Animal racional

O termo animal racional (em latim: animal rationale ou animal rationabile) refere-se a uma definição clássica de humanidade ou natureza humana, associada ao aristotelismo.[1]

História

Embora o próprio termo latino tenha origem na escolástica, ele reflete a visão aristotélica do homem como uma criatura que se distingue por um princípio racional. Na Ética a Nicómaco I.7, Aristóteles afirma que o ser humano possui um princípio racional (em grego clássico: λόγον ἔχον), além da vida nutritiva compartilhada com as plantas e da vida instintiva compartilhada com outros animais, ou seja, a capacidade de realizar projetos racionalmente formulados.[2] Essa capacidade de imaginação deliberativa foi igualmente destacada como a característica definidora do homem em De anima III.11.[3] Embora vista por Aristóteles como uma característica humana universal, a definição se aplicava tanto a sábios quanto a tolos, e não implicava necessariamente a tomada de decisões racionais, em oposição à capacidade de tomá-las.[4]

O filósofo neoplatônico Porfírio definiu o homem como um "animal racional mortal" e também considerou que os animais possuíam uma racionalidade (menor) própria.[5]

A definição do homem como um animal racional era comum na filosofia escolástica.[6] A Enciclopédia Católica afirma que esta definição significa que "no sistema de classificação e definição mostrado na Arbor Porphyriana, o homem é uma substância, corpórea, viva, senciente e racional".[6]

Na Meditação II das Meditações sobre a Primeira Filosofia, Descartes considera e rejeita o conceito escolástico de "animal racional":

Devo dizer "um animal racional"? Não; pois então eu teria que indagar o que é um animal, o que é racionalidade, e esta única questão me levaria a outras mais difíceis.[7]

Uso moderno

Freud estava tão ciente quanto qualquer um das forças irracionais em ação na humanidade, mas, no entanto, resistiu ao que chamou de muita "ênfase na fraqueza do ego em relação ao id e de nossos elementos racionais diante das forças demoníacas dentro de nós".[8]

O filósofo neokantiano Ernst Cassirer, em sua obra Ensaio sobre o Homem (1944), alterou a definição de Aristóteles para rotular o homem como um animal simbólico. Essa definição tem sido influente no campo da antropologia filosófica, onde foi retomada por Gilbert Durand, e encontrou eco na descrição naturalista do homem como comunicador compulsivo.[9]

Os sociólogos da tradição de Max Weber distinguem o comportamento racional (orientado para os meios e fins) do comportamento irracional, emocional ou confuso, bem como do comportamento tradicional, mas reconhecem o amplo papel de todos estes últimos tipos na vida humana.[10]

A etnometodologia vê o comportamento humano racional como representando talvez um décimo da condição humana, dependente dos nove décimos de pressupostos subjacentes que fornecem a estrutura para a tomada de decisão meio-fim.[11]

No seu ensaio Um esboço do lixo intelectual, Bertrand Russell argumenta contra a ideia de que o homem é racional, dizendo: "O homem é um animal racional — pelo menos foi o que me ensinaram. No decurso de uma vida longa, procurei diligentemente indícios que apoiassem esta afirmação, mas até agora não tive a sorte de os encontrar, embora tenha percorrido vários países em três continentes."[12]

Ver também

Referências

  1. «Animal Cognition». The Stanford Encyclopedia of Philosophy (em inglês). [S.l.]: Metaphysics Research Lab, Stanford University. 2021 
  2. Aristotle, Nicomachean Ethics, The Complete Works of Aristotle (em inglês), ed. Jonathan Barnes, Princeton University Press, 1984, 1098a1–15.
  3. B. P. Stigum (2003), Econometrics and the Philosophy of Economics (em inglês), p. 194.
  4. Stigum, p. 198.
  5. L. Johnson (2012), Power Knowledge Animals (em inglês), p. 80.
  6. a b O conteúdo deste artigo incorpora material da Enciclopédia Católica de 1913, que se encontra no domínio público.
  7. The Philosophical Writings of Descartes Volume II (em inglês). Translated by John Cottingham, Robert Stoothoff, Dugald Murdoch. Cambridge University Press. 1984.
  8. S. Freud, On Psychopathology (PFL 10) (em inglês), p. 247.
  9. D. Attenborough (1992), Life on Earth (em inglês), ch. 13.
  10. Alfred Schutz (1997), The Phenomenology of the Social World (em inglês), p. 240.
  11. A. Giddens (1974), Positivism and Sociology (em inglês), p. 72.
  12. Russell, Bertrand (1943). «Um esboço do lixo intelectual». Crítica: Revista de filosofia. Tradução de Vítor Guerreiro. Consultado em 30 de maio de 2026 

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