Anna Autran

Anna Teófila Filgueiras Autran (Salvador, 28 de dezembro de 1856 – Rio de Janeiro, 10 de agosto de 1933) foi uma escritora, poetisa, jornalista e ativista pelos direitos das mulheres no século XIX, sendo uma das representantes mais notáveis da imprensa feminina na Bahia.[1][2]

Vida

Anna Autran nasceu em Salvador, na região de Itapagipe, em 28 de dezembro de 1856. Era filha do médico Henrique Autran da Mata Albuquerque e de Eduarda de Amorim Filgueiras.[1][3]

A mãe faleceu quando Anna tinha menos de dois anos. Era irmã de Francisca Filgueiras Autran, Eduarda Filgueiras Autran, Maria Autran Figueiredo, Gertrudes Autran de Oliveira Santos e dos médicos Pedro Autran e Henrique Autran.[4]

Na vida adulta, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde viveu até seu falecimento, aos 77 anos.[1]

Educação

Sua educação é atribuída à irmã mais velha, a alguma professora particular ou ao próprio pai, a quem dedicou Devaneios, seu primeiro livro. O pai foi seu principal incentivador, e o prestígio familiar contribuiu para sua inserção no meio literário e jornalístico.[5] O pai foi o seu principal incentivador, auxiliando-a a consolidar-se no cenário público, além dos privilégios do próprio sobrenome e condição social da família.[1]

Aos quatro, era capaz de memorizar versos, orações e pequenos discursos, além de argumentar a aritmética. Aos cinco, aprendeu a ler. Concluiu os primeiros estudos aos nove anos e, em 1866, aos dez, escreveu seus primeiros versos.[1]

O ambiente familiar privilegiado e o acesso precoce à educação favoreceram sua inserção na literatura e moldaram sua concepção de liberdade feminina.[6][2] Leitora assídua, manifestava em artigos publicados no Diário da Bahia admiração por autores como Fénelon, Bernardin de Saint-Pierre, Jean Racine, La Fontaine, Voltaire e Calvino, além de escritoras como Germaine de Staël, George Sand e a marquesa de Sévigné.[2]

Carreira

Anna publicou seus primeiros textos aos doze anos. Em 16 de maio de 1869, o poema "As duas donzelas" foi impresso em O Americano, jornal liberal do interior baiano.[1]

Aos quinze anos, em 15 de julho de 1871, publicou no Diário da Bahia o artigo "A mulher e a Literatura", no qual defendeu a participação feminina na vida intelectual. O texto provocou uma polêmica com o jornalista Belarmino Barreto, que se estendeu até novembro daquele ano. Apesar das críticas, Anna continuou colaborando com jornais e revistas da capital e de outras províncias.[1]

Em 1872, como 16 anos de idade, teve seu poema "Teus olhos" publicado em Lisboa no Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiras. Também colaborou com revistas cariocas e, em 1875, com O Myosotis, de Recife.[1]

A polêmica de "A Mulher e a Literatura"

O artigo inaugurou um ciclo de debates que se estendeu por cerca de três meses nas páginas do Diário da Bahia. A discussão, travada entre a jovem Anna Autran e o renomado intelectual Belarmino Barreto — jornalista, dramaturgo e notório opositor do feminismo —, reflete o cenário sociocultural do século XIX, evidenciando como as percepções de gênero, a partir de pontos de vista distintos, se entrelaçavam às concepções sobre o papel da mulher na sociedade.[7]

Barreto não admitia a inserção de mulheres no ambiente literário,[6] e os textos de ambos registram traços expressivos da mentalidade oitocentista — a mulher vista como dama, esposa e, eventualmente, literata, mas confinada a um espaço social rigidamente masculino.[7]

Apesar da pouca idade, Anna demonstrava sensibilidade à condição feminina e um sólido conhecimento de temas como história, cristianismo e filosofia ocidental — reflexo da educação rigorosa e privilegiada que recebeu.[2]

Nesse debate, Autran defendia o livre acesso das mulheres à leitura e à produção literária. Via a mulher como leitora, escritora e sujeito social, em um contexto em que a instrução feminina ainda enfrentava resistência. As críticas de Barreto, impregnadas de conservadorismo, reforçavam o preconceito e o repúdio à presença da mulher no campo cultural, um ambiente amplamente dominado por homens.[7]

Com uma visão de mundo crítica e transgressora,[8] Anna contestou o discurso hegemônico, argumentando contra a crença de que a mulher seria, em suas palavras, um “espírito inferior” ou dotada de uma “inteligência medíocre”. Defendia que o exercício das letras e da literatura não diminuía a feminilidade, mas, ao contrário, a enriquecia.[7]

Assim, o confronto entre Anna Autran e Belarmino Barreto representou mais do que um simples embate de ideias: constituiu um marco simbólico entre o pensamento feminino emergente e o conservadorismo masculino do século XIX.[6]

Atuação no campo jornalístico

Em um momento de efervescência intelectual feminina, Anna Autran, como muitas autoras de sua época, lançou-se à publicação em revistas, assumindo o papel de polígrafa, escrevendo poemas, prosa de ficção e artigos jornalísticos.[1]

Colaborou com diversos periódicos locais e de outros estados. Iniciou sua trajetória publicando poemas em jornais de Salvador, ainda na juventude, e posteriormente consolidou-se como colaboradora do Diário da Bahia e de O Monitor, que publicou, em 1879, o texto Rorick ou Os Desterrados da Sibéria.[1]

Ampliou sua presença na imprensa após mudar-se para o Rio de Janeiro, participando de jornais e revistas literárias da capital. Nesses espaços, destacou-se por seus poemas de temática ambiental e romântica, cujas imagens se aproximam do Romantismo.[1]

Engajamento político

Desde jovem, demonstrou interesse e participação ativa em movimentos políticos, reunindo-se com grupos de homens engajados em causas republicanas e abolicionistas. Nesse período, chegou a assinar versos que denunciavam a “mancha brasileira”, em referência à escravidão.[1]

Fachada do atualmente demolido Teatro São João, em Salvador, local onde Anna Autran participou do Festival Abolicionista como oradora oficial do Club Castro Alves.

