e início dos anos 2000, houve um aumento significativo na criação de novas áreas protegidas, o que coincidiu com a promulgação da Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000.[113] Essa lei estabeleceu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) e define os conceitos para a criação e o manejo de unidades de conservação no Brasil, marcando o início de sua regulamentação legal. Entre 1997 e 2006, foram estabelecidas 179 unidades de conservação no Cerrado, representando quase um terço de toda a rede atual.[111] Desde esse período de expansão, o ritmo de criação de novas unidades de conservação a cada ano diminuiu, mas varia consideravelmente de ano para ano.

Tipos de áreas protegidas

As áreas protegidas no Brasil são supervisionadas pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza,[114] um órgão do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Existem dois grupos de unidades de conservação no Brasil: a Proteção Integral (PI) e a Proteção Sustentável (PS). As unidades de Proteção Integral existem para proteger a natureza, e o uso de seus recursos se limita ao lazer e ao turismo.[115] As unidades de Proteção Sustentável visam conciliar a conservação da natureza com o uso sustentável de seus recursos naturais. Das 560 unidades de conservação no Cerrado, 176 são unidades de proteção integral e 384 são unidades de proteção sustentável.[111] Dentro de cada tipo de unidade de conservação, existem diversas categorias, cada uma associada a uma categoria do sistema de classificação de áreas protegidas da IUCN.

Todas as categorias de unidades de conservação podem existir nos níveis federal, estadual ou municipal. As unidades de conservação federais são gerenciadas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).[116] Em março de 2026, havia no bioma Cerrado 243 unidades de conservação sob administração federal totalizando uma área de 6.366,36 ha (63.663,59 km2).[111] No mesmo período, a nível estadual, havia 253 áreas protegidas, totalizando uma área de 10.563,72 ha (105.637,19 km2).[111] A nível municipal, eram 149 unidades em março de 2026, com uma área de 2.543,02 ha (25.430,28 km2), sob administração das secretarias municipais de meio ambiente.[111]

Unidades de Proteção Integral no Cerrado (dados de 2024)
Tipo Categoria IUCN [117] Finalidade e características [115] Nº de unidades Área Exemplos [111]
Estação ecológica Ia Dedicado à pesquisa científica e à preservação rigorosa da natureza; a visitação pública é limitada a fins educativos. 24 916,4 mil ha Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins
Reserva biológica Ia Visa preservar a biodiversidade; intervenções permitidas apenas para restauração; visitação limitada a fins educativos. 6 8.196 ha Reserva Biológica Culuene
Parque nacional (incluindo parques municipais e estaduais) II Protege ecossistemas ecologicamente significativos; permite atividades recreativas, educacionais e de pesquisa científica. 116 4,37 milhões de ha Parque Nacional do Araguaia
Monumento natural III Preserva características naturais únicas, raras ou de grande beleza cênica; a visitação é permitida se estiver alinhada com os objetivos de conservação. 18 46 mil ha Monumento Natural da Gruta do Lago Azul
Refúgio de vida silvestre III Protege os habitats para a reprodução e sobrevivência da flora e fauna locais; a visitação é permitida para determinados usos. 12 261 mil ha Refúgio Estadual de Vida Silvestre Mata dos Muriquis
Áreas Protegidas de Uso Sustentável no Cerrado (em 2024)
Tipo Categoria IUCN [117] Finalidade e características [115] Nº de unidades Área Exemplos [111]
Área de proteção ambiental (APA) V Grandes áreas com valor natural, estético e cultural; visam conservar a biodiversidade, orientar a ocupação humana e promover o uso sustentável. 114 11,9 milhões de ha Área de Proteção Ambiental Carste de Lagoa Santa
Área de relevante interesse ecológico (ARIE) IV Pequenas áreas com ecossistemas regionais/locais únicos; ocupação humana limitada; podem ser públicas ou privadas. 22 11,4 mil ha Área de Relevante Interesse Ecológico Cerrado Pé de Gigante
Floresta nacional (federal/estadual/municipal) VI Florestas nativas para uso sustentável de recursos e pesquisa científica; populações tradicionais podem permanecer. 11 51,6 mil ha Floresta Nacional de Cristópolis
Reserva extrativista VI De propriedade pública; apoia populações tradicionais através do extrativismo, da agricultura familiar e da pecuária; permite pesquisa e visitação. 7 100 mil ha Reserva Extrativista do Extremo Norte do Tocantins
Reserva de desenvolvimento sustentável VI Habitada por populações tradicionais que utilizam sistemas sustentáveis; apoia a preservação cultural, a pesquisa e a visitação. 2 97,3 mil ha Reserva de Desenvolvimento Sustentável Nascentes Geraizeiras