Antes mesmo da promulgação da Lei Áurea, foi responsável por garantir a alforria de pessoas escravizadas pertencentes à sua família.[2] No mesmo ano, em 10 de maio de 1888, participou como oradora oficial do Festival Abolicionista do Club Castro Alves, realizado no Teatro São João. Seu discurso, descrito pelo Diário da Bahia como “eloquente e caloroso”, teve ampla repercussão na imprensa local.[1]

Sua principal causa, no entanto, foi a defesa de uma sociedade orientada por princípios republicanos, pela igualdade de gênero e pela harmonia social. Essas ideias acompanharam-na ao longo da vida. Já idosa, em conversas com o biógrafo Afonso Costa, reafirmava seu interesse pelo direito ao voto e pela participação das mulheres na política brasileira.[1]

Durante seu ativismo, escreveu textos sobre a submissão imposta pelo homem à mulher, defendendo que a mulher deveria atuar com liberdade e guiar-se unicamente pelo próprio raciocínio. Tais ideias provocaram reações intensas na sociedade burguesa da época, críticas na imprensa local e retaliações da Igreja Católica, que a acusava de apostasia.[1]

Mesmo contando com o apoio familiar, sobretudo do pai, foi alvo de violências simbólicas motivadas pelo fanatismo religioso e pelo conservadorismo do seu tempo. Seu posicionamento firme e a visibilidade pública de seus escritos colocaram-na em embate direto com expoentes das letras masculinas, Belarmino Barreto, em um ambiente intelectual hostil às vozes femininas.[2]

Em resposta, Anna Autran rebateu as acusações em uma série de artigos no Diário de Notícias. Pouco tempo depois, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde manteve suas atividades literárias e jornalísticas até o falecimento, em 1933, aos 77 anos.[1]

Obras literárias

Em 1877, reuniu parte de seus poemas — alguns já publicados em jornais e revistas — para compor o seu primeiro e único livro, Devaneios. Acredita-se que contou com forte apoio dos homens de sua família, dedicando a obra ao pai em tom confessional, que ultrapassa o mero agradecimento formal. Essa relação é reforçada pela inclusão de duas cartas anexas à dedicatória, assinadas por Filgueiras Sobrinho, seu primo, e Domingos Joaquim da Fonseca.[1]

A obra obteve repercussão moderada, demonstrando que Anna Autran já era um nome reconhecido na sociedade local.[1]

Em 4 de outubro de 1877, um admirador anônimo elogiou-a publicamente no Diário da Bahia, embora seus comentários estivessem marcados por preconceitos e jargões masculinos que comumente cercavam a autoria feminina. Esse mesmo admirador descreveu Devaneios como uma produção lírico-sentimental leve e amena, em sua opinião própria dos “espíritos femininos” — uma percepção recorrente na crítica literária dirigida às poetisas do século XIX.[2]

Autran também escreveu versos de dicção patriótica e, em algumas publicações, utilizou os pseudônimos Alice e Veritas.[1]

Livro

  • Devaneios (1877).

Poemas avulsos

  • "As duas donzelas" (O Americano, 1869);
  • "Teus Olhos" (Novo Almanaque de Lembranças Luso-brasileiro,1873);
  • "Mais uma lágrima" (Diário de Notícias, 29 de julho de 1890);
  • "15 de novembro" (Diário de Notícias, 15 de novembro de 1890).

Prosas

  • "Suspiros húngaros" (Diário da Bahia, 20 de julho de 1878);
  • "Os desterrados da Sibéria" (Monitor, outubro/novembro 1879).

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s Alves, Ivia. «Ana Autran». In: Muzart, Zahidé. Escritoras Brasileiras do Século XIX. FLORIANÓPOLIS: Editora Mulheres. pp. 186–189. ISBN 85-86501-09-3 
  2. a b c d e f g LEITE, Márcia Maria da Silva Barreiros. Histórias de escrita e leitura de mulheres (séculos XIX e XX). In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 23., 2005, Londrina. Anais do XXIII Simpósio Nacional de História – História: guerra e paz. Londrina: ANPUH, 2005. CD-ROM.
  3. «Diccionario bibliographico brazileiro». 1883. Consultado em 4 de setembro de 2025 
  4. «Ana Teófila Filgueiras Autran - por Elen Biguelini - Claudemir Pereira». 28 de maio de 2023. Consultado em 7 de outubro de 2025 
  5. Jinzenji, Mônica Yumi (junho de 2012). «Leitura e escrita femininas no século XIX». Cadernos Pagu (38): 367–394. ISSN 0104-8333. doi:10.1590/S0104-83332012000100013. Consultado em 4 de setembro de 2025 
  6. a b c Conceição, Andreza da Silva (2013). «De madame a literata: um diálogo entre [a] educação feminina e a mulher e a litteratura no século XIX». Consultado em 3 de setembro de 2025 
  7. a b c d CONCEIÇÃO, A. S. . A FILOLOGIA E O RESGATE DE TEXTOS: A MULHER E A LITTERATURA. 2008. (Apresentação de Trabalho/Seminário).
  8. Leite, Márcia Maria Da Silva Barreiros (9 de novembro de 2005). Entre a Tinta E O Papel: Memórias De Leituras E Escritas Femininas Na Bahia(1870-1920). [S.l.]: Quarteto Editora 

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