Sítios do Patrimônio Mundial da UNESCO

Parque Nacional Chapada dos Veadeiros.

Duas unidades de conservação no bioma Cerrado foram designadas conjuntamente como Patrimônio Mundial da UNESCO: os Parques Nacionais da Chapada dos Veadeiros e das Emas. Juntas, são conhecidas pela UNESCO como Áreas Protegidas do Cerrado,[118] totalizando 38,14 mil hectares.[119] Essas unidades de conservação foram inscritas pela UNESCO em 2001 por dois motivos principais. Primeiramente, as unidades estão localizadas em áreas centrais e apresentam altitudes variadas, o que as torna importantes refúgios para as espécies. Em segundo lugar, as unidades representam de forma excelente a biodiversidade do bioma Cerrado, abrigando mais de 60% de todas as espécies vegetais e quase 80% de todas as espécies de vertebrados existentes na região. Muitas espécies ameaçadas de extinção ocorrem nessas unidades, tornando-as alvos importantes para a conservação.[119]

Tanto a Chapada dos Veadeiros quanto o Parque Nacional das Emas são parques nacionais administrados pelo governo federal. Como parques nacionais, estão registrados como unidades de proteção integral e contam com regulamentações rigorosas que impedem a exploração direta de seus recursos. O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros foi criado em 1961 e abrange 240 mil hectares de terra. Sua área se sobrepõe à Área de Proteção Ambiental de Pouso Alto, uma unidade de conservação sustentável criada em 2001.[111][119] O Parque Nacional das Emas foi criado em 1961 e abrange 132 mil hectares.[111] Sua gestão concentra-se na prevenção dos impactos negativos da área agrícola que o circunda quase completamente.[119]

Eficácia das áreas protegidas

Há preocupações quanto à eficácia das áreas protegidas no Cerrado, dada a pequena proporção de terra que abrangem e seus diferentes graus de rigor. A sobreposição de unidades de conservação é uma área de particular interesse, dada a redundância da mesma área sendo protegida e a possibilidade de conflitos de gestão. Em 2020, quase 40% de todas as unidades de conservação no Cerrado apresentavam alguma sobreposição com outras unidades.[120] Um total de 64 unidades de conservação estavam completamente inseridas em outras unidades.[120] A maioria delas eram áreas de interesse ecológico dentro de áreas de proteção ambiental, que são ambas unidades de proteção sustentável.

Ao serem criadas, cada unidade de conservação no Brasil deve ter um plano de manejo que descreva as práticas de conservação a serem adotadas em seu interior, bem como um conselho gestor para orientar sua conservação.[121] O plano de manejo estabelece uma série de diretrizes e regras necessárias para a gestão da unidade de conservação. Isso inclui o zoneamento da área, no qual a unidade de conservação é dividida em diferentes seções categorizadas pelos graus de proteção exigidos.[121] O conselho de gestão é responsável por monitorar a implementação do plano de gestão e atua como elo entre as populações locais e as partes interessadas com prioridades econômicas ou ambientais. Em 2024, quase 40% de todas as unidades de conservação registradas no Cerrado não possuíam um plano de manejo e cerca de 60% não tinham um conselho gestor.[111]

Alguns estudos avaliaram a eficácia das áreas protegidas no Cerrado em função de seu rigor. Unidades de proteção sustentável, que são menos rigorosas por não terem a conservação da biodiversidade como objetivo principal, mostraram-se ineficazes contra o desmatamento.[122] Em 2015, 85% de todas as áreas protegidas no Cerrado, excluindo reservas privadas de patrimônio natural, eram áreas protegidas ambientais, que são unidades de proteção sustentável.[122] As unidades de proteção integral no Cerrado são as mais eficientes na proteção da biodiversidade em termos de redução do desmatamento e manutenção da riqueza de espécies.[122][123]

As unidades de conservação devem ser representativas do bioma que protegem. Em 2015, apenas dois terços das áreas protegidas correspondiam à vegetação nativa remanescente no Cerrado, sendo o restante representado por áreas desmatadas dentro de diferentes unidades de conservação.[122] Apesar disso, constatou-se que as áreas protegidas são eficazes na representação tanto dos serviços ecossistêmicos quanto da biodiversidade do Cerrado.[124]

Ao final de 2025, apesar da existência de 706 áreas protegidas no Cerrado, apenas cerca de 8% do bioma estaria efetivamente protegido, e a maioria dessas áreas abrangeria apenas alguns hectares. Enquanto isso, São Paulo, o estado economicamente mais importante do país, possui pouquíssimas áreas protegidas, resultando em um cenário de proteção atual claramente insuficiente.[125]

Terras privadas

As terras privadas são essenciais para os esforços de conservação, visto que a maior parte da vegetação nativa remanescente no Cerrado encontra-se em propriedades e fazendas privadas. Em 2019, as terras privadas detinham 57,9% da vegetação nativa remanescente no Cerrado.[126] O Código Florestal brasileiro exige que os proprietários de terras conservem 20% da vegetação nativa como Reservas Legais em suas propriedades em todos os biomas, exceto na Amazônia, onde o percentual é de 80%.[127] As Reservas Legais no Cerrado são essenciais para a proteção da biodiversidade, pois cerca de 13% da área de distribuição de espécies ameaçadas se encontra dentro delas. As alterações introduzidas no Código Florestal em 2012 permitem legalmente o desmatamento de quase 40 milhões de hectares adicionais de vegetação nativa, além da permissão original.[127] Em 2017, isso representava 40% da vegetação nativa remanescente no bioma que podia ser legalmente desmatada.[108]

O cumprimento do Código Florestal pelos proprietários de terras é um problema no Cerrado, pois alguns consideram a legislação um obstáculo ao desenvolvimento agrícola.[127][128] Existem medidas em vigor para aumentar o cumprimento, como o Sistema de Cadastro Ambiental Rural (CAR), um sistema de documentação de informações ambientais de milhões de propriedades rurais que facilita seu monitoramento e gestão.[127] O governo brasileiro também oferece incentivos financeiros por meio do programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC) para promover a agricultura sustentável e a restauração florestal.[127]

Terras indígenas

As terras indígenas (TI) continuam sendo um setor importante para a conservação da biodiversidade no Cerrado. O governo brasileiro reconheceu 4,8% da área do Cerrado como TI.[124] Em 2019, 6,72% da vegetação nativa remanescente ocorria em TI, em comparação com os 2,27% preservados em unidades de conservação.[126] As terras indígenas também representam efetivamente os serviços ecossistêmicos e a biodiversidade característicos do bioma Cerrado e são eficientes na redução da conversão de habitats e do desmatamento.[124][129]

Ver também

Notas e referências

Notas

  1. A respeito da aplicação do termo "bioma" à área fito- e biogeográfica do Cerrado, na literatura científica brasileira, em detrimento do uso internacional do termo, confira Bioma#História do conceito.

Referências

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    O texto acima é o original. Existem outras traduções posteriores em francês e português, que não estão listadas aqui.
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